O Brasil de costas para a América do Sul

No momento em que escrevo, River Plate (Argentina) e Tigres (México) disputam a decisão da Libertadores de 2015 no Estádio Monumental de Nuñez, em Buenos Aires. Estou bem dividido quanto ao jogo: se por um lado sou extremamente grato ao Tigres por ter eliminado o Inter (não ia dar para aguentar um terceiro título deles na Libertadores), por outro acho que será bizarro demais o River representar a América do Sul no Mundial de Clubes sem ser o campeão sul-americano (o Tigres não irá ao Mundial mesmo sendo campeão pois o México integra a Concacaf).

Sintonizei na Fox Sports para assistir ao jogo. Se quiser, troco de canal e assisto no Sportv. Por curiosidade, coloquei na Globo e nada de jogo: passava a novela.

Pois é: no Brasil, quem gosta de assistir futebol (e não apenas ao seu clube do coração) precisa ter TV por assinatura. Pois a Globo só mostra jogos internacionais se envolverem um clube brasileiro ou a Seleção (cada vez mais da CBF e menos do Brasil). As exceções são a Copa do Mundo (teria de fechar as portas se não mostrasse todos os jogos) e a Liga dos Campeões da UEFA.

“Ah, mas os jogos da Liga dos Campeões são bem melhores que os da Libertadores”. Concordo. Inclusive, a final da principal competição de clubes da Europa não é mais apenas um evento esportivo, passou a ser também televisivo. Tanto que a partir de 2010 a decisão passou a ser disputada em um sábado, de modo a dar a maior audiência possível; na última final eu estava em Porto Alegre e me reuni com amigos na casa do meu irmão para assistir ao jogo.

E nesse aspecto, sem dúvida alguma, a decisão da Libertadores não ajuda: além de ser disputada em dois jogos (a da Europa é em partida única num estádio definido com bastante antecedência, sendo raro algum clube decidir “em casa”), acontece no meio da semana, em uma quarta-feira (como era na Europa até 2009). Obviamente não dá para simplesmente “copiar” os europeus, pois nossa realidade é diferente: na Europa as viagens são mais curtas (podendo ser feitas de trem inclusive) e os torcedores têm mais condições de viajar.

Sem contar que, dependendo do palco, o público da final em jogo único e em campo neutro poderia ser um fiasco: este River x Tigres não levaria muita gente a um Maracanã, por não atrair a atenção dos brasileiros. E aí, entra a culpa da Globo.

Quarta-feira é o “dia do futebol na Globo”. Tanto que temos jogos no absurdo horário das 22h, para que eles sejam transmitidos “depois da novela”. Mas, como não tem clube brasileiro na disputa (obrigado, Inter!), para a Globo é como se nada estivesse acontecendo no Monumental de Nuñez.

Por conta disso, acho bastante discutível essa história de considerar o Brasil como “o país do futebol”. Em geral, brasileiro gosta apenas de assistir ao jogo do seu time (aliás, até isso está ficando difícil, com os altos valores dos ingressos). Se estiver “neutro” na disputa, pode até ver a partida pela televisão, mas dificilmente se deslocará ao estádio – a não ser que seja Copa do Mundo, aí estará disposto a pagar caro por um ingresso só para tirar uma selfie e dizer “fui num jogo de Copa”.

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100 anos de um gênio

Júlio Cortázar (1914-1984)

Júlio Cortázar (1914-1984)

Nesta terça-feira, completam-se 100 anos do nascimento de Julio Cortazar, escritor argentino que, curiosamente, durante boa parte de sua vida morou fora da Argentina. Começando pelo próprio 26 de agosto de 1914: Cortázar nasceu na embaixada argentina em Bruxelas, Bélgica, nas primeiras semanas da Primeira Guerra Mundial. Mas a cidade onde mais viveu foi Paris: mudou-se para a capital francesa em 1951 e lá permaneceu até sua morte, em 12 de fevereiro de 1984.

Julio Cortázar foi um dos escritores mais originais de seu tempo, e dos mais geniais que já tive o prazer de ler. Muitas de suas obras cruzam a fronteira entre o real e o fantástico, como se vê nas “Histórias de Cronópios e de Famas” (sobre a lápide do túmulo de Cortázar no Cemitério de Montparnasse, em Paris, se ergue a imagem de um “cronópio”).

O conto abaixo é um dos que compõem “Histórias de Cronópios e de Famas”.

Ocupações Maravilhosas

Que ocupação maravilhosa é cortar a pata de uma aranha, metê-la num envelope, escrever Senhor Ministro das Relações Exteriores, acrescentar o endereço, descer a escada aos pulos, botar a carta no correio da esquina.

Que ocupação maravilhosa é ir andando pelo Boulevard Arago contando as árvores, e a cada cinco castanheiros parar um momento num pé só e esperar que alguém olhe, e então soltar um grito seco e breve, e girar como um pião, os braços bem abertos, igual à ave cakuy que se vê nas árvores do norte da Argentina.

Que ocupação maravilhosa é entrar num café e pedir açúcar, açúcar outra vez, três ou quatro vezes açúcar, e ir formando um monte no meio da mesa, enquanto cresce a fúria nos balcões e debaixo dos aventais brancos, e exatamente no meio do monte de açúcar cuspir suavemente e espiar a descida da pequena geleira de saliva, escutar o barulho de pedras quebradas que o acompanha e que nasce nas gargantas contraídas de cinco fregueses e do patrão, homem honesto em certas horas.

Que ocupação maravilhosa é tomar o ônibus, descer em frente ao Ministério, abrir caminho a golpes de envelope com selos, deixar para trás o último secretário e entrar, firme e sério, na grande sala de despacho toda de espelhos, no momento exato em que um contínuo vestido de azul entrega uma carta ao Ministro, e vê-lo abrir o envelope com cortador de papel de origem histórica, enfiar dois dedos delicados e retirar a pata da aranha e ficar olhando, e então imitar o zumbido de uma mosca e ver como o Ministro empalidece, quer tirar a pata mas não consegue, está agarrado pela pata, e dar-lhe as costas e sair assobiando, anunciar nos corredores a renúncia do Ministro e saber que, no dia seguinte, entrarão as tropas inimigas e tudo irá para o inferno e será uma quinta-feira de um mês ímpar de um ano bissexto.

De volta à realidade

Acabou a Copa do Mundo do Brasil, com resultado mais do que justo. A Alemanha, primeira seleção europeia a ser campeã na América, mereceu pelo que fez não só no Mundial (onde somou ao belo futebol uma simpatia incomparável que, seja ou não jogada de marketing, conquistou a torcida brasileira de maneira que nem aqueles 7 a 1 reverteram), como também nos últimos anos.

Torci pela Argentina (por ser sul-americana), que com a derrota segue em seu jejum de títulos: o último foi a Copa América de 1993. Já os alemães voltaram a ganhar uma taça depois de 18 anos (a última fora a Eurocopa de 1996), graças à total reformulação iniciada após o fiasco na Euro 2000 – um modelo que, se não é para ser seguido à risca pelo Brasil (afinal, somos diferentes da Alemanha), ao menos deveria servir de inspiração para a reconstrução do futebol brasileiro.

Agora, é voltar à realidade:

  • Depois da Copa do Mundo com segunda melhor média de público de todos os tempos, marcada por grandes jogos, é hora de voltar a assistir partidas de baixo nível técnico em estádios que muito raramente lotam. Algo do tipo Coritiba x Figueirense, que jogam quarta-feira às 19h30min pelo Campeonato Brasileiro;
  • Na Argentina, o segundo semestre de 2014 terá o Torneo Transición, e em 2015 o Campeonato Argentino abandonará o calendário europeu. Mas, passará a ser disputado por 30 clubes numa fórmula que não entendi, mostrando que o futebol no país vizinho (sob o comando de Julio Grondona desde 1979) também precisa de uma “arejada”;
  • Semana que vem, recomeça a Libertadores em sua fase semifinal. Sem nenhum clube brasileiro: é verdade que a maioria dos convocados para a Seleção Brasileira hoje em dia jogam na Europa, mas não ter nenhum representante do Brasil nas semifinais da principal competição de clubes da América do Sul poderia ter servido de alerta para o que nos aguardava na Copa, né? E reparemos que a Seleção passou por Chile e Colômbia “com as calças na mão” como diz o ditado – para depois ser humilhada diante da Alemanha;
  • Os protestos contra a Copa não chegaram nem perto de igualar as grandes multidões que foram às ruas em 2013, é verdade. O que cresceu foi a repressão, e nada faz crer que ela diminuirá porque o Mundial já é passado;
  • Enquanto acompanhávamos as partidas decisivas da Copa do Mundo, Israel atacava novamente a Faixa de Gaza, matando mais de 100 palestinos com a desculpa de reagir a foguetes lançados pelo Hamas contra território israelense. Uma reação, para variar, desproporcional de um país dono de um dos exércitos mais bem preparados do mundo contra um povo oprimido há décadas;
  • E a campanha eleitoral já começou, com direito a desmiolados querendo culpar Dilma pela derrota da Seleção. Isso é só o começo do que veremos até outubro…

Sobre os “bodes expiatórios” do Brasil no momento

Fazer análise histórica “no calor do momento” é algo por demais difícil. Pois lidamos com fatos dos quais ainda não sabemos o real significado, sendo necessário um certo tempo para que se tenha um melhor entendimento. Portanto, da mesma forma que nenhum jornal do dia 15 de julho de 1789 anunciava o acontecimento do dia anterior (Tomada da Bastilha) como marco inícial da Idade Contemporânea, ainda não podemos dizer com exatidão o que significou o Brasil levar 7 a 1 numa semifinal de Copa do Mundo em casa, para além do óbvio: foi uma humilhação. Pouco importa o adversário: uma derrota dessas é humilhante porque é 7 a 1 e “ao natural”, mesmo que contra a poderosíssima Alemanha.

Logo, mesmo que eu não seja exatamente um apaixonado pela Seleção (muitas vezes fui indiferente e nesta Copa torci, mas não com a mesma intensidade que pelo Grêmio), o que escrevo abaixo carece do necessário distanciamento histórico. Por isso prefiro me concentrar em alguns personagens que estão sendo transformados em “bodes expiatórios” por essa derrota: nenhum deles pode carregar a culpa sozinho, e há quem nada tenha a ver com o que aconteceu.

1. Fred. Não jogou absolutamente nada nessa Copa, é verdade. Mas, se pensarmos apenas no vexame de ontem, precisamos lembrar que centroavante tem de marcar gols, e não impedir que os adversários cheguem a ele. Verdade que Fred também foi inoperante em sua função, mas não podemos esquecer que nenhum jogador escala a si mesmo.

2. Luiz Felipe Scolari. Ele convocou e manteve Fred como titular incontestável, escalou (muito) mal o time contra a Alemanha, e na entrevista coletiva de ontem demonstrou que simplesmente não entendeu o que se passou no Mineirão (da mesma forma que Carlos Alberto Parreira). E o que aconteceu em 2012, no Palmeiras, ajuda a demonstrar que Felipão já não era mais o mesmo de antes: em junho ganhou a Copa do Brasil (quebrando escrita alviverde de títulos relevantes, o último fora a Libertadores de 1999), mas em setembro o treinador deixou o clube na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro (de onde o Palmeiras não mais sairia naquele ano); dois meses após a demissão, tornou-se técnico da Seleção em virtude da vitoriosa campanha de 2002, não de seus resultados em 2012. Felipão teria sido rebaixado caso não deixasse o Palmeiras, visto que não conseguia fazer o time reagir: definitivamente, isso não era um bom presságio. Mas, assim como Fred não escalou a si mesmo, Luiz Felipe não foi contratado por si mesmo.

3. José Maria Marin. Sim, transformar o detestado presidente da Confederação Brasileira de Futebol em “bode expiatório” (afinal, foi ele que contratou a atual comissão técnica e, sobretudo, é o mandatário-mor do futebol nacional) também é um erro. Marin não deveria de forma alguma ser presidente da CBF, mas é uma ilusão achar que basta ele sair para as coisas tomarem jeito. Toda a estrutura do futebol brasileiro é arcaica, amadora: “de cima a baixo”, da CBF aos clubes. Verdade que maus dirigentes não são “privilégio” brasileiro: uma possível vitória da Argentina nesta Copa não pode apagar o fato de que desde 1979 o futebol argentino tem como mandatário Julio Grondona, indicado por Carlos Alberto Lacoste (militar diretamente envolvido com a brutal ditadura que assolou nossos vizinhos). Mas não pode servir de justificativa para que as coisas continuem do mesmo jeito.

4. Torcida. Uma das queixas mais corretas, embora não completamente. Não sou fã do termo “coxinha” (muitas vezes ele é usado em um debate para “desqualificar” o oponente, o que demonstra falta de argumentos para continuar a troca de ideias: “não discuto mais pois você é um ‘coxinha'”, e saio achando que “ganhei” a discussão), mas ele é perfeito para descrever boa parte dos que foram aos jogos da Copa do Mundo: um bando de “coxinhas” cuja maior preocupação não era torcer, e sim tirar “selfies” para alimentar o ego nas redes sociais. Enquanto alguns torcedores de verdade se desesperavam no Mineirão por conta do vexame (caso de meu amigo Leonardo Sato, um dos maiores apaixonados por futebol que conheço), no mesmo estádio os “patriotas de ocasião” estavam felizes porque suas “selfies” ganhavam muitas “curtidas” no Facebook e no Instagram. É no que dá ter ingressos tão caros (e nem me refiro só à Copa do Mundo, que ofereceu certa quantidade de ingressos a R$ 60, o que pode ser considerado barato para um torneio desta magnitude): com isso, os estádios têm cada vez menos torcedores e mais “exibicionistas”.

5. Dilma Rousseff. Sim, acreditem: já tem gente passando atestado de burrice ao associar a derrota brasileira na Copa ao governo Dilma. O pessoal “esquece” (no fundo, sabem que são oportunistas de quinta categoria) que a Seleção é controlada pela CBF (uma entidade privada) e que em caso de intromissão governamental ela pode ser suspensa ou mesmo desfiliada pela FIFA (outra entidade privada). Culpar qualquer governante por uma derrota no futebol é tão estúpido quanto cobrar o técnico de qualquer time por problemas sem relação com o esporte (aliás, o que mais vejo são pessoas culpando Dilma por coisas que nada têm a ver com o governo federal, e inclusive que sequer aconteceram no Brasil, numa mostra de que não há limites para a estupidez). Aliás, também é burrice tentar associar o fracasso futebolístico ao governo acreditando em dividendos eleitorais pois, desde que se tornou “regra” as eleições presidenciais acontecerem meses após a Copa do Mundo, só em 1994 houve coincidência entre vitória da Seleção e do candidato do governo (Fernando Henrique Cardoso, que ganhou a eleição devido ao Plano Real e não por conta dos gols de Romário). Depois sempre “deu o contrário”, com a situação vencendo em anos de derrota brasileira (1998, 2006 e 2010) e com o oposicionista Lula sendo eleito poucos meses após a vitória da Seleção na Copa de 2002. O que obviamente não quer dizer que Dilma já esteja reeleita, mas sim que o povo sabe separar as coisas, ao contrário do que alguns “ilustrados” pensam.


Por fim, resta agora torcer pela Argentina. Apesar dos dirigentes (e me pergunto se alguém torceu contra seu clube alguma vez por não gostar do presidente) e do futebol apresentado (a Alemanha jogou muito mais durante a Copa, e é favorita na final), fico com minha identidade latino-americana. Ultimamente os europeus têm levado nossos jogadores embora cada vez mais jovens (muito por incompetência dos clubes em segurá-los por mais tempo) e os confrontos interclubes entre América do Sul e Europa estão a cada ano mais desiguais, então que ganhemos deles pelo menos nas disputas entre seleções.

Mas reconheço que vai ser bem difícil…

Guerra Fria em campo

Neste domingo, completaram-se 40 anos de uma partida histórica. Em Hamburgo, duas seleções alemãs entraram em campo na noite de 22 de junho de 1974 para um jogo de Copa do Mundo. Os únicos “estrangeiros” dentro de campo eram os integrantes do trio de arbitragem: a partida foi apitada pelo uruguaio Ramon Barreto Ruiz, com o brasileiro Armando Marques e o argentino Luis Pestarino como auxiliares.

O jogo reunia as seleções das Alemanhas Ocidental e Oriental, que jamais tinham se enfrentado até então. E tal confronto aconteceu pela primeira (e única) vez justamente em uma Copa do Mundo. Mas todos os 22 jogadores que iniciaram a partida serem alemães não queria dizer que era um confronto “entre iguais”, e isso não tem a ver com o fato de serem dois países rivais por motivos ideológicos. Enquanto a anfitriã capitalista Alemanha Ocidental já tinha uma seleção respeitadíssima (ganhara a Copa de 1954 batendo a fantástica Hungria de Puskas, e dificilmente não ficava entre as semifinalistas dos Mundiais que disputava), a socialista Alemanha Oriental disputava apenas a sua primeira Copa (e que acabaria sendo a única). A lógica, portanto, pesava a favor do oeste.

As duas seleções já estavam classificadas, e o que restava em disputa era a liderança do grupo 1 da primeira fase – que ficaria com os ocidentais caso o jogo acabasse empatado. E assim parecia que ia acontecer: mais da metade do segundo tempo já tinha se passado e o placar permanecia fechado. Mas aos 32 minutos, o meio-campista Jürgen Sparwasser tratou de abri-lo, fazendo 1 a 0 para a Alemanha… Oriental.

E assim acabou o jogo: com uma inesperada vitória do leste sobre o oeste. Após o apito final não houve a tradicional troca de camisetas entre os jogadores, tamanha era a tensão (obviamente por motivos políticos) em torno da partida.

Reza a lenda que a Alemanha Ocidental teria facilitado as coisas para a Oriental (fato nunca comprovado e altamente improvável, visto que até os 32 do segundo tempo o placar permanecia em 0 a 0). Mas não pelos jogadores ocidentais simpatizarem com o comunismo, e sim para terem um caminho mais fácil na segunda fase – que naquela Copa era disputada em grupos, não em confrontos eliminatórios – e, em especial, para escaparem do Brasil – mesmo que a Seleção não estivesse jogando grande coisa.

Com o primeiro lugar no grupo 1, coube à Alemanha Oriental enfrentar não só os brasileiros, como também a Holanda (sensação da Copa) e a Argentina no grupo A da segunda fase; enquanto a Ocidental ficou no grupo B com Iugoslávia, Suécia e Polônia. Os orientais foram eliminados (mas acabaram à frente da Argentina), já os ocidentais ficaram em primeiro lugar no grupo, foram à final contra a Holanda e acabaram campeões com uma vitória por 2 a 1, de virada.

O Banheiro do Papa manda lembranças

O fato foi notícia anteontem. Das várias cidades do Rio Grande do Sul que investiram na expectativa de serem CTs de seleções na Copa do Mundo, só uma foi escolhida: Viamão, que receberá o Equador.

Quem acompanha o Cão há mais tempo, já lera em 2011: a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 têm tudo para resultar em vários “Banheiros do Papa” pelo Brasil. No caso do Rio Grande do Sul, como vimos, já “é uma realidade”, pois da mesma forma que a passagem do papa João Paulo II por Melo (Uruguai) gerou uma enorme e frustrada expectativa entre os habitantes da cidade, o Estado apostou em “atrativos” que uma análise racional mostraria serem inexpressivos: colonização alemã e italiana, clima e “platinos”.

A “natural” atração de Alemanha e Itália por conta das colônias alemã e italiana no Rio Grande do Sul, qualquer um com mais conhecimento perceberia ser uma furada. Primeiro, porque alemães e italianos não vieram apenas para o Estado: a colônia germânica é muito grande também em Santa Catarina (a maior Oktoberfest do mundo fora da Alemanha é a de Blumenau); e não faltam descendentes de italianos em São Paulo, de localização muito mais central, o que facilita os deslocamentos pelo Brasil. E outra: de forma geral, alemães e italianos não se identificam com seus descendentes por aqui – ou seja, exatamente o contrário do que acontece com teuto-brasileiros e ítalo-brasileiros em relação a Alemanha e Itália.

O clima mais frio também seria um “atrativo” para as seleções fugirem do calor excessivo. Porém, é importante lembrar que a maior parte dos jogos acontecerá em cidades quentes; as duas sedes mais frias são Curitiba e Porto Alegre: a primeira só terá partidas da primeira fase, e a segunda “se despede” nas oitavas-de-final. Ou seja, faz muito mais sentido “se hospedar” no centro do país, especialmente em São Paulo e arredores, onde na época o tempo é mais ameno – nem tão quente, nem tão frio – e também pela facilidade de ir tanto a Manaus (calor muito forte e úmido) como a Porto Alegre (inverno). Sem contar outro detalhe: as cidades litorâneas e quentes são mais atrativas a turistas europeus que pretendam vir por conta da Copa, visto que em boa parte de seus países faz frio durante a maior parte do ano.

Outra aposta furada era quanto à grande presença de argentinos e uruguaios no Rio Grande do Sul, devido à proximidade. Porém, havia um detalhe que poucos levavam em conta: as cidades onde cada seleção joga (exceto o Brasil) são definidas por sorteio, e nenhuma delas disputa mais de uma partida da primeira fase no mesmo lugar. Assim, desde que Argentina e Uruguai foram definidas como cabeças-de-chave, já se podia antecipar que só uma delas poderia jogar em Porto Alegre, para isso precisando ficar no grupo F. O sorteio nos brindou com um Argentina x Nigéria, mas também poderia ter deixado os platinos longe do Estado. E não podemos esquecer de algo: a proximidade entre Buenos Aires e Porto Alegre facilitará a vinda de argentinos para o jogo, mas também a volta… Não convém apostar muito neles quanto a benefícios monetários.

E de qualquer maneira, mesmo que os “atrativos” do Rio Grande do Sul fossem sem aspas, não se podia deixar de levar em conta a conjunção de dois fatores: organização e geografia. Até 1994, a distribuição das cidades-sede se dava por grupos, e assim as seleções de cada chave jogariam apenas em duas ou três cidades. Em 1998 isso mudou: os seis jogos de cada grupo passaram a acontecer em seis cidades diferentes, fazendo com que as seleções viajassem bastante pelo país-sede. Até 2010 não havia problemas, pois as distâncias não eram tão grandes; agora, num país enorme e de climas variados, e com jogos acontecendo em várias partes do vasto território, a coisa complicou. Imaginem uma seleção se hospedando no Rio Grande do Sul e precisando ir jogar em Manaus: isso significaria não apenas sair de um possível frio intenso para um calor sufocante, como também uma viagem bastante demorada, o que torna muito mais lógico a opção por concentrações em pontos mais centrais do Brasil.

Quanto à opção do Equador por se hospedar no Rio Grande do Sul, provavelmente tenha sido mais barata em comparação com outros Estados mais centrais. E a tabela também ajudou: os equatorianos não jogarão em Porto Alegre, mas sim em cidades acessíveis sem necessidade de viagens demoradas (Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro). Ou seja, Viamão também teve sorte.

Alguns fantasmas não vão embora

Pouco antes da Copa do Mundo de 1998, foi muito comentada uma tal de “pirâmide da Copa”, divulgada provavelmente por um jornal inglês (não recordo com exatidão). Segundo ela, a Inglaterra ganharia o Mundial da França por mera “questão geométrica”.

O topo da tal “pirâmide” correspondia à Copa de 1982, vencida pela Itália. No degrau abaixo (à esquerda e à direita), as conquistas da Argentina em 1978 e 1986. Descendo mais um pouco, dois títulos da Alemanha (1974 e 1990). Na sequência, a correspondência entre 1970 e 1994, Copas vencidas pelo Brasil. Logo, o campeão de 1998 seria o mesmo de 1966. Portanto, daria Inglaterra.

Porém, o English Team caiu cedo, nas oitavas-de-final, perdendo nos pênaltis para a Argentina. E aquela Copa, como bem lembramos, foi vencida pela França. A “pirâmide” estava sepultada, como mais uma superstição que perdia o sentido, certo?

Errado! Pois houve coincidências entre as Copas de 1966 e 1998, sim. A primeira delas: suas campeãs (Inglaterra e França) conquistavam o título pela primeira vez, e jogando em casa. Mas teve mais: em ambos os Mundiais seleções estreantes acabaram em 3º lugar e também tiveram o artilheiro – Portugal e Eusébio (1966), Croácia e Suker (1998).

Desta forma, a “pirâmide” continuava em vigor, e apontava que não era preciso toda aquela preocupação com a má campanha brasileira nas eliminatórias do Mundial de 2002: o campeão seria o mesmo de 1962, portanto, o Brasil. E em 2006 a Seleção seria campeã mais uma vez, jogando na Europa da mesma forma que em 1958… Exatamente como o previsto.

Até 2002 tudo funcionou direitinho, mas em 2006 a “pirâmide” foi novamente sepultada: o Brasil foi eliminado nas quartas-de-final, e a Itália foi campeã. Poderia ser um “ponto fora da reta”, e em 2010 as coisas voltariam ao normal com a Alemanha ganhando a taça, da mesma forma que em 1954. E, de fato, os alemães jogaram muito na África do Sul, mas quem levou a Copa foi a Espanha.

Desta forma, soa absurdo lembrar novamente a “pirâmide”, segundo a qual o campeão de 2014 seria o mesmo de 1950 – ou seja, o Uruguai. Porém, há fantasmas que não vão embora.

Todos temos acontecimentos traumáticos em nossas vidas. Feridas que parecem jamais cicatrizar. Por mais coisas boas que aconteçam, aquele dia em que tudo saiu errado dá a impressão de que sempre está a espreita, pronto para voltar.

Algo assim se passa sempre que brasileiros e uruguaios se enfrentam no futebol: é como se fosse ligada uma máquina do tempo que sempre leva todos (jogadores, torcedores, jornalistas etc.) de volta a 16 de julho de 1950. O Brasil, mesmo com cinco Copas do Mundo conquistadas após aquele dia, ainda sente a dor da derrota em casa. Já para o Uruguai, mesmo nos piores momentos vividos por seu futebol nas décadas de 1990 e 2000, as lembranças daquela vitória davam a sensação de que sí, se puede: se batera uma seleção mais forte e que contava com o apoio de 200 mil pessoas no estádio, nada era impossível.

Nada era, e nada é. Até 2006, provavelmente o maior alento ao sonho uruguaio de voltar a ganhar uma Copa do Mundo era a tal “pirâmide”. Que, como foi dito, “morreu” quando Zidane e Henry acabaram com o Brasil nas quartas-de-final. Vale lembrar que o Uruguai sequer disputou aquele Mundial, tendo sido eliminado pela Austrália na repescagem.

A Celeste voltou à Copa em 2010, novamente via repescagem, quando derrotou a Costa Rica. Ninguém esperava muito, mas os orientales voltaram a acreditar que era possível: o Uruguai passou com dificuldades pela Coreia do Sul nas oitavas-de-final, é verdade, mas superou Gana em uma partida dramática nas quartas e deu trabalho à fortíssima Holanda nas semifinais. Como se não bastasse, Forlán ainda foi eleito o melhor jogador do Mundial.

Em 2011, mais sinais do “renascimento”. Na Libertadores, o Peñarol foi vice-campeão diante do Santos, 23 anos após a última vez que um clube uruguaio chegara à final. Um mês depois, a Celeste conquistou a Copa América na Argentina, e credenciava-se, assim, a obter a classificação para o Mundial de 2014 com facilidade.

Porém, não foi o que aconteceu. Após arrancar bem nas eliminatórias, o Uruguai “patinou”, e chegou a correr riscos de ficar fora da Copa do Mundo. No fim, conseguiu acabar em 5º lugar e disputar a repescagem contra a fraca Jordânia: após vencer por 5 a 0 em Amã, “tirou o pé” em Montevidéu e ficou no 0 a 0. Uma campanha medíocre dessas é sinal de que a Celeste fará figuração na Copa, certo?

Porém, nas eliminatórias para 2010 o Uruguai também não foi lá muito bem (com direito a levar 4 a 0 do Brasil em pleno Estádio Centenário). Ninguém esperava muito, e acabou chegando à semifinal.

E além disso, há o “fantasma” de 1950, que automaticamente transforma a Celeste em candidata ao título. Mesmo que a lógica aponte outras seleções como favoritas (casos de Brasil, Argentina, Alemanha, Espanha, Itália etc.), a mística tem sua força. De modo que, enquanto o Uruguai estiver na disputa, a possibilidade da taça retornar a Montevidéu não pode ser descartada, de forma alguma.

Por conta disso, a Puma (fornecedora de material esportivo da Celeste) produziu esta genial peça publicitária, em homenagem à classificação uruguaia. A Copa é no Brasil e a final é no Maracanã… Portanto, um fantasma assombra o Mundial: el Fantasma del 50.

A beleza da qual Porto Alegre abre mão

Diz-se que antigamente, o porto-alegrense que ia a Montevidéu não notava muita diferença. E, de fato, não foram poucas as ruas da capital uruguaia que me deram a sensação de estar “em casa” quando lá estive pela primeira vez, em agosto de 1998.

Voltei a Montevidéu em fevereiro de 2006. Lendo o principal jornal do Uruguai, El País, me deparei com uma matéria que fazia justamente a tradicional comparação entre a capital uruguaia e Porto Alegre. E o texto chamava a atenção para o fim da “semelhança” entre as duas cidades: antigamente ambas tinham um ritmo mais, digamos, “pacato”; já em 2006, Porto Alegre lembrava muito mais São Paulo do que Montevidéu.

Engana-se quem pensa que o “distanciamento” entre Porto Alegre e Montevidéu deva-se apenas ao trânsito cada vez mais caótico da capital gaúcha. Há outros aspectos que mostram como estamos abrindo mão de nosso lado “montevideano”.

Um deles diz respeito à arborização. É verdade que Porto Alegre ainda tem muitas ruas com árvores, extremamente necessárias para que a cidade não se torne totalmente inóspita durante o verão. Porém, abre-se mão delas com uma facilidade constrangedora. Como prova o caso das árvores derrubadas no final de maio para que uma avenida seja alargada: trocou-se sombra, barulho de pássaros e ar menos poluído por sol inclemente, roncos de motores e fumaça. Montevidéu, por sua vez, tem árvores até nas ruas centrais.

Uma rua arborizada em pleno Centro

Uma rua arborizada em pleno Centro

Porto Alegre também sofre de uma estúpida fixação por edifícios altos e “modernos”, com muitas vagas de estacionamento para carros. A cidade, capital de um Estado que tanto se vangloria de ser “o melhor em tudo”, quer a todo custo aderir a um modelo padronizado de “modernidade”, que despreza a memória.

Um caso pessoalmente emblemático é o do Esquilo Travesso, escola de educação infantil que frequentei de 1986 a 1988. Ela encerrou suas atividades no final de 2008, pois funcionava em uma casa alugada, que foi vendida. Imaginei que em seu lugar seria erguido um edifício desses “modernosos”, todo envidraçado (o que acarreta em maior gasto de energia devido ao necessário uso constante de ar condicionado durante o verão); mas na última vez que passei por lá (em 2011) vi que o destino da área não foi menos simbólico do “progresso” porto-alegrense: um estacionamento. Crianças aprendendo e brincando foram substituídas por carros.

A escolinha ficava na Rua Dona Laura, bairro Rio Branco. Foi indicada pela terapeuta com a qual me tratava, que atendia em uma rua próxima, a Luciana de Abreu, no vizinho bairro Moinhos de Vento. De tal forma que aquela região da cidade está bastante associada à minha infância, mesmo que pouco frequentada depois de 1988, quando concluí o Jardim de Infância e deixei o Esquilo – morava no bairro Floresta, por cujas ruas andei muito mais.

Praticamente defronte ao prédio onde ficava o consultório, pouco depois de uma curva, há um conjunto de casas da década de 1930, típico do Moinhos de Vento, que se depender dos interesses do poder econômico será posto abaixo e substituído por um edifício “moderno”, igual a vários que se espalham pela cidade. Literalmente igual, pois as construtoras parecem sofrer de uma terrível falta de criatividade, seguindo padrões e os repetindo em todos os prédios que constroem. Porto Alegre está se “pasteurizando”: os bairros perdem suas características peculiares, e fica difícil saber se estamos no Moinhos de Vento, no Bom Fim ou no Menino Deus, pois os espigões são iguais; e tal processo se dá em inúmeras cidades, tornando-se difícil distingui-las.

E agora, pense: se isso acontece mesmo em “bairros nobres” (nos quais “todo mundo quer morar”, desculpa usada pelas construtoras para derrubar casas e erguer espigões), imagine o que se passa nas regiões periféricas que atraem o olho grande do poder econômico

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O pior é perceber que para ser “cosmopolita” uma cidade não precisa abrir mão de suas características. Porto Alegre quis deixar de parecer com Montevidéu e optou por copiar os erros de São Paulo, quando poderia ter apenas “desviado os olhos” da capital uruguaia buscando inspiração em Buenos Aires, uma grande metrópole que, assim como Montevidéu, preserva os prédios antigos – o Centro da capital argentina é encantador justamente por conta disso.

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Caso exemplar é o do antigo teatro Grand Splendid, que fechou as portas e teve sua arquitetura original mantida, sendo apenas adaptada ao funcionamento de uma filial da rede de livrarias El Ateneo, uma das mais tradicionais da Argentina. A remodelação do prédio resultou em uma das livrarias mais belas do mundo; no antigo palco, no qual cantou Carlos Gardel, funciona um café, que tem os livros como “plateia”.

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O papa e a hipocrisia

Foi-se embora o papa Francisco. Em Guaratiba, ficou o prejuízo pelo fato dele não ter ido até lá – repetindo-se o que aconteceu em 1988 na cidade uruguaia de Melo e servindo de alerta para o que ainda virá. Mas segundo a mídia conservadora, o legado foi uma imagem de “simplicidade” e “preocupação social”.

Muito se destacou, desde que o argentino Jorge Mário Bergoglio foi eleito papa, seu estilo de vida “simples”, que incluía o hábito de usar o transporte público, fazer sua própria comida e ser torcedor fanático de futebol (é inclusive sócio do San Lorenzo de Almagro). A ideia de que é uma pessoa “igual a nós” causou encanto, e assim não falta gente se rasgando em elogios ao papa.

Chega a parecer que não existe mais ninguém que ocupe ou tenha ocupado cargos importantes e adota um estilo de vida “simples”. Nem é preciso pensar muito para nos lembrarmos do presidente do Uruguai, José Mujica: considerado o Chefe de Estado “mais pobre” do mundo, “Pepe” Mujica mora em sua pequena fazenda nos arredores de Montevidéu, dirige seu próprio carro (um Fusca ano 1987) e doa a maior parte de seu salário como presidente a ONGs que combatem a pobreza.

Foto: Marcello Casal Jr., Agência Brasil

Foto: Marcello Casal Jr., Agência Brasil

Porém, aqui no Rio Grande do Sul temos também um exemplo de simplicidade no poder, chamado Olívio de Oliveira Dutra. Prefeito de Porto Alegre de 1989 a 1992, Governador do Rio Grande do Sul de 1999 a 2002 e Ministro das Cidades de 2003 a 2005 durante o primeiro mandato de Lula como presidente, Olívio jamais abriu mão de seus hábitos simples. Usava transporte público para ir trabalhar quando era prefeito, e ainda hoje é visto se deslocando pela capital sem seguranças, sem carro com motorista particular. Não é em qualquer lugar que se corre o “risco” de embarcar em um ônibus e sentar ao lado de alguém que já governou o Estado e foi ministro.

Em uma época na qual tanto se reclama dos políticos por “não nos representarem”, era para Olívio Dutra ser uma das primeiras lembranças, né? Porém, não é o que acontece. Pois ele foi alvo de uma campanha difamatória das mais sujas que recordo. Lembro da campanha eleitoral de 1998: muitos acusavam Olívio de ser “um bêbado”, por conta de seu hábito diário de tomar uma dose de cachaça no Bar Naval, um dos mais tradicionais do Mercado Público. Quem o acusava obviamente não era abstêmio: os mesmos que bebem uísque até cair em ambientes “finos” rejeitam quem toma a bebida típica brasileira – o que não é de estranhar, pois o que nossa elite mais odeia é justamente o Brasil.

Pior foi depois de Olívio ser eleito e assumir o governo. No final de abril de 1999, a Ford decidiu ir embora – e já está mais que provado que foi a empresa que decidiu partir, não o governo que a “expulsou” por querer renegociar um contrato que abriria um rombo nas já combalidas finanças do Estado. Mas não foi o que se disse na época: por muitos e muitos anos, se repetiu como um mantra a mentira de que “o Olívio mandou a Ford embora”. Não foram poucos os que acreditaram nisso, e o pior é que ainda há quem acredite.

E por isso, preferem idolatrar um religioso “simples” mas conservador (contrário ao aborto, à eutanásia e ao casamento homossexual), ao invés de pessoas que buscam a igualdade não só no discurso, como também na prática.