E se o papa for gaúcho?

Não deveria ligar para a eleição do papa. Afinal, ele é autoridade para os católicos, e como sou ateu, não tenho “chefe religioso”.

Porém, não dá para negar que o papa tem, sim, sua importância política. Afinal, é o líder de uma religião com enorme número de seguidores, e mesmo que muitos católicos não sigam à risca o que ele diz, suas palavras sempre têm repercussão.

E agora, tem essa: entre os mais de cem cardeais que elegerão o próximo papa, há brasileiros, e um destes é gaúcho. Qualquer cardeal que participe do conclave pode ser eleito, ou seja… O próximo papa pode ser gaúcho.

Caso isso venha a acontecer, nos preparemos para aguentar um bairrismo ainda mais exacerbado: o “drama gaúcho” virará brincadeira de criança. Haja paciência.

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Brasil versus combinados regionais: errei

No texto anterior, o leitor Causlos deixou um comentário que corrige uma informação errada. Disse eu que aquele Seleção Brasileira versus “Seleção Gaúcha” em 17 de junho de 1972 teria sido o último confronto do Brasil contra um combinado regional de dentro do país. Mas, depois daquela partida, só a “Seleção Gaúcha” (chamo assim, entre aspas, por ela na verdade reunir jogadores que jogavam no Rio Grande do Sul, principalmente na dupla Gre-Nal, fossem eles gaúchos ou não) ainda jogou duas vezes contra a Seleção Brasileira.

A primeira foi pouco antes da Copa do Mundo da Argentina. E de forma semelhante ao acontecido seis anos atrás, havia ressentimento nas arquibancadas do Beira-Rio: o técnico Cláudio Coutinho deixara Falcão (catarinense de Abelardo Luz) fora da Seleção que disputaria a Copa do Mundo, apesar dele vir jogando muita bola no Inter. Assim como em 1972, o jogo da noite de 25 de maio de 1978 acabou empatado, desta vez em 2 a 2.

Em 19 de janeiro de 1983, pela última vez a “Seleção Gaúcha” enfrentou a Seleção Brasileira. Só que, diferentemente do acontecido nos dois confrontos anteriores, os “gaúchos” levaram 4 a 1.

O que me dá vergonha de ser gaúcho

Espaços para comentários sem moderação, principalmente em matérias da “grande imprensa”, têm uma incrível tendência à baixaria e a demonstrações das piores características de quem comenta. É assim em textos sobre política, cultura, e principalmente, sobre futebol.

Pois bem: hoje, o Esporte Espetacular apresentou uma reportagem sobre o famoso jogo entre a Seleção Gaúcha e a Seleção Brasileira, realizado no Beira-Rio em 17 de junho de 1972. Tem algumas coisas bem interessantes na matéria: a Globo chamou jogadores que disputaram a partida, como Paulo Cesar Caju, Rivellino e Claudiomiro; também apresentou algumas imagens do jogo. Porém, senti muita falta de outras, como uma melhor análise do contexto da época (não só futebolístico, como também político): como não estava com vontade de escrever tudo de novo, recomendo o texto que escrevi logo após o 40º aniversário da partida.

Mas, se a matéria tem seus problemas, terrível mesmo é ler os comentários sobre ela. Um texto lembrando um jogo que se fosse proposto nos dias de hoje (desde então nunca mais a Seleção Brasileira enfrentou algum combinado estadual), pareceria ideia de O Bairrista, só podia resultar em… Bairrismo explícito nos comentários.

Aliás, antes fosse simplesmente bairrismo. Na citada matéria, um dos raros comentaristas sensatos disse que a overdose de comentários “gauchamente orgulhosos” fazia ele sentir vergonha de ser gaúcho. Resultado: os “gaúchos melhores em tudo” começaram a xingá-lo e dizer que ele deveria “ir embora” do Rio Grande do Sul.

A verdade é que o tal de “orgulho gaúcho”, alicerçado na crença absurda de que somos “os melhores em tudo”, já começa a ser mais do que bairrismo, se tornando ufanista e mesmo xenófobo. Não por acaso, para muitos que compartilham dessa visão (e que inclusive comentaram na reportagem da qual falei) o Rio Grande do Sul deveria ser um país independente, por ser “tão diferente” (leia-se “tão melhor em tudo”). Como se a principal característica do Brasil não fosse justamente a diversidade, ainda mais por suas dimensões continentais.

E a chuva de “vai embora” pro cara que criticou o bairrismo e disse ter ficado com vergonha de ser gaúcho me fez lembrar da famosa frase ufanista “Brasil: ame-o ou deixe-o”, dos tempos da ditadura militar: qualquer um que tenha o mínimo conhecimento de história sabe que o “amor pelo Brasil” na expressão correspondia, na verdade, a não criticar o regime. Quem o fazia, era “traidor da pátria” – assim como os que criticam o bairrismo exagerado viram também “traidores”.

Alguém pode argumentar que o “orgulho gaúcho” é muito diferente do “Brasil: ame-o ou deixe-o”, por não ter um regime autoritário por trás. Porém, há uma certa imprensa (que inclusive apoiava a ditadura militar) o insuflando, ao transformar gaúchos em referências sobre qualquer acontecimento no mundo – mesmo que na hora ele esteja a mais de mil quilômetros de onde o fato ocorre. Pois ver um naufrágio na costa da Itália ser transformado em “drama gaúcho” é de se finar de rir (e certamente tem muita gente rindo de nós por conta disso), mas há quem leve isso muito a sério e realmente acredite que o Rio Grande do Sul é o centro do universo.

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Atualização (07/08/2012, 23:07). O leitor Causlos deixou um comentário que corrige uma informação errada – a correção virou novo post.

O Milton Neves vai mudar de nome!

Que isso sirva de motivação a quem não a sente: o Milton Neves disse no blog dele que o Boca Juniors já é campeão, depois de “engolir o timinho” do Grêmio. Se nós revertermos a vantagem do Boca, ele muda o nome para “Dercy Gonçalves Neves”. Não bastasse isso, disse que os narradores do Rio Grande do Sul são os mais bairristas do mundo – como se os cidadãos que narram jogos em rede nacional fossem muito imparciais.

O GRÊMIO VAI SAIR CAMPEÃO! E O MILTON VAI MUDAR DE NOME!