Abaixo a procrastinação

Talvez não consiga, nos próximos sete a nove dias, dar a devida atenção ao Cão. Mas desta vez é por um motivo mais justo do que passar muito tempo no Facebook: trata-se de um artigo para a especialização, que tenho de entregar dia 22. O trabalho está andando bem, mas será preciso revisar, colocar nas regras da ABNT… E não quero deixar tudo para a última hora.

De qualquer forma, não há motivos para reclamação quanto à “agenda cheia”. A pesquisa acadêmica é a “minha montanha”*, e estou gostando de escrever o artigo. Sem contar que, não raras vezes, meus trabalhos acadêmicos acabaram resultando em postagens no Cão.

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* Gosto mais de montanha do que de praia, então é preciso usar a expressão correta.

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Monstrografia

“Monografia” lembra mais uma palavra amputada do que um tipo de trabalho acadêmico. Parece faltar o “str”, que a deixam mais, digamos… Ameaçadora.

Ainda mais se tratando de uma que define os rumos do cara na vida – ou seja, meu caso. Gera angústia olhar para o editor de texto, que hoje em dia é uma autêntica representação eletrônica das folhas de papel, e ver aquela porcaria em branco. Faço as contas, e constato ter cerca de dois meses e meio para transformar aquela “folha em branco” em no mínimo 35 páginas de um texto consistente e com embasamento teórico. Parece impossível. Desanimador.

Mas aí começo a pensar nos formandos dos tempos em que computador caseiro era coisa rara – tanto que não se exigia trabalho digitado, e sim datilografado. (Aliás, incrível pensar que os nascidos de 1990 em diante tiveram pouco ou nenhum contato com LP, ficha telefônica e datilografia. Assim como dificilmente viram um telefone no qual realmente se discava – ou seja, que tinha um disco no painel, e não teclas.)

Fazer uma monografia à máquina de escrever devia uma tarefa realmente monstruosa. Considerando que é um trabalho acadêmico, certamente uma letra errada inviabilizaria uma página inteira – afinal, é muito importante para ficar cheia de borrões. E provavelmente, era preciso pensar muito bem antes de escrever: não havia “delete” nem “recorta e cola” para reorganizar o texto. Hoje, pode-se errar à vontade – desde que os erros sejam suprimidos da versão final do trabalho, é claro. Assim, fica mais fácil começar a escrever.

Mas a relativa facilidade de se escrever uma monografia de conclusão em 2009 não lhe tira o caráter de “rito de passagem”. De certa forma, todos precisamos deles, para nos sentirmos “em uma nova etapa da vida”. Provavelmente o leitor não imagine o que significou o 15 de outubro de 1997 para mim: eu completava 16 anos de idade, podia, enfim, votar! Embora a eleição fosse ocorrer somente em 1998, já tinha o título em mãos quase um ano antes, pois fui fazê-lo ainda em outubro de 1997. Mais do que ter os tão sonhados 16 anos, eu precisava do símbolo deste “poder”.

Já o trabalho de conclusão de curso é o rito de passagem acadêmico. Eu até poderia saber tudo de História (algo impossível), mas de nada adiantaria sem ter uma boa monografia. Pois não basta saber, é preciso produzir conhecimento. E isso é ótimo para o Brasil – pois quanto mais pesquisas forem desenvolvidas nas universidades, melhor – e também para mim: percebo que terei superado uma etapa na vida no momento em que a banca disser que meu trabalho está aprovado. Passarei a me ver não mais como um graduando, e sim graduado. Me sentirei realmente historiador (hoje digo que sou um “quase”).

Menos mal que a “angústia da folha em branco” já é passado. Agora, minha preocupação é não ultrapassar o número máximo de páginas permitido para o trabalho.

Não é mentira!

Após o surgimento da polêmica sobre um mestrado (ou um doutorado?) da ministra Dilma Rousseff que jamais teria sido cursado, tem mais essa. Existia na plataforma Lattes do CNPq o currículo de… Galvão Bueno! O narrador da Globo, pelo documento, seria doutor em Física!

O currículo Lattes é um dos mais importantes documentos para um pesquisador acadêmico: quanto mais extenso – o que não quer necessariamente dizer “melhor” – maior é a chance de se conseguir financiamento para projetos de pesquisa. O exemplo de Galvão Bueno demonstraria o quanto é complicado usar o Lattes – no formato atual – como importante critério, visto que a plataforma seria vulnerável a fraudes.

Cito meu próprio exemplo: se quiser posso adicionar ao meu currículo participações em simpósios inexistentes e fluência em idiomas os mais diversos possíveis, mesmo que não saiba nem pedir água com o uso deles. Eu sou honesto, o problema são os desonestos… Pois em tese, adicionar dados falsos é, obviamente, falsidade ideológica. Mas, dependendo da universidade que o sujeito tentar um mestrado ou um doutorado, pode se traduzir em vantagem, caso as informações não sejam verificadas.

Porém, dizer que o currículo do Galvão Bueno é totalmente falso, também é uma desonestidade. Já toquei no assunto faz mais de dois anos, lembrando a final da Libertadores de 2005, quando o narradoutor demonstrou seu conhecimento de Física. Mas, numa transmissão que mais parecia uma banca de doutorado, foi contestado por seu par, o doutor Arnaldo…