A volta da reclamação anti-BBB

Começou o ano, e de novo toda aquela reclamação quanto ao BBB no Facebook (em número muito maior do que os comentários sobre ele, como era de se esperar). Ainda não vi ninguém compartilhar aquela imagem dizendo que a cada vez que alguém assiste ao programa um livro comete suicídio, mas não esqueço do comentário feito por meu amigo Paulo Alcaraz no ano passado: “fiquei com vontade de assistir, para ver se o Cinquenta Tons de Cinza se matava”. A frase continua perfeita, basta trocar o best-seller do ano passado pelo atual…

O que o comentário do Paulo quer dizer é: assim como existem programas ruins (e considero o BBB um deles), também há livros ruins. Em geral, trocar a televisão pela leitura é bom, pois não recebemos “tudo pronto” e com isso usamos mais a imaginação (tanto que jamais duas pessoas imaginarão de forma igual a mesma cena narrada em um livro); mas não é garantia de um entretenimento de qualidade.

Porém, o que chama a atenção, da mesma forma que no ano passado, é ver gente defendendo que devemos ler ao invés de assistir ao BBB, mas que não está lendo nada no momento. O motivo é óbvio: gasta tempo com suas reclamações no Facebook ao invés de abrir um livro – o que poderia render comentários bem mais interessantes.

Ninguém é (ou não deveria ser) obrigado a gostar de qualquer coisa. Se você acha que tem muita bobagem no seu Facebook, faça uma “faxina” nos seus contatos. E não me refiro apenas ao BBB no conceito de “bobagem”, pois ele varia de pessoa para pessoa: há quem não goste de propaganda eleitoral, religião, futebol etc.

Aliás, se tem coisa para a qual ultimamente ando sem saco é debate “grenalizado” sobre futebol, tanto que quando ele toma tal rumo prefiro nem participar mais. É muito pior do que comentários sobre o BBB. Muito pior mesmo.

Desligue o anti-BBB e abra um livro

Pedro Bial deveria ser lembrado não como o apresentador do Big Brother, e sim como o jornalista da Globo que estava em Moscou no histórico 25 de dezembro de 1991, dia em que a União Soviética deixou de existir.

Sim, sou desses que detestam BBB. Quando chega essa época do ano, lembro de várias vezes em que fiquei sem assunto em rodas de amigos, por não assisti-lo. Tanto que já falei mal dele aos montes.

Pois bem: o programa começou. Abri o Facebook e vi um monte de postagens falando do BBB. Falando mal. Pedindo que não se poste nada sobre ele.

Tem mais comentários depreciativos ao programa e a quem o assiste, do que tratando do que acontece nele. Houve quem postasse uma imagem acreditando, ingenuamente, que com um milhão de compartilhamentos a Globo tiraria o BBB do ar.

Pois bem: a Globo certamente não o tirará do ar enquanto ele der audiência. E não será falando mal do BBB e de seus fãs no Facebook que alguém fará com que menos gente o assista. Aliás, quem tentar me convencer a deixar de achar alguma coisa bacana com o “argumento” de que é “isso é burrice”, pode ter certeza de que não atingirá seu objetivo.

É comum recomendar aos fãs do programa que o troquem por um livro. Acho ótima ideia. Mas então, é bom dar o exemplo e realmente ler, ao invés de só ficar reclamando nas redes sociais. Até porque assim poderemos trocar ideias sobre nossas leituras, o que é bem melhor do que só falar do BBB. Seja pró ou contra.

E, enfim, lembro o que falei quando tinha gente reclamando de quem fazia campanha eleitoral pelo Facebook: se só tem (o que você considera) “lixo” no seu feed, é melhor fazer uma “faxina” nos seus contatos ao invés de ficar “cagando regra”, dizendo o que os outros podem ou não postar.

Vale tudo por audiência

Charge do Kayser

Não assisto BBB. A única vez que tentei assistir foi na primeira edição: enchi o saco logo no começo. (E pelo que sei, a única coisa realmente boa que o programa fez ao Brasil foi tornar conhecido Jean Wyllys, que hoje é deputado federal pelo PSOL-RJ e empreende no Congresso uma valorosa luta contra a homofobia.)

Porém, com todo mundo falando do programa na época de sua exibição (o que é um dos motivos pelos quais odeio o verão), praticamente não tinha como saber sobre a acusação de abuso sexual cometido por um dos participantes. A vítima, sob efeito de álcool e visivelmente desacordada no momento, já é acusada pelos machistas de plantão de “ter se insinuado”. Sim: para eles, mulher vítima de abuso sexual “fez por merecer”.

(Assim, caso vejas uma mulher de minissaia na rua, pode ter certeza: ela não está com calor – o mesmo que te faz destilar suor – e sim, quer ser agarrada… Ela vai gritar, te chamar de tarado, mas não dá bola, isso é só para “se fazer de difícil”: vai fundo e mostra quem é o dominador nessa história.)

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O participante acusado de abuso foi expulso do BBB pela produção do programa, e provavelmente terá de se explicar à polícia (que foi aos estúdios da Rede Globo para investigar a denúncia). Ótimo.

Porém, o que acontecerá com a Globo, que transmitiu as cenas ao vivo, depois dessa? Não fosse a grande repercussão do caso na internet (que levou a polícia ao Projac), podem ter certeza de que a emissora teria “posto panos quentes” no assunto, que “morreria” em poucos dias. Afinal, pelo que li, a Globo já tinha negado qualquer possibilidade de abuso sexual no programa, e Pedro Bial ainda teria dito “o amor é lindo”, em referência ao fato.

Acho que já passa muito da hora de rever as concessões (que são públicas) para emissoras que fazem qualquer coisa por audiência.