Julho amaldiçoado

Acabo de saber que um avião da Air Algérie que se dirigia de Burkina Faso para a Argélia caiu, com 116 pessoas a bordo. Mais um…

Neste julho de 2014 já tivemos outros dois aviões no chão. Além daquele da Malaysia Airlines lá na Ucrânia (e que ainda não se sabe quem o derrubou), ontem uma outra aeronave caiu em Taiwan após tentativa de pouso em meio a um tufão que atingia a região.

Este mês também é péssimo para a literatura brasileira. Três escritores se foram: João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna.

No futebol, mais perdas. A Copa do Mundo teve sua organização elogiada, mas a Seleção Brasileira levou 7 a 1 da Alemanha (que ainda ganhou o título, quebrando a escrita de nunca uma seleção europeia ter sido campeã na América). No tocante à crônica esportiva, tivemos a triste notícia de que o Impedimento (melhor página de futebol do país) deixará de ser atualizado após a Libertadores.

Relacionada à Copa, a questão dos ativistas presos e processados, acusados por violência em protestos antes mesmo deles acontecerem (não me parece coincidência as prisões terem se dado na véspera da final da Copa, e as razões para elas seguem nebulosas). A “Sininho” não é a “Che Guevara” que os esquerdistas mais cegos dizem que é, mas também não é uma “Bin Laden” como a velha imprensa procura pintar – discurso repetido, tristemente, por alguns petistas tão cegos quanto os ultraesquerdistas, não percebendo que quem sai mais prejudicado com a polêmica é justamente o governo Dilma, dado que muitas pessoas não sabem distinguir as diversas esferas governamentais (federal, estadual e municipal) e também esquecem que os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário são independentes uns dos outros.

Tudo isso num só mês, e que ainda tem uma semana pela frente… Será que não dá para “pular” estes sete dias e começar agosto amanhã?

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Terça-feira, 11 de setembro

Em 11 de setembro, uma terça-feira, uma barbárie causou a morte de milhares de pessoas. Teve importantes reflexos na economia, na política e até mesmo no futebol – o ano seguinte seria de Copa do Mundo.

Sim, falamos do 11 de setembro de 2001. Mas também do 11 de setembro de 1973.

Na terça-feira, 11 de setembro de 1973, um golpe militar depôs o presidente do Chile, Salvador Allende. O comandante do Exército, Augusto Pinochet, que havia sido nomeado pelo próprio Allende, chefiou a criminosa ação na qual o Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, foi bombareado por caças da Força Aérea. Allende ensaiou uma resistência, mas ao perceber que não teria como superar as forças golpistas, fez um último pronunciamento no rádio. Depois, cometeu suicídio ou foi assassinado – ainda não há uma certeza sobre a morte do presidente chileno.

O general Augusto Pinochet assumiu o poder, e implantou uma das mais sangrentas ditaduras que já teve a América Latina. De 1973 a 1990, milhares de pessoas foram vitimadas pela repressão. Qualquer um que fosse “suspeito” de simpatizar com o governo de Allende podia ser preso e brutalmente torturado – isso quando não fosse executado ou “desaparecido”.

A economia chilena foi bastante impactada pelo golpe. Antes, o país estava quase paralisado, graças a decisão dos Estados Unidos de “sufocar” o Chile pela via econômica, para não deixar que um país se tornasse comunista “devido à irresponsabilidade de seu povo” como disse Henry Kissinger (ou seja, para ele o povo chileno não valia nada). Com o fim da democracia, os dólares voltaram a entrar no Chile, que transformou-se em “laboratório de testes” para o neoliberalismo dos “Chicago Boys”, cujo maior expoente era Milton Friedman. Exato: não foi com Ronald Reagan nem com Margaret Thatcher que ele começou, mas sim com Augusto Pinochet… Detona-se, assim, o mito segundo o qual liberalismo econômico e democracia são sinônimos.

Até o futebol sofreu o impacto do 11 de setembro de 1973. Mais precisamente, a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha Ocidental. Havia uma preocupação muito grande com a segurança (como veremos no Mundial de 2002, menos de um ano após os atentados nos EUA), devido ao terrorismo: nos Jogos Olímpicos de Verão de 1972, realizados também na Alemanha Ocidental (na cidade de Munique), o grupo Setembro Negro invadiu a Vila Olímpica e assassinou onze atletas israelenses. Mas o impacto do 11 de setembro se deu dentro de campo mesmo: nas repescagens das eliminatórias para a Copa, uma das vagas seria disputada entre uma seleção sul-americana e uma europeia; o Chile seria esta equipe da América do Sul, e a União Soviética a da Europa.

A primeira partida foi disputada em 26 de setembro de 1973 (portanto, já depois do golpe) em Moscou, e terminou empatada em 0 a 0. O jogo decisivo estava marcado para 21 de novembro no Estádio Nacional de Santiago, que após o 11 de setembro se tornara um campo de concentração no qual inúmeras pessoas foram torturadas e fuziladas. Os dirigentes soviéticos pediram que a partida fosse realizada em outro local que não o Estádio Nacional, mas a FIFA se fez de surda e com isso, a seleção da URSS não viajou a Santiago para jogar. Desta forma o Chile garantiu a vaga à Copa sem disputar o jogo que a URSS poderia muito bem vencer apesar de jogar fora de casa, mas para “cumprir tabela” os chilenos entraram em campo e marcaram um gol no arco vazio.

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Em 11 de setembro de 2001, uma terça-feira, quase 3 mil pessoas morreram vítimas dos atentados terroristas nos Estados Unidos. Mas em consequência disso, quase um milhão de vidas foram tiradas nas guerras travadas pelos EUA no Afeganistão e no Iraque. Aquele trágico dia tornou-se “justificativa” para matar ainda mais gente.

A economia sofreu as consequências do 11 de setembro de 2001. Os Estados Unidos vivem hoje a sua pior crise econômica desde 1929, e uma das causas disso são os gastos excessivos com as guerras “justificadas” pela tragédia.

E o futebol, claro, também foi afetado. Na Copa de 2002, realizada na Coreia do Sul e no Japão, a preocupação com a segurança foi muito maior do que nos Mundiais anteriores. E a seleção dos Estados Unidos teve de contar com esquema especial de proteção, devido ao temor de ataques terroristas.

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Como bem disse o chileno Pablo no vídeo que abre este post, em uma carta dirigida aos familiares de vítimas do 11 de setembro de 2001: os chilenos, assim como todo o mundo, lembram as vidas perdidas de 2001; e é preciso que os estadunidenses, e o mundo também, lembrem de 1973.

Volta ao passado

“Dia disso”, “dia daquilo”… O “dia das crianças” em si é, assim como os outros, uma bobagem inventada para as lojas venderem mais. Mas não nego que é também uma oportunidade de voltar no tempo e relembrar os bons tempos de infância. Ainda mais quando se está a três dias de ficar “um ano mais velho”.

Já apostei corrida de bicicleta (detalhe: com minha bicicleta sem freio, que estava estragado), brinquei de avião, joguei futebol (dentro de casa e também na rua Pelotas, debaixo dos jacarandás floridos de outubro), e, principalmente, muito botão.

Se das outras brincadeiras eu não participo mais – pois a Pelotas hoje em dia continua com os seus jacarandás, mas parece não ter mais crianças – e jogar futebol é para mim uma utopia – pois o que eu faço com a pobre bola pode ser chamado de qualquer coisa, menos futebol -, o botão eu ainda jogo. E o Torneio Farroupilha de 2008 (que de “farroupilha” só conserva o nome) é disputado neste fim-de-semana. Antigamente, era disputado sempre próximo ao 20 de setembro.

Minha expectativa é de voltar ainda mais ao passado e repetir o que fiz na primeira edição do campeonato, em 1992: ser campeão. Ganhei aquele título jogando com o glorioso FC Cascavel, do Paraná; já agora eu quero levar o Vovô à glória. Conseguirei?

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Atualização:

Parte do objetivo foi alcançado: Vovô nas semifinais!!! E o melhor de tudo: o Guri está fora…

A rua onde eu cresci

A Rua Pelotas, no Bairro Floresta, na qual morei até pouco antes de completar 11 anos, foi incluída em um projeto que prevê o tombamento como patrimônio ambiental de diversos túneis verdes de Porto Alegre. Ela inicia-se antes da Avenida Farrapos, e estende-se até a Cristóvão Colombo. Entre a Farrapos e a Cristóvão encontra-se o seu túnel verde, formado por jacarandás que durante a primavera florescem e fazem a rua ter também um “tapete” formado pelas flores que caem das árvores.

Não foi por acaso que meu pai escolheu a casa de número 430 (andar térreo) da Rua Pelotas para morarmos, pouco antes de eu nascer. Meu nascimento era previsto para acontecer no fim de outubro ou no começo de novembro de 1981, mas o quadro de pressão alta da minha mãe, que estava internada no Hospital Presidente Vargas desde 30 de setembro, fez com que os médicos decidissem fazer a cesariana na noite de 15 de outubro. Quando a minha mãe foi internada, ela e o meu pai ainda moravam na Azenha, junto com a minha avó (mãe do meu pai). Neste meio tempo, foi feita a mudança para a Rua Pelotas, em plena primavera – ou seja, em sua época mais bela.

Parece “coisa de velho”, mas… Bons tempos aqueles. As crianças brincavam na rua. Apostávamos corridas de bicicleta – eu disputava a hegemonia com o Leonardo, enquanto o Vinicius (meu irmão) e o Diego, os mais novos da turma, brigavam para não ficar em último. Também fingíamos que as calçadas eram as ruas de uma cidade inventada: o Leonardo e eu éramos os patrulheiros, e o Vini e o Diego, para variar, se davam mal.

Coisas da imaginação de criança: com nossas bicicletas, brincávamos também de aeroporto, precisávamos pedir permissão para pousos e decolagens de nossos “aviões”. E sem “caos aéreo”!

Também jogamos muito futebol, quando transformávamos as calçadas em “estádios” lotados. O único problema é que passavam carros e caminhões da Brahma na rua, então tínhamos uma regra: proibido “bicar”. Só que de vez em quando alguém “bicava” a bola, e passava um carro por cima. Aliás, o maior mistério da rua é: o que aconteceu com aquela bola nova do Diego? Ela foi pro meio da rua, veio um carro… BUM! Ela estourou e desapareceu!

Hoje em dia, as tardes da Rua Pelotas são mais “calmas”. E mais gradeadas. É a paranóia da segurança, que faz as crianças brincarem dentro de casa. Naquela época já havia assaltos, mas não esse medo irracional dos dias de hoje, que fez as pessoas abandonarem as ruas: isso sim é que aumenta a insegurança.

Porém, sempre que passo por baixo dos jacarandás ou pela esquina da Cristóvão Colombo com a Pelotas, tenho a impressão de ouvir uma voz de criança gritando: “não vale dar bico!”.

Ironicamente

Na manhã deste domingo, segundo minha mãe, estava programada a realização de um protesto (do estilo “Cansei” e “NoFlyDay”) no Parque da Redenção, aqui em Porto Alegre.

Dava apoio ao protesto um avião com uma faixa “Movimento Luto Brasil”.

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Cumplicidade

Uma comprida palavra em alemão (há uma comprida palavra em alemão para tudo) descreve a “guerra de mentira” que começou com os primeiros avanços da Alemanha nazista sobre seus vizinhos. A pouca resistência aos ataques e o entendimento com Hitler buscado pela diplomacia européia mesmo quando os tanques já rolavam se explicam pelo temor comum ao comunismo. A ameaça maior vinha do Leste, dos bolcheviques, e da subversão interna. Só o fascismo em marcha poderia enfrentá-la. Assim muita gente boa escolheu Hitler como o mal menor. Ou, comparado a Stalin, o mau menor. Era notório o entusiasmo pelo nazismo em setores da aristocracia inglesa, por exemplo, e dizem até que o rei Edward VIII foi obrigado a renunciar não só pelo seu amor a uma plebéia mas pela sua simpatia à suástica. Não tardou para Hitler desiludir seus apologistas e a guerra falsa se transformar em guerra mesmo, todos contra o fascismo. Mas por algum tempo os nazistas tiveram seu coro de admiradores bem-intencionados na Europa e no resto do mundo – inclusive no Brasil do Estado Novo. Mais tarde estes veriam, em retrospecto, do que exatamente tinham sido cúmplices sem saber. Na hora, aderir ao coro parecia a coisa certa.

Comunistas aqui e no resto do mundo tiveram experiência parecida: apegarem-se, sem fazer perguntas, ao seu ideal, que em muitos casos nascera da oposição ao fascismo, mesmo já sabendo que o ideal estava sendo desvirtuado pela experiência soviética, foi uma opção pela cumplicidade. Fosse por sentimentalismo, ingenuidade ou convicção, quem continuou fiel à ortodoxia comunista foi cúmplice dos crimes do stalinismo. A coisa certa teria sido pular fora do coro, inclusive para preservar o ideal.

Se esses dois exemplos ensinam alguma coisa é isto: antes de participar de um coro, veja quem estará do seu lado. No Brasil do Lula é grande a tentação de entrar no coro que vaia o presidente. Ao seu lado no coro poderá estar alguém que pensa como você, que também acha que Lula ainda não fez o que precisa fazer e que há muita mutreta a ser explicada e muita coisa a ser vaiada. Mas olhe os outros. Veja onde você está metido, com quem está fazendo coro, de quem está sendo cúmplice. A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece.

Enfim: antes de entrar num coro, olhe em volta.

(Luiz Fernando Veríssimo, Zero Hora, 19 de julho de 2007)

E você, como vai viajar?

Muitos estão deixando de viajar de avião por causa dos atrasos nos vôos e agora por medo, depois do acidente de terça-feira passada. Mas trocar o ar pela estrada pode não ser uma boa opção: as rodovias continuam matando mais gente do que os aviões. Para ler mais, clique aqui.

Desastre

Hoje saí mais cedo do Simpósio Nacional de História, em São Leopoldo. O que me possibilitou mais tempo e disposição para escrever.

Mas a chegada em casa na terça-feira foi a pior de todas. Além de ter sido a mais tardia (quase às 11 da noite), também fiquei sabendo do desastre de Congonhas. O pior acidente aéreo já acontecido no país fez muitos gaúchos chorarem.

Menos mal que nenhum parente ou amigo meu estava entre as vítimas. Mas a tragédia atingiu pessoas próximas: meu irmão faz Geografia na UFRGS, e a professora Vanda Ueda, do Departamento de Geografia da UFRGS, estava no avião.

No Simpósio de História, uma das professoras participantes chorou a perda de sua filha no desastre.

Mas o pior disso tudo é que tem gente aproveitando a tristeza alheia para obter dividendos políticos. É só olhar o noticiário. Mal aconteceu o acidente, a mídia e os políticos de oposição já escolheram o culpado: Lula.

Não que ele seja isento de culpa. A responsabilidade pelos aeroportos brasileiros é da INFRAERO, órgão federal. Mas Congonhas já era para ter sido fechado há muitos anos. Aquele aeroporto já era um perigo antes de 2003, quando Lula assumiu. O erro do presidente foi não ter ordenado até agora o fechamento de um aeroporto que fica no meio de São Paulo.

Mas, a causa do acidente pode não ser apenas o aeroporto. O vídeo abaixo, imagens feitas pelas câmeras de Congonhas, mostra que o avião passou em velocidade muito alta – logo depois, percebe-se o clarão provocado pela explosão. Pouco antes outro avião passara pelo mesmo local muito mais lentamente.

Antes de apontar culpados, é preciso que as investigações revelem as causas do acidente. E quem entende disso são especialistas em aviação, não empresas de comunicação ou políticos.

O povo não tá nem aí pros aviões

A imprensa (jornais, rádios e TVs) dá uma importância maluca à crise no setor aéreo. Mostram o “sofrimento” dos que estão há muitas horas à espera de embarcar num avião que nunca sai do chão. Ficam “atirados” dentro do aeroporto, com ar-condicionado e protegidos da chuva.

Com todo o respeito (ironicamente), que vão para a puta que pariu aqueles que choram na frente das câmeras de TV porque o avião atrasou. A maioria dos atingidos pela crise aérea não sabe o que é sofrer de verdade, salvo exceções (como a menina que fez cirurgia de coluna e teve de dormir num banco de aeroporto). Provavelmente aqueles “chorões” nunca tiveram de passar uma noite ao relento, com frio e debaixo de chuva, numa fila para marcar uma consulta médica.

O verdadeiro “caos” no Brasil não é aéreo.

E, como mostrou muito bem o Luiz Carlos Azenha, o povo não está dando a mínima bola para a situação dos aeroportos. Os pobres não andam de avião. Viajam de ônibus, mas isso quando sobra dinheiro.

De acordo com a pesquisa da Folha de São Paulo que o Azenha cita, 67,2% dos entrevistados afirmaram não conhecer ninguém que tenha sido prejudicado pela crise aérea. Não fui entrevistado, mas se fosse eu estaria entre estes 67,2%.