O brasileiro classe média não curte autocrítica

A escritora Carol Bensimon publicou um artigo na Zero Hora da última segunda-feira, no qual fez uma sensacional crítica ao típico cidadão brasileiro de classe média. O texto sofreu muitas críticas, pelos mais variados motivos, mas o principal me parece ser aquele tradicional “serviu o chapéu”.

Lendo o artigo, tinha a impressão de que estava diante de meus olhos um “resumo” do genial blog satírico Classe Média Way of Life, escrito entre 2009 e 2010 como se fosse um manual de instruções, dando várias “dicas” de como se comportar como a classe média brasileira. Decidi ler os comentários (algo que não costumo fazer em sites de notícias) e também me deparei exatamente com o mesmo tipo de opiniões críticas que lia no Classe Média Way of Life, que podem ser resumidas na expressão “ofensa à classe média”.

Alguém obviamente fará aquele comentário que, de tão óbvio, irrita: “mas de que classe tu és?”. Pois bem: sou da mesma classe média, tão massacrada criticada. Porém, prefiro refletir sobre minhas atitudes ao invés de sair xingando e assim confirmar que “serviu o chapéu”. O que, aliás, apenas dá mais razão às críticas.

Os questionamentos quanto à classe social que pertencem os críticos apenas confirmam minha impressão lá do final de 2009: o brasileiro classe média odeia autocrítica. Acha que criticar o grupo ao qual pertence é atacar a si próprio. Se pertencemos a um grupo que é criticado (por alguém que pertença ou não a ele), o mínimo que devemos fazer é refletir sobre isso, ver se tais questionamentos são realmente aplicáveis a nós – e caso sejam, responder com argumentos ou mesmo repensar nossas atitudes.

Sem contar que quem se sente ofendido por uma crítica genérica, muito provavelmente é merecedor dela.

Abaixo a procrastinação

Talvez não consiga, nos próximos sete a nove dias, dar a devida atenção ao Cão. Mas desta vez é por um motivo mais justo do que passar muito tempo no Facebook: trata-se de um artigo para a especialização, que tenho de entregar dia 22. O trabalho está andando bem, mas será preciso revisar, colocar nas regras da ABNT… E não quero deixar tudo para a última hora.

De qualquer forma, não há motivos para reclamação quanto à “agenda cheia”. A pesquisa acadêmica é a “minha montanha”*, e estou gostando de escrever o artigo. Sem contar que, não raras vezes, meus trabalhos acadêmicos acabaram resultando em postagens no Cão.

————

* Gosto mais de montanha do que de praia, então é preciso usar a expressão correta.

A “gente diferenciada” e o fascismo do século XXI

Recebi via e-mail do camarada Eugênio Neves a tradução de um artigo de Robert I. Robinson, publicado originalmente em inglês na página da Al Jazeera. O texto demonstra fala sobre os novos contornos que o fascismo vem tomando, de modo a que não seja reconhecido enquanto tal. Afinal, muitas pessoas associam imediatamente “nazi-fascismo” a Hitler e Mussolini, sem terem muito conhecimento sobre tal fenômeno – e aí, defendem algumas medidas sem se darem conta de que são fascistas (como, por exemplo, a “higienização social” da cidade).

Um trecho que o Eugênio destacou, considero fundamental:

Os deslocamentos de massas migrantes e a exclusão só aumentaram a partir de 2008. O sistema abandonou setores muito amplos da humanidade, que foram apanhados num circuito mortal de acumulação-exploração-exclusão. O sistema já nem tenta incorporar esse excesso de população: trabalha diretamente para isolá-lo e neutralizar a força de rebelião que tenham, real ou potencial; para isso, o sistema criminaliza os pobres; em vários casos, com medidas que tendem ao genocídio.

O Estado abandona qualquer esforço para garantir a própria legitimidade em fatias muito amplas da população que foram relegadas como excesso de mão de obra – ou trabalho super explorado –, e passa a recorrer a mecanismos de exclusão coercitiva: prisão em massa e os complexos prisionais-industriais, polícia pervasiva, manipulação do espaço, leis super repressivas de imigração e campanhas ideológicas que visam a seduzir essas legiões de pessoas e a torná-las passivas: e vêm as campanhas publicitárias para induzir ao consumo desmedido e à fantasia escapista.

O fascismo do século 21 não será igual ao fascismo do século 20. Dentre outras coisas, a habilidade dos grupos dominantes para controlar e manipular o espaço e para exercer controles sem precedentes sobre os veículos e os meios de comunicação de massa, e sobre a produção de imagens e mensagens simbólicas, implica que a repressão será mais seletiva (como vemos hoje no México e na Colômbia, por exemplo), e será organizada juridicamente, de modo que os encarceramentos em massa e legais vão aos poucos assumindo o lugar dos campos de concentração.

O fascismo do século XX tinha por objetivo a conquista do Estado (ou seja, do poder político), e sem mascarar seu objetivo de segregar – e mesmo exterminar – os “indesejáveis”. Foram essas as bases do fascismo italiano, do nazismo alemão, e do regime do apartheid sul-africano.

Atualmente, a exclusão se dá por meios econômicos (mesmo que não apenas por eles). Não se trata propriamente de um fenômeno novo, mas agora o Estado, aparentemente democrático, apenas “legitima” o abuso do poder econômico e, com justificativas das mais variadas, esconde os projetos segregacionistas que estão em andamento por todas as partes do mundo.

Pensaste em “Copa do Mundo” e as inúmeras remoções de famílias para “as obras de revitalização para a Copa”, amigo? Acertaste “na mosca”… A Copa e a Olimpíada servem de desculpas para a realização de uma “higienização social” nas principais metrópoles brasileiras. Afinal, “fica ruim para a imagem do Brasil” que haja gente pedindo esmola nas ruas, com um monte de turistas estrangeiros (dólares e euros!) por aqui. Mas, como diminuir a pobreza é uma tarefa longa e a Copa “é amanhã”, se achou a solução: confinar os pobres, mandá-los para bem longe dos locais onde haverá turistas. Como eles farão para chegarem a seus locais de trabalho morando cada vez mais distante deles e em um transporte público que só piora? “Que se virem”…

Traduzindo: que não se atrevam a ir a lugares “que não são seus”. Caso, por exemplo, de Higienópolis, bairro nobre de São Paulo. A expansão do metrô da cidade previa uma estação na Avenida Angélica, mas a pressão de 3.500 moradore$ fez com que o governo do Estado (responsável pelo metrô) decidisse deslocar a estação para o Pacaembu – que, com a construção do estádio do Corinthians para a Copa (pra variar…), se tornará um “elefante branco”, sem jogos de futebol.

Dentre os lamentos que foram ouvidos antes da decisão do governo Geraldo Alckmin (PSDB), um é uma pérola: o metrô “atrairia gente diferenciada”. No caso, os pobres, que teriam mais facilidade de acesso a Higienópolis. Os narizes-empinados não pensaram que, com uma estação de metrô, ficaria mais rápido (e barato) para as pessoas que trabalham no bairro mas moram longe chegarem lá. Assim como eles próprios teriam uma nova alternativa de deslocamento, fundamental em uma cidade como São Paulo, de trânsito cada vez mais caótico.

Eles não pensaram, pois uma das características do fascismo é o irracionalismo – e isso não mudou em sua versão do século XXI. O segundo parágrafo da citação lá no começo fala das campanhas ideológicas para “apassivar” as multidões, incluindo aí a publicidade que induz ao consumo desmedido (consumismo) e à ilusão do escapismo – como se vê com os condomínios fechados e os automóveis: reparem que, na propaganda, o carro sempre anda livremente, sem congestionamentos… Então, a opção é de se “isolar” num carrão e ficar três horas no trânsito, ao invés de pegar o metrô e correr o risco de sentar ao lado de “gente diferenciada”, mesmo levando muito menos tempo para chegar ao destino. (Assim, como o transporte coletivo público é “coisa de pobre”, não é prioridade de prefeituras e governos.)

Mas o leitor pode dar uma pesquisada na internet e pensar que nesse caso da “gente diferenciada” os elitistas se deram mal, já que a mudança do lugar da estação pelos citados motivos repercutiu negativamente, e assim o povo vai dar o troco nas urnas. Porém, lembremos do terceiro parágrafo da citação lá do começo: “a habilidade dos grupos dominantes para controlar e manipular o espaço e para exercer controles sem precedentes sobre os veículos e os meios de comunicação de massa“…

Cão parado

Nos últimos dias não consegui mais postar aqui no Cão Uivador, pois estou finalizando um artigo sobre as relações entre nacionalismo e imperialismo de 1875 a 1914 para a cadeira de História Contemporânea II. O prazo de entrega é 9 de junho, mas pretendemos entregá-lo já nesta segunda-feira, dia 2.

Inclusive, como o trabalho é em dupla – estou terminando minha parte -, não sei se o publicarei na íntegra nos Uivos Históricos. Mas pelo menos uma parte dele, que explica o forte anti-semitismo dos chamados movimentos de unificação étnica (pan-eslavismo e pan-germanismo) na Europa Oriental durante o período abordado pelo artigo, será posta à disposição.

Assim que o trabalho estiver terminado, o Cão Uivador volta a seu ritmo normal.

Artigo sensacional

Para sair um pouco do assunto futebol… Um texto simplesmente sensacional do Chico Guil sobre nosso modelo de ensino, que segundo ele hoje em dia forma melhores técnicos, mas não melhores pessoas. Concordo totalmente com o que ele escreveu.