O fim de Porto Alegre

Crise no transporte público, calor desesperador… Alguma vez, na história recente, Porto Alegre passou por um momento tão terrível como este?

O problema, amigos, é que como diz o famoso ditado, “nada está tão ruim que não possa piorar”. Pois o prefeito já avisou, no rádio, que a passagem vai subir. Não consigo acreditar que ele já tenha esquecido o motivo pelo qual tanta gente foi às ruas ano passado, então a única explicação plausível é que ele adora ver o povo protestando.

E então, leio uma notícia no Correio do Povo informando que o edital da licitação dos ônibus prevê a extinção do uso de ar condicionado; o aparelho passaria a ser utilizado apenas nos veículos do sistema BRT, que era previsto para entrar em operação até a Copa do Mundo. É que faltou explicar qual era a Copa às empreiteiras: elas acharam que era a de 2078.

Isso, claro, se ainda houver Porto Alegre para sediar jogos em 2078. Pois do jeito que vai, a cidade acaba antes do mandato do atual prefeito, com a população presa em um congestionamento formado por todos os carros que entrarão em circulação devido ao transporte público mais caro e de pior qualidade.

Um sonho de verão

Final da tarde de sábado em Porto Alegre. Olho para a rua: chuva fina com vento. No rádio, o locutor anuncia a temperatura: 10 graus. Tempo ideal para comer um fondue de queijo, penso, e ligo para os amigos para fazer a irrecusável proposta. Me visto, e vou ao supermercado comprar os ingredientes.

Além do próprio queijo para fondue, gosto de incrementar a receita com o sempre delicioso gorgonzola. Fico na dúvida entre comprar ou não provolone, e então lembro que ele é bem complicado de derreter. Melhor deixar de fora.

Confiro a lista, falta pegar o vinho branco para adicionar à mistura; já tenho em casa o dente de alho para passar na panela. Antes de passar no caixa, olho para a prateleira e vejo uma goiabada que pede para ser comprada: se queijo com goiabada é um par digno de receber o apelido “Romeu e Julieta”, mergulhar o doce no fondue me parece ser o casamento do século. Nem penso mais vezes, e a goiabada já está no meu cestinho.

Pago as compras, e vou para casa. No caminho, me sinto extremamente feliz pelo momento vivido. Ao contrário do que insistem em dizer, não é o calor, mas sim a ausência dele, que me traz a plenitude da vida.

Quando chego à porta do prédio, começo a escutar sons estranhos. Um zumbido persistente, acompanhado de um sinal intermitente. Entro no elevador, e à medida que ele sobe, a intensidade do barulho aumenta. Saio, e à porta do apartamento, o ruído é ensurdecedor, tapo os ouvidos para me proteger.

Então percebo que estou na minha cama. Toco na função “soneca” do despertador, para dormir mais alguns minutos, mas faço isso várias vezes. Depois de um tempo, finalmente levanto, e desligo o ar condicionado, silenciando seu zumbido. Ligo o rádio, o locutor anuncia a temperatura daquela manhã de segunda-feira: 26 graus. Em seguida, o homem do tempo diz que à tarde pode chegar aos 40.

No caminho para o trabalho, fico na dúvida entre tomar sorvete ou água gelada para encarar a caminhada. E me pergunto se existe inverno em Porto Alegre.

Para “sair bem na foto”

A passagem de ônibus em Porto Alegre passará a custar R$ 2,85 a partir da próxima segunda-feira. O aumento foi anunciado pelo prefeito José Fortunati, que aproveitou muito bem a oportunidade de “sair bem na foto”. (Lembrando que, em tempos de Photoshop, qualquer um pode sair “muito bem”.)

O pedido das empresas de ônibus era que a passagem subisse a R$ 2,95. Eu previa R$ 2,90. Logo, ficou abaixo do esperado, e mesmo da inflação de 2011 – o que não quer dizer que me agrade este aumento.

Mas olhem o detalhe: à tarde, ouvi que o valor seria R$ 2,88. Um preço impraticável, pelo simples motivo de que as moedas de um centavo, embora ainda válidas, são verdadeiras raridades. Mesmo que não percam o valor, em breve elas serão peças de museu.

Logo, uma passagem a R$ 2,88 seria ótima para as empresas, visto que a cada passageiro que pagasse com dinheiro, a probabilidade de terem um lucro extra de dois centavos seria enorme. Cheguei a prever que o valor seria arredondado para R$ 2,90 e depois anunciado pelo prefeito.

Mas, ficou nos R$ 2,85. O ano eleitoral tem o incrível poder de arredondar tarifas para baixo (pena que nem todos os anos são eleitorais).

Ainda assim, é muito caro – como já é a passagem a R$ 2,70 – para que muitas vezes andemos em ônibus sem ar condicionado (quando se está atrasado não dá para esperar até vir o veículo com ar, mesmo em dias terrivelmente quentes como foi o de hoje) e cujas tabelas horárias são apenas decoração (inúmeras vezes passam dois ônibus da mesma linha, um atrás do outro, sendo que geralmente o vazio passa adiante e somos obrigados a pegar o lotado).

Forno “alegre”

Fui encontrar uma turma de amigos em uma pastelaria, na Zona Norte de Porto Alegre. Só o fato de lá não ter sequer um ventilador faz com que não seja um ponto de encontro recomendável num dia como foi esta quarta-feira…

Mas o mais bizarro estava reservado para depois. Voltei de carona, o ar condicionado do carro a milhão. Ao chegar na minha casa, abri a porta e minha visão simplesmente desapareceu.

Traduzindo: o bafo da rua embaçou completamente meus óculos.

————

Se serve de consolo, faltam 74 dias para o outono.

Sem toga (e também sem terno e gravata)

Desde o dia 14 de dezembro, quando meu TCC recebeu conceito A da banca, me considero historiador. Só falta o diploma, que não sei exatamente quando sai – acredito que seja em março.

Mas antes disso, há um ato burocrático pelo qual terei de passar, cujo nome oficial é “colação de grau”, popularmente conhecido por “formatura”.

Como o próprio nome diz, o ato serve para “colar grau”, ou seja, atribuir a condição de graduado ao concluinte do curso – mesmo sem o símbolo maior de sua graduação, ou seja, o diploma. Como ele só vem depois, para que a formatura deixasse de ser mera burocracia e fosse para mim um “rito de passagem”, eu teria de vê-la justamente desta forma – ou seja, como uma divisão na minha vida, entre o “antes” e o “depois” dela. Porém, como já a chamei de “ato burocrático”, ficou claro que, pelo menos para mim, ela não tem eficácia simbólica.

O que eu considero o verdadeiro “rito de passagem” se deu em 14 de dezembro de 2009, ou seja, a defesa do TCC (assim como no mestrado se dá com a defesa da dissertação, e no doutorado com a defesa da tese). Aquele dia, fui dormir com a sensação do dever cumprido, e sentindo que ali uma etapa da minha vida se encerrou, dando lugar a outra.

Mas, como na graduação há a obrigatoriedade de se participar do ato burocrático, optei pela forma mais simples e barata, ou seja, a formatura em gabinete. Nada de toga (ainda mais com todo este calor!), gastos com produtora, convites, terno e gravata e aquele monte de discursos chatos e agradecimentos típicos de formaturas em palco.

E ao optar pelo gabinete, me livrei de uma “quente”: a formatura em palco da História aconteceu no último dia 29, quando o calor, se ainda não estava de fazer o Batista desmaiar, já era suficiente para me dar um baita banho de suor. Ainda mais com aquela roupa sufocante que é a toga. Lembrando que os cumprimentos dos convidados aos formandos se dão no lado de fora do Salão de Atos da UFRGS, ou seja, sem ar condicionado! Que, inclusive, não funcionou durante a formatura em palco do Jornalismo, na tarde do dia 31.

De terno e gravata

Essa aconteceu em 22 de dezembro de 2005.

Eu iria a uma formatura de Direito na PUCRS – dois amigos meus, Guilherme e Leonardo, se graduavam. A cerimônia começaria às 16h. E fazia um calorão, bem típico do verão porto-alegrense que começava.

Combinei com o Marcel (o mesmo amigo do hilário episódio do Heinhô Batista!) de irmos juntos. Conforme o combinado, passei na casa da avó dele, que fica bem perto de onde moro. Cheguei lá e ele ainda não havia terminado de se arrumar.

Quando vi ele descendo a escada, não acreditei. Terno e gravata! Com aquele calor! Avisei a ele sobre a alta temperatura, mas ele queria ir daquele jeito. Então… Azar o dele.

Saímos e nos dirigimos à Avenida Osvaldo Aranha. E o Marcel falou: “vamos pegar um táxi”.

“Táxi?”, respondi. “Vamos de ônibus, ora!”.

“Mas tá muito quente!”, ele respondeu.

“Sim, tá quente, mas não estou vestindo uma roupa totalmente incompatível com esse calor (eu vestia calça jeans e camisa social – de manga curta, é claro). Tu tá de terno e gravata porque quer. E eu quero ir de ônibus ao invés de gastar dinheiro em táxi às três da tarde”.

E pegamos um ônibus. E sem ar condicionado – reconheço que exagerei na dose com o coitado do Marcel! Se bem que estávamos preocupados em não nos atrasarmos, então pegamos o primeiro ônibus que passou com destino à PUCRS – poderíamos esperar mais e pegar um com ar condicionado, mas aí haveria o risco do atraso.

Só que, convenhamos, a culpa foi dele. Terno e gravata, um traje europeu, não é roupa para ser usada no Brasil, um país tropical (e o Rio Grande do Sul tem clima subtropical, ou seja, não deixa de ser também tropical, como provam os dias de calor que se registram no inverno). Nós não somos europeus, mesmo tendo inverno com temperaturas negativas e (às vezes) neve: até parece que isso é exclusividade da Europa! Inclusive os invernos mais frios, excetuando a Antártida, são os da Sibéria, que fica na Ásia.

Inclusive, foi um mês depois desse episódio que tomou posse como presidente da Bolívia um homem que não veste terno e gravata, chamado Juan Evo Morales Ayma. O primeiro indígena a governar um país cuja maior parte da população é como ele, prefere não usar as roupas dos colonizadores.

Quanto à formatura: a cerimônia, é claro, foi uma chatice. Depois que acabou, tive de optar por uma das duas recepções: acabei indo à do Guilherme. Poupei o Marcel de passar mais calor, e pegamos um lotação, com ar-condicionado…