Pedestre: cidadão de segunda classe

Hoje, no final da tarde, por um milésimo de segundo tive a impressão de que seria atropelado. Chegara à “esquina da agonia”, onde os carros têm um latifúndio de tempo para passar, em comparação com os pedestres. Esperava em cima da calçada, quando um carro veio em alta velocidade, dobrando à direita. Na hora, a impressão que deu era de que ele não venceria a curva, e recuei instintivamente. Porém, o motorista reduziu a velocidade e o hipotético “acidente” não aconteceu.

Cerca de um minuto depois, ainda esperava para atravessar, quando vi que outro pedestre aguardava já sobre a faixa, e não na calçada. Com isso, obviamente atrapalhou os carros (“estreitava” a rua para eles), recebendo xingamentos dos motoristas.

Quando finalmente atravessei, o sinal ainda não estava aberto para os pedestres: simplesmente o trânsito de carros tinha “trancado”, beneficiando quem anda a pé. Segui adiante, e quando cheguei à esquina da Sarmento Leite com a Independência, esperei que o semáforo de pedestres (aqueles com botoeira) abrisse para poder passar. Quando já estava amarelo para os veículos, um pedestre já se preparou para atravessar, quando um carro passou. Novamente, com motorista reclamando por ter cerceado seu inalienável direito de ignorar que o sinal amarelo significa “atenção” e não “siga” (que é simbolizado pelo verde).

Podemos dizer que em ambos os casos, os pedestres agiram errado: no primeiro caso, deveria ter aguardado na calçada, por segurança; já no segundo, havia faixa de segurança mas também semáforo, e nesses casos a prioridade não é sempre do pedestre, ainda mais quando o sinal ainda não está verde (na “esquina da agonia” há semáforo em apenas uma das ruas, e a faixa à qual me referi fica na outra). Logo, não têm que reclamar de nada, certo?

Errado. Pois mesmo tendo cometido erros, ao mesmo tempo eles são amplamente prejudicados (assim como todos nós que andamos a pé) por conta da total prioridade aos automóveis. Mesmo que todos os veículos automotores seguissem rigorosamente a lei, sem nenhuma infração, ainda teriam vantagem sobre os pedestres, pelo simples fato de que os semáforos lhes dão muito mais tempo.

Uma injusta vantagem, pois nós, pedestres, além de andarmos mais devagar (exceto quando acontecem congestionamentos, embora isso seja cada vez mais comum), também temos nossos horários a cumprir. Porém, faz sentido em cidades onde tudo é pensado de forma a privilegiar quem usa carro. Pedestre não tem quatro rodas nem motor, portanto, é tratado como cidadão de segunda classe.

Por que Porto Alegre parou segunda-feira?

Na Zero Hora de hoje, disseram que o problema são as ruas da cidade, estreitas demais. Na mesma edição, mas em outra página, está a resposta para a pergunta que é título do post – claro que não na opinião de ZH…

O jornal saúda a ampliação da fábrica da GM em Gravataí. Dali sairão milhares de automóveis que ajudarão a entupir ainda mais as ruas das grandes cidades brasileiras. De nada adiantará alargar avenidas, construir viadutos etc.: isso apenas fará mais carros entrarem em circulação. Não adianta nada.

A medida mais urgente a ser tomada é a melhora do transporte público, para que as pessoas que andam sozinhas em seus carros percebam que há uma alternativa de qualidade. Outra boa ideia é dotar as cidades de abrangentes malhas cicloviárias, como se fez em Bogotá.

Mas também é urgentemente necessária uma mudança de mentalidades. De nada adiantará termos uma rede de ciclovias que interligue a cidade toda, e também um sistema de transporte público perfeito, enquanto a posse de um automóvel representar status. É preciso desconstruir tal visão de mundo: ela está contribuindo sobremaneira para o caos nas ruas.

Uma pequena contribuição para isso é o excelente documentário Sociedade do Automóvel, de Branca Nunes e Thiago Benicchio. Apenas 39 minutos que esclarecem bastante.