Das efemérides

Depois do ótimo almoço de domingo (feijão tropeiro, feito por gaúchos com feijão argentino), conversando com o meu pai recordei uma efeméride: 1º de setembro é o aniversário do início da Segunda Guerra Mundial. Neste caso em específico, foi o de 80 anos.

Meu pai comentou que o fato era digno de uma postagem no blog. Pensei que realmente era. E que isso aconteceria sem dúvida alguma nos meus bons tempos, em que bastava pensar em um assunto e sentar à frente do computador que o texto sairia quase ao natural. Então lembrei que não precisava ficar apenas me lamentando: exatos dez anos atrás escrevi um sobre o 70º aniversário do início da guerra que eu não mudaria muito nos dias de hoje, pois só foi preciso corrigir um ou outro erro de português (nada como uma década para ajudar na revisão, e os equívocos que sobrarem serão corrigidos em setembro de 2029).

A efeméride me fez pensar que nosso mundo atual anda cada vez mais parecido com aquele de 1939. Em várias partes do mundo a extrema-direita ganha força, por mais que as pessoas digam rejeitar o nazi-fascismo: ele é pintado como algo “anormal”, e a humanidade acredita estar “vacinada” contra ele.

Mas não está: uma das principais características do fascismo (do qual o nazismo era a versão alemã, com algumas particularidades) é oferecer “soluções simples” para tudo e, principalmente, ter um “inimigo” que sirva para dividir a sociedade entre “nós” e “eles”. Na União Europeia, o medo dos imigrantes de origem árabe que fogem da guerra e da pobreza em seus países de origem deu força à extrema-direita até mesmo na Alemanha (onde ela obteve em 2017 seus melhores resultados eleitorais no pós-guerra) e elegeu governos que descambaram para o autoritarismo puro e simples, como é o caso da Hungria. Nos Estados Unidos, Donald Trump foi eleito presidente prometendo construir um muro na fronteira com o México para barrar a imigração de latino-americanos, por lá chamados pejorativamente de cucarachas (baratas).

Já aqui no Brasil, várias pessoas culpam o PT por todos os males, desde a crise econômica iniciada em 2014 (que qualquer pessoa com o mínimo conhecimento de geopolítica sabe que foi causada apenas por erros do governo petista) até mesmo a problemas que podemos chamar de “sistêmicos” (como a corrupção) e também imaginários como a tal “ameaça comunista” (que já tinha “justificado” o golpe civil-militar de 1964, e mesmo que em 13 anos de governo o PT jamais tenha implantado uma só política que se assemelhasse ao comunismo). Contra ele vale tudo, até votar em um político que em 2016 foi apontado como um dos mais repulsivos do mundo por um importante site de notícias australiano.


Adolf Hitler não era levado a sério com suas promessas de romper os humilhantes tratados de 1919 que tinham sido impostos à Alemanha; quando seu Partido Nazista chegou ao poder em 1933, não foi visto como ameaça pelos grandes industriais alemães (alguns dos quais aderiram com entusiasmo ao nazismo) nem pelas potências europeias rivais (França e Grã-Bretanha), que temiam mais o comunismo e a União Soviética de Josef Stalin que um renascimento do expansionismo alemão (que anteriormente já tinha sido uma das causas da Primeira Guerra Mundial). Ainda mais que Hitler também elegia como “inimiga” a URSS. Logo a Alemanha começou a anexar territórios estrangeiros: primeiro a Áustria (terra natal do ditador), depois a região tchecoslovaca dos Sudetos e na sequência a Tchecoslováquia inteira. O máximo que ouviram foi uma ameaça de britânicos e franceses de que não tolerariam uma invasão da Polônia: fazendo concessões, acreditaram que seria possível “segurar” Hitler e deram com os burros n’água.


Jair Bolsonaro não era levado a sério com seus discursos odiosos e que teciam loas à ditadura, e não era visto como ameaça pela direita tradicional, liderada pelo PSDB, visto que ambos tinham como “inimigo” o PT, que queriam derrotar a qualquer custo. Quando Bolsonaro tornou-se líder nas pesquisas de opinião sobre a eleição presidencial de 2018, boa parte da direita tradicional teve certeza que ele “perderia força”, mas depois, quando o candidato da extrema-direita foi ao segundo turno e venceu, ela acreditou que fazendo concessões (leia-se “oferecendo apoio parlamentar a reformas de caráter ultraliberal”) seria possível “segurá-lo”, tornando seu governo “normal”, respeitador da Constituição de 1988 e do pacto sócio-político que foi vigente por quase 30 anos. Vários setores do empresariado e do agronegócio viram nele uma opção “menos pior que o PT”, e alguns aderiram ao bolsonarismo com entusiasmo…

Ei, já não vimos um filme parecido?


No fim, acabei escrevendo um texto bem maior do que imaginava, ainda mais que não estou nos meus bons tempos. Mas nada de novo, ao menos no tocante à Segunda Guerra Mundial.

E nem sequer respeitei o prazo: só terminei no dia 2 de setembro, quando a efeméride já passou.

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Da inexistência de monstros (ou: a mania humana de dividir o mundo entre “bons” e “maus”)

Causou certa controvérsia o texto publicado na última terça-feira. Principalmente por conta do título: afinal, como dizer que o estuprador não é um monstro?

Antes de publicar, por pouco, o título não foi outro. Ou melhor, não foi “mais longo”. Pensara em complementá-lo: “O estuprador não é um monstro: é um homem”. Talvez assim tivesse ficado melhor, pois teria deixado bem claro o que pretendia dizer naquelas (poucas) linhas escritas – que no fundo, nada mais eram do que um comentário “alongado” relativo ao excelente vídeo do canadense Jeremy Loveday.

Porém, muito provavelmente este outro título também causaria irritação. Mais especificamente, de muitos homens que “vestiriam a carapuça”, achando que a referência era a todos do sexo masculino. Mesmo que não seja preciso ter mais de dois neurônios para perceber que queria dizer o contrário: nem todo homem é estuprador, mas todo estuprador é homem – daí a afirmação de que, enquanto gênero, todos somos responsáveis por isso, e não podemos nos omitir. O fato do machismo oprimir as mulheres não significa que os homens não possam também combatê-lo, mas o primeiro passo para isso consiste em reconhecer que o gênero ao qual pertencemos é o opressor e que, portanto, são pessoas semelhantes a nós (ou seja, homens) que o praticam.

A partir disso, podemos fazer uma analogia para outros casos (como a luta contra o racismo, a homofobia etc.), e estendê-la até mesmo à humanidade como um todo. Temos o costume de classificar qualquer um que tenha comportamento desviante da norma como “criatura anômala”. Estupradores e demais criminosos, por exemplo, são “monstros”. O mesmo se aplica a Adolf Hitler e aos nazistas: barbaridades como o Holocausto não podem ser coisa de humanos, né?

A referência a Hitler não é para seguir a chamada “Lei de Godwin”. Quando aconteceram os atentados terroristas na Noruega, em 22 de julho de 2011, se procurou mostrar o autor confesso dos ataques, o ultradireitista Anders Behring Breivik, como um “monstro” (rá!) e também como “seguidor de Adolf Hitler”. Com isso, passava-se a ideia de que Breivik era uma “criatura anômala”, provavelmente “com problemas mentais”. Logo, seria “menos humano” que nós, “pessoas normais e de bem”. O motivo? Meu amigo Guga Türck “matou a charada”:

Claro, porque é necessário se identificar de alguma forma uma anomalia no comportamento do cara, porque senão todas as razões que ele vem elencando para o seu massacre irão colocar uma gama muito grande de pessoas no saco que este idiota acabou de criar.
Suas ideias são como um compilado de bobagens que tenho ouvido por aí ao longo dos tempos, em jantares de família, saguões de faculdade, mesas de bar… todas essas coisas que permeiam a vida de um jovem da classe média porto-alegrense.
O que ele fez lá na Noruega tem um montão de gente por aqui que adoraria fazer com os integrantes do MST, ou com os moradores de rua, com negros, com vileiros, com os vagabundos do bolsa família, os maconheiros das marchas ou com os bicicleteiros que ousam desafiar os carros.

Resumindo: o “monstro” nada mais é do que um produto da sociedade. Somos seres sociais e, por isso, muito influenciados pelo meio em que vivemos. Não reagimos todos da mesma forma – aí entram as características próprias de cada pessoa. Um psicopata, por exemplo, tende a ser mais violento (isso mesmo, tende, pois nem todos são, por incrível que pareça).

Mas nem todo criminoso é psicopata, e nenhum deles (nem mesmo o psicopata) é monstro. Da mesma forma que Hitler e outros terríveis genocidas. São todos humanos. Iguais a nós.

Acontece que temos a mania de dividir o mundo entre “bons” e “maus”, sendo que, obviamente, nós somos os “do bem”, e os outros, “do mal”. Ou, como lembro de ter sido comentado por um professor em meu primeiro semestre na faculdade de História: “bárbaros são sempre os outros”. Com isso, muitas vezes estamos em meio à barbárie, mas fingimos que nada temos a ver com isso pois somos “civilizados”. Mas temos. E muito.

Quanto falta para o fundo do poço?

Na madrugada de segunda-feira, Porto Alegre foi palco de uma barbárie. Próximo ao Mercado Público, um morador de rua foi linchado por um grupo de pessoas, devido ao fato de supostamente ter tentado assaltar uma delas.

“É um a menos, tem de dar uma camaçada de pau nesses vagabundos mesmo!”, diz, espumando, o “comentarista-padrão” dos grandes portais. E sai bradando “bandido bom é bandido morto”, “direitos humanos para humanos direitos”, dentre outras pérolas típicas dos mais apaixonados “defensores da civilização ocidental” – sim, eles acreditam que são “civilizados” empreendendo uma “cruzada” contra os “monstros” que querem “destruir nossa sociedade”.

Só que tem um problema: monstros não existem, são personagens de ficção. Todas aquelas pessoas que só de lembrarmos dá medo, por conta dos atos “desumanos” que cometeram, eram tão humanas quanto nós. Por mais incômodo que seja, todos temos algo em comum com Adolf Hitler e quaisquer criminosos: somos da mesma espécie biológica.

É muito fácil dizer que um criminoso é um “monstro” e que, por isso, é irrecuperável e não deve ter seus direitos humanos respeitados (o que obviamente não significa tolerar o crime cometido). E muito cômodo também. Pois reconhecer naquele “bandido” ou naquele ditador sanguinário um ser biologicamente igual a nós significa a necessidade de refletir sobre o quão culpados somos, enquanto sociedade, pela existência de pessoas assim. (Afinal de contas, nem todos os criminosos são psicopatas – ou seja, pessoas acometidas de um transtorno de personalidade.)

Em março de 2010, escrevi um texto sobre a estupidez que aflora toda vez que se fala sobre criminalidade. Muita gente exige pena de morte, “pau nos vagabundos” etc. Ou seja, o “cidadão médio” defende o uso da violência justamente para acabar com ela: é algo como o alcoólatra que sofre uma crise de abstinência achar que a solução para seu problema é encher a cara… Uma frase de Martin Luther King, que usei como epígrafe naquele texto, resume bem minha ideia.

A velha lei do olho por olho deixará a todos cegos.

Olimpicamente político (ou politicamente olímpico)

Os Jogos Olímpicos de Londres terminaram ontem, e a Grã-Bretanha teve um de seus melhores desempenhos na história olímpica: com 29 ouros, os britânicos acabaram em terceiro lugar no quadro de medalhas, embora tenham subido menos vezes ao pódio do que a Rússia (que obteve 24 ouros e 82 medalhas no total, contra 65 da Grã-Bretanha).

Porém, nesta mesma semana ouvi a notícia de que o Estado britânico cortará investimentos em esportes, devido à recessão que atinge o país – fruto da crise econômica quase que generalizada na Europa. Ou seja, os britânicos investiram bastante apenas com vista aos Jogos de 2012, para irem bem em casa – provavelmente, o governo temia que sua popularidade caísse com um mau desempenho da Grã-Bretanha, como se a população já não tivesse outros problemas para se preocupar.

A verdade é que os Jogos Olímpicos há muito tempo são uma arma política, vistos como oportunidade de um país demonstrar, através do esporte, que é uma potência. Não por acaso a China, que busca se afirmar como a nova superpotência mundial, também cresceu muito na área esportiva – por mais contestáveis que sejam seus métodos de formação de esportistas, assim como eram os de extintos países do antigo “bloco socialista” como União Soviética e Alemanha Oriental.

Sendo assim, relembremos alguns outros momentos em que os Jogos tiveram importância não só esportiva, como também política. Continuar lendo

Um símbolo do ponto a que pode chegar a humanidade

O Milton Ribeiro postou quinta-feira em seu blog uma fotografia que talvez seja a mais hedionda já obtida. Mais que isso, digo que é extremamente revoltante.

O homem de paletó e gravata, com um pedaço de pão na mão, era um oficial turco-otomano. As pessoas que o cercam, visivelmente desnutridas, eram armênios, vítimas de um genocídio que mais tarde teria inspirado Adolf Hitler a fazer o mesmo com os judeus – é atribuída ao ditador alemão a frase “afinal, quem fala hoje do extermínio dos armênios?”, contando com o esquecimento para argumentar a favor do plano de eliminar as populações judaicas.

Já se passaram 97 anos do início do Genocídio Armênio, em 1915. Até hoje, o Estado turco (sucessor do Império Otomano) insiste em negar que a matança foi deliberada, e ainda reprime qualquer manifestação pró-reconhecimento dentro de suas fronteiras*. E vários países (dentre eles o Brasil), em nome de manter boas relações com a Turquia, não reconhecem o genocídio.

E para ver só, até em matéria de memória quanto a acontecimentos de outros países a Argentina “dá de relho” na gente: ano passado, um juiz argentino emitiu uma sentença condenando a Turquia pelo extermínio. Não foi a primeira medida neste sentido no país vizinho, visto que o Estado argentino já reconhecia formalmente o Genocídio Armênio. O primeiro ato de reconhecimento veio do Uruguai, mediante resolução parlamentar em abril de 1965, 50º aniversário do massacre.

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* Em 2005, o escritor turco Orhan Pamuk (Prêmio Nobel de Literatura em 2006) afirmou numa entrevista a uma revista suíça que na Turquia “ninguém se atreve a falar” do genocídio contra os armênios e da posterior matança de 30 mil curdos, e por conta disso sofreu processo judicial por “insultar e desacreditar a identidade turca” (crime previsto no artigo 301 do código penal da Turquia).

Monstros não existem

O Guga “acertou na mosca” no texto dele no Alma da Geral, sobre os atentados terroristas da última sexta-feira na Noruega. Já notei a mesma coisa: estão tentando pintar Anders Behring Breivik, autor confesso dos ataques, como um “monstro” e, claro, “seguidor de Adolf Hitler”. Como se Hitler tivesse sido também uma “criatura anômala”.

Lembram de quando foi lançado o filme “A Queda” (Der Untergang)? A obra sofreu críticas por ter mostrado um Adolf Hitler “muito humano”. Pois o certo seria apresentar Hitler como um “monstro”, e não como um um ser humano. Afinal, o nazismo não é obra de seres humanos, certo? (Os nazistas eram monstros disfarçados de humanos, só pode ser isso.)

Essa insistência em negar que a humanidade foi capaz de coisas terríveis como o Holocausto tem uma motivação muito clara: fazer com que as pessoas acreditem que aquilo jamais voltará a acontecer e que, portanto, não é preciso ficar atento. Então, dê-lhe dizer que Hitler, o nazismo, e caras como Anders Behring Breivik são “monstruosidades”…

Mas tem mais na tentativa de colar o rótulo de “monstro” em Breivik. Passo novamente a palavra ao Guga:

Claro, porque é necessário se identificar de alguma forma uma anomalia no comportamento do cara, porque senão todas as razões que ele vem elencando para o seu massacre irão colocar uma gama muito grande de pessoas no saco que este idiota acabou de criar.
Suas ideias são como um compilado de bobagens que tenho ouvido por aí ao longo dos tempos, em jantares de família, saguões de faculdade, mesas de bar… todas essas coisas que permeiam a vida de um jovem da classe média porto-alegrense.
O que ele fez lá na Noruega tem um montão de gente por aqui que adoraria fazer com os integrantes do MST, ou com os moradores de rua, com negros, com vileiros, com os vagabundos do bolsa família, os maconheiros das marchas ou com os bicicleteiros que ousam desafiar os carros.

Exato: o que não falta são pessoas que defendem ideias que seriam muito bem aceitas por Hitler e seus seguidores, mas dizem repudiar o nazismo (por desconhecimento ou cara-de-pau mesmo). E é aí que mora o perigo.

Foi justamente para explicar a seus alunos como os alemães puderam aceitar o nazismo e todos os seus horrores, que em abril de 1967 um professor de História em uma escola nos Estados Unidos demonstrou, de forma prática, como o fascismo surge e cresce sem que a maioria das pessoas se dê conta disso: muito pelo contrário, o apoiam sem nenhum questionamento, nenhuma crítica. Os acontecimentos foram retratados no filme “A Onda” (The Wave), de 1981, que achei inteiro legendado em português no YouTube (dividido em cinco partes) e disponibilizo abaixo.

Em 2008, foi lançada uma versão alemã (Die Welle), que deu uma “atualizada” na história, e que achei melhor. Mas não achei com legendas em português, só o trailer.

A banalização do termo “nazista”

Um dos raros motivos que me levam a dar uma olhada na Zero Hora é a coluna de Luis Fernando Verissimo. E hoje, então, o texto dele é tão bom que vale a pena ser postado aqui no Cão também. Literalmente “assino embaixo” do que ele escreveu.

Nazistas

Nos filmes da série Guerra nas Estrelas, os oficiais do império intergalático usavam uniformes parecidos com os dos oficiais alemães na II Grande Guerra. Era para identificá-los imediatamente como maus. Ou seja, mil anos no futuro, a analogia nazista ainda continuaria funcionando. Como funciona hoje, 65 anos depois da derrota do nazismo, quando se quer caracterizar um mal ou insultar alguém. Uma recente e maluca analogia foi feita por opositores do plano de saúde universal do Barack Obama, que chamaram o plano de nazista. O plano que o Baraca finalmente conseguiu aprovar é menos abrangente do que o que existe na maioria dos países industrializados do mundo, mas “nazista” era um epíteto mais ressoante do que “social-democrata” – que para a direita americana já é um palavrão. Cartazes do Obama com o bigodinho do Hitler faziam parte da campanha contra.

É bom que o mundo nunca se esqueça do nazismo e seus símbolos continuem a evocar um passado de horrores por muitos anos, mas a banalização do termo esvazia seu sentido. Quando tanto a direita quanto a esquerda se xingam de “fascista”, “fascista” passa a não ter significado histórico algum, ou aplicação fora do calor da briga. E “nazista” como a suprema imprecação de certa maneira libera vocações totalitárias e prepotentes que não se reconhecem no modelo execrado. Não foram poucas, a julgar pelo que se lia nos jornais, as pessoas que concordaram com a frase dita depois da matança de meninos na Candelária, a de que aquilo não tinha sido uma chacina e sim uma faxina. Quando se pode chamar até um plano de saúde de nazista, o verdadeiro pensamento nazista fica sem nome.

O Baraca conseguiu a aprovação do seu meio plano, mas continua sob fogo da direita – e da esquerda. Está sendo tímido nas mudanças sociais prometidas e não acabou com a intervenção americana no Afeganistão, o que não tinha sido prometido mas era esperado. Mandou mais tropas. E o Afeganistão continua sendo um sumidouro, engolindo o seu terceiro império seguido, depois dos ingleses e dos russos. Enquanto isto, a direita religiosa reza pela morte de Obama e “nazista” é apenas um dos rótulos que lhe deram.

70 anos do início da Segunda Guerra Mundial

No dia 1º de setembro de 1939, os exércitos nazistas cruzaram a fronteira com a Polônia, dando início ao maior banho de sangue de todos os tempos (até agora).

Engana-se, porém, quem pensa que a única motivação da Segunda Guerra Mundial foi a invasão da Polônia.

Muitas vezes se disse que a Segunda Guerra Mundial foi “uma consequência da Primeira”, e não deixa de ser verdade. A Alemanha foi a principal potência derrotada, e em 1919 lhe foram impostos “tratados de paz” absolutamente humilhantes: o país foi obrigado a pagar pesadas indenizações de guerra aos vencedores, e sofreu sérias restrições quanto ao controle de seu próprio território. Mergulhou em grave crise econômica, com uma inflação galopante (para se ter ideia, notas de um bilhão de marcos chegaram a circular, e o dinheiro se desvalorizava tão rápido que por vezes era preciso um saco de notas para comprar um pão), e altas taxas de desemprego. Além disso, os veteranos da guerra sentiam o desejo de vingança, aumentado com a crise e a humilhação a que foram expostos – terreno fértil para o florescimento de movimentos ultranacionalistas de extrema-direita como o nazismo, versão alemã do fascismo.

Adolf Hitler chegou ao poder em 1933, sem esconder que pretendia violar os tratados de 1919. Grã-Bretanha e França fizeram vistas grossas: o líder nazista era anticomunista ferrenho. As potências ocidentais apostaram suas fichas numa invasão alemã da União Soviética, considerada ameaça muito maior: o mundo capitalista ainda vivia sob os efeitos da grave crise econômica iniciada em 1929; enquanto isso a URSS se desenvolvia e era um modelo de “sociedade justa” (mesmo com a ditadura de Josef Stalin) para os trabalhadores, que sentiam ainda mais a crise.

Assim, Grã-Bretanha e França nada fizeram de concreto para impedir o início do expansionismo de Hitler. Em março de 1938, o ditador ordenou a anexação da Áustria, sua terra natal. Depois, a vítima seria a Tchecoslováquia: Hitler acusou o país de maltratar populações alemãs da região dos Sudetos; Grã-Bretanha e França concordaram com a anexação à Alemanha daquela porção de território tchecoslovaco. Depois, Hitler acabaria anexando todo o país – sem ouvir mais do que uma ameaça de Grã-Bretanha e França, de que não tolerariam uma invasão da Polônia.

Quando as tropas atravessaram a fronteira teuto-polonesa, finalmente os governos britânico e francês decidiram agir. Mas foi mais por falta de escolha do que por convicção. Além da promessa de defesa feita à Polônia, Grã-Bretanha e França não contavam com a jogada de Stalin, que assinou um pacto de não-agressão com Hitler. Com isso, Alemanha e URSS dividiriam a Polônia entre si, e os soviéticos poderiam anexar as repúblicas bálticas (Estônia, Letônia e Lituânia – independentes desde 1918, e as primeiras a reivindicarem independência da URSS ao final da década de 1980). Mesmo que Stalin não esperasse a Operação Barbarossa em junho de 1941, graças ao pacto a URSS ganhou mais tempo para preparar a defesa contra uma invasão que mais cedo ou mais tarde aconteceria.

Sempre se diz que em uma guerra, a primeira vítima é a verdade. E de fato, é. As forças aliadas contra Hitler também cometeram crimes de guerra: o bombardeio de Dresden em fevereiro de 1945 segue gerando controvérsias, e há também denúncias de massacres cometidos pelos soviéticos na frente oriental. Sem contar as bombas atômicas jogadas pelos Estados Unidos sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945, quando o Japão estava prestes a se render – e mesmo que não estivesse, nada justifica tamanha desumanidade.

Já as atrocidades cometidas pelos nazistas haviam se iniciado antes de 1º de setembro de 1939. A política de “embelezamento do mundo” mediante a “eliminação de pragas” (inclusive as “sociais”) fora cuidadosamente planejada. Elas ameaçavam as “boas famílias alemãs”, e precisavam ser exterminadas. O Holocausto não foi consequência da guerra, era política de Estado de Hitler: em novembro de 1938 já aconteceram massacres de judeus em diversas regiões sob domínio nazista, na chamada Noite dos Cristais.

É fundamental que tais acontecimentos jamais sejam esquecidos. Pois a derrota do nazismo no campo militar não significou o seu fim definitivo. Sua força reside não nos pequenos grupos que se declaram “neonazistas”, e sim no mito de que foi totalmente vencido. Há muitas pessoas que se questionadas sobre o que acham do nazismo, o rejeitam veementemente, visto que ele é associado ao que de pior já fez a humanidade. Porém, ao mesmo tempo defendem ideias que em muito se aproximam dele, sem se darem conta disso.

Síntese do pensamento dos concretoscos

Vez que outra, acesso alguns blogs pontaleiros, que defendem o “sim” na consulta de amanhã.

Um deles toscamente diz que votar NÃO é deixar a área do antigo Estaleiro Só do jeito que está – debocham da inteligência de milhares de pessoas ao acharem que queremos um monte de lixo (deixado no local pelo dono, que não limpa sua propriedade e não é multado!), quando há muito tempo defendemos que a área seja um parque público (afinal, ela é originalmente pública, foi cedida pelo Estado ao Estaleiro Só) – e apresenta o terreno como cheio de “ruínas, ratos e marginais”.

Uma leitora, que se identificou como Marie, deixou o seguinte comentário abaixo, que sintetiza bem o que pensam os concretoscos:

Fiquei um bom tempo procurando nas fotos os “marginais” que vocês citam no texto de entrada do site… E só encontrei algumas crianças, brincando no rio…

Claro, devem estar se referindo aos pobres… Que junto às “baratas e ratos” também citados serão erradicados do lugar por este “purificador e higienizador” projeto.

Quem vocês pensam que são para julgar e apontar outras pessoas como “marginais”?

Depois de ler esse comentário, acessei o álbum com as fotos e também não achei nenhum “marginal”. Só pessoas simples.

Pois é isso que eles querem com o Pontal do Estaleiro: afastar os pobres, “marginais” para os concretoscos.

A um parque público, todos têm livre acesso, ricos e pobres, sem distinção de classe social ou cor. No Pontal, quem iria? Dizem que haveria uma “área pública”, mas fica a pergunta: se uma pessoa bem humilde fosse lá, como seria tratada? O comentário que citei já dá uma pista.

E ao ler que os concretoscos consideram a área do antigo Estaleiro Só como de “ratos, baratas e marginais”, foi impossível não lembrar de tudo o que já li e assisti sobre o nazismo, que afirmava ter o propósito de “embelezar o mundo” acabando com as “impurezas” dele. Hitler considerava os “não-arianos”, principalmente judeus, como “pragas sociais” que precisavam ser eliminadas.

O problema era convencer a população alemã, traumatizada pela Primeira Guerra Mundial, a apoiar tal política sanguinária. A solução foi um discurso “higienizador”, apresentando as “pragas” – inclusive as “sociais” – como uma ameaça às “boas famílias alemãs”.

O resultado disso, qualquer um que tenha o mínimo conhecimento de História sabe quais foram: Segunda Guerra Mundial e Holocausto.

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Por aqui já tivemos uma mostra ontem, com o assassinato do  trabalhador rural sem-terra Elton Brum da Silva em São Gabriel – o que já era temido pelo MST.

De fato, não é de se estranhar. No final de fevereiro, a Zero Hora publicou em sua seção de cartas o texto de um fascista (não tenho outras palavras para descrever o cara) que defendia o extermínio (sic) do MST. É o tipo de gente que quer acabar com a pobreza não reduzindo a desigualdade social, mas sim matando os pobres. Gente que certamente votará no “sim” amanhã.

Afinal, a pobreza é “feia” e “impura”, e Porto Alegre precisa ser “embelezada” – daí a necessidade, na ótica concretosca, do Pontal.