Coragem de mudar

O título deste texto foi o lema da vitoriosa campanha de Olívio Dutra à Prefeitura de Porto Alegre na eleição de 1988. Contrariando as pesquisas, que apontavam Antônio Britto (então no PMDB) como favorito, Olívio foi eleito em 15 de novembro, e Britto acabou em 3º lugar, sendo superado por Carlos Araújo (PDT). Foi o marco inaugural dos 16 anos de gestões petistas em Porto Alegre, uma experiência que deu muitos exemplos ao mundo.

Uma das maiores dificuldades que as pessoas têm na vida se chama “mudança”. Manter tudo como está, em todos os aspectos, é mais cômodo do que tentar fazer diferente. Não por acaso, muita gente tem verdadeiro pavor a qualquer tentativa de mudar as coisas – como a própria palavra explica, são os conservadores.

E não é apenas a sociedade que é difícil de ser mudada. Pois muitas vezes nós mesmos adiamos necessárias mudanças em nossas vidas, pelo simples fato de não aceitarmos que isso se deve a uma opção errada que tomamos anteriormente. Afinal, uma mudança de rumos significa admitir tal erro.

Penso nisso justamente por olhar o calendário. Estarmos em março de 2012 significa que se passaram 10 anos daquele março de 2002, quando começou uma grande reviravolta na minha vida: comecei a admitir que tinha errado (e feio!) na escolha de que faculdade cursar: quando eu cursava o último ano do Ensino Médio, em 1999, não tinha a menor ideia de que curso escolher para o vestibular – quando fazia testes vocacionais, indicavam que “minhas áreas” eram tanto Ciências Exatas como Humanas. E como minhas melhores notas no colégio eram em Física… Bom, não preciso dizer mais nada.

Passei muito bem no vestibular, e comecei a frequentar o curso de Física da UFRGS em março de 2000. Levei dois anos até admitir que estava no lugar errado, embora já houvesse indícios disso que só muito depois fui perceber – e bem além de minhas notas serem lastimáveis (quando eu não rodava nas cadeiras, ficava com o medíocre conceito “C”).

Se era difícil tirar uma boa nota em uma cadeira como Equações Diferenciais, onde o professor muitas vezes ocupava uma aula inteira para explicar a resolução de um (!!!) problema cheio de números imaginários e letras gregas, mais ainda era admitir que havia errado na escolha do curso e que não tinha mais jeito de continuar naquela situação: era preciso recomeçar. Ou seja, enquanto os amigos “seguiam em frente”, construindo seus futuros, eu voltava à estaca zero.

Foi uma das decisões mais difíceis que já tive, mas também foi a mais sábia de todas. Em março de 2004, quando alguns amigos já estavam se formando, comecei o curso de História da UFRGS, que concluí no final de 2009. No momento atual, apesar de não exercer a profissão de historiador (leia-se “ganhar a vida” desta maneira), vejo os seis anos de faculdade como importantíssimos em relação à minha maneira de pensar atual, graças ao que aprendi dentro e fora das salas de aula.

Assim, se tem um conselho que eu posso dar a qualquer pessoa, este é: não ter medo de mudanças. Elas podem até não dar certo, mas ao menos não causam aquela sensação de arrependimento por não se ter tentado.

Uma gafe memorável na Praça da Matriz

Em 1995 o presidente da Alemanha, Roman Herzog, veio a Porto Alegre. Lembro de toda a agitação que se deu em torno do fato de um chefe de Estado de um país tão importante estar por aqui.

Quando o presidente alemão foi recebido pelo (des)governador Antonio Britto na Praça da Matriz, a Banda da Brigada Militar tocou o hino da extinta Alemanha Oriental, cinco anos após a reunificação

Direita é derrotada no RS, e ganha “sobrevida” nacionalmente

No Rio Grande do Sul, deu Tarso governador no primeiro turno. Uma vitória histórica, por dois motivos.

O primeiro, porque Tarso Genro tornou-se o primeiro governador no Estado a ser eleito no primeiro turno desde que se passou a exigir mais de 50% dos votos válidos para o candidato ser eleito, conforme a Constituição Federal de 1988. A partir de então todas as eleições para o governo do Rio Grande passaram a ser decididas em dois turnos. Até chegar esta de 2010… Tarso teve 54,35% dos votos – superando o percentual que Olívio Dutra teve ao ser eleito no segundo turno de 1998, de 50,78%.

O outro motivo, é a derrota do tradicional discurso de que “o PT mandou a Ford embora” (que, apesar de já ter sido provado que era baseado em uma mentira, ainda chegou a ser usado na campanha), assim como de outras tosquices muito usadas pelos direitosos para justificarem seu antipetismo. Nas últimas duas eleições, foi justamente o antipetismo que fez Germano Rigotto (PMDB) e Yeda Crusius (PSDB) “caírem de paraquedas” no Palácio Piratini, já que quando ambos foram eleitos os favoritos eram outros: em 2002 tudo indicava que Tarso enfrentaria Antônio Britto (PPS) no segundo turno, mas a alta rejeição de Britto fez os direitosos passarem a votar em Rigotto, que acabou sendo eleito; já em 2006, Rigotto concorria à reeleição e era favorito, mas o próprio PMDB passou a pedir que seus apoiadores votassem Yeda para evitar um segundo turno entre Rigotto e Olívio, e com isso quem ficou de fora foi Rigotto e no segundo turno, é óbvio, os direitosos elegeram a tucana.

A propósito, sobre o (des)governo Yeda, só tenho uma coisa a dizer: adeus, e até nunca mais!

Mas numa coisa, não se pode discordar da futura ex-(des)governadora. Yeda disse que a eleição foi “despolitizada”. De fato, foi, como provam as eleições de Ana Amélia Lemos (PP) ao Senado (votaram nela só porque era da RBS!!!), assim como do ex-goleiro do Grêmio, Danrlei (PTB), para a Câmara Federal. Resta torcer para que eles me provem que estou errado e sejam ótimos parlamentares (embora eu não acredite muito), mas acho que está na hora de parar com a balela de que o Rio Grande do Sul é o “Estado mais politizado do Brasil”.

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Já para presidente, haverá segundo turno, como o Hélio já alertara semana passada. Provavelmente vai dar Dilma (que contará com o meu voto), já que Serra precisa conquistar para si mais de 80% dos votos que foram para Marina no primeiro turno, e acho isso muito difícil. Ainda assim, acredito que Dilma não conseguirá repetir as votações de Lula em 2002 e 2006.

Até 31 de outubro, ainda veremos muita baixaria, muitas “correntes” nas nossas caixas de e-mail… Haja paciência.

Quando o GRÊMIO voltará a ser GRÊMIO?

Aqui é tu mesmo, direto de 2010. Vou ser curto e grosso. Em um momento de angústia tive que te (me) escrever esta carta por descarga de consciência. Quero te falar do Grêmio aqui em 2010. Não vou te aporrinhar com coisas que acontecerão neste meio tempo que nos separa. Acredite, tu não vai querer saber. Só uma dica: comemore MUITO a Copa do Brasil de 2001.

O trecho acima é de uma carta escrita por Cristian Bonatto em 2010 para ele mesmo, 10 anos atrás. Reflete perfeitamente o sentimento de qualquer torcedor gremista neste agosto que, em 2010, faz jus à expressão “mês do desgosto”.

O mais interessante é o fato do “destino” da carta encontrar-se exatamente em 2000, ano em que podemos dizer que se iniciou a decadência que fez do Grêmio o que ele é hoje. Foi quando o nosso Tricolor começou a deixar de ser aquele time lutador, temível.

Naquele ano, o Grêmio assinou um contrato de parceria com a ISL, empresa suíça de marketing esportivo que era uma das principais parceiras da FIFA. O torcedor sonhava com glórias, que o então presidente, José Alberto Guerreiro, prometia que se tornariam “barbadas” com o dinheiro que a ISL investiria no clube para transformá-lo num “Real Madrid brasileiro”. Mas o meu pai, colorado, ironizava e dizia “estar torcendo pelo Guerreiro”. Parecia pressentir que o negócio não ia dar certo.

Contando com o dinheiro da ISL, o Grêmio gastou muito para contratar “medalhões” como Amato, Astrada, Paulo Nunes e Zinho – este último, o único que deu certo. E pagando altíssimos salários, na casa dos 200 mil dólares. Enquanto isso, o nosso verdadeiro craque, Ronaldinho, carregava o time nas costas e não recebia a metade do valor pago mensalmente a “reservas de luxo”.

Mesmo com toda a grana que gastou, o Grêmio não ganhou nenhuma taça em 2000. Foi vice-campeão gaúcho (perdeu para o Caxias na final), eliminado de forma humilhante da Copa do Brasil (4 a 1 para a Portuguesa em pleno Olímpico) e semifinalista da Copa Jean Marie João Havelange (eliminado pelo São Caetano com duas derrotas: 3 a 2 em São Paulo e 3 a 1 no Olímpico).

Do ano de 2001, a maioria dos gremistas lembra da conquista da Copa do Brasil, quando o Grêmio, com um grande time comandado por Tite, deu um banho de bola no Corinthians no Morumbi lotado e venceu por 3 a 1. Mas aquele ano teve dois fatos negativos. O primeiro foi a saída de Ronaldinho: quando ele alcançara projeção internacional em 1999, após a Copa América e a Copa das Confederações, Guerreiro mandara dependurar uma faixa na entrada do Olímpico, anunciando que o Grêmio “não vendia craques”. De fato, não vendeu, deu praticamente de  graça ao Paris Saint-Germain… A torcida, claro, ficou revoltada com a saída de Ronaldinho, depois dele tantas vezes ter jurado amor ao Grêmio, mas sejamos sinceros: o cara fazia o time jogar, e tinha de ver Paulo Nunes e Astrada no banco e ganhando mais que o dobro que ele? Pode ter sido “sacanagem” da parte dele, mas ele também se sentia desvalorizado, e por isso, foi embora.

Outro fato negativo em 2001 foi a falência da ISL. Vários dos “medalhões” do ano anterior já haviam saído, mas também ficou claro ali que a conta de tudo aquilo teria de ser paga pelo Grêmio, já que a parceria fora por água abaixo. Mas o necessário enxugamento das finanças do clube foi postergado, primeiro pelo empenho em conquistar a Copa do Brasil em 2001 (tanto que contratou Marcelinho Paraíba, um dos principais responsáveis pelo título), e depois da conquista, em nome do sonho de ganhar a Libertadores em 2002.

O Grêmio foi até a semifinal, quando foi eliminado pelo Olímpia de forma dramática, nos pênaltis, com uma arbitragem pra lá de polêmica. Após a desclassificação, começou a “operação desmanche”. O corte de gastos não era exclusividade gremista naquela época – de modo geral, o futebol era atingido por uma crise, com clubes europeus reduzindo salários – mas o Tricolor finalmente fazia algo que “era para ontem”. O colunista Hiltor Mombach, do Correio do Povo, profetizava sobre o Grêmio naqueles tempos em que fracassos e crises eram sempre associados ao rival:

Grêmio começará a passar pela mesma crise financeira do Inter. Talvez até pior. (Correio do Povo, 19 de julho de 2002, p. 18)

Mesmo com a saída de vários jogadores, entre eles Zinho (salário mais alto do clube – e que já fora maior, visto que ele renovara com o Grêmio no início de 2002 por um salário menor que o anterior), o Tricolor ainda conseguiu fazer uma boa campanha no Campeonato Brasileiro, ficando em 3º lugar e se classificando para a Libertadores de 2003 – o que fez o clube novamente “ir às compras” para conquistar o sonhado troféu naquele ano tão especial, em que celebraria o centenário.

Ao mesmo tempo, terminava o mandato de Guerreiro, e por aclamação, Flávio Obino foi eleito para comandar o clube no biênio 2003-2004 – houve uma única voz discordante, o ex-presidente Hélio Dourado. Obino já fora presidente de 1969 a 1971, quando o Grêmio encerrou uma longa sequência de conquistas (conquistara todos os títulos estaduais de 1956 a 1968, exceto em 1961 – foi o famoso “doze em treze”) e o rival a iniciou. Desde então, Obino ficara com a fama de “pé-frio”, que apenas se consolidou durante sua segunda passagem na presidência gremista.

Em 2003, após ser eliminado da Libertadores nas quartas-de-final pelo Independiente Medellín, o Grêmio viveu uma das situações mais dramáticas de sua história, brigando para não ser rebaixado justamente no ano de seu centenário. Na passagem dos 100 anos, em 15 de setembro, o time ocupava a lanterna do Campeonato Brasileiro, com vários pontos de desvantagem em relação ao 22º colocado (último que se salvava da degola). Buscando forças sabe-se lá de onde, o Tricolor conseguiu escapar da Série B, garantindo a permanência ao vencer o Corinthians por 3 a 0 no Olímpico, na última rodada – o resultado, aliado à derrota do Inter por 5 a 0 para o São Caetano na véspera (quando o rival precisava de um empate para voltar à Libertadores depois de 11 anos) deixou muitos gremistas eufóricos, com a sensação de que 2003 fora atípico, e que no ano seguinte “as coisas voltariam a ficar em ordem”, com o Grêmio conquistando títulos e o rival penando.

Doce ilusão… O que se viu em 2003 foi glorioso em comparação com 2004. Com um time ridículo, o Grêmio só fazia o torcedor sofrer. Contratou verdadeiras bombas como o goleiro paraguaio Tavarelli (que era titular daquele Olímpia que eliminara o Tricolor da Libertadores em 2002), os zagueiros Capone e Fábio Bilica (que, se eu tivesse o poder, proibiria até mesmo de jogarem botão usando o Grêmio como time), Michel Bastos (é, ele mesmo…), Felipe Melo (é, ELE MESMO!) etc. Em junho, o time deu um vexame impressionante e foi eliminado do Gauchão ao levar 3 a 1 da Ulbra. Caiu o técnico, Adílson Batista, e o vice de futebol, Saul Berdichevsky; e o único que teve coragem de assumir o pepino foi Hélio Dourado – sim, ele que fora o único a não votar em Obino, não hesitou em oferecer sua ajuda para salvar o Grêmio, quando ninguém que apoiara a aclamação do presidente dava sua cara a tapa. Mas não adiantou, e em novembro, o bagunçado Tricolor acabou rebaixado.

Veio 2005 e Paulo Odone na presidência. Em seus quatro anos, vimos o Grêmio sair da Série B e quase ir “sem escalas” ao Japão disputar o título mundial de 2007. Mas faltou time (mesmo que várias contratações tenham sido feitas, na maioria equivocadas) para bater o Boca Juniors de Riquelme (e só) na decisão da Libertadores, quando Odone só falava na “necessidade” que tinha o Grêmio de construir a “arena”. Tivemos a tentativa – frustrada, felizmente – da imposição de Antonio Britto na presidência do Grêmio. As incríveis convicções da diretoria no início de 2008, contratando Vagner Mancini para demiti-lo no sexto jogo da temporada – e ainda invicto! A liderança por várias rodadas no Campeonato Brasileiro sob o comando de Celso Roth, para depois dar de presente o título para o São Paulo.

Em 2009, já com Duda Kroeff de presidente, vimos um time que queria ser campeão da Libertadores, mas que se dava ao luxo de esperar 40 dias por um técnico que prometera “um projeto a longo prazo” mas não hesitou em pegar o chapéu na hora que os árabes ofereceram uma boa grana. E que não conseguia vencer fora de casa.

E agora, vemos um time sem alma, sem vontade – mesmo que seja o melhor grupo de jogadores desde 2001. Sai técnico, sai dirigente, mas isso será garantia de tempos melhores?

Afinal, quando tempo demorará para o Grêmio voltar a ser realmente o Grêmio? Afinal, depois de tantas glórias na década de 1990, os últimos dez anos foram duros demais para nós gremistas.

E tudo começou exatamente naquele ano 2000, o do destinatário da carta de Bonatto – pois se 1998 e 1999 não foram anos vitoriosos, ali o Grêmio ainda não havia embarcado na canoa furada da ISL.

11 anos depois

Charge do Kayser

Nada como um dia depois do outro…

Por 11 anos, ouvimos os nossos (de)formadores de opinião repetirem, quase como um mantra, que “o Olívio mandou a Ford embora do Rio Grande do Sul” – uma estratégia goebbeliana, de que “uma mentira contada cem vezes torna-se verdade”.

Tento imaginar tudo o que eles passarão a dizer diante da notícia de que a Ford terá de indenizar o Estado do Rio Grande do Sul em 130 milhões de reais por rompimento do contrato – ou seja, porque foi a empresa que não cumpriu com suas obrigações, e não o Estado. A Ford recorreu, é verdade, mas o principal discurso dos direitosos contra Olívio Dutra está detonado.

Vale lembrar que “mandar a Ford embora” na verdade era “renegociar o contrato”. Pois este, assinado durante o (des)governo de Antonio Britto, previa amplos incentivos fiscais à montadora, além de investimentos por parte do Estado para a instalação da fábrica em Guaíba. Olívio, que na campanha eleitoral de 1998 prometera renegociar contratos assinados pelo (des)governo Britto que fossem lesivos às finanças do Estado, tomou posse e logo caminhou nesta direção.

E olha que a proposta do governo não era de cortar absolutamente todos os benefícios à Ford (os incentivos fiscais já concedidos, da ordem de 3 bilhões de reais, não seriam contestados, assim como a empresa não teria de devolver o dinheiro já repassado a ela). Apenas deixava claro que não ia comprometer ainda mais as finanças do Estado, como aconteceria se Britto tivesse sido reeleito.

A proposta do Governo do Estado, publicada na capa do Correio do Povo, edição de 29/04/1999 (dia seguinte ao anúncio da Ford de que não se instalaria no RS)

Por favor: isso aí é “pedir para uma empresa ir embora”? Só se ela for extremamente gananciosa. Ou, se por acaso havia uma “boquinha” melhor, como de fato acontecia: a Bahia, apoiada pelo governo federal (à época, o presidente era Fernando Henrique Cardoso) oferecia amplos benefícios fiscais para que a Ford se instalasse em Camaçari. E com o apoio de boa parte da bancada gaúcha no Congresso Nacional – o lado direito, é claro…

Se Olívio estava tão empenhado em “mandar a Ford embora” devido a “razões ideológicas”, por que a GM também não deu adeus ao Rio Grande do Sul? Simples: seu contrato foi renegociado e assim sua fábrica está funcionando em Gravataí há 10 anos.

Porém, o “estrago” já estava feito. Principalmente por parte da RBS. Dia após dia, seus principais (de)formadores de opinião repetiam que “o Olívio havia mandado a Ford embora”, que isso “era uma tragédia”, que o Rio Grande do Sul “tinha perdido muitos empregos” etc. Mesmo que o governo preferisse dar apoio aos pequenos empresários do Estado em detrimento dos grandes (que não precisam desse apoio), assim como à agricultura familiar (que produz muito mais do que o “agronegócio”, tão exaltado pela “grande mídia”). Insuflou-se um antipetismo tão forte no Rio Grande do Sul, que por duas vezes consecutivas candidatos sem projeto algum “caíram de paraquedas” no governo do Estado: Germano Rigotto em 2002; e o exemplo mais absurdo, Yeda Crusius em 2006.

Sem dúvida, ambos venceram graças ao antipetismo. Em 2002, o preferido da velha direita era Britto, mas sua alta rejeição (que provavelmente resultaria em derrota para Tarso Genro no 2º turno) fez os votos direitosos migrarem para Rigotto, que só concorria para que o PMDB tivesse um candidato próprio (Britto deixara o partido em 2001 junto com vários de seus apoiadores, dentre eles José Fogaça, que ingressaram com ele no PPS). Já em 2006 a coisa foi mais bizarra: Rigotto era candidato à reeleição, mas o PMDB temia um segundo turno contra Olívio (o que inevitavelmente resultaria na comparação entre os governos de ambos); assim, muitos votos que seriam de Rigotto foram para a tucana Yeda (que assim como Rigotto em 2002 era “franco-atiradora” – o PSDB no Rio Grande do Sul não é nem a quarta força) para “tirar o Olívio do segundo turno” – e aí quem ficou de fora foi Rigotto e os direitosos tiveram de eleger Yeda, bem pior.

O resultado, é o que todos vêem: corrupção, atraso, polícia repressora (no governo Olívio era raro dar pancadaria com a Brigada)…

Em seu post sobre o assunto no Somos andando, a Cris pergunta se alguém indenizará o Estado pelas eleições de Rigotto e Yeda que se deram graças ao anti-petismo baseado no “argumento” de que “o Olívio mandou a Ford embora”. Quem deveria fazer isso (pois sabemos que não acontecerá) é uma resposta pra lá de barbada…

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Como a Zero Hora não daria um “tiro no pé” que seria não noticiar a decisão contra a Ford, o jornal publicou, é claro. Mas no começo da matéria eles já trataram de desqualificar a fonte (o Sul 21), dizendo que Vera Spolidoro, sua editora-chefe, é ligada ao PT – ou seja, “parcial”. Óbvio, pois na ótica deles a imprensa não pode dizer de que lado está, tem de ser imparcial, como a RBS.

Amor à venda

No desespero de demonstrar que existe gente com coragem de apoiar o (des)governo Yeda – não esqueçamos que no Rio Grande do Sul tem gente que votaria no diabo (se ele existisse) contra o PT – o PSDB acabou marcando “gol contra”.

Durante o ato contra o (des)governo – e também contra uma eventual posse do vice Paulo Afonso Feijó, que é o previsto pela Constituição em caso de impeachment – algumas pessoas, no acesso à Assembleia Legislativa do Estado, balançavam bandeiras de plástico do PSDB e exibiam faixas em apoio à Yeda. Porém, o entusiasmo era tanto…

Fez lembrar a campanha eleitoral de 1998, quando não poucos “militantes” do Britto sacudiam as bandeiras apenas porque eram pagos para aquilo. Na urna, digitaram o 13 do Olívio. A militância petista, na época, era feita apenas no amor.

Foi na eleição municipal de 2004, se não me engano, que a coisa começou a mudar – pelo menos aqui em Porto Alegre. Naquela campanha, não bastasse a aliança do PT com o PL – que vinha desde 2002 em nível nacional – ainda tive de digerir o fato de pessoas receberem dinheiro para sacudirem bandeiras do PT pelas ruas da cidade. Algo que eu sempre fazia “de graça”.

A campanha de 2004, a última antes de vir a público o escândalo do mensalão, foi a última na qual saí para a rua com bandeira do PT, em apoio ao Raul Pont. Não estava satisfeito com os rumos tomados pelo partido, mas fiz um esforço para tentar impedir que Porto Alegre caísse nas mãos da velha direita. Não adiantou nada, e o Fogaça ganhou.

Cheguei a usar adesivos do Olívio em 2006, e foi só. Não me senti mais empolgado a sair para a rua com a bandeira. Isso foi tarefa para os “militantes pagos” cumprirem com todo aquele entusiasmo.

Em 2008, nem sequer adesivo usei, na campanha política mais chata da história recente de Porto Alegre. Votei na Maria do Rosário, por falta de opção: no 1º turno para não correr riscos de deixar a Manuela (com o Britto Berfran) passar ao 2º, e depois porque entre Fogaça e Maria do Rosário, eu não tinha dúvidas do que seria melhor (ou menos pior?) para a cidade. Assim como em 2004, não adiantou nada: o Fogaça ganhou de novo.

Bovinóides, a vergonha do Rio Grande do Sul

O blog A Nova Corja refere-se ao Rio Grande do Sul como “Bovinão”, e aos gaúchos como “bovinóides”. O uso de tais termos é claramente para satirizar a apatia política de boa parte da população, e eu não me sinto nada ofendido. Como diz o ditado, “não me serve o chapéu”. Agora, para os legítimos bovinóides (cuja maioria é formada por pessoas da classe mérdia), ele serve perfeitamente – e são eles que virão me xingar, mandar eu ir embora, dentre outros impropérios.

Passeata saiu do Colégio Julio de Castilhos e foi até a frente do Palácio Piratini

Passeata saiu do Colégio Julio de Castilhos e foi até a frente do Palácio Piratini

Pode até parecer contraditório eu falar em “apatia política” no dia em que tivemos a volta dos caras-pintadas, desta vez com as cores da bandeira do Rio Grande do Sul, que protestaram contra o (des)governo Yeda. Mas não é, se levarmos em conta os comentários feitos na matéria publicada na página da Zero Hora.

Muitos comentaristas declaram apoio aos estudantes. Mas também há vários comentários de bovinóides, que falam idiotices do tipo “estudante tem que estudar”, “bando de alienados”, “sustentados pelos pais”, e a maior de todas: “massa de manobra dos petralhas”.

Ora, é justamente por estudarem que eles entendem que as coisas não podem continuar do jeito que estão, PORRA! Ver bovinóides – os mais legítimos alienados – chamarem assim os estudantes por protestarem contra o (des)governo Yeda chega a ser surreal. E o mais estranho, é quando eles dizem que só “quem trabalha” tem direito a protestar (típico argumento de gente de classe mérdia): pois são justamente eles, “trabalhadores”, que elegeram a Yeda e agora, por não terem argumentos para defendê-la, atacam de tudo que é jeito quem protesta contra ela.

Mas a mais surreal de todas, sem dúvida alguma, é chamarem os estudantes de “massa de manobra dos petralhas”. É uma velha tática da direita: quem se mobiliza sempre é “massa de manobra” (estranho que os bovinóides acreditem e repitam quase ipsis litteris o que diz a “grande” mídia e não se achem “massa de manobra” dela). E ainda mais tosco é falar em “petralhas”, já que o partido que deixou bem clara sua posição contra a Yeda é o PSOL, totalmente crítico ao PT e ao governo Lula. Como eu já havia escrito em novembro passado, isso é um sintoma da “burrice anti-petista”, em que o acometido vê “PT” até onde ele não está.

Guerra Fria guasca

Foi bem conforme previa o “fluxograma” desenhado pelo Kayser.

A capa da Zero Hora de ontem é uma pérola. Sobrou até pro Britto. Afinal, falam em “guerra fria” não só no governo Olívio, como também no do (des)governador (1995-1998). Bom mesmo, para a Zero Hora, são governantes que “não fedem e nem cheiram”, como Rigotto e Yeda. Ou, talvez, Fogaça…

Mas, não se iludam com a referência ao Britto: afinal, para a RBS a culpa é sempre do PT! Mais: é do Olívio, por “ter mandado a Ford embora”…

As observações do Kayser sobre a Zero Hora de ontem (clique para ampliar)

As observações do Kayser sobre a Zero Hora de ontem (clique para ampliar)

Grêmio: não à “arena”!

Em junho de 2007, o Kayser postou um ótimo texto e uma charge hilária a respeito da proposta de se construir uma “arena PIFA” para o Grêmio:

arena_fifa

Afinal, de uma hora para outra, parecia que o “sonho dos gremistas” passara a ser a tal “arena”. Mais do que ter um time forte, capaz de vencer a Libertadores: perdemos para o Boca em 2007 devido à nossa fragilidade, pois eles só tinham o Riquelme – tanto que no Mundial, sem o craque, tomaram um tufo do Milan. Aliás, nas entrevistas após a derrota na final, o presidente Paulo Odone preferiu falar da falta que fazia a “arena PIFA” do que sobre a qualidade do time.

Duas semanas depois, uma bomba. Acordei e ouvi a notícia que apavorou a Nação Tricolor: Paulo Odone renunciaria à presidência para assumir a “Grêmio Empreendimentos”, empresa que seria (ou será) responsável por gerir a construção da “arena”. No lugar de Odone assumiria… Antonio Britto! Ele não era nada – repito: NADA – no Grêmio. Não ocupava cargo algum. E como conselheiro não era muito assíduo. Assumiria assim, sem sequer passar por eleição: em um país sério isso é chamado “golpe de Estado” (no caso, “de clube”). Uma clara manobra para que o ex-governador, companheiro de partido de Odone (PPS) reaparecesse na política. Porém, eles não contavam com a reação negativa da torcida, e assim o golpe foi abortado, com Odone ficando na presidência do Grêmio.

Em 9 de setembro de 2007, eu já havia postado a respeito do assunto “arena”. Em comentário no Alma da Geral, o leitor Jorge Vieira (que também costuma visitar o Cão) lembrou: o Grêmio é um clube falido, que deve para todo mundo, inclusive para jogadores que foram embora há 10 anos. Logo, não tem condições de ele próprio bancar a construção de um novo estádio. A obra só sai se for financiada por alguma empresa – que vai querer retorno de qualquer jeito, ninguém investe dinheiro para perdê-lo.

Houve uma proposta de se construir a “arena” no mesmo local do Olímpico, porém dois fatores a inviabilizaram: o Grêmio precisaria jogar em outro estádio durante a obra; e também havia o medo de que a construção não fosse concluída por questões financeiras (idéia que faz sentido em um momento como o atual), o que deixaria o Tricolor sem estádio. A opção pelo Humaitá assim tornou-se “natural”.

Porém, a proposta de contrato entre o Grêmio e a construtura OAS prestes a ser aprovada é apavorante. A “arena” terá seu uso “concedido” ao Grêmio. Sim, é isso mesmo: o novo estádio não será do Grêmio, e sim, da empresa, que irá explorar comercialmente a “arena” e o complexo de prédios comerciais que será construído no terreno. E os sócios gremistas não terão total direito ao usufruto das dependências da “nova casa” que, como já disse, não será realmente gremista.

Além disso, o que seria de um clube sem patrimônio? Pois é isto que irá acontecer com o Grêmio caso o contrato proposto seja aprovado. Em um ótimo artigo no blog do Hélio Paz, o Jorge Vieira deixou um comentário perturbador:

Hélio, se entendi bem o Imortal vira um tipo de marca, como o Nike. No Brasil o estádio identifica o clube é um espaço de interação dos torcedores. Tirar o estádio é acabar com essa troca entre os torcedores, surge então uma nova situação como marca, um produto. Não seria um passo para vender a marca? Pode ser uma loucura, mas o caminho fica aberto. Afinal quem é o dono da marca?

Ou seja: na prática, o Grêmio acabaria como clube de futebol (cuja razão de existir é a torcida), passaria a existir apenas como “marca”, comercial. A razão de existir seria apenas o lucro. Nos Estados Unidos, é o que acontece com os times da NBA, como mostra outro esclarecedor post do Hélio: as pessoas não torcem por clubes, e sim por “marcas”, que mudam de cidade de acordo com as “necessidades financeiras” dos proprietários.

Vale lembrar também que o clube de futebol ajuda a criar raízes para muitas pessoas. Não é simplesmente esporte: é o pertencimento a um grupo. Tanto que eu mesmo muitas vezes, ao falar do Grêmio, simplesmente uso o pronome “nós”: ganhamos, empatamos, perdemos, fomos campeões etc. O que faz do Grêmio grande é justamente a torcida, que está ao seu lado tanto na vitória quanto na derrota. Não fosse ela, o Tricolor seria apenas mais um clube social, que abre o departamento de futebol por poucos meses para disputar o Gauchão.

O impacto da “arena” será enorme sobre o torcedor comum. Pois o ingresso no novo estádio não será barato: certamente custará, no mínimo, 50 reais. Para os sócios, haverá uma cota de ingressos “gratuitos”, de aproximadamente 1.250 lugares – sendo que o Grêmio tem mais de 4 mil sócios apenas na modalidade patrimonial que, como diz a própria palavra, têm direito a usufruir do patrimônio do clube. Há ainda os milhares de associados em outras modalidades.

Será também mais caro ir aos jogos devido à distância. O Olímpico, situado dentro da cidade, é servido por um bom número de linhas de ônibus e lotação. A “arena”, no Humaitá, será voltada para quem tem carro – aliás, uma das queixas em relação ao Olímpico é sobre a falta de espaço para se estacionar. Ou seja, será o fim do “até a pé nós iremos” – o que faço muitas vezes – e passará a ser para a maioria das pessoas, o “só de carro iremos”.

Tudo isso por causa da Copa de 2014. Vale lembrar que o último Mundial, em 2006 na Alemanha, teve sua decisão no Estádio Olímpico de Berlim, construído na década de 1930 e reformado para a Copa do Mundo.

Pérolas

  1. “Eu vivo em 2008, ando para a frente e não olho para trás.”
  2. “Quando o PMDB governou o Estado (1995-1998) eu ainda não votava.”

Ambas as frases foram ditas pela candidata à prefeitura pelo PCdoB, Manuela D’Ávila. Agora, vou comentar.

  1. Eu também vivo em 2008. Aliás, acho que todos os leitores do Cão Uivador vivem em 2008, pelo menos até 31 de dezembro. Eu ando para a frente, mas não deixo de olhar para trás. É muito fácil falar em “vamos olhar para a frente” para justificar alianças com representantes de políticas que representam o contrário da ideologia de seu partido – se é que ele realmente tem alguma.
  2. Eu fui um dos que ajudaram a tirar o PMDB (diga-se Britto) do governo do Estado, votando em Olívio Dutra em 1998. Naquela ocasião, eu tinha 17 anos, a mesma idade da Manuela (que é dois meses mais velha do que eu). Entendi mal, ou ela abriu mão do direito de votar, com a mesma idade que eu, em 1998? Sem contar que, se isso é argumento para justificar aliança com aquele pessoal, não nos surpreendamos se, no futuro, a Manu se aliar ao PP ou ao DEM. Afinal, durante a maior parte da ditadura militar ela nem era nascida…

Fonte: RS Urgente