Pelo direito de sair apenas quando se está com vontade

A culpa que as pessoas sentem de ficar em casa em uma sexta-feira ou sábado à noite é nada menos que impressionante. E meio assustadora. Incrível como a galera acha que há uma espécie de dever social de sair à noite, encher a cara, fazer farra, pegar alguém se for solteiro e amanhecer em algum lugar bizarro e desconhecido, de preferência com um(a) completo(a) desconhecido(a) do lado. E que não fazê-lo dentro dos prazos e intervalos semanais determinados pelo senso comum é algum tipo de doença ou derrota social.

Sou velho. Acho que nasci velho, na verdade. E tenho essa mania de (olha que absurdo!) só fazer as coisas quando estou realmente com vontade. Muitas vezes quero sair, outras tantas não. E nada há de certo ou errado em uma coisa ou outra. Não consigo entender que culpa há em não sair no sábado, por ex: é um dia como os outros. Ou precisamos mesmo concentrar tudo de bom que uma semana pode ter em algumas poucas horas de um dia específico? Prefiro uma vida boa do que uma noite boa, de modo geral. E uma série de boas noites empilhadas, queiram vocês ou não, não constitui uma vida.

Por favor: parem com essa auto-depreciação boba de “não vou sair hoje, ai que derrota”. Se querem sair, saiam; se não querem ou não podem, fiquem em casa. E era isso. Mas, por favor, decida e pare de reclamar.

A citação acima é do Igor Natusch, via Facebook, publicada ontem à noite. Achei tão sensacional, que decidi “roubar”, e escrever sobre ela.

É um assunto sobre o qual já falei outras vezes aqui no Cão, e acho que nunca é demais discutir novamente: a tal da “obrigação de ser feliz”. Ou melhor, os padrões do que é uma “vida feliz” que as pessoas se sentem obrigadas a seguir.

Lembro dos tempos de colégio, mais especificamente do segundo grau. Toda segunda-feira, via vários colegas comentando sobre as “baladas” do final de semana, e eles ficavam espantados quando eu dizia não só que não tinha ido a “festa” alguma, como também que não me fazia o menor sentido sair em todos os finais de semana. (A adolescência é realmente o período mais interessante da vida: é a época na qual queremos “afirmar nossa identidade”, daí a tendência de alguns a se rebelar contra os pais; mas ironicamente o que se desenvolve é um “senso de manada” que leva os jovens a seguirem padrões, a fazerem o que é considerado “coisa de jovem”, enquanto quem realmente tem personalidade própria – ou seja, afirma sua identidade – é rotulado.)

Dizem que a “primeira impressão é a que fica”. Portanto, a primeira impressão que tive de uma “balada” (eu tinha de ir para poder falar mal) foi a pior possível. Era verão, época na qual Porto Alegre vira Forno Alegre. Vesti uma bermuda para sair, ou seja, vestimenta adequada à temperatura registrada na cidade. Foi depois que soube: na maioria dos lugares não se pode entrar de bermuda, só de calça comprida… Ou seja, para “me divertir” naquela noite eu teria de passar calor, o que para uma pessoa que sua em demasia combina mais com sofrimento do que com divertimento.

Ainda assim, por muito tempo, fui a “baladas”. Mais por causa da turma de amigos do que por vontade própria: eu não escondia deles que preferia ir a um bar, onde se pode conversar devido à música não ser tão alta, mas ainda assim não queria “fazer a desfeita” de não acompanhá-los. Não vou mentir dizendo que nunca me diverti, mas não era meu programa preferido para uma sexta ou um sábado à noite.

Com o passar do tempo, comecei a fazer o que eu realmente gostava: ir a um barzinho com a turma, reunir o pessoal para ver um filme, ou mesmo ficar em casa. Era convidado para “baladas” e não ia mais. Aos poucos, os amigos deixaram de me convidar, o que não lamentei, pois assim não corria o risco deles me convencerem através da insistência – o que já acontecera muitas vezes, quando invariavelmente eu sentia falta do dinheiro gasto na noite.

Ou seja, geralmente estou “a postos” para ir ao bar, jogar War na casa de alguém ou mesmo botar conversa fora tomando um chimarrão na Redenção. Nem sempre faço isso… Ruim? Não. Pois isso quer dizer que não tenho uma “programação-padrão” para os finais de semana. Em alguns eu saio, em outros não – tanto por falta de convite como pela própria vontade de ficar em casa fazendo alguma outra coisa.

E se der vontade de tomar uma cerveja no final da tarde de uma segunda-feira, o que fazer? Esperar a sexta-feira? Claro que não: basta conferir a carteira; se ela não estiver “limpa” é só ir para o bar, com ou sem companhia.

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Nem todos os homens são ogros

O título deste post é claramente inspirado no que escreveu a Niara, questionando se, afinal, todos os homens são ou não ogros. E também atende ao chamado da Lola, para que os homens que não concordam com a violência contra as mulheres também façam a sua parte.

Bom, como diz o título, nem todos são ogros, e modéstia a parte, um exemplo disso é este que vos escreve. Mas é óbvio que não sou o único (já seria me achar demais).

O problema maior, é algo que cheguei a comentar com a Niara via Twitter alguns dias atrás. Lembremos dos tempos de colégio, principalmente ali do 2º Grau (tá bom, tá bom, Ensino Médio – é que estou ficando velho). A gurizada, de 15, 16 anos, que começa a querer “sair de noite”, “ir pra balada” (argh!). Os guris, geralmente, fazem isso por quê? É porque “querem pegar muitas!”, mostrar que são “machos”, “garanhões” etc.

Ou seja, desde jovens nós homens somos direcionados para a “ogrice”. Afinal, começa assim, com as mulheres sendo vistas como objetos que servem apenas para “pegar” e exibir, o que é também uma forma de violência – é a chamada “violência simbólica”. (Daí para acharem que elas podem ser suas “propriedades”, como se fossem objetos, é um passo… E bater em objeto não é problema, afinal, eles não sentem dor, né?)

Muitas mulheres acabam dando valor a caras desse tipo (os famosos “cafajestes”), é fato. O que não é “algo natural” nem “culpa delas”, como dizem, e sim construído, por conta daquela ideia que ainda é muito forte, de que o homem tem de ser “dominador” (se tiver dinheiro, então…), que acaba “marginalizando” os que fogem a tal padrão. Aliás, é o mesmo conjunto de valores que faz serem mal vistas as mulheres que não têm namorado fixo: enquanto nós homens somos “garanhões” se nos comportamos de forma semelhante, elas são “vagabundas”; e também estigmatiza as que depois de certa idade não casaram (como se casar fosse o objetivo de vida de todas): “solteirona”, “vai ficar/ficou pra tia” e coisas semelhantes. Nada mais do que o velho machismo.

E é difícil escapar a toda essa lógica, tanto para as mulheres como para nós homens. Nunca vi o menor sentido em sair “pegando várias” só para me exibir, sem saber sequer seus nomes, do que gostam de fazer; logo, posso dizer por experiência própria que não é fácil “remar contra a corrente”: afinal, isso é suficiente para qualquer um ser taxado como “ET”, ainda mais na adolescência, fase em que buscamos nossa “auto-afirmação” (interessante que para muitos ela seja igual a “se enquadrar” e não a de fato se auto-afirmar, pensando por conta própria).

Logo, entendo os homens que seguem o caminho da “ogrice” (embora não concorde com eles): não querem ser “excluídos”, da mesma forma que eu também não queria. Só que eles optam por “se adaptar” ao sistema, ao invés de criticá-lo, combatê-lo. Preferem a posição mais cômoda ao invés da mais justa, o que é uma pena.