Será o fim da avalanche?

Não fui ao jogo, então não pude comemorar in loco a primeira vitória oficial do Grêmio na Arena. Tinha de imprimir o tal voucher para entrar e também havia o problema maior – como voltar.

1 a 0, 5 a 4 nos pênaltis, vamos adiante na Libertadores. Beleza.

Mas, por outro lado, tivemos o acidente na hora do gol, quando a grade da mureta na Geral cedeu com a avalanche feita pela torcida para comemorar. Alguns torcedores ficaram feridos e foram levados ao hospital.

Lembro que em novembro, poucas semanas antes da Arena ser inaugurada, os Bombeiros disseram que teriam de ser instaladas cadeiras na Geral, pois a avalanche representaria risco aos torcedores. Houve reclamações, inclusive informando que no Olímpico jamais aconteceu nenhum acidente em dez anos de avalanches (muito embora o Grêmio tivesse reforçado a mureta da Geral para evitar que ela cedesse).

Pois ficou claro que os Bombeiros tinham razão. A estrutura da grade era frágil demais, não tinha como suportar o peso da torcida. Foram instalados para-avalanches para impedir que “toda” a Geral descesse: imaginem se toda aquela multidão fizesse a avalanche?

Agora, restam duas opções: reforçar a estrutura ou acabar com a avalanche, mediante a instalação de cadeiras. E se considerarmos os problemas que a Geral vem causando (como a briga na semana passada), acredito mais na segunda opção.

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Vazio para a eternidade

Você já entrou, alguma vez, num estádio vazio? Experimente. Pare no meio do campo, e escute. Não há nada menos vazio do que um estádio vazio. Não há nada menos mudo do que as arquibancadas sem ninguém. (Eduardo Galeano. Futebol ao Sol e à Sombra. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 20.)

De fato, é isso que sinto quando entro no Olímpico e não há mais ninguém lá dentro. Não há gols acontecendo, então eu os imagino. Mas com base na realidade passada. Lembro daquela patada de Aílton em 15 de dezembro de 1996, que deu ao Grêmio o seu segundo Campeonato Brasileiro. Me vêm à cabeça inclusive lances que eu não vi “ao vivo” – ou por ser muito pequeno, ou por sequer ter nascido na época -, como César cabeceando aquela bola para as redes do Peñarol e nos dando a Libertadores de 1983, ou André Catimba levando o Grêmio a ser campeão gaúcho em 1977 e depois se espatifando no chão devido à sua cambalhota errada. Não vi pessoalmente, mas me imagino como se lá estivesse naqueles dias.

Porém, há na Ucrânia um estádio eternamente vazio, onde sequer se pode ter tais sensações. Trata-se do estádio de Pripyat, cidade onde ninguém mais vive há 25 anos.

A história de Pripyat é muito curta. Foi fundada em 1970, com o objetivo de hospedar os trabalhadores da Usina Nuclear de Chernobyl (que era, na época, chamada de Vladimir Lenin) e suas famílias. Em 1º de maio de 1986, como parte das comemorações do Dia do Trabalhador, seriam inaugurados um parque de diversões e o estádio da cidade.

A roda-gigante do parque nunca girou, e ninguém bateu uma bolinha no estádio de Pripyat. Pois na madrugada de 26 de abril de 1986, a explosão no reator nº 4 da Usina Nuclear de Chernobyl liberou uma nuvem radioativa que atingiu lugares há milhares de quilômetros de distância (como a França), e forçou a evacuação de Pripyat, acontecida em 27 de abril.

Os moradores acreditavam que voltariam em algumas semanas, quando o problema na usina estivesse resolvido. Mas Pripyat tornou-se uma cidade-fantasma. E o “problema com a usina” continua lá: ao longo do ano de 1986 foi construído um “sarcófago” em torno do reator nº 4 para impedir que muito mais radiação fosse liberada para a atmosfera, mas ele corre risco de desabar, após 25 anos sujeito às interpéries.

As populações das áreas ao redor da usina, distribuídas por três países que então eram repúblicas da União Soviética – Bielorrúsia (para onde se dirigiu a maior parte da radiação), Rússia e Ucrânia -, correram graves riscos devido à negligência das autoridades soviéticas, que não divulgavam informações verdadeiras sobre o acidente, e pasmem, autorizaram um desfile comemorativo ao 1º de Maio na capital ucraniana, Kiev, que fica 100 km ao sul de Chernobyl – quando o mais recomendável seria que as pessoas ficassem em casa. E mesmo quem vivia fora da URSS foi exposto à radiação: quando foi detectado um nível anormalmente alto de radioatividade numa usina nuclear da Suécia e se constatou que o problema não era lá, as autoridades suecas entraram em contato com vários países europeus, dentre eles a URSS, que só alguns dias depois admitiu que ocorrera um grave acidente.

É praticamente impossível se fazer um balanço de mortes causadas por Chernobyl. Os dados oficiais são ridículos, apontando apenas os óbitos diretamente relacionados com a explosão. Mas muitos milhares de pessoas foram vítimas fatais de doenças provocadas pela exposição a doses altíssimas de radioatividade. E muita gente ainda vai morrer nas próximas décadas em consequência do acidente.

Mas para além dos problemas de saúde, os antigos moradores de Pripyat sofrem também com a perda de parte de sua identidade. Afinal, tiveram de literalmente deixar tudo para trás quando da evacuação, inclusive objetos pessoais como fotografias. A antiga cidade se resume a lembranças, que com o passar do tempo ficam mais imperfeitas. E retornar para lá, mesmo que para uma visita, significa rever um lugar onde o tempo parou – afinal, alguns prédios ainda preservam os cartazes de propaganda comunista da era soviética – mas também passou, com a vegetação tomando conta de onde antes viviam pessoas. Ou seja, não é como antes.

E o estádio continua lá, vazio, com suas arquibancadas ensurdecedoramente silenciosas. Aguardando o dia em que, daqui a muitos séculos, se possa disputar a sua partida inaugural, com torcidas apaixonadas gritando o tempo todo e fazendo com que aquele estádio tenha sons a serem ouvidos depois que o público for para suas casas. Algo que, da maneira como a humanidade vem tratando o planeta, com direito a não aprender as lições de Chernobyl, parece difícil de acontecer.

O perigo da energia nuclear

No momento, as atenções do mundo se voltam para usinas nucleares no Japão, principalmente para a de Fukushima, devido ao temor de um desastre semelhante ao de Chernobyl, que em 1986 contaminou e tornou inabitável por vários séculos vastas áreas das então repúblicas soviéticas da Ucrânia (onde fica a desativada usina), Bielorrúsia (para onde se dirigiu a maior parte da radiação resultante do desastre) e Rússia. Ano passado, incêndios florestais atingiram áreas próximas à “zona de exclusão”, despertando o temor de liberação das partículas radioativas, o que por sorte, não aconteceu (pelo menos, não que eu saiba).

O acidente de Chernobyl e todas as suas consequências foram atribuídos tanto às falhas no sistema de segurança dos reatores, quanto ao esforço da União Soviética em esconder o acontecimento: as autoridades soviéticas só admitiram o desastre quando a radiação chegou a outros países, e a evacuação da cidade de Pripyat (construída em 1970 para abrigar os trabalhadores da usina) só se deu mais de 24 horas após a explosão do reator nº 4 de Chernobyl. Assim, chegou a se dizer que o perigo maior não era a energia nuclear, e sim a falta de cuidado.

Porém, agora há um bom motivo para se pôr em xeque a opção pela energia nuclear para produzir eletricidade. Pois ficou provado que não basta apenas um controle adequado: o Japão é um país onde a eficiência e a disciplina são muito valorizadas, mas isso não pode deter uma tsunami, ainda mais provocada por um terremoto de magnitude 9 (o quarto mais forte já registrado).

Afinal, a natureza pode ser mais forte do que o melhor sistema de segurança. Ainda mais em um país onde há certa frequência de terremotos.

Eles não desistem

Quer acompanhar como o Governo Federal está gastando o nosso dinheiro? Simples. Basta ver os dados que a Controladoria-Geral da União (CGU), órgão vinculado à própria Presidência da República, põe a disposição de qualquer um na internet. É o Portal da Transparência.

Aquelas malas da televisão querem te fazer acreditar que eles descobriram os gastos da ex-ministra Matilde Ribeiro com o cartão corporativo. Que eles fizeram um “brilhante trabalho investigativo” e tornaram público mais um escândalo do “governo mais corrupto da História do Brasil”.

Que mérito da mídia! Tornou público o que já é! E ainda faz parecer que foi graças a ela que a “ladra” Matilde Ribeiro deixou de ser ministra! Quando foi a própria CGU que convocou Matilde para dar explicações…

O que está muito claro, é que a mídia não desiste de tentar detonar o governo Lula. Que pode não ser dos meus sonhos – tanto que no 1º turno de 2006 votei no Cristóvam Buarque, e no 2º aí sim em Lula – mas é menos pior do que o anterior, que não sofria um décimo dos ataques que vem sofrendo o atual.

O maior partido de direita do Brasil não é o PSDB, nem o DEM. É a própria mídia. Quer provas disto? É só ver como pipocam escândalos nos últimos anos.

O primeiro foi o mensalão. A corrupção realmente aconteceu, mas o que se passou a ver diariamente foram os principais (de)formadores de opinião atacando incessantemente o governo, dizendo que era “mais corrupto que o governo Collor” . Algo que não víamos até 2002. E ainda por cima transformaram em “herói” Roberto Jefferson, que estava enterrado até o pescoço na lama, por ter feito a denúncia.

Pouco antes da eleição de 2006, apareceu o caso do dossiê com supostas denúncias contra candidatos do PSDB. Petistas teriam sido flagrados com um monte de dinheiro para comprar o tal dossiê. Deram um destaque maluco à foto do dinheiro que supostamente seria usado para a compra – uma “parede” montada para “sair bem na foto” – mas ninguém respondeu a uma pergunta que todos faziam: qual era o conteúdo do dossiê? Até hoje, ninguém disse.

A divulgação da foto do dinheiro só não teve um impacto maior porque no mesmo dia da “bombástica notícia”, aconteceu o acidente do vôo 1907 da Gol. Exatamente um mês depois, no 2º turno eleitoral, apesar de todos os ataques, o presidente Lula deu uma surra em Geraldo Alckmin (PSDB), e foi reeleito com mais de 60% dos votos válidos.

Coincidentemente (?), poucos dias depois começavam os atrasos nos aeroportos. Mais uma chance de bater no governo: era o “apagão aéreo”. Os noticiários davam destaque a idiotas que choravam na frente das câmeras porque o avião estava atrasado. O auge dos ataques aconteceu em julho do ano passado, com a tragédia do vôo 3054 da TAM. Alguns engomadinhos “cansaram” e criaram um movimento “cívico e apartidário”, que contou com apoio explícito de vários setores da mídia, pelos “direitos dos brasileiros”. Afinal, fora o presidente Lula que empurrara o Airbus para fora da pista de Congonhas.

O “Cansei” foi um fiasco. Mas obviamente eles não desistiram. Afinal, estão fora do governo há cinco anos. Isso é demais para quem estava acostumado a estar sempre lá.

Depois de passar uns tempos “na moita”, a mídia voltou à ativa no início de 2008. Primeiro com a “iminente epidemia” de febre amarela. Muita gente se assustou de tanto que falavam na TV que a febre amarela ia voltar, e se vacinou duas, três vezes seguidas. Obviamente houveram mortes por causa disso. Os efeitos da vacina acabaram sendo mais maléficos do que a própria doença. Óbvio que o culpado disso é o governo, é o que a mídia “livre e democrática” quer fazer com que muitos acreditem.

E agora, os cartões corporativos. A mídia fará de tudo para que haja CPI, para que a imagem do governo seja arranhada e finalmente a popularidade de Lula caia, já que todas as tentativas anteriores fracassaram. Querem ver Lula “sangrar” até 2010, pois se a eleição fosse hoje, até um poste seria eleito se tivesse o apoio do presidente. Sem contar que como escândalo vende jornal, é melhor eles “acontecerem um atrás do outro” até 2010 do que acabarem antes.

Carnificina motorizada

Tantas mortes no trânsito durante o feriadão de Natal é um absurdo. São necessárias medidas drásticas para que tal estupidez não volte a acontecer – se bem que provavelmente acontecerá na próxima semana, no Ano Novo se bebe muito mais do que no Natal.

Além de reduzir o número de carros nas ruas, é preciso que os motoristas sejam mais prudentes. E para isto não basta campanha na mídia com todos os colunistas vestindo a camiseta. É preciso rigor nas punições.

Para a embriaguez (maior responsável pelas mortes no trânsito), por exemplo: quem fosse flagrado dirigindo bêbado deveria ser preso (como acontece em muitos países), ter a carteira de motorista cassada e, além disto, ser proibido de dirigir pelo resto da vida.

Tenho certeza de que o número de acidentes cairia drasticamente.

Desastre

Hoje saí mais cedo do Simpósio Nacional de História, em São Leopoldo. O que me possibilitou mais tempo e disposição para escrever.

Mas a chegada em casa na terça-feira foi a pior de todas. Além de ter sido a mais tardia (quase às 11 da noite), também fiquei sabendo do desastre de Congonhas. O pior acidente aéreo já acontecido no país fez muitos gaúchos chorarem.

Menos mal que nenhum parente ou amigo meu estava entre as vítimas. Mas a tragédia atingiu pessoas próximas: meu irmão faz Geografia na UFRGS, e a professora Vanda Ueda, do Departamento de Geografia da UFRGS, estava no avião.

No Simpósio de História, uma das professoras participantes chorou a perda de sua filha no desastre.

Mas o pior disso tudo é que tem gente aproveitando a tristeza alheia para obter dividendos políticos. É só olhar o noticiário. Mal aconteceu o acidente, a mídia e os políticos de oposição já escolheram o culpado: Lula.

Não que ele seja isento de culpa. A responsabilidade pelos aeroportos brasileiros é da INFRAERO, órgão federal. Mas Congonhas já era para ter sido fechado há muitos anos. Aquele aeroporto já era um perigo antes de 2003, quando Lula assumiu. O erro do presidente foi não ter ordenado até agora o fechamento de um aeroporto que fica no meio de São Paulo.

Mas, a causa do acidente pode não ser apenas o aeroporto. O vídeo abaixo, imagens feitas pelas câmeras de Congonhas, mostra que o avião passou em velocidade muito alta – logo depois, percebe-se o clarão provocado pela explosão. Pouco antes outro avião passara pelo mesmo local muito mais lentamente.

Antes de apontar culpados, é preciso que as investigações revelem as causas do acidente. E quem entende disso são especialistas em aviação, não empresas de comunicação ou políticos.