FEBEAPÁ, versão 2014

Na década de 1960, o escritor Sérgio Porto (mais conhecido por seu pseudônimo Stanislaw Ponte Preta) publicou três livros acerca do que chamava, ironicamente, “FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola o País”. Foi uma genial crítica à repressão nos primeiros anos da ditadura militar, que não teve prosseguimento devido ao falecimento do escritor em 30 de setembro de 1968, meses antes do AI-5.

O “festival” consistia em pequenas notas jornalísticas, simulando um noticiário. Era algo tão absurdo que dificilmente alguém acreditaria se tratar de coisa séria, mas que, no contexto da época, não seria nenhuma surpresa. Caso da acusação de “subversão” contra o autor da peça clássica Electra, em cartaz no Teatro Municipal de São Paulo; o problema é que Sófocles, que escreveu o roteiro, falecera em 406 a. C., e assim já era “um pouco tarde” para a polícia tentar prendê-lo.

A “ingenuidade” (?) policial também era alvo da sátira de Stanislaw, como mostra o trecho abaixo:

Segundo Tia Zulmira “o policial é sempre suspeito” e — por isso mesmo — a Polícia de Mato Grosso não é nem mais nem menos brilhante do que as outras polícias. Tanto assim que um delegado de lá, terminou seu relatório sobre um crime político, com estas palavras: “A vítima foi encontrada às margens do riu sucuriu, retalhada em 4 pedaços, com os membros separados do tronco, dentro de um saco de aniagem, amarrado e atado a uma pesada pedra. Ao que tudo indica, parece afastada a hipótese de suicídio”.

Absurdo, né? Mas, e se dissermos que em 2014 é pior?

Pois bem: o corpo de um jovem é encontrado com uma barra de ferro atravessada na perna e com todos os dentes arrancados pela raiz, além de conter marca de hematomas que indicam espancamento. E o que aparece no boletim de ocorrência? Suicídio.

A lembrança do FEBEAPÁ é natural. Porém, isso não é engraçado. E atentemos para dois detalhes: Kaique Augusto Batista dos Santos, o jovem assassinado, era negro e homossexual; ou seja, integrante de dois grupos sociais intensamente estigmatizados no Brasil.

Em tese, todos os brasileiros são iguais e têm os mesmos direitos, não importando sua cor da pele ou orientação sexual. O racismo e a homofobia não são “previstos em lei”. Só que ambos os preconceitos estão aí, e a dificuldade de combatê-los decorre justamente do fato de que são velados. Mas em algumas ocasiões eles tornam-se mais aparentes – como no caso de um jovem negro e homossexual que tem todos os dentes arrancados pela raiz, além de hematomas e uma barra de ferro atravessada na perna, e tem sua morte registrada como “suicídio”.

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A ditadura vive

O inquérito da Polícia Civil do Rio de Janeiro sobre o desaparecimento de Amarildo Dias de Souza, em 14 de julho, foi concluído. O documento, além de indiciar dez policiais militares, também aponta que Amarildo foi submetido a choques elétricos e asfixiado com um saco plástico. Epilético, ele não resistiu à tortura.

Você não leu errado. É isso mesmo: tortura. “Igual à ditadura?”, muitos perguntarão. Resposta: como é feito em uma ditadura que ainda não acabou.

Em 1985, simplesmente os militares deixaram o governo, cedendo-o aos civis. Mas a polícia segue sendo a mesma de antes, e não mudou seus métodos. Contra os pobres, como simboliza a morte de Amarildo. E também contra estudantes e professores, como se viu essa semana no Rio. No Brasil, a questão social continua a ser “caso de polícia”, e a ser tratada da maneira mais truculenta possível.

Quando o filme “Tropa de Elite” foi lançado, a classe média vibrou. Comemorava feito gol cada “vagabundo” morto, e quase tinha orgasmos quando o Capitão Nascimento dizia “traz o saco”. Um saco plástico semelhante ao que matou Amarildo e inúmeras outras pessoas.

“No BOPE não tem corrupto”, dizia o Capitão Nascimento no primeiro “Tropa de Elite”. Os bobos acreditaram. E mesmo depois da continuação do filme ser lançada e mostrar os interesses por trás de uma polícia absurdamente violenta, para muitos ainda “não caiu a ficha”. O mesmo Nascimento (que de capitão ascendera a coronel), ídolo de uma multidão sedenta de sangue, disse tudo: “eu não puxei esse gatilho sozinho”.

A ditadura, amigos, segue viva. E forte. Ela vive na criminalização dos movimentos sociais, no aplauso a ações truculentas da polícia, na vibração por “mais um vagabundo morto”, nas sessões de tortura que mataram Amarildo e muitos outros, em certos deputados que estão por aí pregando ódio… E, reparem, parlamentares não “chegam lá” sozinhos: recebem votos para isso. Sinal de que representam o pensamento de muitas pessoas.

Ou seja, a ditadura vive em nós também. E nós podemos ser suas próximas vítimas.

Há 40 anos, morria Pablo Neruda

Pablo_Neruda

Lançado em 1994 e baseado em um livro do escritor chileno Antonio Skármeta, o filme “O Carteiro e o Poeta” conta a história da amizade entre um jovem carteiro e o poeta Pablo Neruda. Enquanto no livro a história se passava no Chile dos anos 1970, o filme a transportou para a Itália na década de 1950.

No filme, o comunista Neruda teve de partir para o exílio devido à perseguição política no Chile, e optou por morar em uma pequena ilha italiana, onde a maioria da população vivia da pesca. Seria o destino de Mario Ruoppolo, não fossem seus enjoos quando subia no barco; instado por seu pai a procurar outro trabalho, consegue um emprego como carteiro, mas com uma peculiaridade: entregaria correspondências apenas a uma pessoa, justamente o poeta chileno.

Mario refere-se a Pablo Neruda como “poeta do amor”, e é a ele que recorre quando se apaixona por uma mulher e não sabe como conquistá-la; seu chefe no Correio, comunista como Neruda, prefere chamá-lo de “poeta do povo”. Trata-se de uma aparente oposição, mas que não se mantém: no decorrer do filme, Mario adere ao comunismo e também torna-se poeta com o apoio de Neruda, conquistando o amor de Beatrice, com quem se casa.

Assisti ao filme pela primeira vez por volta dos 14 anos de idade, período em que começava a ter uma melhor compreensão do mundo. Saber que Pablo Neruda, “o poeta do amor”, era comunista, fez com que a esquerda ganhasse ainda mais pontos em meu coração. Não por acaso, foi por aquela mesma época que escrevi meu “manifesto comunista”: um texto usando a parte vermelha da fita de minha máquina de escrever.

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Pablo Neruda morreu em Santiago, a 23 de setembro de 1973. Oficialmente, devido a um câncer de próstata. Mas suspeita-se que na verdade ele tenha sido assassinado pela recém-instalada ditadura de Augusto Pinochet (apenas doze dias antes do falecimento de Neruda, acontecera o violento golpe militar que derrubou Salvador Allende), o que motivou a exumação do corpo do poeta. Ainda mais que na mesma clínica em que Neruda foi internado em seus últimos dias, morreu em 1982 o ex-presidente Eduardo Frei Montalva – e investigações provaram que sua morte se deu por envenenamento, a mando do regime.

O poeta do amor deixou a vida quando seu país passava a ser governado pelo ódio. Em um 23 de setembro, dia que no hemisfério sul marca o início da primavera – que só 17 anos depois chegaria ao Chile.

Quanto falta para o fundo do poço?

Na madrugada de segunda-feira, Porto Alegre foi palco de uma barbárie. Próximo ao Mercado Público, um morador de rua foi linchado por um grupo de pessoas, devido ao fato de supostamente ter tentado assaltar uma delas.

“É um a menos, tem de dar uma camaçada de pau nesses vagabundos mesmo!”, diz, espumando, o “comentarista-padrão” dos grandes portais. E sai bradando “bandido bom é bandido morto”, “direitos humanos para humanos direitos”, dentre outras pérolas típicas dos mais apaixonados “defensores da civilização ocidental” – sim, eles acreditam que são “civilizados” empreendendo uma “cruzada” contra os “monstros” que querem “destruir nossa sociedade”.

Só que tem um problema: monstros não existem, são personagens de ficção. Todas aquelas pessoas que só de lembrarmos dá medo, por conta dos atos “desumanos” que cometeram, eram tão humanas quanto nós. Por mais incômodo que seja, todos temos algo em comum com Adolf Hitler e quaisquer criminosos: somos da mesma espécie biológica.

É muito fácil dizer que um criminoso é um “monstro” e que, por isso, é irrecuperável e não deve ter seus direitos humanos respeitados (o que obviamente não significa tolerar o crime cometido). E muito cômodo também. Pois reconhecer naquele “bandido” ou naquele ditador sanguinário um ser biologicamente igual a nós significa a necessidade de refletir sobre o quão culpados somos, enquanto sociedade, pela existência de pessoas assim. (Afinal de contas, nem todos os criminosos são psicopatas – ou seja, pessoas acometidas de um transtorno de personalidade.)

Em março de 2010, escrevi um texto sobre a estupidez que aflora toda vez que se fala sobre criminalidade. Muita gente exige pena de morte, “pau nos vagabundos” etc. Ou seja, o “cidadão médio” defende o uso da violência justamente para acabar com ela: é algo como o alcoólatra que sofre uma crise de abstinência achar que a solução para seu problema é encher a cara… Uma frase de Martin Luther King, que usei como epígrafe naquele texto, resume bem minha ideia.

A velha lei do olho por olho deixará a todos cegos.

Allende: foi suicídio, não assassinato

Cartum de Carlos Latuff em homenagem a Salvador Allende (2007)

Todas as vezes que lembrei o golpe militar no Chile, disse que não havia a confirmação de como o presidente Salvador Allende tinha morrido: se fora suicídio ou assassinato. Pois (só) hoje descobri que desde o ano passado já há a confirmação: Allende realmente se suicidou. Aliás, a própria família dele já dizia isso, só faltava a perícia comprovar.

Tinha pensado apenas em pôr uma “atualização” reparando o meu texto de ontem (e mesmo o do ano passado e anteriores), mas optei por um novo post e uma espécie de mea culpa. Até para poder escrever mais do que em uma simples “atualização”.

Afinal, se a família de Allende dizia que ele cometeu suicídio, por que insistia tanto em questionar tal informação? Obviamente não era por falta de prova científica, e sim, por conta da ideia de que o suicídio é uma “fuga”. Assim, na dúvida, preferia acreditar na versão de que ele tinha sido assassinado.

Dizer que o presidente chileno se suicidou ao invés de ter sido assassinado parecia dar a impressão de que ele “se acovardou” diante do golpe, “não lutou até a morte”. Porém, basta lembrar tudo o que aconteceu para perceber que, se tem algo que Salvador Allende não fez em 11 de setembro de 1973, foi “fugir”.

Mesmo com o Palácio de la Moneda sob bombardeio, Allende lá permaneceu. Os militares exigiram a renúncia do presidente, o que talvez permitisse que ele saísse vivo do palácio; ainda assim, Allende recusou. Preferiu não capitular.

E, àquela altura, sabendo que não havia mais possibilidades de derrotar os golpistas, fica claro que a única maneira de Salvador Allende não se entregar seria cometendo suicídio. Pois esperar que os militares invadissem o palácio para matá-lo ou levá-lo preso seria exatamente uma rendição.

Estupidez em Porto Alegre

Na madrugada de sexta-feira, enquanto boa parte de nós dormia confortavelmente em boas camas, o morador de rua Vanderlei Pires fazia o mesmo na esquina da Avenida João Pessoa com a Rua Lobo da Costa, em Porto Alegre. Ao acordar, estava pichado com tinta de cor prata, e ainda por cima alguém havia urinado em seus pés.

Assim como a Cris Rodrigues, não consigo imaginar que os autores de tamanha estupidez não tenham sido jovens bem vestidos, de classe média, querendo se mostrar.

Na verdade, o que aconteceu na madrugada de 2 de abril de 2010 em Porto Alegre é mais uma demonstração prática da mentalidade do que chamo classe mérdia (e mais uma vez ressalto que classe média não é igual a classe mérdia, antes que alguém em quem o chapéu serve muito bem venha escrever merda nos comentários). Eles se acham muito superiores – mesmo que sejam apenas baba-ovos das elites – e têm verdadeira ojeriza a pobres:  acreditam que “trabalhando muito, um dia chegam lá”, e que pobre é “vagabundo que não quer trabalhar”.

Eles procuram mostrar “o quanto são superiores” humilhando, espancando e até matando quem eles consideram “inferiores”, como já se viu em outras oportunidades: foram jovens desse tipo que atearam fogo no índio Galdino Jesus dos Santos enquanto ele dormia em uma parada de ônibus em Brasília, em 1997; e também foram jovens da mesma “categoria” que espancaram a empregada doméstica Sirlei Dias de Carvalho Pinto em uma parada de ônibus no Rio de Janeiro, em 2007 (e ainda por cima roubaram dinheiro e celular dela). Não bastasse o que fizeram, os covardes ainda deram estúpidas justificativas: mataram Galdino por “terem pensado que era um mendigo”; já os que espancaram Sirlei disseram ter feito isso “por pensarem que era uma prostituta”.

E quando falei em humilhar, isto inclui outros atos além de pichar e urinar em um morador de rua. Pois já vi muita gente gritar “vai trabalhar, vagabundo!” a pedintes. Dá vontade de chegar em um destes babacas e falar: “Então dá um emprego para ele, já que achas tão simples arrumar trabalho” – um dia ainda farei isso.

Moradores de rua, pessoas pobres em geral, ao longo de suas vidas vão acumulando momentos de humilhação. De tanto serem mal-tratados, não é óbvio que uma hora muitos deles começarão a reagir? “Tô cansado de apanhar. Tá na hora de bater!”, diz a letra da música “Pátria que me pariu”, de Gabriel O Pensador.

Felizmente, Vanderlei Pires não pensa em vingança. “Espero que estas pessoas não façam nenhum outro mal para alguém como fizeram comigo”, disse ele.

Documentário sobre o assassinato de Elton Brum

O Coletivo Catarse começou a produção de um documentário sobre o assassinato do sem-terra Elton Brum. O filme será a oportunidade de divulgar o que de fato aconteceu no último dia 21 de agosto em São Gabriel, já que a mídia corporativa está do lado dos grandes latifundiários e não divulgará informações que atentem contra os interesses deles.

Porém, a belíssima iniciativa tem custos financeiros consideráveis para uma cooperativa de comunicação com poucos recursos (e que mesmo assim fez muitos ótimos trabalhos, inclusive matérias para a TV Brasil). Cada ida a São Gabriel com uma equipe de duas pessoas, para dois dias de filmagem, custa cerca de 500 reais. E a produção do documentário certamente demandará muito mais do que isso.

Quem puder contribuir com qualquer quantia, terá seu nome inserido nos créditos do filme (envie e-mail a gustavo.turck@coletivocatarse.com.br com o nome completo). Abaixo, a conta para depósito:

GUSTAVO TÜRCK
BANRISUL
Agência 0075
c/c 3904206105
CPF 99821109004

Síntese do pensamento dos concretoscos

Vez que outra, acesso alguns blogs pontaleiros, que defendem o “sim” na consulta de amanhã.

Um deles toscamente diz que votar NÃO é deixar a área do antigo Estaleiro Só do jeito que está – debocham da inteligência de milhares de pessoas ao acharem que queremos um monte de lixo (deixado no local pelo dono, que não limpa sua propriedade e não é multado!), quando há muito tempo defendemos que a área seja um parque público (afinal, ela é originalmente pública, foi cedida pelo Estado ao Estaleiro Só) – e apresenta o terreno como cheio de “ruínas, ratos e marginais”.

Uma leitora, que se identificou como Marie, deixou o seguinte comentário abaixo, que sintetiza bem o que pensam os concretoscos:

Fiquei um bom tempo procurando nas fotos os “marginais” que vocês citam no texto de entrada do site… E só encontrei algumas crianças, brincando no rio…

Claro, devem estar se referindo aos pobres… Que junto às “baratas e ratos” também citados serão erradicados do lugar por este “purificador e higienizador” projeto.

Quem vocês pensam que são para julgar e apontar outras pessoas como “marginais”?

Depois de ler esse comentário, acessei o álbum com as fotos e também não achei nenhum “marginal”. Só pessoas simples.

Pois é isso que eles querem com o Pontal do Estaleiro: afastar os pobres, “marginais” para os concretoscos.

A um parque público, todos têm livre acesso, ricos e pobres, sem distinção de classe social ou cor. No Pontal, quem iria? Dizem que haveria uma “área pública”, mas fica a pergunta: se uma pessoa bem humilde fosse lá, como seria tratada? O comentário que citei já dá uma pista.

E ao ler que os concretoscos consideram a área do antigo Estaleiro Só como de “ratos, baratas e marginais”, foi impossível não lembrar de tudo o que já li e assisti sobre o nazismo, que afirmava ter o propósito de “embelezar o mundo” acabando com as “impurezas” dele. Hitler considerava os “não-arianos”, principalmente judeus, como “pragas sociais” que precisavam ser eliminadas.

O problema era convencer a população alemã, traumatizada pela Primeira Guerra Mundial, a apoiar tal política sanguinária. A solução foi um discurso “higienizador”, apresentando as “pragas” – inclusive as “sociais” – como uma ameaça às “boas famílias alemãs”.

O resultado disso, qualquer um que tenha o mínimo conhecimento de História sabe quais foram: Segunda Guerra Mundial e Holocausto.

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Por aqui já tivemos uma mostra ontem, com o assassinato do  trabalhador rural sem-terra Elton Brum da Silva em São Gabriel – o que já era temido pelo MST.

De fato, não é de se estranhar. No final de fevereiro, a Zero Hora publicou em sua seção de cartas o texto de um fascista (não tenho outras palavras para descrever o cara) que defendia o extermínio (sic) do MST. É o tipo de gente que quer acabar com a pobreza não reduzindo a desigualdade social, mas sim matando os pobres. Gente que certamente votará no “sim” amanhã.

Afinal, a pobreza é “feia” e “impura”, e Porto Alegre precisa ser “embelezada” – daí a necessidade, na ótica concretosca, do Pontal.

“O Corte”, de Costa-Gavras

Assisti na tarde de segunda-feira ao filme “O Corte”, de Constantin Costa-Gavras. É a história de Bruno Davert (interpretado por José Garcia), um típico pai de classe média na França, que era executivo de uma fábrica de papel mas foi demitido porque a empresa queria “cortar despesas”. Depois de passar dois anos e meio desempregado, decidiu solucionar o problema de forma drástica: eliminando – diga-se matando – seus prováveis concorrentes a uma vaga de emprego.

O filme começa com Davert fazendo uma “confissão” em um gravador, arrependido depois de ter cometido seu terceiro assassinato. Depois volta no tempo, ao ponto em que o ex-executivo toma a decisão de matar seus concorrentes. Aí Costa-Gavras pecou: poderia ter explorado mais o período em que Davert buscava emprego e fracassava nas entrevistas para mostrar melhor o drama do desemprego, que afeta também os países desenvolvidos.

Mas isto não impede que “O Corte” seja um bom filme, que sirva para fazer uma ótima reflexão sobre o mundo do trabalho na atualidade: para termos “sucesso”, devemos ser extremamente competitivos, precisamos viver para trabalhar. Era o que Davert fazia até sua demissão: o trabalho era sua vida, sem emprego ele se sentia uma pessoa “sem valor”. Personagem principal, Bruno Davert é um “anti-herói”: nos sensibilizamos com seu drama, mas ficamos chocados com o meio que ele utiliza para resolver seu problema, visto que seus concorrentes a uma vaga, “inimigos” no seu ponto de vista, são pessoas que também enfrentam o desemprego, algumas há até mais tempo do que ele.

Por fim, um diálogo que considero central no filme: quando Bruno Davert almoça com a esposa e os filhos, surge o questionamento sobre o fato dos meios utilizados serem ou não justificados pelos objetivos desejados. Logo vem uma resposta: “os fins não justificam os meios, exceto nas guerras”. Davert está em guerra, e fará qualquer coisa para conseguir um emprego.