25 anos da “superquarta”

É “tiro e queda”: toda vez que há vários jogos decisivos acontecendo no mesmo dia, ele vira “super”. Lembro de diversas “superquartas” e mesmo de “superdomingos”. (Existe também a “superterça” nos Estados Unidos, mas aí não tem nada a ver com futebol e sim com política, devido à realização de eleições primárias em vários estados, sendo assim um dia muito importante para a definição de quem se candidatará à presidência do país.)

Mas de todas as “superquartas” que já vi, nenhuma me marcou como 17 de novembro de 1993. Era um dia no qual se definiam várias seleções classificadas para a Copa do Mundo que ocorreria nos Estados Unidos em 1994, e também começava a decisão da Supercopa Libertadores daquele ano, entre Flamengo e São Paulo – que seria campeão.

Em 1993 eu estava na 5ª série do 1º grau e estudava à tarde, por isso perdi os primeiros jogos decisivos daquele 17 de novembro. Muito embora não fosse possível acompanhar muita coisa: ainda não tínhamos NET em casa, provavelmente o máximo que poderia assistir seria a um amistoso entre Alemanha e Brasil, vencido pelos alemães por 2 a 1. Tal confronto, que jamais ocorrera em uma Copa do Mundo até então, era cotado para ser a final do Mundial dos Estados Unidos: o Brasil faria a sua parte indo à decisão, mas seria contra a Itália, já que a Alemanha cairia diante da Bulgária nas quartas-de-final. (O primeiro encontro entre brasileiros e alemães em uma Copa aconteceria apenas na final de 2002, já o segundo… Deixa pra lá.)

A derrota alemã diante da Bulgária seria surpreendente, mas não tão inacreditável como poderia parecer nos dias de hoje. Pois aquela geração búlgara, comandada pelo genial Hristo Stoichkov, era a melhor da história do país (um time bem superior à Coreia do Sul de 2018). A Bulgária chegou aos Estados Unidos eliminando ninguém menos que a França, em algo bem parecido com um “Maracanazo”: os franceses jogavam por um empate em casa e saíram na frente, mas logo os búlgaros buscaram o empate; no último minuto do tempo regulamentar, quando a vaga já parecia perdida, Kostadinov marcou o gol histórico.

A classificação histórica também indicava que a Bulgária quebraria sua escrita negativa em Copas: jamais vencera uma partida até então. A estreia não seria nada animadora, com derrota de 3 a 0 para a Nigéria, mas na partida seguinte os búlgaros cobrariam a fatura “com juros e correção monetária”: 4 a 0 sobre a Grécia, estreante em Mundiais. A vaga grega veio com uma bela campanha nas eliminatórias europeias que foi encerrada justamente naquele 17 de novembro, com uma vitória por 1 a 0 sobre a Rússia. Dizer que o gol de Nikos Machlas “incendiou” o Estádio Olímpico de Atenas não me parece exagero.

No começo da noite, no Jornal Nacional (naquela época eu o assistia) fiquei sabendo dos jogos da tarde. Logo depois começou a novela e fui para o quarto esperar o jogaço que pude assistir naquela quarta-feira: Flamengo x São Paulo, abrindo a final da Supercopa Libertadores. No mesmo horário em que a Argentina, que no começo de setembro levara 5 a 0 da Colômbia em casa, enfrentava a Austrália disputando a última vaga na Copa do Mundo.

Em Buenos Aires, a Argentina fez o que dela se esperava e se classificou para a Copa, mas com uma magra vitória de 1 a 0.

Já no Maracanã, não faltou emoção. Leonardo abriu o placar para o São Paulo aos 15 do primeiro tempo, mas Marquinhos empatou aos 35 e virou no início do segundo tempo. Mas no final do jogo, quando a vitória flamenguista – e a consequente vantagem para a partida da volta, no Morumbi – já parecia garantida, Juninho (que ainda não tinha o complemento “Paulista”) empatou, e a partida acabou em 2 a 2.

Aquela “superquarta” foi tão “super” que sequer terminou ali. Pois o segundo jogo da final, na quarta-feira seguinte (24 de novembro) foi tão sensacional quanto o primeiro. O mais incrível é que a sequência de gols foi a mesma de uma semana atrás, apenas “invertendo os times”: o Flamengo abriu o placar aos 9 minutos do primeiro tempo com Renato Portaluppi, o São Paulo empatou com Leonardo aos 16 do segundo tempo e virou com Juninho aos 34, mas logo depois Marquinhos determinou um novo 2 a 2, levando a decisão do título para os pênaltis. O flamenguista Marcelinho (que ainda não tinha o complemento “Carioca” pois, afinal, jogava em um clube do Rio) desperdiçou a segunda cobrança rubro-negra; já o São Paulo acertou todas, venceu por 5 a 3 e levantou sua penúltima taça de um ano muito vitorioso que culminaria com a conquista do bicampeonato mundial menos de um mês depois, em Tóquio, contra o poderoso Milan. (A propósito, aquele time comandado por Telê Santana dava tanto gosto de ver jogar que eu só conseguia torcer contra quando enfrentava o Grêmio.)

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Eliminatórias da Euro 2016: por que Gibraltar pode jogar, e Catalunha e País Basco não?

O fato esportivo da sexta-feira foi, sem dúvida alguma, a partida entre Alemanha e Gibraltar, em Nuremberg, válida pelas eliminatórias da Eurocopa de 2016. Quatro meses e um dia depois de conquistar seu quarto título mundial, a Seleção Alemã venceu por 4 a 0 e ouviu algumas vaias de uma torcida exigente e que espera ver o time repetir as mesmas atuações da Copa do Mundo. (Talvez os alemães estejam precisando de um joguinho com o Brasil – sabem como é, para “arrumar a casa”…)

Para os gibraltinos, perder por apenas 4 a 0 para os campeões mundiais foi uma façanha histórica. Não simplesmente por terem levado em 90 minutos (e na casa do adversário) o mesmo número de gols que a Seleção Brasileira tomou em menos de 30 na semifinal da Copa (jogando diante de sua torcida). É que a associação de futebol do pequeno território só foi aceita na UEFA (e ainda não na FIFA) em 2013, com sua seleção tendo disputado sua primeira partida oficial há menos de um ano (e, vamos combinar, começou bem: empate em 0 a 0 com a Eslováquia, que na Copa de 2010 eliminou a Itália).

Gibraltar é uma pequena península rochosa localizada ao sul da Espanha, e que a este país pertenceu até 1713, quando foi cedida ao Reino Unido pelo Tratado de Utrecht. Porém, posteriormente o Estado espanhol voltou a reivindicar o “rochedo” como parte integrante de seu território, e durante a ditadura de Francisco Franco a Espanha decidiu fechar a fronteira com Gibraltar, “isolando” a península (situação que perdurou até 1985) e tornando possível a chegada ou saída apenas por via marítima ou aérea: sim, o pequeno território possui um aeroporto que devido à falta de espaço tem a pista atravessada por uma avenida, cujo trânsito de veículos é interrompido quando algum avião pousa ou decola.

Mesmo possuindo aeroporto, Gibraltar não tem como abrigar as partidas de sua seleção de futebol pelas eliminatórias da Euro 2016 pois seu único estádio, com capacidade para 5 mil pessoas, não atende às exigências da UEFA. Devido à rejeição espanhola à filiação da Associação de Futebol de Gibraltar, o selecionado mandará seus jogos em Portugal.


A oposição espanhola a Gibraltar não impede sua seleção de disputar partidas oficiais pois o “rochedo” tem a “sorte” de pertencer ao Reino Unido, e não à Espanha. Segundo o artigo 10 dos estatutos da FIFA (à qual a UEFA é submissa), para uma seleção nacional poder disputar competições internacionais, sua associação precisa representar um país independente ou ter autorização expressa da associação do país ao qual pertence a região por ela representada; mas o mesmo artigo reconhece as quatro associações britânicas (inglesa, escocesa, galesa e norte-irlandesa) como membros independentes.

O resultado disso? Como Gibraltar é pertencente ao Reino Unido, sua associação não precisa de autorização para poder se filiar à UEFA (e muito provavelmente, logo integrará também a FIFA), já que não existe uma entidade única britânica.

Em compensação, a Espanha tem uma associação única (Real Federação Espanhola de Futebol), que não autoriza a filiação das associações da Catalunha e do País Basco, regiões cuja identidade não é meramente regional: tratam-se de nacionalidades históricas, com idiomas próprios – a língua basca, inclusive, não tem nenhum parentesco com a castelhana. O resultado disso é que as partidas disputadas pelas seleções da Catalunha e do País Basco sempre são amistosos sem caráter oficial, mesmo que os adversários sejam filiados à FIFA (caso do Brasil, que já enfrentou – e venceu – duas vezes a Seleção Catalã).


Em abril de 2001, a pequena cidade australiana de Coffs Harbour sediava uma das etapas das eliminatórias da Oceania para a Copa do Mundo de 2002. A Austrália (na época ainda filiada à Confederação Oceânica) era favorita não só por jogar em casa, mas também devido ao nível dos adversários, todos amadores: Fiji, Tonga, Samoa e Samoa Americana – esta última era uma dependência dos Estados Unidos, onde o futebol mais apreciado pela população é aquele cuja bola é oval.

A Austrália estreou no dia 9 de abril, aplicando 22 a 0 em Tonga. Achou muito? Pois dois dias depois os anfitriões foram ainda mais arrasadores: 31 a 0 sobre Samoa Americana, estabelecendo os recordes de maior goleada tanto de partidas entre seleções como de jogos organizados pela FIFA; com 13 gols marcados, o australiano Archibald Thompson tornou-se o maior artilheiro de uma só partida de futebol. Assistindo ao vídeo com os gols do jogo, é fácil perder as contas.

Três dias depois a Austrália venceu Fiji por (apenas) 2 a 0, e em 16 de abril encerrou a demolidora campanha na fase goleando Samoa por 11 a 0. Em apenas quatro partidas, os australianos marcaram 66 gols: para se ter uma ideia, o melhor ataque do Campeonato Brasileiro de 2014 até agora é do líder Cruzeiro, que balançou as redes adversárias 60 vezes em 34 jogos.


Por que tal lembrança? Para chamar a atenção quanto a esta bizarra situação: seleções de pequenos países (que não são independentes) como Samoa Americana e Gibraltar têm direito (e isso está corretíssimo) a disputar competições internacionais, enquanto outras de nações maiores e que contam inclusive com idioma próprio (casos da Catalunha e do País Basco) podem apenas jogar amistosos sem reconhecimento oficial.

A eficácia do que não é escrito

O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário.*

A citação acima, de Pierre Bourdieu, nos ajuda a entender melhor seu conceito de “poder simbólico”. Trata-se daquela dominação que não é explícita, não existe “formalmente” e, por isso mesmo, é mais complicada de ser combatida: afinal, luta-se contra um adversário que não é facilmente distinguível.

O machismo, por exemplo. Não há nenhuma lei que estabeleça a dominação masculina em nossa sociedade. A Constituição brasileira determina a suposta igualdade entre ambos os sexos, e o voto de um homem vale exatamente o mesmo que o de uma mulher. Porém, a prática nos mostra algo diferente: mulheres cumprindo a mesma tarefa que homens e ganhando salários menores, objetificação de seus corpos (aos quais não têm pleno direito, como prova a criminalização do aborto), culpabilização por violência sofrida etc. Contra isso se levantam as feministas, só que o senso comum – que em uma sociedade machista não teria como ser diferente – reage falando da teórica igualdade; alguns vão além e dizem que “as mulheres têm mais direitos que os homens” citando exemplos do tipo “elas não precisam se alistar aos 18 anos” (sendo preciso ignorar que até o início do Século XX – ou seja, “ontem” em termos históricos – a guerra era idealizada; em um contexto de exaltação das nacionalidades, nada mais honroso do que “lutar pela pátria” mesmo correndo o risco de sacrificar a própria vida – o que era, obviamente, “coisa de homem”) ou o fato da licença-maternidade ser maior que a paternidade (o que é fruto da ideia de que cuidar das crianças é tarefa feminina).

Podemos citar diversas outras formas sutis de dominação, que não estão estabelecidas formalmente, não são expressas por leis escritas. Convenções sociais, ideias que são “senso comum”, aparentemente inofensivas e por isso difíceis de serem combatidas.

Uma delas diz respeito ao racismo no Brasil. O “senso comum” fala na tal de “democracia racial”, que não somos um país racista, que não temos leis segregacionistas etc. Porém, até 1888 (novamente, “ontem” em termos históricos) existia oficialmente escravidão, e em consequência disso a maioria da população negra vive na pobreza. Inclusive, há estudiosos que usam a expressão “apartheid social” para se referir à imensa desigualdade no Brasil, em alusão ao racismo institucionalizado na África do Sul de 1948 a 1994. Continuar lendo

Alguns fantasmas não vão embora

Pouco antes da Copa do Mundo de 1998, foi muito comentada uma tal de “pirâmide da Copa”, divulgada provavelmente por um jornal inglês (não recordo com exatidão). Segundo ela, a Inglaterra ganharia o Mundial da França por mera “questão geométrica”.

O topo da tal “pirâmide” correspondia à Copa de 1982, vencida pela Itália. No degrau abaixo (à esquerda e à direita), as conquistas da Argentina em 1978 e 1986. Descendo mais um pouco, dois títulos da Alemanha (1974 e 1990). Na sequência, a correspondência entre 1970 e 1994, Copas vencidas pelo Brasil. Logo, o campeão de 1998 seria o mesmo de 1966. Portanto, daria Inglaterra.

Porém, o English Team caiu cedo, nas oitavas-de-final, perdendo nos pênaltis para a Argentina. E aquela Copa, como bem lembramos, foi vencida pela França. A “pirâmide” estava sepultada, como mais uma superstição que perdia o sentido, certo?

Errado! Pois houve coincidências entre as Copas de 1966 e 1998, sim. A primeira delas: suas campeãs (Inglaterra e França) conquistavam o título pela primeira vez, e jogando em casa. Mas teve mais: em ambos os Mundiais seleções estreantes acabaram em 3º lugar e também tiveram o artilheiro – Portugal e Eusébio (1966), Croácia e Suker (1998).

Desta forma, a “pirâmide” continuava em vigor, e apontava que não era preciso toda aquela preocupação com a má campanha brasileira nas eliminatórias do Mundial de 2002: o campeão seria o mesmo de 1962, portanto, o Brasil. E em 2006 a Seleção seria campeã mais uma vez, jogando na Europa da mesma forma que em 1958… Exatamente como o previsto.

Até 2002 tudo funcionou direitinho, mas em 2006 a “pirâmide” foi novamente sepultada: o Brasil foi eliminado nas quartas-de-final, e a Itália foi campeã. Poderia ser um “ponto fora da reta”, e em 2010 as coisas voltariam ao normal com a Alemanha ganhando a taça, da mesma forma que em 1954. E, de fato, os alemães jogaram muito na África do Sul, mas quem levou a Copa foi a Espanha.

Desta forma, soa absurdo lembrar novamente a “pirâmide”, segundo a qual o campeão de 2014 seria o mesmo de 1950 – ou seja, o Uruguai. Porém, há fantasmas que não vão embora.

Todos temos acontecimentos traumáticos em nossas vidas. Feridas que parecem jamais cicatrizar. Por mais coisas boas que aconteçam, aquele dia em que tudo saiu errado dá a impressão de que sempre está a espreita, pronto para voltar.

Algo assim se passa sempre que brasileiros e uruguaios se enfrentam no futebol: é como se fosse ligada uma máquina do tempo que sempre leva todos (jogadores, torcedores, jornalistas etc.) de volta a 16 de julho de 1950. O Brasil, mesmo com cinco Copas do Mundo conquistadas após aquele dia, ainda sente a dor da derrota em casa. Já para o Uruguai, mesmo nos piores momentos vividos por seu futebol nas décadas de 1990 e 2000, as lembranças daquela vitória davam a sensação de que sí, se puede: se batera uma seleção mais forte e que contava com o apoio de 200 mil pessoas no estádio, nada era impossível.

Nada era, e nada é. Até 2006, provavelmente o maior alento ao sonho uruguaio de voltar a ganhar uma Copa do Mundo era a tal “pirâmide”. Que, como foi dito, “morreu” quando Zidane e Henry acabaram com o Brasil nas quartas-de-final. Vale lembrar que o Uruguai sequer disputou aquele Mundial, tendo sido eliminado pela Austrália na repescagem.

A Celeste voltou à Copa em 2010, novamente via repescagem, quando derrotou a Costa Rica. Ninguém esperava muito, mas os orientales voltaram a acreditar que era possível: o Uruguai passou com dificuldades pela Coreia do Sul nas oitavas-de-final, é verdade, mas superou Gana em uma partida dramática nas quartas e deu trabalho à fortíssima Holanda nas semifinais. Como se não bastasse, Forlán ainda foi eleito o melhor jogador do Mundial.

Em 2011, mais sinais do “renascimento”. Na Libertadores, o Peñarol foi vice-campeão diante do Santos, 23 anos após a última vez que um clube uruguaio chegara à final. Um mês depois, a Celeste conquistou a Copa América na Argentina, e credenciava-se, assim, a obter a classificação para o Mundial de 2014 com facilidade.

Porém, não foi o que aconteceu. Após arrancar bem nas eliminatórias, o Uruguai “patinou”, e chegou a correr riscos de ficar fora da Copa do Mundo. No fim, conseguiu acabar em 5º lugar e disputar a repescagem contra a fraca Jordânia: após vencer por 5 a 0 em Amã, “tirou o pé” em Montevidéu e ficou no 0 a 0. Uma campanha medíocre dessas é sinal de que a Celeste fará figuração na Copa, certo?

Porém, nas eliminatórias para 2010 o Uruguai também não foi lá muito bem (com direito a levar 4 a 0 do Brasil em pleno Estádio Centenário). Ninguém esperava muito, e acabou chegando à semifinal.

E além disso, há o “fantasma” de 1950, que automaticamente transforma a Celeste em candidata ao título. Mesmo que a lógica aponte outras seleções como favoritas (casos de Brasil, Argentina, Alemanha, Espanha, Itália etc.), a mística tem sua força. De modo que, enquanto o Uruguai estiver na disputa, a possibilidade da taça retornar a Montevidéu não pode ser descartada, de forma alguma.

Por conta disso, a Puma (fornecedora de material esportivo da Celeste) produziu esta genial peça publicitária, em homenagem à classificação uruguaia. A Copa é no Brasil e a final é no Maracanã… Portanto, um fantasma assombra o Mundial: el Fantasma del 50.

Duas décadas em um piscar de olhos

A passagem do tempo é algo muito interessante. Sabemos que a cada dia que passa estamos mais perto da morte, essa coisa que tanto assusta mas que no fundo é o que de mais democrático existe (afinal, é o destino inexorável de todos nós, pouco importando renda, etnia, sexo ou clube do coração). Só que não costumamos parar para pensar nisso, até que alguém lembra que se passou bastante tempo de um fato importante.

Hoje, 4 de julho de 2013, a seleção da Argentina completa vinte anos sem levantar taças. Não são só dez, são vinte. Duas décadas. Duas vezes dez anos. Mas quem acha que o restante do texto é flauta e que no fim “reclamarei” que o Brasil não ganha nada há quatro dias, pode parar de ler. Não, melhor… Continue lendo.

Constatar que a Argentina está há 20 anos sem erguer um troféu no futebol me fez perceber que muita coisa mudou de lá para cá. Afinal, lembro daquela Copa América, decidida num aparentemente “próximo” 4 de julho de 1993, com vitória argentina de 2 a 1 sobre o México.

  • Estava na 5ª série, ia bem em todas as matérias, exceto em Educação Artística, na qual quase peguei recuperação. O final daquele ano foi o mais dramático que tive no colégio, e quando a professora anunciou as médias finais vibrei e disse “escapei da repescagem”. Referência justamente à situação da Argentina nas eliminatórias para a Copa de 1994, quando só obteve classificação via repescagem, “com as calças na mão” contra a Austrália;
  • Ainda tinha bastante cabelo, e não queimava a cabeça nos dias de verão;
  • O presidente do Brasil era Itamar Franco, que há menos de um ano assumira o cargo no lugar do destituído Fernando Collor;
  • Nunca tinha ouvido falar de Fernando Henrique Cardoso. De Lula e Brizola sim, pois lembrava da campanha eleitoral de 1989;
  • Na minha carteira, carregava cruzeiros. Ou melhor, logo a esvaziava, pois mesmo sem me desfazer das notas o dinheiro se ia, comido pela hiperinflação;
  • Quando me perguntavam o que seria quando crescesse, dizia “médico”. Ideia que alimentaria por mais quatro anos, até as primeiras aulas de Biologia no 2º grau;
  • Das aulas de Geografia, lembro muito bem que a professora tinha pedido que sempre levássemos um atlas. O meu era novo, mas os de alguns colegas eram um pouco mais antigos e em seus mapas aparecia um gigantesco país chamado “União Soviética”;
  • Aliás, por que raios de motivos a URSS tinha deixado de existir? Eu ainda nem sabia…

A arrancada do Brasil em Londres

Por um certo tempo, no sábado, aconteceu algo que não lembro de ter visto alguma vez nos Jogos Olímpicos. Enquanto acompanhava o tênis de mesa masculino, veio a informação de que o nadador Thiago Pereira conquistara a medalha de prata nos 400 metros medley. Com esta prata, o Brasil passava a ocupar, naquele momento, o segundo lugar no quadro de medalhas dos Jogos de Londres, com um ouro, uma prata e um bronze. Estávamos à frente dos Estados Unidos, e atrás somente da China.

Além da medalha de Thiago Pereira na natação, mais duas vieram do judô: Sarah Menezes, na categoria até 48kg, ganhou o primeiro ouro para as mulheres brasileiras no esporte; já no masculino, Felipe Kitadai foi bronze na categoria até 60kg.

Claro que depois o Brasil caiu algumas posições, visto que não ganhou mais medalhas desde então – no momento que escrevo, ocupa o oitavo lugar, empatado com Austrália e Hungria. Porém, essas três medalhas dão uma amostra do que é necessário para um país estar “nas cabeças” em Jogos Olímpicos: incentivar a prática esportiva em geral, não apenas as modalidades coletivas como futebol, vôlei e basquete, que possibilitam apenas duas medalhas para o país – uma no masculino e outra no feminino.

Nos dois esportes que deram medalhas ao Brasil até agora, há várias possibilidades de se subir ao pódio. Inclusive com mais de uma medalha por categoria, como na natação – nos 400 metros medley feminino, o ouro e o bronze ficaram com nadadoras chinesas.

O mais importante, porém, não é ganhar medalhas, e sim, oferecer perspectivas de futuro à juventude através da prática esportiva (que também beneficia a saúde, tanto física quanto mental). Quando há o fomento à formação de novos atletas, a tendência é que os bons resultados apareçam – com ou sem medalhas. Diferentemente de quando o talento em uma modalidade surge esporadicamente: ele acaba carregando sobre os ombros a responsabilidade de “ser o Brasil”, e não “mais um brasileiro”; aí, quando não vence (o que é a coisa mais normal no esporte), acaba sendo visto como “fracassado” – quando deveria mesmo é ser exaltado, servir de exemplo, por ir longe representando as cores de um país que pouco o incentivou.

E quando falo de incentivo, não me refiro apenas a torcer. É fundamental que já na escola as crianças pratiquem diversos esportes, e não só futebol, vôlei e basquete. E é também necessário aporte financeiro aos atletas, por meio de patrocínios da iniciativa privada, e mesmo apoio estatal (Sarah Menezes, por exemplo, é beneficiária do programa federal Bolsa Atleta), para que eles possam se dedicar integralmente aos treinamentos, se mantendo sem a necessidade de trabalhar com outras atividades* (o que resulta em menos tempo para treinar).

“Governo dar dinheiro pra vagabundo treinar ao invés de trabalhar? Nem pensar!”, dirão os de mentalidade tacanha. Quem pensa assim, não tem o direito de reclamar que o Brasil ganhe poucas medalhas.

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* Atualização em 30/07/2012, 19:07. O Hélio fez um comentário me dando um necessário “puxão de orelhas”: o trabalho de um atleta profissional é… Ser atleta! Assim como o do pesquisador acadêmico é ser pesquisador. Para ver só: de tão acostumado a conviver com pessoas que não veem certas atividades como trabalho, acabei “pisando em casca de banana”.

A melhor não é daqui

A cerveja Polar, uma das mais apreciadas no Rio Grande do Sul, deu início a uma campanha de comunicação com direito a uma nova página de internet, que à primeira vista parece mostrar que se trata realmente de uma cerveja “muito gaúcha”.

Mas não pensem que agora o Rio Grande do Sul tem seu próprio domínio de topo de código de país, como tanto sonham os separatistas. É que agora a “cerveja daqui” na verdade é da Sérvia

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Por falar nisso, penso em adquirir um domínio próprio para o Cão Uivador. Na Austrália, é claro.

Um erro justifica outro?

Para o presidente do IBAMA, Curt Trennepohl, sim.

Em entrevista para o programa australiano 60 Minutes (que fez uma matéria sobre Belo Monte), Trennepohl demonstrou seu desprezo pelos povos indígenas do Xingu, com a desculpa de que na Austrália “se desrespeitou os aborígenes” (o que aconteceu lá foi um genocídio, que dizimou quase totalmente a população original australiana). Questionado pela repórter sobre se iria cometer o mesmo “desrespeito” no Brasil, respondeu três vezes: SIM.

O trecho do qual falo começa aos 2:18 do vídeo, mas vale a pena assistir todo.

A ressurreição de Nicolae Ceausescu

O Natal de 1989 foi inesquecível para mim: passei o dia inteiro brincando com meu presente preferido daquele ano, um “Pense Bem”. Aquele 25 de dezembro foi também memorável na Romênia, mas por outro motivo: foi o dia em que o ditador Nicolae Ceausescu (que estava no poder desde 1965) e sua esposa Elena acabaram executados por um pelotão de fuzilamento, três dias depois da derrubada da ditadura por uma insurreição popular.

Porém, oito anos e meio depois, Ceausescu voltou à vida por um mês. E acreditem, foi na tela da Rede Globo!

Simples: a vinheta que abria as transmissões “globais” da Copa do Mundo de 1998 terminava com o logotipo da emissora, que continha dentro algumas bandeiras de países. Reparem que falei simplesmente em “países”, e não em “países da Copa”. Pois havia a presença de bandeiras como as de Austrália, Canadá e Irlanda, cujas seleções não disputaram o Mundial da França.

Mas procurando por mais erros, reparei que a bandeira da Romênia continha o brasão “socialista”, que fora retirado do pavilhão romeno após dezembro de 1989. Por motivos óbvios: com o fim da ditadura de Ceausescu, a Romênia deixara de ser “socialista”. (Inclusive, durante os protestos contra o regime se via muitas bandeiras romenas, todas com um buraco no lugar do brasão, recortado pelos manifestantes – as bandeiras “vazias” se tornaram um símbolo da insurreição popular.)

É importante lembrar que não foi só a bandeira romena que saiu errada: a África do Sul adotou a sua atual em 1994, mas a que aparece na vinheta é a anterior, dos tempos do apartheid.

Provavelmente o leitor deve estar pensando que em 1998 a Globo cometera a façanha de ainda não ter atualizado seu “arquivo de bandeiras”. Pois é, então como explicar que, na vinheta de 1994, a bandeira da Romênia estava correta? Mas não pensem que a “plim plim” tinha deixado de fazer de fazer sua propaganda comunista: sobrou para a Bulgária, cuja bandeira desde 1990 não tinha mais brasão… (É muito rápido, e por isso difícil de perceber o brasão no pavilhão búlgaro, mas ele está lá.)

Todo mundo sofre

Já havia postado anteriormente o vídeo abaixo, faço-o novamente agora, em razão das festas de fim de ano e do início das férias de verão, quando muitos vão para a estrada.

É a campanha veiculada no final do ano passado pela TAC (Transport Accident Comission), do Estado de Victoria, Austrália. Simplesmente a melhor deste tipo que lembro de ter visto, pois não se limita ao “dirija com cuidado”, e sim, mostra bem o sofrimento que um acidente impõe não só à sua vítima (quando sobrevive), como também a todos que convivem com ela e lhe querem bem.