Um trajeto de táxi e um pouco de História

– Pega a Cauduro, depois a João Telles à esquerda e a Irmão José Otão, também à esquerda.

E assim comecei a explicar ao taxista o trajeto que deveríamos fazer. Meu pai, que ia no banco da frente do carro, estranhou a orientação. Obviamente na parte em que falei em “Irmão José Otão”. Prontamente lembrei que era a “continuação” da Rua Vasco da Gama, que a partir da João Telles muda de nome e passa a denominar-se Irmão José Otão, mas que ainda assim muitas pessoas costumam chamar de “Vasco” – inclusive eu em não tão poucas ocasiões.

Certamente a maioria das pessoas se pergunta por que raios de motivos a rua simplesmente muda de nome naquele cruzamento. De fato, parece algo totalmente sem lógica: se você segue reto, obviamente continua andando pela mesma rua. Mas, olhando para a História, percebemos que faz sentido.

A Rua Vasco da Gama data do final do Século XIX e, ao contrário do que o sentido de circulação dos carros indica, começa na João Telles ao invés de terminar (aliás, vale lembrar que até meados de 1991 o sentido da rua era o contrário, centro-bairro ao invés de bairro-centro). Pois, regra geral, define-se o ponto mais próximo do Guaíba como o início de uma rua em Porto Alegre. Tanto que a própria João Telles, que demarca a “fronteira” entre a Vasco da Gama e a Irmão José Otão, começa na Avenida Independência, mesmo que os veículos “subam” a rua em direção à referida avenida (trata-se de uma lomba que renderá um belo banho de suor a quem ousar subi-la a pé num dia como foi ontem).

Já a Irmão José Otão foi aberta em meados da década de 1970, com o propósito de ser uma “continuação” da Vasco da Gama a partir da João Telles. Se pensarmos na lógica da numeração de ruas em Porto Alegre, verificamos que, na verdade, acontece o contrário: a Vasco da Gama que é continuação da Irmão José Otão – que tem seu ponto inicial na Praça Dom Sebastião (ao lado do Colégio Rosário) e não na João Telles. Mas, como vimos, a Vasco é mais antiga e, além disso, tem sua numeração iniciada pelo “zero” (enquanto em outros casos ela se inicia com valores mais altos, devido à previsão de extensão futura, lembrando que é preciso levar em conta a lógica do ponto inicial ser aquele mais próximo do Guaíba). Se a “continuação” da Vasco recebesse o mesmo nome, ou as edificações do novo trecho teriam de receber números negativos (imagine um endereço do tipo “Rua Vasco da Gama, -215”), ou seria estabelecido um novo “zero” lá na Praça Dom Sebastião e as edificações do trecho mais antigo precisariam trocar sua numeração (o que geraria uma enorme confusão).

Mas essa não é a única situação curiosa da região. Há uma outra, que também é explicada pela História.

Quando caminhamos pela Vasco da Gama e/ou pela Irmão José Otão, estamos no Bom Fim. E na paralela Avenida Independência, andamos pelo bairro homônimo. Agora, quando se sobe ou desce a Fernandes Vieira, João Telles, Santo Antônio, Garibaldi, Tomaz Flores e Barros Cassal (todas elas, ruas que ligam a Independência à Vasco da Gama ou à Irmão José Otão), surge a dúvida: em que ponto passamos de um bairro ao outro?

De modo geral, os limites entre os bairros são estabelecidos conforme o traçado das ruas, para facilitar a vida de todos. Só que entre Bom Fim e Independência a coisa é diferente (e não é caso isolado), com a divisa sendo estabelecida por uma linha imaginária e paralela à Avenida Independência, que corresponde a um prolongamento da Rua Castro Alves, jamais aberto, que iria até a Praça Dom Sebastião (na verdade, começaria ali). A linha imaginária só corresponde a traçados de ruas nas quadras iniciais da Irmão José Otão (entre a praça e a Barros Cassal) e da Castro Alves (entre a Fernandes Vieira e a Felipe Camarão).

No fim, o prolongamento aberto foi da Vasco da Gama, mas os limites entre os bairros mantiveram-se inalterados, gerando uma situação curiosa: a linha imaginária passa por dentro de terrenos e edificações, e assim há pessoas que dormem em um bairro e fazem refeições em outro sem saírem de casa. E assim será enquanto um projeto de lei que redefine os limites de vários bairros da cidade não for sancionado – no caso de Bom Fim e Independência, a “fronteira” será justamente o traçado das ruas Irmão José Otão e Vasco da Gama.

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Assalto na Avenida Independência

Fui assaltado ontem em uma parada de ônibus na Avenida Independência, pouco depois das 20h. Após me encostar por baixo da roupa a ponta de uma suposta faca (talvez fosse até mesmo uma ponta de caneta, mas eu não quis tirar a dúvida), o ladrão pediu o celular (não pude mentir que não tinha pois pegara para ver a hora pouco antes); depois pediu o dinheiro mas não quis levar a carteira, como eu não estava com pouca grana o cara foi “gente boa” e me deixou 10 reais “para a passagem”. Prejuízos apenas materiais, portanto.

Fazia mais de 10 anos que não era assaltado, e obviamente me deu muita raiva de ter sido roubado por um homem que, talvez, nem estivesse realmente armado. Mas ao mesmo tempo, o acontecimento de ontem pode nos deixar lições, que vão além do clichê “tomar mais cuidado e não esperar ônibus num lugar com pouco movimento e mal iluminado”.

Como a de que carro passando na rua não é segurança (aliás, coisa que eu já sabia há muito tempo). A Independência é uma das principais vias que saem do Centro de Porto Alegre, e às 20h ainda tem considerável fluxo de veículos. Porém, falta o que realmente pode intimidar a ação de ladrões: pessoas nas calçadas. Após o horário comercial, a movimentação de pedestres na Independência cai muito, tornando-a bastante atraente a criminosos.

Por que cai o movimento? Podemos citar diversos fatores (dentre eles o fato da Independência ser uma via predominantemente residencial, com raros bares ou restaurantes que funcionem à noite). Mas o principal, sem dúvida alguma, é a cultura do medo tão arraigada em nossa sociedade.

Não entendeu? Então ligue a televisão, de preferência naqueles programas asquerosos do estilo mostra-a-cara-do-vagabundo. O que eles fazem não é jornalismo, é terrorismo. Se os levarmos a sério (e infelizmente, muita gente leva), vamos ficar trancados dentro de casa a maior parte da vida, apenas dando mais audiência a eles. Afinal, se é fato que há violência, ao mesmo tempo reparo que na esmagadora maioria das vezes que saí à rua não me aconteceu absolutamente nada.

Porém, tais “noticiários” em geral nos passam a ideia de que a rua é um lugar inóspito, extremamente perigoso. E acreditamos que devemos sair do trabalho, da aula etc., e ir direto para casa, sem escalas. Quanto menos tempo na rua, melhor!

O resultado é esse que senti na pele ontem e muita gente já conhece. As ruas deixam de ser espaços de sociabilidade, já que as pessoas preferem se encontrar no shopping. Tornam-se apenas pontos de passagem (que é feita predominantemente de carro, e não a pé), e por isso mesmo, mais perigosas. E pior ainda: pessoas assustadas aceitam qualquer medida que supostamente acabe com a causa de seu temor. Pode ser um Estado policial, ou mesmo a barbárie de um linchamento.

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Estamos, portanto, trilhando o caminho inverso ao de Bogotá (como mostra a ótima matéria feita por Renata Falzoni em 2010 com o ex-prefeito da capital colombiana, Enrique Peñalosa). Na década de 1990, a cidade era talvez a mais violenta do mundo, e seu trânsito era caótico. Peñalosa assumiu a prefeitura em 1998 e resolveu os dois problemas promovendo uma mudança de mentalidade: ao invés de alargar ruas e erguer viadutos, optou por melhorar o transporte coletivo e pela construção de ciclovias e vias para pedestres, estimulando a retomada das ruas pela população (o que ajuda a inibir a criminalidade, que despencou em Bogotá). Além disso, proibiu o estacionamento nas ruas com um argumento que, de tão óbvio, chega a dar raiva por não ser levado a sério no Brasil: o estacionamento não é um direito constitucional em nenhum país, e o fato das pessoas não terem onde estacionar seus automóveis particulares (ou seja, propriedades privadas) não é problema público.