Vamos cometer os mesmos erros de São Paulo?

Dezembro de 2009 está sendo terrível para os paulistanos em termos de chuva. As enxurradas que atingem a maior cidade da América do Sul já provocaram muitos prejuízos – inclusive em termos de vidas humanas.

As mudanças climáticas podem até mesmo serem responsáveis pelo excesso de chuvas – sem esquecermos o já conhecido El Niño, que tradicionalmente provoca aumento das precipitações, o que explica o horrível mês de novembro no Rio Grande do Sul, com muita chuva e consequentemente muito abafado (some-se isso ao estresse gerado pela monstrografia, e o resultado era a minha enorme vontade de ir morar em São Joaquim para fugir daquele calor desgraçado).

Porém, é preciso lembrar um problema sério: São Paulo é uma cidade muito impermeável. A água das chuvas não é absorvida pelo solo, tapado de asfalto e concreto. Resultado: ela escorre para os locais mais baixos, dentre os quais os rios Pinheiros e Tietê, cujos níveis aumentam rapidamente e invadem as pistas das marginais, congestionando praticamente toda a capital paulista e causando outros transtornos.

É o mesmo fator que explica os alagamentos em Porto Alegre (que ainda não está tão impermeabilizada como São Paulo, mas caminha a passos largos para isso). Boa parte da população acredita que asfalto é “progresso”. Resultado: muitas ruas são asfaltadas desnecessariamente (ou seria “eleitoralmente”?).

Lembro de quando o meu pai morava em um edifício na Rua Laurindo, bairro Santana. O prédio fica em uma baixada (inclusive, no local passava o arroio Dilúvio até meados da década de 1940, antes das obras de retificação), que sempre alaga quando chove, tornando impossível sair de casa em tais ocasiões. A situação piorou quando a Avenida Jerônimo de Ornelas (de movimento razoável, mas nada comparável às principais ruas da cidade), a uma quadra, foi asfaltada: não era mais preciso chover tanto para ocorrer inundação, e nas enxurradas a água já invadia o prédio (por sorte o apartamento não era térreo).

E agora, o próximo alvo do “progresso” é a Rua Gonçalo de Carvalho. Considerada a rua mais bonita do mundo, escapou do asfaltamento – e também da derrubada de metade das árvores – graças à mobilização de seus moradores e amigos em 2005, que resultou em seu tombamento como Patrimônio Histórico, Cultural, Ecológico e Ambiental de Porto Alegre, decretado pelo prefeito José Fogaça em 5 de junho de 2006.

O decreto municipal inclui o calçamento da rua, de paralelepípedos. Logo, asfaltar a Gonçalo é, em primeiro lugar, ilegal. Mas é também de uma burrice sem tamanho, pois além de resultar em mais água da chuva escorrendo para locais baixos, prejudicará consideravelmente as tipuanas que dão toda a beleza à rua: as raízes das árvores, com a menor quantidade de água absorvida pelo solo, irão crescer “para cima”, em busca do líquido necessário à sobrevivência, o que estragará as calçadas.

Ou seja: mais uma vez, o “progresso” volta-se contra a Gonçalo! E não esperem que isso saia na mídia: ela já provou que apoia tudo o que seja ruim para a natureza mas que dê lucro.

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Uma catástrofe, mas que pode dar lucro

bad2009

Li hoje no Correio do Povo uma pequena notinha acerca de uma pesquisa realizada sobre a situação do degelo no Ártico durante os verões do hemisfério norte. De acordo com a minúscula notícia (por que será?), poderá acontecer, num prazo de 10 anos, do Pólo Norte ser mar aberto durante o verão.

Ruim? Para o planeta, sim. Mas para quem só pensa em lucrar cada vez mais, não. Há quem veja com bons olhos o pouco gelo no Ártico durante o verão, devido à chamada “passagem noroeste”, rota marítima entre o Atlântico e o Pacífico ao norte da América: com o maior – ou total – derretimento da calota polar, seria possível navegar por lá, e assim gastar menos tempo para se chegar da Europa Ocidental e leste da América do Norte ao Extremo Oriente.

O derretimento do gelo ártico também atiça a cobiça pelo petróleo que dizem existir aos montes na região: países banhados pelo Oceano Ártico – no caso, Estados Unidos, Canadá, Dinamarca, Islândia, Noruega e Rússia – já tratam de “estabelecer suas fronteiras” no mar polar, para reivindicarem jazidas de petróleo como sendo “suas”.

Ou seja: ao invés de tomarem medidas para tentarem reverter – ou pelo menos amenizar – as consequências catastróficas que o degelo trará, o genial ser humano prefere descobrir possibilidades de lucrar mais. Como se pudesse levar o dinheiro para o caixão. Isso se o mar não subir demais, matando-o afogado – e o dinheiro serviria para alguma coisa?

Pois reparem que as metas para redução da emissão de gases nunca são para já. Sempre se estabelecem lomgos prazos, e para reduzir pouco. “Não podemos ter prejuízo por causa da ecologia” – tá, cara pálida, e do que vai adiantar não perder dinheiro, mas morrer de calor, afogado ou asfixiado por um ar irrespirável?

E ainda há a balela dos tais “créditos de carbono”, que significam nada mais do que “pagar para poluir”. Adianta o quê? Paga um pouquinho e mantém os lucros, sem precisar pensar em agredir menos o planeta.

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Sinceramente, com tanta gente tapada que não enxerga essas coisas e não aceita mudar alguns hábitos – como, por exemplo, de ir trabalhar usando o carro, mesmo que seja um deslocamento curto e feito solitariamente – às vezes chego a pensar que é melhor deixar a humanidade ser extinta mesmo, então que estraguem o planeta até não poder mais. Porém, os outros animais não têm culpa disso.

Então, se a humanidade não for motivação suficiente para agir contra tudo isso, que façamos pelos outros animais. Eles não merecem uma extinção tão estúpida.