Mais dois contra o Natal

Ontem, fez um calor desgraçado. Não tanto pela temperatura, e sim pela alta umidade, que causava uma horrível sensação de abafamento. À noite, parou a chuva, mas graças à umidade havia muitos insetos a encherem o saco próximo à churrasqueira, onde preparamos um aperitivo.

Ao ar livre, era ótimo ficar (desde que com as luzes apagadas, devido aos “bichos de luz”). Mas a “troca de presentes” foi feita dentro de casa, e havia muita gente. Resultado: calor horrível e mau humor da minha parte, que não fiz questão alguma de disfarçar. Nunca fui competente como farsante. Menos mal que há mais de 10 anos abolimos o amigo secreto.

Eu adoro minha família, e me divirto bastante quando, mais de uma vez durante o ano, nos reunimos para comer um bom churrasco, tomar cerveja e botar conversa fora – como fizemos ontem enquanto estávamos ao ar livre, falando sobre futebol, minha monstrografia (ou seja, mais futebol!) e lembrando alguns fatos da história familiar. Quando não há essa besteira de “troca de presentes” (como eu sabia que não ia receber nada, pois já tinha ganho os meus presentes antes, preferia ficar na área da churrasqueira, que mesmo com o calor do fogo estava mais agradável). E melhor ainda quando não é verão, o que faz o “calor humano” não ser um incômodo.

Eu me perguntava se realmente o Natal é um saco, ou se eu sou chato. Bom, talvez as duas opções estejam corretas, mas antes ser chato do que fingir ser o que não sou. E felizmente não sou o único a não gostar dessas comemorações, como mostra o texto abaixo, do Milton Ribeiro, com o título “Abaixo o Natal!!!” (não costumo copiar na íntegra, só que o texto dele é curto, sem contar que concordo integralmente com o que ele escreveu – mas não deixe de ir “ao original” para dar sua opinião):

O Natal devia ser como a Copa do Mundo, de quatro em quatro anos. O que há de bom nestes dias? Estar com a família? Sou alguém bastante sociável, gosto de minha familia e já os vejo frequentemente. Então, prefiro estar com eles sem as besteiras mesquinhas e os milagres da época. Mais do que o primado do consumo, detesto as promoções de bons sentimentos, a hipocrisia, a religião, a obrigação de felicidade. Pior, hoje serão servidas iguarias irresistíveis, vai se comer muito e não quero engordar. Por mim, dormia cedo. E amanhã todos voltarão porque haverá comida demais…

É uma festa legal quando temos crianças pequenas, mas agora, qual é o sentido? Há a necessidade de estarmos alegres após passar o dia arrumando a casa e lembrando de detalhes… Pois é, já viram, vai ser aqui em casa. Se a gente fica sério, as pessoas se preocupam. Então, o negócio é beber. Haja saco. Ainda bem que chove. Podia vir uma tempestade e faltar luz no meio da festa! Seria uma novidade!

Festa por festa prefiro a virada do ano. Ao menos é sem presentes e com menos religião. E, associada à data, há uma simbologia de renovação, de planos e mudanças quase sempre falsas, mas ao menos pensadas. Já o Natal… é pura merda. Na minha infância, era comemorado na manhã do dia 25. A gente acordava e havia presentes sob a árvore. Fim. Hoje é um happening, vão tomar no cu.

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Também merece registro a postagem do Guga Türck no Alma da Geral: o vídeo com a música “Papai Noel Filho da Puta”, dos Garotos Podres.

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Lembrando Mauss

Em uma cadeira de Antropologia que cursei na faculdade, tive a oportunidade de ler parte da obra de Marcel Mauss, que é conhecido pelo chamado “princípio da reciprocidade”.

De acordo com Mauss, nada é dado “de graça”. Sempre se espera receber algo em troca. Que não necessita ser material. Pode ser um bem simbólico. O princípio é resumido pela tríade “dar-receber-retribuir”.

Embora haja críticas ao modelo de Mauss – que não serão discutidas aqui nesta postagem -, seu princípio é facilmente observável na nossa sociedade.

Quando presenteamos alguém, por exemplo, esperamos que a outra pessoa também nos presenteie, com algo que tenha valor semelhante. Daí a razão dos tradicionais amigos-secretos de final de ano terem um preço máximo para os presentes: é preciso haver um equilíbrio entre todos os participantes, independentemente do poder aquisitivo de cada um, para não quebrar o espírito de confraternização. Caso contrário, haveria o risco de uma pessoa gastar 100 reais para comprar um presente e receber em troca algo que custa 2 reais. E vice-versa. O que seria extremamente desconfortável para o grupo: o “gastão” seria chamado de ostentador, e o que tem pouco dinheiro, de “mão-de-vaca”.

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Aonde quero chegar com tudo isso? Bom, quero é falar sobre a questão das doações feitas por empresas para campanhas à prefeitura de Porto Alegre.

O Grupo Gerdau doou (deu) dinheiro à todos os candidatos, com exceção de Vera Guasso (PSTU), que não aceitou. Não pensem que foi por “bondade”. Não achem que, por ter doado 100 mil reais à campanha de Luciana Genro (PSOL), a Gerdau tenha tornado-se “socialista” e “verde” (já que o PSOL está aliado ao PV).

De qualquer um que se eleger – a exceção seria Vera Guasso, que certamente não se elegerá – a Gerdau espera uma “retribuição”. Não será a devolução do dinheiro doado, mas sim, que a prefeitura atenda a seus interesses. Que não são, necessariamente, os mesmos da população de Porto Alegre…

Por essa razão, decidi: vou de Vera Guasso. O PSTU é o único partido que não está “de rabo preso” nessa eleição. Não é o único coerente: o pessoal da direita receber dinheiro de empresas não é nada estranho. De se lamentar, é ver o PSOL fazer o que tanto criticava no PT…

“Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, poderia ser o lema deles.

E além disso, é urgente uma mudança na legislação eleitoral. Todos os partidos tinham de ter tempo igual na televisão e no rádio, para assim terem – pelo menos teoricamente – a mesma chance de vencer. E também para que as coligações partidárias levassem em conta programas políticos, e não “tempo de exposição na mídia”.

E também deveria ser expressamente proibido receber doações de empresas privadas. O financiamento de campanhas eleitorais deveria ser público. Acabaria esse negócio de candidatos com o “rabo preso”, que ajudados na campanha procurariam retribuir em seus mandatos para os financiadores de sua eleição.