A eficácia do que não é escrito

O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário.*

A citação acima, de Pierre Bourdieu, nos ajuda a entender melhor seu conceito de “poder simbólico”. Trata-se daquela dominação que não é explícita, não existe “formalmente” e, por isso mesmo, é mais complicada de ser combatida: afinal, luta-se contra um adversário que não é facilmente distinguível.

O machismo, por exemplo. Não há nenhuma lei que estabeleça a dominação masculina em nossa sociedade. A Constituição brasileira determina a suposta igualdade entre ambos os sexos, e o voto de um homem vale exatamente o mesmo que o de uma mulher. Porém, a prática nos mostra algo diferente: mulheres cumprindo a mesma tarefa que homens e ganhando salários menores, objetificação de seus corpos (aos quais não têm pleno direito, como prova a criminalização do aborto), culpabilização por violência sofrida etc. Contra isso se levantam as feministas, só que o senso comum – que em uma sociedade machista não teria como ser diferente – reage falando da teórica igualdade; alguns vão além e dizem que “as mulheres têm mais direitos que os homens” citando exemplos do tipo “elas não precisam se alistar aos 18 anos” (sendo preciso ignorar que até o início do Século XX – ou seja, “ontem” em termos históricos – a guerra era idealizada; em um contexto de exaltação das nacionalidades, nada mais honroso do que “lutar pela pátria” mesmo correndo o risco de sacrificar a própria vida – o que era, obviamente, “coisa de homem”) ou o fato da licença-maternidade ser maior que a paternidade (o que é fruto da ideia de que cuidar das crianças é tarefa feminina).

Podemos citar diversas outras formas sutis de dominação, que não estão estabelecidas formalmente, não são expressas por leis escritas. Convenções sociais, ideias que são “senso comum”, aparentemente inofensivas e por isso difíceis de serem combatidas.

Uma delas diz respeito ao racismo no Brasil. O “senso comum” fala na tal de “democracia racial”, que não somos um país racista, que não temos leis segregacionistas etc. Porém, até 1888 (novamente, “ontem” em termos históricos) existia oficialmente escravidão, e em consequência disso a maioria da população negra vive na pobreza. Inclusive, há estudiosos que usam a expressão “apartheid social” para se referir à imensa desigualdade no Brasil, em alusão ao racismo institucionalizado na África do Sul de 1948 a 1994. Continuar lendo

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Um erro justifica outro?

Para o presidente do IBAMA, Curt Trennepohl, sim.

Em entrevista para o programa australiano 60 Minutes (que fez uma matéria sobre Belo Monte), Trennepohl demonstrou seu desprezo pelos povos indígenas do Xingu, com a desculpa de que na Austrália “se desrespeitou os aborígenes” (o que aconteceu lá foi um genocídio, que dizimou quase totalmente a população original australiana). Questionado pela repórter sobre se iria cometer o mesmo “desrespeito” no Brasil, respondeu três vezes: SIM.

O trecho do qual falo começa aos 2:18 do vídeo, mas vale a pena assistir todo.