Não há argumentos pró-Serra

O texto abaixo foi escrito por meu amigo Fábio Castilhos Figueredo, professor de Língua Portuguesa, e que há um ano ministra aulas no Timor-Leste (mas em breve estará de volta ao Brasil). Leiam:

“Por que não votar na Dilma.” Ou “Votar na Dilma, por que não?”

Todas as pessoas que me conhecem sabem que sou libriano. E como tal, adoro fazer ponderações de toda ordem (mais bunda, menos bunda; beleza, inteligência; esquerda, direita). Sou aquele tipo de libriano que adora ser gentil e perguntar a todas as pessoas “E tu? Prefere o quê?” só para não ter comigo a responsabilidade de escolher o cardápio do dia. No entanto, depois de algumas ponderações, sei perfeitamente escolher, desde que tenha tido a oportunidade de observar todos os pontos.

Como também devem saber, estou vivendo um ano fora do Brasil. Justamente ano de eleição. Apesar de não ter transferido meu título para cá, para não ter toda a burocracia de refazer o processo novamente ao chegar no Brasil, tenho acompanhado os debates e as propagandas políticas da melhor forma possível. Acompanhei algumas propagandas do Tiririca e seus atuais confrontos com a Justiça Eleitoral; fiquei sabendo das vitórias de cada estado; concordei com as derrotas, tanto eleitorais como judiciárias, de muitos medalhões. Por estar mais próximo de pessoas de outros recantos do Brasil, acompanhei a eleição em quase todo o território, do Ceará ao Rio de Janeiro, de Minas Gerais a Bahia. No entanto, não tenho uma televisão para isso.

No Brasil eu gostava de acompanhar o horário eleitoral. Não era, nem sou, um fanático, mas gostava de poder saber porque poderia votar neste ou naquele candidato. Com essa distância das urnas (entenderam a metáfora?), recebi muitas manifestações pela internet, meio de comunicação maravilhoso, pois não tem filtro, é público e nem um pouco criterioso. Como na internet todos podem mandar o que quiserem para quem quiserem, recebi toda a sorte de correntes, piadas, charges, manifestos políticos.

O que me chama a atenção é que os lendo, senti uma grande falta do que se dizer. Sou professor, eu trabalho com a Língua Portuguesa, ela é meu meio de sustento; sua escrita é meu objeto de estudo; sua argumentação é meu mestrado. Como professor, posso afirmar que li muitas comparações entre os governos Lula e FHC, li ponderações sobre os feitos de um e de outro; admito que FHC foi essencial para o Brasil durante 8 anos de mandato; reconheço que os 8 anos de governo Lula foram os mais crescentes da nação. Não há como negar que a população brasileira teve seus momentos de glória durante a presidência de FHC, mas conseguiu ser mais emergente no governo Lula. Não vamos dar todos os méritos para o Lula, pois sabemos de suas falhas, de seus exageros e de seus “eu não sabia de nada”; contudo, não é possível canonizar um FHC que pouco investiu em educação, saúde e segurança, apesar de tê-lo feito em economia, somente.

Os candidatos que ao povo se apresentam para o pleito devem de fato continuar o trabalho de um ou de outro. O problema, para mim, é como farão isso. Recebi muitas propostas para o governo Dilma. Com algumas concordo, com outras discordo.

Sobre o candidato Serra, nada recebi de proposta. Sempre que abro minha caixa de e-mail recebo diversos pedidos para não votar na Dilma, mas em nenhum deles me dizem seriamente porquê. Não devo votar na Dilma porque ela é mulher; porque ela é dentuça; porque o amigo dela fala errado; porque foi guerrilheira; porque supostamente não vai poder viajar senão será presa logo após a aterrissagem do avião; porque ela é o diabo, vai provocar o armagedom e obrigar as pessoas a fazer abortos. Se descarregar minha caixa de mails, há uma infinidade de piadas (muitas sem graça) para que apenas não vote na Dilma. Mas vou votar em quem? No Serra? Por quê?

A argumentação em Língua Portuguesa se sustenta em vários alicerces. Podemos usar desde o discurso de autoridade até uma argumentação baseada na escolha das palavras. Como linguísta, prefiro observar a linguagem nela mesma. Se um discurso é bem feito, é porque houve uma série de escolhas, de escritas, de construções que o fizeram ser bem feito. Confesso que não recebi nenhuma proposta ou discurso para que imaginasse votar no Serra, nem uma frase, nem uma proposta, nem uma ideia; apenas os clássicos “não vote na Dilma”.

Então me questiono: “Votar na Dilma, por que não?” Desde incentivo à Educação, aos professores e às universidades; desde o combate ao racismo e à violência contra a mulher; desde uma avaliação das diversas bolsas-caridade espalhadas no país, o que aparece como ideia ou descontentamento do brasileiro, meus descontentamentos atuais, estão presentes nas propostas dela. Não como uma coisa extremamente nova, mas como um ajuste ao que vem sendo feito pelo atual governo.

Sei que ninguém é ingênuo na Política. Por vezes, ingênuo é o povo brasileiro, que se deixa levar pelo riso fácil ou pelo discurso religioso. Meus amigos que me conhecem sabem que não sou dado a mails de corrente e de bobagens a toda hora. Se me dou ao trabalho de escrever essas duas páginas de texto, é porque sei que os que lerão poderão perceber que ainda sou o ponderado de sempre. Colocar uma mulher na presidência, por que não?

Prof. Ms. Fábio Castilhos Figueredo

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Três anos de Cão Uivador

Hoje é um dia especial para o Cão Uivador: o blog completa três anos de existência.

Desde 14 de maio de 2007, postei 851 vezes aqui, recebendo 2591 comentários (fora os de trolls que apago sumariamente desde janeiro de 2009) até o momento em que publico este texto.

Aliás, o número de comentários mostra o quanto o Cão cresceu de importância nos últimos tempos: lembro bem que o milésimo comentário foi publicado em novembro de 2008 – ou seja, um ano e meio atrás, e quando o blog tinha também um ano e meio de existência. De lá para cá, foram mais de 1500 comentários publicados – e isso que barrei os trolls!

O número de acessos também é algo a se comemorar. Um ano atrás, eu celebrava os dois anos e também as 100 mil visitas desde 17 de agosto de 2007 (quando o Cão veio para o WordPress). Agora, já são quase 174 mil – ou seja, provavelmente as 200 mil serão alcançadas em um tempo bem menor do que eu esperava em 14 de maio de 2009.

Claro que esses números não são nada se comparados com blogs ligados à “grande mídia”. Mas para um blog pessoal (mesmo que não tratando de temas exatamente pessoais), até que não é tão pouco.

Sem contar que o fato de vez que outra ter de apagar comentários de trolls indica que eu incomodo algumas pessoas com o que eu publico aqui… Digo mais: sempre que um carinha desses aparece por aqui com xingamentos, apenas me motiva a escrever ainda mais. Assim, por conta disso, quero deixar publicamente registrado meu agradecimento a tais figurinhas.

Mas agradeço ainda mais aos leitores que não aparecem por aqui para xingar – ou seja, a maioria. São aqueles que gostam de ler o que escrevo aqui, às vezes comentam, elogiam e também criticam (ninguém é obrigado a concordar com nenhuma ideia, e não esqueçamos que para formarmos nossa opinião e fundamentá-la bem é preciso saber o que pensam e argumentam os outros, nem que seja apenas para discordar).

Afinal, o que seria do Cão se não fossem vocês, leitores?