Rua Pelotas cada vez menos verde

Foi na segunda-feira, por volta do meio-dia. Naquele momento, a Rua Pelotas passou a ter um jacarandá a menos.

A árvore não foi derrubada pelo vento, pois apenas chovia, não era temporal. Simplesmente caiu, o que não é nada surpreendente, dado o estado delas.

Jacarandá com o tronco oco, que acabou sendo cortado em julho de 2009. Foto obtida em 1º de novembro de 2008.

Como ficou o local após o corte da árvore. Foto obtida em 31 de outubro de 2009.

Do jeito que a coisa vai, as gerações futuras que quiserem conhecer o túnel verde que embeleza (até quando?) a Rua Pelotas terão de recorrer a álbuns de fotos antigas (quando 2008 e 2009 forem anos “distantes”) ou a relatos de quem o conheceu (meu caso). Pois muitos jacarandás estão doentes, e se não receberem um tratamento adequado, continuarão a cair.

Triste situação da rua onde eu cresci: suas árvores, que foram um dos principais motivos pelo qual meu pai escolheu a Pelotas para morarmos pouco antes de eu nascer, agora são motivo de preocupação para quem vive lá.

O que está acontecendo com os jacarandás de Porto Alegre?

Sexta-feira, durante minha caminhada pelo Parque da Redenção, notei que vários jacarandás dos canteiros da Avenida Osvaldo Aranha estão mortos, ou quase. Totalmente desfolhados, em pleno verão.

O mesmo se verifica nas árvores da mesma espécie na Rua João Telles, na esquina com a Osvaldo Aranha. Olhando para aqueles jacarandás sem folhas, a única maneira de eu lembrar que estamos no verão era passar a mão na minha testa para tirar o suor… Aliás, mesmo no inverno os jacarandás não chegam a perder todas as suas folhas: elas costumam cair entre agosto e setembro, e logo se segue o florescimento que embeleza as ruas onde eles estão plantados durante a primavera.

O pior de tudo, é que já percebi o mesmo problema em outras ruas de Porto Alegre. Como no caso da Pelotas, onde morei durante minha infância. Em 2009, dois jacarandás doentes foram removidos pela SMAM, ao invés de tratados. E há outras árvores doentes na rua, o que representa risco de queda em ventanias.

Haiti: pobreza e deflorestamento

Meu pai ouviu pela internet uma rádio da República Dominicana, vizinha do Haiti. Dentre os comentários acerca do terremoto, falava-se no agravamento dos efeitos gerado pela “capa de terra”.

O Haiti exporta carvão, mas não o tem na forma mineral. Ou seja, o produz a partir de árvores derrubadas. O resultado disso é que o Haiti é um país quase sem florestas. Inclusive, observando-se imagens de satélite da ilha de Hispaniola – onde ficam o Haiti (à oeste) e a República Dominicana (à leste) – no Google Earth, não é difícil distinguir os dois países, mesmo sem marcar a opção “mostrar fronteiras”.

Inclusive, enquanto almoçávamos, o meu pai comentou que uma vez se gastou milhões de dólares num projeto de reflorestamento no Haiti. As árvores mal cresceram e começaram a serem derrubadas para virarem carvão.

Resultado disso (somado à pobreza extrema enfrentada por boa parte da população haitiana – que é também fruto desta exploração predatória do carvão vegetal, já que a terra está secando por falta de vegetação, e por isso mesmo tornando-se estéril): quaisquer fenômenos naturais com um pouco mais de força, no Haiti tornam-se tragédias. Como todos sabem, encostas “nuas”, mesmo que não muito íngremes, deslizam com muito mais facilidade do que aquelas com cobertura vegetal, quando ocorrem chuvas torrenciais (como as causadas pelos furacões que assolam o Caribe) ou terremotos.

Rua Pelotas, 31 de outubro de 2009

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Em 1º de novembro de 2008, fui com meu pai tirar fotos da Rua Pelotas, onde vivi minha infância, e as divulguei no blog. Chamei à atenção para o estado dos jacarandás, muitos com os troncos ocos.

Um ano depois, voltamos à rua. Dois daqueles jacarandás não mais existem. Foram cortados pela SMAM em julho e setembro. Em seu lugar foram plantadas outras árvores, que infelizmente levarão muitos anos até tornarem-se tão imponentes quanto o restante.

Clique aqui para acessar as fotos de 31 de outubro de 2009. E lembrando que daqui a uma semana completam-se 20 anos da queda do Muro de Berlim, repare também que, embora há menos tempo, o “Muro da Pelotas” caiu (ele ficava onde agora se vê uma cerca cinza, à direita na foto acima). Em novembro de 1989 eu imaginei que se o derrubasse, apareceria na televisão, igual aos berlinenses. Faltou-me uma picareta e real vontade de derrubar o muro: eu preferia brincar com meus carrinhos ou andar de bicicleta pela rua.

A rua onde eu cresci – parte 2

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Em julho eu havia postado aqui um texto sobre a Rua Pelotas, que fica no Bairro Floresta, aqui em Porto Alegre. Lá eu morei até pouco antes de fazer 11 anos. Naquela mesma época, prometi obter fotos da rua na primavera, quando a Pelotas torna-se um espetáculo devido ao florescimento dos jacarandás.

Promessa feita, promessa cumprida: clique aqui e veja todas as fotos. Uma pena que fui tirá-las com o meu pai à tarde, quando a rua já havia sido varrida e assim não havia um “tapete” de flores.

Mas vale a pena chamar a atenção para o estado das árvores, que precisam urgentemente de cuidados. Em conversa com moradores, percebemos a preocupação deles em relação ao risco de queda de árvores que estão ficando ocas. O que não faz com que eles sejam favoráveis à retirada delas, e sim, que sejam tratadas para que continuem a embelezar a rua por muito tempo.

Diz o meu pai que 30 anos atrás a Pelotas era ainda mais fechada, devido à presença de árvores que hoje já não mais existem – apodreceram e foram derrubadas por ventos fortes nos temporais que costumam atingir Porto Alegre. Quando eu estava para nascer, em outubro de 1981, ele passou pela rua e viu a casa 430, andar térreo, para alugar. Os jacarandás estavam floridos devido à primavera. Não teve dúvidas: pediu a chave e assinou o contrato de aluguel.

A rua onde eu cresci

A Rua Pelotas, no Bairro Floresta, na qual morei até pouco antes de completar 11 anos, foi incluída em um projeto que prevê o tombamento como patrimônio ambiental de diversos túneis verdes de Porto Alegre. Ela inicia-se antes da Avenida Farrapos, e estende-se até a Cristóvão Colombo. Entre a Farrapos e a Cristóvão encontra-se o seu túnel verde, formado por jacarandás que durante a primavera florescem e fazem a rua ter também um “tapete” formado pelas flores que caem das árvores.

Não foi por acaso que meu pai escolheu a casa de número 430 (andar térreo) da Rua Pelotas para morarmos, pouco antes de eu nascer. Meu nascimento era previsto para acontecer no fim de outubro ou no começo de novembro de 1981, mas o quadro de pressão alta da minha mãe, que estava internada no Hospital Presidente Vargas desde 30 de setembro, fez com que os médicos decidissem fazer a cesariana na noite de 15 de outubro. Quando a minha mãe foi internada, ela e o meu pai ainda moravam na Azenha, junto com a minha avó (mãe do meu pai). Neste meio tempo, foi feita a mudança para a Rua Pelotas, em plena primavera – ou seja, em sua época mais bela.

Parece “coisa de velho”, mas… Bons tempos aqueles. As crianças brincavam na rua. Apostávamos corridas de bicicleta – eu disputava a hegemonia com o Leonardo, enquanto o Vinicius (meu irmão) e o Diego, os mais novos da turma, brigavam para não ficar em último. Também fingíamos que as calçadas eram as ruas de uma cidade inventada: o Leonardo e eu éramos os patrulheiros, e o Vini e o Diego, para variar, se davam mal.

Coisas da imaginação de criança: com nossas bicicletas, brincávamos também de aeroporto, precisávamos pedir permissão para pousos e decolagens de nossos “aviões”. E sem “caos aéreo”!

Também jogamos muito futebol, quando transformávamos as calçadas em “estádios” lotados. O único problema é que passavam carros e caminhões da Brahma na rua, então tínhamos uma regra: proibido “bicar”. Só que de vez em quando alguém “bicava” a bola, e passava um carro por cima. Aliás, o maior mistério da rua é: o que aconteceu com aquela bola nova do Diego? Ela foi pro meio da rua, veio um carro… BUM! Ela estourou e desapareceu!

Hoje em dia, as tardes da Rua Pelotas são mais “calmas”. E mais gradeadas. É a paranóia da segurança, que faz as crianças brincarem dentro de casa. Naquela época já havia assaltos, mas não esse medo irracional dos dias de hoje, que fez as pessoas abandonarem as ruas: isso sim é que aumenta a insegurança.

Porém, sempre que passo por baixo dos jacarandás ou pela esquina da Cristóvão Colombo com a Pelotas, tenho a impressão de ouvir uma voz de criança gritando: “não vale dar bico!”.

Onde fica a rua mais bonita do mundo?

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Segundo o blog A sombra verde, de Portugal, ela fica aqui em Porto Alegre, pertinho do Centro. É a Gonçalo de Carvalho, no bairro Independência, tombada como Patrimônio Histórico, Cultural, Ecológico e Ambiental de Porto Alegre no dia 5 de junho de 2006. Foi o primeiro caso deste tipo em todo o Brasil.

Em 2005, os moradores da rua iniciaram um movimento contra a construção do edifício-garagem da nova sede da OSPA, que seria ao lado do Shopping Total. Não eram contra a OSPA, como acusavam os favoráveis à obra. O que os moradores da rua não queriam era a garagem, cuja saída de carros se daria pela Gonçalo de Carvalho, o que aumentaria a poluição atmosférica e sonora na área. Sem contar que o fato do edifício-garagem ter dois andares subterrâneos tornaria necessário o uso de dinamite na obra, que poderia abalar ou mesmo derrubar os prédios vizinhos.

A luta parecia fadada à derrota. Em janeiro de 2006, faleceu o líder do movimento, Haeni Ficht. E poucos dias depois, o vice-prefeito Eliseu Santos referiu-se aos contrários à garagem como “dois cornos”.

Mas os moradores não desistiram, e venceram. Em junho de 2006 a OSPA desistiu de construir o teatro no Shopping Total, já que ali não poderia ser erguido o edifício-garagem – que poderia ser usado não só quando houvessem espetáculos, numa clara manobra do Shopping Total de ampliar seu estacionamento. Ainda hoje não foi definido o local onde será erguida a nova sede da OSPA – aliás, por que não retomar o projeto de construir o teatro no Cais do Porto, para assim reaproximar Porto Alegre do Guaíba?

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O movimento Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho foi citado também pelo blog Amics Arbres – Arbres Amics, da Catalunha, que postou uma mensagem de repúdio à repressão policial acontecida durante a ocupação por mulheres ligadas à Via Campesina da fazenda de propriedade da Stora Enso, usada para plantar eucaliptos e transformar o pampa em deserto.

A culpa é das árvores

Ontem, no “Painel RBS”, o estudioso do trânsito Mauri Panitz e o vice-governador Paulo Afonso Feijó culparam postes e árvores à beira de estradas e avenidas por acidentes de trânsito. Feijó perdeu sua filha há um mês atrás, quando o carro dela bateu em um poste.

Ou seja, para eles não devemos ter palmeiras e outras árvores para embelezar nossas ruas e nos proporcionar a tão desejada sombra no verão, devemos ter avenidas inóspitas, apenas com concreto e sem nenhum verde, tal como a Farrapos. Em nome da “segurança no trânsito”.

E pensar que eu achava que a violência no trânsito se devia ao excesso de carros, à cultura da velocidade, à falta de meios de transporte alternativos à opção rodoviária…