A crise dos sonhos…

Dos banqueiros, claro. Aliás, se eu tivesse um banco falido e fosse salvo pelo Estado, seria divertido defender o “Estado mínimo”…

Charge do Kayser

Outra charge do Kayser (2008)

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Memórias do Saque

Há dez anos, a Argentina vivia uma grande revolta popular. O presidente Fernando de la Rúa, eleito em 1999 com promessas de mudanças, apenas dera continuidade à política econômica de seu antecessor, Carlos Menem, que afundava o país em uma grave crise econômica e social.

O desemprego e a pobreza aumentavam assustadoramente, e em dezembro de 2001 eram registrados saques a supermercados em diversas cidades. Em resposta, no dia 19 o governo decretou estado de sítio para tentar controlar a situação. O efeito foi oposto: o povo decidiu sair às ruas e desafiar a medida autoritária de um governo a cada dia mais impopular. Batendo panelas (o famoso cacerolazo, ou “panelaço”), em Buenos Aires milhares de pessoas tomaram a Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, sede do governo argentino.

No dia seguinte, 20 de dezembro, nem a feroz repressão policial que deixou mais de 30 mortos foi capaz de desocupar a Praça de Maio. Desesperado, De la Rúa chegou a propor que a oposição peronista passasse a integrar um governo de “união nacional”. A proposta foi recusada, e sem apoio político nem popular, o presidente renunciou, deixando a Casa Rosada de helicóptero.

Uma boa ideia no dia em que a derrubada de De la Rúa pelo povo completa dez anos é assistir ao documentário “Memórias do Saque” (Memorias del Saqueo), de Fernando Solanas. O filme mostra como se deu o endividamento e o consequente empobrecimento da Argentina – que adotou um programa “anticrise” semelhante ao que hoje é aplicado nas economias europeias mais frágeis como a Grécia, um remédio que apenas piorou a “doença”. Pois salvar os bancos não significa que o povo passará a viver melhor – muito antes pelo contrário.

A exploração dos bancos

A jornalista Salete Lemos foi demitida da TV Cultura, possivelmente devido ao vídeo acima, no qual critica os bancos e o governo – um banco teria ameaçado retirar o patrocínio caso ela não se retratasse. A Cultura afirma que a demissão nada teve a ver com o caso, mas eu acredito mais na Salete.

Afinal, ela falou o que todos nós sentimos: que os bancos nos exploram demais. Cobram tarifas absurdas, e o serviço é cada vez mais uma merda. Demitem os funcionários e os substituem por estagiários (aos quais não precisam pagar os encargos trabalhistas) e máquinas (que não precisam comer, logo não precisam de salário). Tudo para lucrar o máximo possível.

Para se ter uma idéia, no banco do qual sou cliente (não cito o nome porque nem precisa, são todos iguais!) eles juntaram várias agências em uma só (aumento das filas!). Não aceitam que se faça pagamento em dinheiro nos caixas, só nas máquinas, sob a justificativa de evitar filas, mas o que acontece é: fila tanto nos caixas quanto nas máquinas!

Ontem, quando fui a outro banco fazer um depósito, fiquei cerca de 10 minutos na fila para usar uma máquina, visto que a fila para os caixas era muito maior e eu não tinha tempo de sobra. E o pior de tudo: apenas um funcionário para orientar um monte de gente!

Ou seja: Salete tem toda a razão em criticar os bancos. E se foi demitida por causa disso, é porque tem mais razão ainda: os bancos estão mais preocupados com sua imagem do que com a satisfação do cliente.