Lulu e Tubby: duas faces da mesma moeda

Semana passada, quando falei sobre o aplicativo Lulu previ que logo surgiria um “oposto”, ou seja, no qual as mulheres seriam avaliadas pelos homens. Dito e feito: agora criaram o tal de Tubby, previsto para estar disponível a partir de quarta-feira.

“Igualdade”? Conte outra, por favor. Ambos os aplicativos são duas faces da mesma moeda: o machismo.

O Lulu não tem nada de feminista. Ao contrário, apenas reforça aquela ideia de que a mulher busca um “príncipe encantado” e com grana (aquela velha história do “homem provedor”). Prova disso é que o avaliado ganha pontos se pagar a conta, chamar um táxi para ela ou levá-la para casa (afinal, não dizem que ter carro ajuda a “pegar várias”?). Agora, se ousar propor a divisão da conta… Perde pontos. E muitos.

Como disse, ambos os aplicativos são duas faces do machismo. Porém, como bem sabemos, as faces de uma moeda não são iguais. Ou seja, o Tubby não é o “equivalente masculino” do Lulu: é muito pior.

Antes mesmo de começar a funcionar, os criadores do aplicativo decidiram permitir às mulheres que não querem ser avaliadas a remoção de seus perfis no site do Tubby. Parece uma magnânima atitude, mas acaba por revelar o quão perverso é o app: quando a usuária consegue se descadastrar, aparece uma tela de “despedida” dizendo que ela “arregou”. Só uma prévia do que devem ser as hashtags: realmente ofensivas, ao contrário daquelas bem bobas do Lulu.

Em uma sociedade machista a mulher sempre está em desvantagem, independente de seu comportamento. E o Tubby simboliza bem essa lógica: se ela pede para sair, será chamada de “arregona que certamente tem muito a esconder”; se não exclui o perfil do aplicativo, terá a vida sexual exposta e ainda correrá o risco de ser vítima de mentiras inventadas por algum ex-namorado vingativo, de forma semelhante ao sucedido com jovens que cometeram suicídio após divulgação de vídeos íntimos na internet.

Ou seja, estamos diante de algo ainda mais perigoso. E não basta apenas recomendar às mulheres que se descadastrem do aplicativo: é preciso que nós, homens, não o utilizemos e recomendemos a nossos amigos que também não o usem.

Perguntas que não querem calar

Charge do Eugênio Neves

Se a aprovação das alterações no Código Florestal era tão importante para o agronegócio no Brasil, por que motivos ele vinha tendo desempenho tão destacado nos últimos tempos? Será que tudo que li sobre isso era mentira?

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Toda a discussão sobre o Código Florestal me fez lembrar de um texto do Luis Fernando Verissimo, publicado em meados de 2003, sobre a liberação dos transgênicos. Dizia ele que, na dúvida sobre ser a favor ou contra (por não ter opinião totalmente formada), escolheria o lado mais simpático – e que, desta forma, era “anti-transgênico desde criancinha”.

O mesmo vale para mim nessa questão do Código Florestal (embora eu não tenha muitas dúvidas). O que eu sei sobre ele, é de deixar os cabelos em pé: redução de APPs, não-obrigatoriedade da manutenção de reserva legal em propriedades rurais… Pelo visto “esquecem” que a maioria das tragédias causadas pelas chuvas no Brasil poderia ter sido evitadas se tais áreas não fossem devastadas. Além de outros absurdos, que o leitor pode conferir aqui e aqui.

E quando vejo os “ruralistas” fazendo pressão pela aprovação da proposta do “comunista” Aldo Rebelo para as alterações no Código Florestal (assim como fizeram pela liberação dos trangênicos), penso que coisa boa não pode ser. Nunca vi com simpatia essa turma – que se preocupa mais com seus lucros do que com as gerações futuras – e não seria agora que mudaria de ideia. Sou contra “desde criancinha”.

Discussão inoportuna

Mês passado, divulguei aqui a palestra realizada pelo engenheiro Henrique Wittler a respeito da definição do Guaíba, se seria rio ou lago. Wittler apresentou diversos argumentos científicos que permitiriam classificar o Guaíba como rio – o que mostra não haver consenso acerca do assunto, visto que também com base em argumentos técnicos se pode chamar o Guaíba de lago, como os utilizados pelo Atlas Ambiental de Porto Alegre, coordenado pelo professor Rualdo Menegat, do Instituto de Geociências da UFRGS.

A definição científica do Guaíba é uma discussão que cabe aos acadêmicos, e ela deve ocorrer em um ambiente propício a ela – ou seja, a universidade – e não na imprensa. E, seja rio ou lago tecnicamente, o fundamental é lutar pela preservação do Guaíba, que legalmente é rio (assim diz a Lei Orgânica de Porto Alegre, o Atlas Ambiental é um trabalho acadêmico, não uma lei).

A propósito, vale lembrar que o próprio Menegat reconhece que seu trabalho está sendo usado em benefício dos concretoscos (já que a área de preservação permanente em margem de rios chega a 500 metros, aí chamam o Guaíba de lago mesmo que legalmente continue a ser rio, para diminuir a APP para apenas 30 metros) e defende que lagos deveriam ser muito mais protegidos do que rios, pelo fato de suas águas serem mais paradas.

Ou seja: trata-se de uma inoportuna discussão entre dois defensores do Guaíba. Melhor seria se nem tivesse começado. Quem ganha com isso são os concretoscos.

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Atualização: a charge abaixo, do Eugênio Neves, ilustra bem esse post.

guaiba-fonte