Gauchão bissexto

Esta quarta-feira é um dia como não se tem toda hora. O motivo é óbvio: fevereiro só tem 29 dias quando o ano é bissexto.

Porém, não bastasse ser um dia no qual uma pessoa que nascer nele só comemorará seu aniversário no dia certo daqui a quatro anos, este 29 de fevereiro de 2012 ainda tem vários amistosos internacionais, e a decisão de turno no Gauchão. E mais: não tem nem Grêmio e nem Inter nela, o que é garantia de que na pior das hipóteses, o vencedor de Novo Hamburgo x Caxias será vice-campeão estadual.

Como já disse, acho este modelo de campeonato estadual anacrônico, ruim mesmo para os clubes do interior. A única coisa que ainda acho bacana é quando não temos Gre-Nal na decisão (preferencialmente quando quem fica de fora é o Inter, claro).

E, curiosamente, isso tem sido regra nos últimos anos bissextos. O último Gauchão de ano bissexto que teve a dupla Gre-Nal ocupando as duas primeiras posições na classificação final foi o de 1992. Desde então, a cada quatro anos se passou a ter a certeza de que o estadual não seria decidido em Gre-Nal, embora não necessariamente a ausência de um dos dois clubes se desse apenas em anos bissextos.

  • 1996. No primeiro ano de nossa série, o Grêmio chegou ao bicampeonato estadual batendo o Juventude com facilidade na decisão: 3 a 0 no Alfredo Jaconi, 4 a 0 no Olímpico (três de Jardel neste último jogo, um deles totalmente sem querer).
  • 2000. Quatro anos depois, a decisão novamente foi entre as cidades de Caxias do Sul e Porto Alegre. O Caxias chegava à final contra o Grêmio para tentar repetir o feito do Juventude, campeão em 1998 diante do Inter. E fez história: 3 a 0 no Centenário, 0 a 0 no Olímpico e festa grená.
  • 2004. Não foi exatamente uma decisão que pusesse frente-a-frente a Capital e o Interior. Mas não teve Gre-Nal: o Grêmio foi eliminado de forma vexatória pela Ulbra na semifinal ao perder de 3 a 1; e por pouco o adversário do time de Canoas não foi o Glória de Vacaria, que chegou a estar vencendo o Internacional na prorrogação da outra semifinal, e acabou derrotado nos pênaltis. A final – que assim como as semifinais foi em partida única – foi no Complexo Esportivo da universidade, em Canoas: de virada, o Inter fez 2 a 1 e conquistou o bicampeonato estadual.
  • 2008. Inter e Juventude fizeram a decisão, e parecia que a história de 1998 iria se repetir. Na primeira partida, no Alfredo Jaconi, 1 a 0 para o Ju, que ficou a um empate do título. Porém, numa prova de que aquele papo de “filial do Grêmio” já era passado (afinal, o Ju eliminara o próprio Grêmio nas quartas-de-final), o Inter aplicou uma histórica goleada de 8 a 1 no Beira-Rio e acabou campeão.

Depois de 2008, só vinha dando dupla Gre-Nal nas primeiras posições do Gauchão – escrita quebrada justamente em 2012, bissexto como 2008. Em 2009, quando foi adotada a atual fórmula do campeonato, o Inter ganhou os dois turnos, um contra o Grêmio e outro contra o Caxias; a soma das outras campanhas que não a do Inter deu ao Tricolor o vice-campeonato. Já em 2010 e 2011 tivemos Gre-Nal na decisão entre os campeões dos turnos: deu Grêmio em 2010 e Inter em 2011.

O 29 de fevereiro e a Revolução Russa

O dia 29 de fevereiro só acontece em anos bissextos. Tais anos são divisíveis por 4 ou são múltiplos de 100 divisíveis por 400.

O ano bissexto existe desde a implantação do calendário juliano em Roma por Júlio Cesar (daí o nome “juliano”). O motivo é que a Terra não demora exatamente 365 dias para dar uma volta em torno do Sol: leva 6 horas a mais. A cada 4 anos, são “descartadas” 24 horas, daí a necessidade do ano bissexto, para que o ano do calendário seja sincronizado com o solar.

Porém, estas 6 horas de cada ano não são exatamente 6 horas. É um pouco menos. Assim, mesmo adicionando-se um dia a mais no calendário a cada 4 anos, o ano do calendário não fica sincronizado com o solar, a longo prazo. Em 1582, percebeu-se que o calendário estava defasado em 10 dias com relação ao Sol. Para corrigir o erro, o papa Gregório XIII decretou que após 4 de outubro de 1582 não viria o dia 5, e sim o 15 (pelo menos uma coisa boa a Igreja fez: antecipou meu aniversário!). Além disso, para evitar novas discrepâncias, definiu que anos múltiplos de 100 só seriam bissextos caso fossem divisíveis por 400. Surgiu assim o calendário gregoriano.

Assim, 1600 foi bissexto, mas 1700, 1800 e 1900 não foram. Tivemos ano bissexto em 2000, mas não teremos em 2100, 2200 e 2300. O próximo bissexto múltiplo de 100 será 2400.

E onde entra a Revolução Russa nisso? Aliás, ela foi em 1917, ano não-bissexto, então não tem nada a ver, certo? Errado!

A decisão do Papa foi seguida apenas pelos cristãos do Ocidente. No Oriente, a Igreja Ortodoxa continuou a utilizar o calendário juliano, com seus 10 dias de atraso. Que se tornaram 11 em 1700 (bissexto no Oriente, “normal” no Ocidente), 12 em 1800 e 13 em 1900. E é assim até hoje, já que em 2000 o atraso não foi aumentado pelo fato de ser bissexto pelos dois calendários. Em 2100, a defasagem passará a ser de 14 dias.

A Rússia, então, seguiu adotando o calendário juliano. Em 1917, a defasagem das datas entre Rússia e Ocidente era de 13 dias. Daí o fato da primeira etapa da Revolução Russa, que derrubou o tzarismo, ser chamada de “Revolução de Fevereiro” mesmo tendo começado em 12 de março: na Rússia o dia era 27 de fevereiro. E a segunda etapa, a “Revolução de Outubro” (vitória dos bolcheviques) foi deflagrada no dia 7 de novembro para o Ocidente, 25 de outubro para os russos.

Poucos anos depois, a então recém-formada União Soviética adotou o calendário gregoriano, porém nos livros de História foram mantidas as expressões “Revolução de Fevereiro” e “Revolução de Outubro”, o que contribuiu para aumentar a confusão com as datas.

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No campo religioso, a Rússia ainda segue o calendário juliano da Igreja Ortodoxa. Lá o Natal é celebrado no dia 7 de janeiro pelo calendário gregoriano, 25 de dezembro (do ano anterior) pelo juliano.