A prova de que estupidez é o que não falta

Ontem pela manhã, foi noticiada pela imprensa a descoberta de um tumor na laringe de Lula. O ex-presidente fará tratamento com quimioterapia.

Logo que a notícia foi divulgada, diversos líderes políticos de situação e oposição manifestaram solidariedade a Lula e à família dele. Bem diferente de pessoas que comemoraram e anunciaram a torcida pela morte do ex-presidente.

Pois uma coisa é não ter gostado dos 8 anos de governo Lula, assim como eu não gostei dos 8 anos de Fernando Henrique Cardoso na presidência. Mas torcer para que ele morra (mesmo sendo a morte a única coisa certa da vida), é algo totalmente diferente.

Desejar a morte de um adversário político (desta forma vendo-o como um inimigo) é uma atitude das mais estúpidas que alguém pode ter. Demonstra uma total falta de civilidade – e podem ter certeza que estes “torcedores” pela morte de Lula se acham os “superiores”, os “civilizados”.

Pois digo que quem deseja a morte de um adversário político não é superior a ninguém, seja de esquerda ou de direita. Se fosse FHC que estivesse doente, um petista que comemorasse a notícia seria tão estúpido quanto os que celebram o câncer de Lula.

Quem vê o oponente como um inimigo, precisa rever urgentemente o seu conceito de política. Até porque a vida inteira deparamos com pessoas que pensam diferente (ninguém é 100% igual a nós) e, se as rejeitássemos de cara, deixaríamos de descobrir o que temos em comum, que poderia até mesmo se transformar numa grande amizade.

Anúncios

Sobre as amizades

É mais fácil pensar de forma contrária, preto no branco, os de lá, os de cá. Mas, dessa forma, a vida vai ficando mais pobre. Sem o direito ao convívio diário com aqueles que pensam de forma diferente, estancamos em nossas posições, paramos de evoluir como humanidade. Do outro lado sempre estará um monstro e do lado de cá os santos. Isso sem contar a impossibilidade de apreciar tudo o que o outro tem de melhor – do ombro amigo à conversa inflamada em uma mesa de bar.

O parágrafo acima é de um ótimo texto que li (e recomendo a leitura) no Blog do Sakamoto. Que me fez pensar bastante em como muitas vezes eu agi – e também como certas pessoas agem.

Certa vez, na volta da faculdade eu conversava no ônibus com uma colega, mas ela era mais que isso: era uma pessoa que eu realmente considerava amiga. Não lembro exatamente o assunto do qual falávamos originalmente, mas sim que quando comentei que tinha amigos de direita, ela achou contraditório, e disse que não conseguia fazer amizades com pessoas assim.

Não nos tornamos amigos de uma pessoa totalmente “por acaso”, embora possa parecer (caso de colegas de colégio, de faculdade, de trabalho etc.). Tanto que geralmente se perde o contato com a maior parte, por exemplo, dos colegas de colégio quando vamos estudar em outra escola ou entramos na faculdade. E o mesmo se dá com os próprios colegas da faculdade, quando nos formamos… Do Jardim de Infância, então, nem se fala: nunca mais tive contato algum com meus coleguinhas do Esquilo Travesso (nem mesmo com a menina que em 1988 me presenteou com um ursinho no meu aniversário).

Mas, ao mesmo tempo que as amizades não surgem “por acaso”, isso não quer dizer que sejam “escolhidas” (óbvio que falo de amizades verdadeiras, não aquelas em que há intere$$e$ na jogada). Afinal, nunca escolhemos com quem iremos nos deparar na vida. Não temos poder algum de decisão sobre a formação de uma turma de colégio, de faculdade, de trabalho, enfim, de uma lista de “candidatos a amigos” (que são tanto colegas como pessoas que encontramos em outros ambientes, mesmo os virtuais).

As amizades nascem de afinidades que temos com certas pessoas, mas não basta só isso. Para que elas se mantenham, é preciso que haja convivência – não necessariamente diária. Tanto que as pessoas com as quais mantenho amizade são aquelas com as quais de certa forma convivo, mesmo que em contatos esporádicos e até não presenciais: basta saber como elas estão, o que têm feito etc. Ou seja, há uma espécie de “caminho em comum” entre nós. É a chamada “memória coletiva”, que é importante fator de coesão em um grupo: desde os mais simples como as relações de amizade, até à “comunidade imaginada”, que é como Benedict Anderson define “nação”.

E, quanto mais longo é este “caminho em comum”, mais fortes costumam ser os laços, e o próprio tempo acaba se tornando uma importante afinidade. Assim, a amizade se mantém mesmo que haja muitas discordâncias entre os amigos – o que é natural, pois além de serem pessoas necessariamente diferentes entre si, com o passar do tempo todos mudamos nossas maneiras de pensar, de ver o mundo, fazendo com que certas afinidades deixem de existir. Podem surgir sérias divergências, mas há as lembranças dos momentos felizes, divertidos, e mesmo os tristes que foram sofridos em comum, que ajudam a impedir o fim de uma amizade de “longa data” por conta de uma discordância.

Foi o que contribuiu para evitar que eu brigasse em definitivo com um amigo por conta de divergências políticas (que não tínhamos quando nos conhecemos, há mais de dez anos) – pelo contrário, acabou inclusive fortalecendo nossa amizade, mesmo que com importantes discordâncias. Em compensação, a colega que achava contraditório eu ter amigos de direita… Brigou comigo há mais de dois anos por conta de um desentendimento entre ela e outro colega em uma apresentação de seminário na faculdade: tentei “mediar” o conflito para que ao menos o grupo de trabalho não se desfizesse, mas pelo visto ela achou que eu estava “a favor do cara”, e não só trocou de grupo, como também passou a me ignorar, “jogando no lixo” quatro anos de convivência. De nada adiantou eu tentar evitar que isso acontecesse: ela preferiu a divisão entre “os de lá e os de cá” da qual fala o parágrafo do Sakamoto, e como tudo tem limite, também não a procurei mais depois de ser tratado de forma grosseira.

Com isso, infelizmente não pude saber a opinião dela, que na época era eleitora do PSOL (suponho que continue a ser), sobre a amizade entre Plínio de Arruda Sampaio e José Serra.

Quando descobri que alguns de meus amigos são reacionários

O título desta postagem é descaradamente inspirado no da que foi publicada no Contracultura – no caso, a autora do blog relata sua experiência com a família direitosa.

Já eu não tive maior sofrimento familiar por conta disso, já que boa parte dos meus parentes, se não é exatamente de esquerda, ao menos não vomita discursos reacionários. Meu problema, são alguns amigos… Impressionante o quanto eu passo situações semelhantes às descritas no texto que citei (exceção à contradição entre o que eu defendia e os meus votos – jamais dei sequer um voto ao PSDB).

Quando reunido com a turma, procuro evitar discussões políticas e sociais por saber que estarei em desvantagem. O problema é que às vezes não dá para ficar calado. Como quando, por exemplo, defendem que “bandido bom é bandido morto”, ou que “pobre é vagabundo que não quer trabalhar”. (Duvido que eles nunca tenham jogado na Mega Sena, justamente por conta do sonho de “nunca mais precisar trabalhar”.)

Ou, o que para mim foi o cúmulo do individualismo, foi quando ouvi de um amigo que ele era contra pagar INSS, por achar que cada um tinha que pagar sua própria aposentadoria, e não a dos outros (inclusive ele disse que não queria pagar para eu me aposentar); sem contar os demais impostos, porque eles “sustentam vagabundo com Bolsa Família”. Obviamente lembrei a ele que acho muito bom saber que pagando meus impostos eu ajudo a mim mesmo, assim como a ele e a muitos milhões de pessoas… Como neste dia eu não estava em “desvantagem”, e também tinha tomado umas cervejas a mais, a discussão (que foi além de direitos sociais e chegou às velhas besteiras contra o MST) acabou descambando para uma baixaria digna da campanha do PSDB, que por sorte não acabou em “vias de fato” (mas seriam socos, e não bolinhas de papel); e a própria amizade foi salva quando trocamos desculpas três dias depois.

Mas, mesmo assim, percebo que não me identifico mais com aqueles amigos (claro que não todos eles) da mesma maneira que 10 anos atrás; percebo que hoje em dia o que mais temos em comum é o passado (a “memória coletiva”, que segundo Maurice Halbwachs é importante fator de coesão para um grupo – embora não seja determinante). Não sei dizer exatamente se foram eles que mudaram, ou se fui eu; ou talvez todos nós. Mas é fato que o amigo com quem discuti chegou a dizer que “pensava que eu ia mudar”, ao que respondi que “aceito mudar, mas não para pior” (foi quando a situação esteve mais tensa).

Dizem que isso é “amadurecimento”, mas esse “amadurecimento” que eles tiveram, eu não quero de jeito nenhum.