30 anos sem Garrincha

Garrincha

Algum de seus muitos irmãos batizou-o de Garrincha, que é o nome de um passarinho inútil e feio. Quando começou a jogar futebol, os médicos o desenganaram: diagnosticaram que aquele anormal nunca chegaria a ser um esportista. Era um pobre resto de fome e de poliomielite, burro e manco, com um cérebro infantil, uma coluna vertebral em S e as duas pernas tortas para o mesmo lado.

Nunca houve um ponta direita como ele. No Mundial de 58, foi o melhor em sua posição. No Mundial de 62, o melhor jogador do campeonato. Mas ao longo de seus anos nos campos, Garrincha foi além: ele foi o homem que deu mais alegria em toda a história do futebol.

Quando ele estava lá, o campo era um picadeiro de circo; a bola, um bicho amestrado; a partida, um convite à festa. Garrincha não deixava que lhe tomassem a bola, menino defendendo sua mascote, e a bola e ele faziam diabruras que matavam as pessoas de riso: ele saltava sobre ela, ela pulava sobre ele, ela se escondia, ele escapava, ela o expulsava, ela o perseguia. No caminho, os adversários trombavam entre si, enredavam nas próprias pernas, mareavam, caíam sentados.

Garrincha exercia suas picardias de malandro na lateral do campo, no lado direito, longe do centro: criado nos subúrbios, jogava nos subúrbios. Jogava para um time chamado Botafogo, e esse era ele: o Botafogo que incendiava os estádios, louco por cachaça e por tudo que ardesse, o que fugia das concentrações, pulando pela janela, porque dos terrenos baldios longínquos o chamava alguma bola que pedia para ser jogada, alguma música que exigia ser dançada, alguma mulher que queria ser beijada.

Um vencedor? Um perdedor com boa sorte. E a boa sorte não dura. Bem dizem no Brasil que se merda tivesse valor, os pobres nasceriam sem cu.

Garrincha morreu sua morte: pobre, bêbado e sozinho.

(Eduardo Galeano. Futebol ao Sol e à Sombra. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 118-119.)

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Suécia, junho de 1958. Após estrear na Copa do Mundo com vitória de 3 a 0 sobre a Áustria, o Brasil ficou no 0 a 0 contra a Inglaterra. Na última rodada, teria pela frente a União Soviética: apesar de estreante em Copas, tinha Lev Yashin no gol (um dos maiores goleiros de todos os tempos), vinha badalada pela medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Melbourne (1956) e, dizia-se, jogava um “futebol científico”. Se o Brasil perdesse para a URSS e a Inglaterra vencesse a Áustria, estaria eliminado.

A má atuação contra a Inglaterra, somada ao risco de eliminação em caso de derrota, motivou o técnico Vicente Feola a mexer no time para o jogo contra a URSS: saíram Joel, Mazzola e Dino Sani para a entrada de Garrincha, Pelé e Zito. (Por muitos anos se disse que os jogadores teriam procurado o técnico e sugerido as mudanças, fato negado por Zito.)

Na preleção, Feola mostrava como o time deveria se postar para vencer o “futebol científico” dos soviéticos. Foi quando Garrincha manifestou sua curiosidade: “já combinaram com os russos?” – sim, pelo que o técnico dizia seria muito fácil, parecia estar combinado com o adversário… Uma amostra do temperamento um tanto ingênuo que caracterizava o “anjo das pernas tortas”. (Diz-se que quando chegou ao Botafogo para fazer um teste, ninguém acreditava que poderia jogar futebol, até ele dar um drible desconcertante em Nílton Santos, melhor jogador do time – após o lance, o próprio Nílton teria dito “contratem ele agora”.)

Porém, Mané Garrincha não precisava combinar com ninguém. Como “cartão de visitas”, entortou os soviéticos e meteu uma bola na trave de Yashin logo no começo do jogo. Com dois gols de Vavá, o Brasil venceu por 2 a 0 e arrancou para a conquista de sua primeira Copa do Mundo.

Com Pelé e Garrincha jogando juntos, “derrota” foi uma palavra inexistente no dicionário da Seleção Brasileira. Tanto que em 1966 o Brasil caiu na primeira fase da Copa da Inglaterra após uma preparação muito bagunçada, mas na estreia venceu a Bulgária por 2 a 0 – justamente a última partida em que Pelé e Garrincha jogaram juntos. Nos jogos seguintes, duas derrotas por 3 a 1 para Hungria (única vez que a Seleção perdeu com Garrincha) e Portugal eliminaram o Brasil do Mundial.

No Mundial do Chile, em 1962, Pelé se machucou no segundo jogo, contra a Tchecoslováquia. Mau sinal para o Brasil? Não, pois Garrincha estava com tudo. A Copa de 1962 foi sua. Na semifinal contra os donos da casa, motivou o jornal chileno El Mercurio a perguntar de que planeta teria vindo aquele gênio com duas pernas tortas para o mesmo lado.

Caçado pelos chilenos, acabou expulso ao revidar um pontapé, mas foi liberado pela FIFA para jogar a final contra a Tchecoslováquia (diz-se que a liberação se deveu ao temor de que uma seleção do “bloco soviético” ganhasse a Copa). Nada que manche tudo o que Mané fez naquele Mundial – até porque, com febre de quase 40°C, Garrincha não jogou contra os tchecos o mesmo futebol que já tinha mostrado antes.

Porém, a lenta decadência começou pouco tempo depois da Copa de 1962. Aos hábitos de fugir das concentrações e beber demais (tolerados porque ele barbarizava em campo), somou-se um problema nos joelhos, cuja recuperação não evoluía justamente porque Garrincha não se cuidava. Acabou dispensado pelo Botafogo no final de 1965, foi para o Corinthians e, depois, teve passagens rápidas por vários clubes, sem jogar o mesmo futebol que o consagrara.

Garrincha acabou vitimado por uma cirrose hepática em 20 de janeiro de 1983, fruto de seu excessivo consumo de álcool.

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“Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Molnár

Sábado passado, foi combinado que eu faria o almoço que alimentaria meu pai, minha avó, minha tia, meu irmão e eu próprio. Ao invés de comermos massa mais uma vez, saboreamos um goulash (gulyás, em húngaro), prato originado na Hungria e também bastante apreciado na Áustria (herança dos tempos de Império Áustro-Húngaro).

A simples decisão do que fazer de almoço no 1º de maio me fez lembrar o livro Os Meninos da Rua Paulo, do escritor húngaro Ferenc Molnár, lido por mim várias vezes. Mas cuja última leitura ocorrera há muito tempo – provavelmente antes de 2004, quando ingressei na faculdade de História – e então decidi o ler novamente, o que fiz rapidamente.

Lembro até hoje de como “descobri” o livro. Veio numa “leva” que foi dada por uma amiga da minha mãe. Um dia meu pai passou os olhos por aqueles livros (cuja maioria mantinha-se intocada por mim), e os olhos dele brilharam quando enxergaram Os Meninos da Rua Paulo. “Esse livro é SENSACIONAL!”, disse ele entusiasmado.

Foi só eu ler para comprovar o quanto meu pai estava certo. É uma história simplesmente fantástica, de um grupo de meninos de Budapeste que costumava brincar em um terreno baldio na Rua Paulo (Pál Utca, em húngaro), no final do século XIX. Aquele pequeno pedaço de chão, para os garotos, era mais do que um lugar onde eles se reuniam para jogar pela: era sua terra (grund, em húngaro), quase como uma espécie de “pátria” – o que fazia todo o sentido numa época em que a Europa inteira vivia uma intensificação do nacionalismo por todas as partes. Em alguns trechos, Molnár refere-se à turma da Rua Paulo como “nós”, o que mostra não só que o grupo existiu de verdade (provavelmente não com os mesmos nomes), como que ele próprio o integrava.

Porém, o grund dos meninos estava ameaçado. Pois um outro grupo de garotos, que costumava se reunir no Jardim Botânico da capital húngara, desejava apossar-se do terreno da Rua Paulo, devido à falta de espaço para jogar pela em seu “território”. Uma “guerra” entre crianças aproximava-se. De brincadeira, é claro (ninguém tinha intenção de matar), mas com todos os aspectos dos conflitos de verdade na época: espionagem, deserção, “missões diplomáticas” e até mesmo “declaração de guerra”. E ambos os grupos davam grande valor à honra: mesmo “inimigos”, havia muito respeito entre eles, além de reconhecimento por atos heroicos dos adversários.

Há também, como em outras histórias, aqueles personagens que mais se destacam. No caso de Os Meninos da Rua Paulo, tratam-se de János Boka e Ernõ Nemecsek – que encontram-se nos extremos da “hierarquia militar” da turma: Boka é o presidente do grupo e general, enquanto Nemecsek, mais pobre dos meninos, é soldado-raso.

A propósito, Nemecsek, mais que um personagem heroico (já falei demais, para saber o porquê, leia o livro!), representa também uma crítica à sociedade da época: num contexto de exaltação às “nacionalidades”, quem mais lutava por elas (ou seja, o povo) era pouco ou nada reconhecido, enquanto os que decidiam fazer as guerras não participavam das batalhas e ainda eram condecorados. Aliás, nada muito diferente da atualidade.

Outro aspecto que tem semelhança com a atualidade, refere-se à ameaça que pairava sobre o grund, devido ao interesse dos meninos do Jardim Botânico pela área. Pois o perigo maior, na verdade, não era a outra turma de garotos.

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Impossível ler um livro desses e não lembrar um pouco de minha própria infância. Quando, se não fazíamos “guerra”, tínhamos também aquele sentimento de pertencimento a um grupo, que tinha um “território” – que no nosso caso, correspondia a um pequeno trecho da Rua Pelotas entre a Rua São Carlos e a Avenida Cristóvão Colombo (mas sem necessariamente chegar às esquinas, o que inclusive não nos era recomendado por nossos pais). Inclusive, uma vez demos uma volta na quadra com nossas bicicletas, sozinhos, e a sensação foi de que íamos a um “país inimigo” – imaginem a nossa satisfação pelo ato de coragem que tínhamos cometido!

Era em nosso “território” que jogávamos futebol, apostávamos corrida de bicicleta… Pelo menos nunca precisamos fazer “guerra” para defendê-lo. Mas seria interessante que as crianças de hoje o conquistassem: por culpa da paranoia da segurança, só ficam dentro de casa, brincando com jogos eletrônicos e assistindo televisão.

As Copas que eu vi: França 1998

O ano de 1998 começou de forma terrível para mim. Tão ruim que antes mesmo do Carnaval (que é quando começam, na prática, todos os anos no Brasil), eu já queria que chegasse logo 1999. Tudo por causa daquele 5 de janeiro, que considerei como o pior dia da minha vida por quase nove anos.

Mas, aos poucos, aquela dor perdeu boa parte de sua intensidade, e o ano de 1998 foi se transformando em ótimo. Primeiro, porque em abril foi confirmado que aconteceria em agosto a viagem a Montevidéu, para a realização de intercâmbio cultural entre o Colégio Marista São Pedro – onde cursei o 2º grau (1997-1999) – e o Instituto de los Jóvenes (IDEJO), colégio da capital uruguaia. Mas também porque se aproximava a Copa do Mundo da França. Enfim, chegava ao fim aquela longa espera de quatro anos iniciada em julho de 1994! E desta vez haveria mais jogos: o número de seleções participantes foi ampliado de 24 para 32. Continuar lendo