Banho no Largo Glênio Peres

Ontem à noite, o candidato do PT à prefeitura de Porto Alegre, Adão Villaverde, realizou um comício no Largo Glênio Peres. Fazia um pouco de frio, com temperatura em torno dos 15°C.

Para quem não conhece Porto Alegre: o Largo Glênio Peres é um tradicional ponto de encontro do Centro, defronte ao também tradicional Mercado Público. Também sempre foi bastante utilizado para atos públicos (tipo comícios), feiras de artesanato, do peixe (que acontece todos os anos na semana da Páscoa). Ultimamente ele anda bem diferente: nos últimos tempos a prefeitura tem permitido que o largo, um espaço para pedestres, vire estacionamento de carros em determinados dias e horários. Além disso, o espaço foi adotado pela Coca-Cola, que já tratou de promover sua marca (em um espaço público!): além das placas, também instalou um boneco em tamanho gigante do tatu-bola que será mascote da Copa de 2014 (aliás, só tem sugestão ridícula de nome para ele); porém, o bicho não veste a camisa da Seleção, e sim, da própria Coca-Cola.

A empresa também bancou a instalação de 19 chafarizes no largo. Ainda não passei lá, mas vi as fotos e, sinceramente, achei meio bizarro: não há delimitação física da área dos jatos, para que a água acumule ali. Ou seja, os chafarizes do Largo Glênio Peres molham a calçada. E, sendo vários, já imagino que num dia de ventania como a quarta-feira passada, mesmo sem chuva seria preciso andar de guarda-chuva aberto.

Pois bem: ontem teve gente que foi ao comício do PT e tomou um banho, mesmo que não tenha chovido (aliás, o céu estava estrelado). Foram os tais chafarizes… Que deveriam estar desligados, conforme acordo da prefeitura com a campanha de Villaverde.

Agora voltemos ao começo do texto, atentando ao detalhe da temperatura. No verão é normal sentirmos um pouco de frio ao sairmos de uma piscina ou do mar, devido ao corpo estar molhado. Agora imagine estar molhado à noite, e com temperatura de 15°C ou menos…

Dia da Terra

Charge do Kayser

Mas aproveitemos, pois a combinação que gera as algas (poluição, pouca chuva e calor) já acabou. A poluição continua (devendo seguir assim por muito tempo, infelizmente) e chuvas mais regulares provavelmente teremos só durante o inverno. Já o calor, finalmente, cedeu seu lugar ao friozinho que eu tanto aguardava…

Lagoa da Redenção

Formação de uma lagoa, segundo a Wikipédia (os grifos são meus):

Lagoas podem resultar de uma ampla gama de processos naturais, embora em muitas partes do mundo estes sejam fortemente condicionados pela atividade humana. Qualquer depressão no terreno que coleta e conserva uma quantidade suficiente de precipitação pode ser considerada uma lagoa, como as depressões formadas por eventos geológicos, como o tectonismo ou os glaciares.

Apresento aos leitores a mais jovem lagoa do Rio Grande do Sul: ela fica no Parque da Redenção (onde faz tempo que inexiste algo chamado “drenagem”). Durante o inverno é quase perene. No verão o calor faz com que ela evapore mais rápido após uma chuvarada – não fosse isso, teríamos um baita criadouro de mosquitos (dengue, lembram?) em uma das áreas mais movimentadas de Porto Alegre.

Domingo, na hora que passei pela Redenção para ir ao jogo do Grêmio, ela ainda estava lá, nos lembrando o quanto choveu sábado e também o quão malcuidada está a cidade.

Em Porto Alegre não falta alga

Desde o final do ano passado enfrentando uma estiagem, o Rio Grande do Sul precisa de chuva – como a deste sábado – para amenizar a situação. Várias cidades racionam água devido à escassez.

Em Porto Alegre o racionamento não chega a ser necessário em épocas de estiagem, já que o Guaíba recebe água de vários rios, sendo o principal deles o Jacuí. Porém, não corresponde à verdade dizer que o abastecimento de água na cidade não é afetado. Pois a combinação de pouca chuva, calor e poluição favorece a proliferação de algas, que além de darem uma tonalidade esverdeada à água, também a deixam com gosto ruim e cheiro forte.

Apesar do tratamento remover os poluentes, o cheirinho e o gostinho “de terra” não saem, e é sentido quando se toma um chimarrão ou um café feito com água da torneira.

Tal situação acontece agora, e o Kayser a retratou de forma genial.

Eu também não gosto de sushi...

Água, fonte de lucro?

É o que pensam as grandes corporações – para elas, a água não tem de ser um bem natural, e sim, apenas uma mercadoria.

E não pensem que isso é tão surreal. Já aconteceu em Cochabamba, na Bolívia, quando os serviços municipais de abastecimento de água foram privatizados. Chegou-se ao absurdo de proibir as pessoas de coletarem água da chuva, já que ela também era considerada “propriedade privada” (ué, cadê a “democracia” que os privatistas tanto defendem?). O povo se mobilizou contra tamanho autoritarismo entre janeiro e abril de 2000, no episódio que ficou conhecido como “Guerra da Água”. E no fim, conseguiu reverter a situação.

Foi uma vitória importante, mas apenas em uma batalha. Pois com a tendência da água potável tornar-se mais escassa devido à poluição, crescerá o risco dela ser vista com olho grande pelas grandes corporações. Sem contar as prováveis guerras por água no futuro, assim como hoje vemos pelo petróleo.

Aliás, tudo isso é de especial motivo de preocupação para nós, já que aqui na América do Sul encontra-se a maior reserva subterrânea de água doce do mundo, o Aquífero Guarani – cuja maior parte fica em território brasileiro.

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Esta foi minha contribuição para o Dia de Ação dos Blogs 2010 – era para ter sido postado ontem, mas…

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Correção (16/10/2010, 19:18): O leitor Marcos Correa (ao qual agradeço) deixou comentário com a informação de que o maior aquífero é o Alter do Chão, na Amazônia, que tem quase o dobro de volume d’água em relação ao Guarani.

Bicada de tucano é dolorida

Segunda-feira, aconteceu em São Paulo uma manifestação em frente à prefeitura da cidade, em protesto contra os alagamentos que persistem há três meses em partes da capital paulista.

Sim, três meses. Não falo dos transbordamentos do Rio Tietê, que sobe com as enxurradas e depois volta a seu nível normal. Há bairros da periferia paulistana que estão alagados desde novembro! Ou seja, antes das chuvas virarem pauta da “grande mídia” – que começou a falar do assunto apenas quando os carros passaram a ficarem presos em (ainda mais) congestionamentos gigantescos.

E o pior de tudo, é que os alagamentos na periferia não acontecem “por acaso”: para evitar que o Rio Tietê transborde e congestione as Marginais, fecham-se comportas de barragens, o que resulta em inundações nos bairros periféricos de São Paulo. Ou seja, além de não adiantar muito (já que o rio segue transbordando quando acontecem chuvaradas), trata-se de um evidente desprezo das autoridades pela população pobre.

Os manifestantes decidiram cobrar providências de seus (des)governantes, nada mais do que isso, em um protesto pacífico. Qual foi a resposta das “otoridades”? Porrada e spray de pimenta.

Qualquer semelhança com o Rio Grande do Sul, não é mera coincidência: afinal, tratam-se de dois Estados (des)governados pelo PSDB. E a prefeitura de São Paulo é do DEM, partido aliado dos tucanos.

Moral da história: dia 3 de outubro, cuidado para não votar errado.

Corte de água em pleno verão

No próximo sábado, haverá corte de água em diversos bairros de Porto Alegre devido a uma obra na Estação Moinhos de Vento. O abastecimento deverá ser normalizado no domingo.

Corte de água programado em pleno verão? Será que pensam que a população inteira de Porto Alegre vai para a praia? Se a obra é urgente, por que não foi feita antes do verão?

O ideal é que todos poupem água, sempre. Mas dificilmente não faltará água nas torneiras, com o corte no sábado. Considerando que eu não preciso caminhar mais de 50 metros na rua para suar durante o verão, já planejo evitar pôr os pés para fora de casa no sábado, para não precisar de banho. Ou, se sair, andar a passo de tartaruga para suar o mínimo possível.

Deserto verde

Ontem, 21 de setembro, foi o Dia Internacional de Combate às Monoculturas de Árvores. Aqui no Rio Grande do Sul, o plantio de vastas áreas com eucaliptos é alardeado pela mídia como a salvação da economia do Estado.

O eucalipto é uma árvore nativa da Austrália. Consegue sobreviver com pouca água, devido ao clima seco predominante naquele país. Por isso, em regiões mais úmidas, como o sul do Brasil e a região do Prata, tal árvore cresce muito rapidamente (o que faz da monocultura do eucalipto uma atividade extremamente lucrativa em pouco tempo e com pouca mão-de-obra), devido à água em abundância no solo. Porém, ela cobra um preço: consome toda a água do solo, fazendo nascentes secarem, o que já acontece no Uruguai.

Tudo isso para que tenhamos papel. A indústria papeleira é uma das mais agressivas ao meio ambiente. Não é a toa que a instalação de fábricas de celulose na margem uruguaia do Rio Uruguai, fronteira com a Argentina, provocou fortes reações até mesmo do governo argentino.

Sem contar toda a destruição de matas nativas para o plantio de eucaliptos. Troca-se uma árvore adaptada ao meio por uma que suga toda a água do solo.

O que podemos fazer diante disso? O mínimo, é consumir menos papel. Imprimir textos apenas se necessário. Se possível, usar papel reciclado, apesar dele ser caro – o papel comum, produzido em escala industrial, é muito mais barato.

Veja os vídeos abaixo. Os dois primeiros, são um documentário (em espanhol) do Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais (que lembra: boa parte do papel consumido no mundo é usado como folderes comerciais, ou seja, muito rapidamente vira lixo). E o terceiro, é uma campanha muito bem bolada da organização sul-africana Food & Trees for Africa.

A imundície do Guaíba

Hoje pela manhã, aconteceu um passeio no Cisne Branco, patrocinado pela Comissão de Saúde e Meio Ambiente da Câmara Municipal de Porto Alegre, para verificação dos problemas ambientais no Guaíba. Além de vereadores, participaram também representantes de associações de moradores e movimentos populares. Junto com o meu pai, fui um dos representantes dos Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho. O barco não fez seu tradicional roteiro turístico, mas sim, passou pelos pontos mais poluídos do Guaíba. E o que vimos é simplesmente estarrecedor.

O local onde é feita a captação da água que chega às casas da maioria da população de Porto Alegre é também onde é despejado o esgoto dos bairros da Zona Norte, que é justamente onde vive a maior parte dos porto-alegrenses. Isto não é motivo para deixar de usar água da torneira para consumo, já que ela é tratada, mas vejam: quanto mais poluída a água, mais dispendioso é o seu tratamento.

Chegamos a navegar um pouco pelo Rio Gravataí, que marca o limite norte do município de Porto Alegre, onde não existe água propriamente dita, e sim um “caldo”, sem vida alguma. Muito fedor e muito lixo: sapatos, garrafas plásticas, caixas… Algo que, sim, sabemos que acontece mas quase não vemos, já que viramos as costas e fazemos de conta que não é problema nosso.

Em outros pontos do Guaíba o cheiro não era tão forte, mas também havia muito lixo, tanto boiando quanto acumulado nas margens. E, incrível: chegamos a ver uma tartaruga nadando naquelas águas, era literalmente a vida desafiando a morte.

Em breve, as fotos do passeio.