O persistente fantasma golpista no Paraguai

A deposição do presidente Fernando Lugo por um golpe “disfarçado” faz soar o sinal de alerta para quem conhece a história do Paraguai, e da própria América Latina. Pois infelizmente a democracia não é exatamente uma tradição por estas bandas do mundo.

O Paraguai, particularmente, tem um longo histórico de autoritarismo e golpes de Estado. A própria ditadura de 35 anos do general Alfredo Stroessner encerrou-se mediante um golpe militar: em 3 de fevereiro de 1989, o ditador foi deposto por um movimento chefiado por seu co-sogro, o general Andrés Rodríguez, que três meses depois foi eleito presidente. Apenas em 1993 o poder passou às mãos dos civis (pela primeira vez em quase 40 anos), quando Juan Carlos Wasmosy assumiu a presidência.

Só que a era dos golpes não estava encerrada no Paraguai – graças às divisões internas do Partido Colorado, que salvo o período de 1904 a 1946, dominava a política do país desde que fora fundado em 1887. Na primária que determinou o candidato colorado para a eleição presidencial de 1993, Wasmosy derrotou Luis Maria Argaña (ex-ministro do ditador Alfredo Stroessner) em um processo marcado por denúncias de fraude. Eleito presidente, Wasmosy fez um governo impopular, e sendo acusado de corrupção, passou a sofrer ameaça de impeachment por parte do Congresso. Além disso, perdeu o apoio de seu principal cabo eleitoral dentro do partido, o general Lino Oviedo (reparem como esse nome será presença constante daqui para frente), ferrenho adversário de Argaña e que gozava de certa popularidade entre os paraguaios devido à sua participação na deposição de Stroessner (apesar de ser acusado de ligações com o narcotráfico).

O populista general Oviedo, comandante do Exército, era cotado para ser candidato à presidência em 1998. Só que para ganhar terreno precisava vencer Argaña na eleição interna do Partido Colorado, marcada para 28 de abril de 1996. A possibilidade de Argaña vencer preocupava Wasmosy, que assim veria sua permanência no governo mais ameaçada; para agradar à ala rival, seis dias antes da votação o presidente decidiu destituir Oviedo do comando do Exército. Em resposta, o general anunciou que não obedeceria mais a Wasmosy, sinalizando um golpe de Estado, mas recuou após ser convidado para assumir o Ministério da Defesa. As manifestações solidárias ao presidente (não por ele em si, mas sim em defesa da legalidade) “inverteram o sinal”, e ele acabou decidindo “desconvidar” Oviedo – que, passado para a reserva do Exército, fez comício anunciando sua pré-candidatura à presidência. Posteriormente, Wasmosy foi acusado pelo ex-general de ter tentado cooptá-lo para dar um “autogolpe” semelhante ao de Alberto Fujimori no Peru, em 1992.

Luis Maria Argaña tornou-se líder do Partido Colorado, mas ainda assim Lino Oviedo acabou conquistando a candidatura à presidência, com Raúl Cubas vice. Porém, condenado e preso devido ao fracassado golpe de 1996 por um tribunal de exceção criado por Wasmosy, Oviedo foi impedido de concorrer, e Cubas foi indicado para substituí-lo (a vaga de vice passou para Argaña). O candidato do “oviedismo” venceu a eleição e assumiu a presidência em 15 de agosto de 1998. Três dias depois, Cubas cumpriu promessa feita durante a campanha e determinou a libertação de Oviedo.

Em 23 de março de 1999, o vice-presidente Argaña foi assassinado em uma esquina de Assunção, deflagrando o chamado “Março Paraguaio”, quando oito jovens foram mortos pela repressão aos protestos contra Cubas e Oviedo. Suspeitava-se que o assassinato fora tramado por Oviedo de modo a assumir a vice-presidência; consequentemente ele se tornaria o presidente, pois seria previsível que Cubas renunciaria em favor de seu padrinho político.

Porém, a suposta manobra não deu certo. Cubas renunciou em 28 de março e no dia seguinte exilou-se no Brasil. Em seu lugar, assumiu o presidente do Senado, Luis González Macchi, para completar o mandato presidencial. Oviedo obteve asilo político na Argentina, mas no final de 1999 os argentinos elegeram Fernando de la Rúa para suceder Carlos Menem, e o novo presidente ameaçava tirar o status de asilado político do ex-general; assim Oviedo fugiu secretamente para o Brasil e por vários meses disse estar escondido em território paraguaio, até que em junho de 2000 (semanas após uma nova tentativa de golpe militar no Paraguai) foi preso pela Polícia Federal em Foz do Iguaçu, a pedido da Justiça paraguaia.

Apesar do pedido de extradição feito pelo Paraguai, Oviedo obteve permissão para permanecer no Brasil, desde que se abstivesse de manifestar-se politicamente, determinação descumprida várias vezes pelo ex-general.

Em 2004, Oviedo decidiu retornar ao Paraguai, entregando-se à polícia. Libertado três anos depois, candidatou-se à presidência em 2008, acabando em terceiro lugar.

Fernando Lugo, eleito por uma coligação de esquerda e que obteve apoio do Partido Liberal Radical Autêntico (ao qual pertence o vice Federico Franco), foi deposto na última sexta-feira, praticamente sem apoio parlamentar. Para amanhã é prevista uma marcha do PLRA, que como qualquer movimento golpista que se preze no Paraguai de 20 anos para cá, contará com o apoio de Lino Oviedo e seus partidários.

Tem coisas que só acontecem no Brasil

Fui à versão chilena do Google Maps e fiz uma busca por “avenida Augusto Pinochet”, para ver se havia alguma com o nome do ex-ditador do país (1973-1990). Não encontrei, troquei “avenida” por “calle”, e o resultado foi idêntico, tentei “plaza” e de novo, nada. O Chile não homenageia Pinochet sequer em algum nome de praça.

Então me dirigi “ao leste”: busquei logradouros com nomes de alguns ex-ditadores da Argentina e, de novo, não encontrei.

Na versão paraguaia, busquei logradouros com o nome de Alfredo Stroessner, ex-ditador do Paraguai (1954-1989). Aí sim apareceram dois resultados: uma “colônia” e uma praça. Só que a primeira homenageia Stroessner apenas como general, já a praça o chama de “presidente”. Ah, e se o leitor pensa que ambos os lugares se encontram no Paraguai, se enganou.

A “colônia”, essa sim é no país que Stroessner governou ditatorialmente, já a praça (que, lembrando, o homenageia como “presidente”) se encontra no Brasil… Mais precisamente, em Guaratuba (PR).

Onde mais poderia ser, né? Afinal, o que não falta em nosso país é praça, rua e avenida que homenageie ex-ditador (aqui em Porto Alegre, por exemplo, a principal via de entrada da cidade se chama “avenida Castelo Branco”). Até bairros, e mesmo cidades temos. É só fazer uma busca no Google Maps pelo nome de algum ex-ditador.

Então, não me surpreende que em Rio Grande se queira homenagear com um monumento o general Golbery do Couto e Silva. Nascido na cidade em 21 de agosto de 1911, Golbery conspirou por vários anos contra a democracia brasileira, e foi um dos principais elaboradores do golpe de 1964. Porém, como a maioria das pessoas têm “memória curta”, Golbery acabou entrando para a história como “democrata”, por ter articulado a abertura “lenta, segura e gradual” (que fez a ditadura no Brasil terminar numa eleição indireta). Sim, “abertura política” depois do “fechamento” para o qual ele também colaborou decisivamente… Muito fácil ser “democrata” assim.

Só nos resta uma alternativa (que não é “deitar e chorar”): fazer pressão! Clique e subscreva o abaixo-assinado contra o monumento em homenagem a Golbery.

Arquivos abertos no Paraguai

É uma vitória da democracia e da História. Na última segunda-feira, o Paraguai anunciou a abertura à sociedade civil dos arquivos do regime militar.

A documentação liberada a pedido do presidente Fernando Lugo e do ministro da defesa Luis Bareiro Spaini ajudará a revelar mais informações não só sobre a ditadura de Alfredo Stroessner no Paraguai (1954-1989), como também sobre a Operação Condor, que foi a cooperação entre os diversos regimes militares da América do Sul nas décadas de 70 e 80. Como se viu no episódio chamado “sequestro dos uruguaios”: em 12 de novembro de 1978, Lílian Celiberti, seus dois filhos e Universindo Diaz foram raptados em Porto Alegre por policiais uruguaios que entraram clandestinamente no Brasil e contaram com a ajuda de colegas brasileiros para a ação (que só não foi totalmente “bem-sucedida” – ou seja, Lilian e Universindo escaparam da morte e as crianças não foram entregues a outras famílias, possivelmente de torturadores – por ter vindo a público em reportagem do jornalista Luiz Claudio Cunha, em parceria com o fotógrafo João Baptista Scalco, na revista Veja – que na época ainda era realmente uma revista).

Os documentos haviam sido jogados em um porão do Ministério da Defesa do Paraguai, e já estavam se estragando depois de tanto tempo entregues à umidade, aos ratos e às baratas.

O Coletivo Catarse esteve presente ao momento histórico em Assunção e produziu uma série de reportagens sobre o acontecimento – o primeiro vídeo, vai abaixo:

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Atualização (20/08/2010, 22:29): Tinha esquecido de um detalhe importante: a reportagem da Catarse é exclusiva, você não verá algo assim na mídia hegemônica – só na TV Brasil, a partir de segunda-feira no telejornal da emissora (que transmitirá justamente as matérias da Catarse sobre o assunto).