O verão não me representa

O pior é que recém estamos em setembro...

O pior é que recém estamos em setembro…

Tirei a foto pouco depois das 6 horas da tarde da “invernal” quinta-feira – mesmo horário de outra que bati em 22 de julho, quando o tempo era bastante diferente. Bem mais, digamos, representativo de minha pessoa

Ao menos a umidade estava bem baixa, pelo visto. Minha pele estava seca. Um calor menos pior que aquele registrado lá por janeiro e fevereiro, quando é possível tomar um banho de suor com a mesma temperatura e umidade do ar em torno dos 500%.

Mas, ainda assim, calor que faz esquecer que ainda estamos no inverno e parecer que é verão – que, como já disse, não me representa. Além do suplício que é andar na rua vestindo calça comprida (aliás, vestindo qualquer coisa) com altas temperaturas, detesto a “obrigação de ser feliz” associada a dias ensolarados e quentes – e a noites igualmente quentes, embora sem sol. Não é por desejar a infelicidade humana, mas sim, por abominar imposições sociais.

Dias frios e cinzentos são convidativos a ficar em casa, à introspecção. Óbvio que também gosto de estar na rua, e prefiro fazê-lo nos dias frios – quando o Sol não me parece aquela bola de fogo que quer me queimar até a morte. Mas não me sinto um “fracassado” quando fico em casa num sábado à noite – ao contrário de muitas pessoas. Relembrando o que escrevi em julho:

Porém, muitas pessoas parecem não gostar de estar consigo mesmas, ainda mais que vivem nos dizendo que devemos sempre “curtir a vida adoidado”, sem tempo para pensamento e autocrítica. O resultado é: querem sempre estar rodeadas de muita gente, pois de tanto ouvirem que o contrário significa o “fracasso social” elas não suportam a si mesmas.

Digamos que isso não tem a ver apenas com o clima, é óbvio. Há várias partes do Brasil onde “inverno” é apenas uma palavra no dicionário – ou representa a estação chuvosa (ou seja, mesmo sem frio, tem menos sol). Mas a publicidade que vemos ser veiculada nacionalmente sempre vincula “verão” com “festa” – então, vamos “curtir”! Ou seja, fazer o que todo mundo faz, única e exclusivamente porque… Todo mundo faz.

Claro que também há o “efeito manada” no inverno – leia-se “ir ver a neve em Gramado”. Mas, como disse, o que me atrai no inverno é justamente a maior facilidade em se quebrar o padrão de que devemos estar sempre “nos divertindo” de uma determinada forma, como se não fosse possível ser feliz de outras maneiras.

Inclusive, já disse certa vez que a “estação-padrão” de Porto Alegre deveria ser o outono, mas a preferência pelo inverno se explica pelo simples fato dele “fazer oposição” ao verão – que, por sua vez, representa o oposto do que sou. Não quero saber de “solaço” e badalação, prefiro ver a Lua bebendo tranquilamente uma taça de vinho.

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O inverno me representa

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Basta fazer uns dias frios, que começa a reclamação nas redes sociais. “Ah, não aguento mais esse inverno, que chegue logo o verão”, diz muita gente que chega a parecer que não tem um teto para se abrigar, nem roupas para vestir.

Sim, pois adoro frio, mas não sou idiota de não reconhecer que para os mais pobres o inverno é uma época muito complicada. E, aliás, me chama a atenção que certas pessoas que já vi e ouvi destilando ódio contra pobres resolvem nessa época declarar solidariedade com eles no discurso; parece mais uma desculpa para reclamar do frio mesmo tendo recursos para se proteger dele, mas não deixo de ter a esperança que tais pessoas se tornem mais solidárias. Porém, provavelmente a maioria prefira um “meio termo”, pois quero ver alguém conseguir dormir em uma noite abafada sem nada para refrescar (quem passou o último Natal em Forno Alegre sabe do que falo). Aliás, opções que invariavelmente resultam em gasto de energia: no inverno nunca ligo ar condicionado já que não acho necessário, mas para os mais friorentos certamente ele é uma necessidade hoje; só que tenho certeza de que o aparelho não será ligado no inverno o mesmo número de vezes que no verão (ainda mais que, como temos mania de imitar europeu e achamos “inadequado” trabalhar de bermuda, só com ar condicionado para suportar o calor).

Porém, minha preferência pelo inverno vai além do conforto térmico. É algo que, pela minha personalidade, é até natural.

O inverno faz com que o lar seja um lugar mais convidativo. Obviamente gosto de estar na rua (e acho muito melhor sair no frio do que no calor), mas não vejo problema algum de estar em casa num sábado à noite, enquanto muitos estão em “baladas” (aliás, repare que “badalação” e “verão” literalmente rimam). Não consigo ver sentido em não gostar de estar no lugar onde moro.

Ao fazer as pessoas ficarem mais em casa, o inverno também as convida à introspecção. No lar, mesmo que não se more só, nem sempre se está em contato com pessoas diferentes daquelas com as quais se convive rotineiramente, e assim não há a necessidade de falar o tempo todo, o que em geral se faz em encontros com os amigos – a conversa não acontece apenas para trocar ideias, mas também porque são pessoas com as quais se gosta de estar e que horas depois já não estarão próximas. Estar só (seja em casa ou apenas em uma peça) significa desfrutar de si mesmo como companhia; ou seja, vejo como uma excelente oportunidade de conversar comigo mesmo, de promover um “debate” entre os diversos “eus”, que divergem muito entre si, mas promovem uma discussão respeitosa e de alto nível, visto que o objetivo deles é a união em torno das concordâncias (principalmente para discutir com os reaças) e não a destruição mútua.

Sinceramente, adoro minha própria companhia. Porém, muitas pessoas parecem não gostar de estar consigo mesmas, ainda mais que vivem nos dizendo que devemos sempre “curtir a vida adoidado”, sem tempo para pensamento e autocrítica. O resultado é: querem sempre estar rodeadas de muita gente, pois de tanto ouvirem que o contrário significa o “fracasso social” elas não suportam a si mesmas.

Óbvio que também existem opções de “badalação” durante o inverno, o frio não acaba com a vida (se até na Sibéria as pessoas andam na rua com -51°C…). Mas no verão isso é muito mais estimulado. É praticamente uma “obrigação” estar na praia (mesmo que isso signifique passar horas em congestionamentos), ir para as “baladas” e “causar muito”. Acho o litoral uma região agradável já que além de ser menos quente, o mar é incontestavelmente belo; mas não faz o menor sentido ir para lá apenas porque “todo mundo vai”.

Resumindo: o verão representa o contrário do que sou. O inverno é o oposto do verão. E por isso, o inverno me representa.