2021, o ano suficiente

Em 31 de dezembro de 2020, quando escrevi meu tradicional texto de “balanço” do ano que acabava, ele teve o seguinte parágrafo:

Não nutro lá muitas esperanças de que o próximo ano será bom. Ainda que haja vacina, muitos milhões de pessoas empobrecerão bastante por conta do estrago na economia causado pela pandemia. Mas, se 2021 for péssimo, já será melhor que 2020 sem sombra de dúvidas.

O final muito melhor que o começo dá a impressão de que nem foi lá um ano tão ruim, mas a verdade é que ele foi bem complicado. Pesado.

Começou com uma tentativa de golpe no país que tantas outras patrocinou ao redor do mundo. A CPI da Pandemia no Senado mostrou que quem nos “governa” é imensamente mais cruel do que parecia ser. E por incrível que pareça, essa gente má ainda tem bastante apoio (como demonstrou o dia 7 de setembro), mesmo que seja (agora) minoritária.

Também tivemos o TSUNAMI de casos de covid-19 de fevereiro a abril, época na qual as redes sociais viraram obituários. Culpa da falta de noção e da irresponsabilidade patrocinada pelo genocida de Brasília. Não à toa, na enquete que faço no Instagram sobre qual foi o pior ano entre 2020 e 2021, a parcial no momento em que escrevo é um empate.

2021 foi o ano do retorno da torcida aos estádios, mas ainda não me encorajei – menos pela arquibancada em si, ao ar livre, e sim pelas aglomerações no transporte público. Não perdi nada: o Grêmio fez o Campeonato Brasileiro mais ridículo em 118 anos de História, conseguindo a façanha de ser rebaixado com as contas em dia. Meu último jogo na Arena foi o Gre-Nal da Libertadores de 2020, e o retorno por uma competição que não seja o Gauchão será na Série B, algo que jamais imaginei.

2021 também foi um ano complicado em matéria de saúde para a minha mãe, mas felizmente terminou tudo bem. Foram três cirurgias, com duas internações: a primeira em fevereiro, pouco antes do pior momento da pandemia; a segunda em novembro, quando ela felizmente já tinha tomado a terceira dose da vacina. Por conta disso, decidi abrir mão de morar sozinho (algo que por tanto tempo desejei), para poder estar mais próximo dela após tantos problemas; meu projeto para o futuro (e muito improvável que se concretize em 2022) é financiar um apartamento próprio aqui por perto, para não ficar mais à mercê dos reajustes de aluguel. (Aliás, no tocante à residência, em 2021 me convenci em definitivo que acertei ao retornar a Porto Alegre em 2016.)

Ainda assim, 2021 não foi um ano que considero perdido como 2020. O principal motivo para tal se chama VACINA. Minha mãe e meu pai tomaram três doses, meu irmão e eu recebemos duas – e agora em janeiro teremos a terceira. Enquanto as PRAGAS ANTIVACINA falam que a vacinação obrigatória é um “atentado à liberdade”, a vacina significa justamente o contrário: graças à imunização, voltei a sentar em uma mesa de bar após 630 dias, pude sair com menos medo (ainda tomando cuidados pois a pandemia está longe de acabar), foi possível voltar a encontrar e, principalmente, ABRAÇAR PESSOAS após tantos meses. Não ter vacinas (como o genocida queria que fosse) é que tirava a nossa liberdade.

2021 foi também o ano no qual entrei nos “enta”. Infelizmente não tive como reunir amigos em um bar para celebrar pois nem todos estavam completamente vacinados. Ficou para 2022, quando o 15 de outubro cairá num sábado.


Faz um bom tempo que decidi fazer igual ao Luís Fernando Veríssimo: não mais fazer resoluções de ano novo. Não será agora que mudarei de ideia – ainda mais considerando o que foram 2020 e 2021.

Tenho dois alentos para 2022. O primeiro é que tem boas chances de ser o último ano em que o Brasil sofre com seu pior presidente em 133 anos de República. Não me iludo com as pesquisas que apontam vitória fácil do Lula: a eleição será dificílima, com as criaturas saídas do bueiro jogando ainda mais sujo do que em 2018.

O segundo é que 2022 é ano de Copa do Mundo. Que será um tanto diferente: no final do ano, para escapar do calor absurdo que faz no absurdo país-sede do Mundial, o Catar (primeiro anfitrião estreante desde a Itália em 1934). A perspectiva da bola rolar no maior de todos os torneios de futebol sempre dá um ânimo. Recordo 1998, que comecei “na fossa” por um “coração partido”: lembrar que cinco meses depois começaria a Copa da França me ajudou MUITO a levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. (E no final das contas aquele foi um dos melhores anos da minha vida: fazendo uma analogia com o futebol, foi uma fantástica “vitória de virada”.)

Mas, ainda assim, prefiro desejar em especial que o novo ano SE COMPORTE. Se 2022 reservar alguma surpresa, POR FAVOR, que seja positiva. (Tipo um impeachment do genocida: acho que ainda dá tempo, apesar de que motivos para ele ocorrer em 2021 abundaram e não rolou.)

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Das raras coisas boas de 2020

Dediquei meu último texto do ano que acabou ontem a simplesmente falar mal dele. Justo e necessário.

Mas não dá para negar que houve algo realmente positivo em 2020: desde 2014 o Cão Uivador não estava tão ativo. Foram 35 textos publicados, contra 92 no ano da Copa do Mundo – sim, bem menos agora do que seis anos atrás, mas vale lembrar que de 2015 em diante escrevi pouco e, quando o fazia, costumava publicar no Medium, que praticamente abandonei.

Tanto é que se desconsiderarmos 2020, o ano mais ativo é justamente 2015, com 22 textos.

Sim, os 35 de 2020 são pouco na comparação com 2014 e ainda menos se lembrarmos da “era dourada” do Cão, de 2007 a 2013. Considero improvável voltar a números como os 313 textos de 2008, ou os 1.316 comentários que o blog recebeu em 2010. Eram outros tempos, em que eu me sentia muito motivado a escrever, antes das redes sociais “roubarem” a audiência e a discussão que ocorriam na blogosfera. Tanto que, apesar da muito pouca atividade recente na comparação com aquela época, modéstia a parte, me dá um pouco de orgulho ver que o Cão já é um “adolescente” enquanto outros blogs criados depois dele e que eram bem ativos e relevantes já acabaram há muito tempo.

Considero que manter este espaço vivo, ainda que com raros comentários e com atualizações bem menos frequentes que antigamente, é uma forma de resistência. Não só à estupidez reinante, como também ao domínio das redes sociais, em especial de Facebook e associados (Mark Zuckerberg é dono do Instagram e do WhatsApp). Até porque, vale lembrar, os buscadores de internet não mostrariam meus textos se publicasse lá no “Face” (me recuso a abrir os posts para qualquer um bostejar nos comentários, enquanto aqui posso excluir merdas sem que ninguém mais as leia). É possível fazer uma pesquisa e cair num texto que escrevi lá em 2007 – do qual é provável que hoje em dia eu DISCORDE, visto que mudei de ideia sobre diversos assuntos desde então, mas não apago pois acho legal mostrar que EVOLUÍ.

Enfim (e agora apelando para o clichê), que essa semente plantada em 2020 floresça em 2021. Que seja um ano com muitos textos escritos, e que de repente eu finalmente resolva publicar um livro… Em 2013 foi minha resolução de final de ano apenas começar, mas escrevi muito pouco e considerei que ela estava cumprida no final de 2014, visto que não era preciso terminar. Como ultimamente opto por não ter promessas de ano novo, não coloco como objetivo – mas, como diria Dilma Rousseff (última pessoa digna a presidir o Brasil, saudade IMENSA), se alcançar a meta, então a dobrarei.

Vida longa ao Cão, ainda mais no ano em que seu dono celebrará, se tudo correr bem (VACINA, CADÊ TU PARA EU PODER FAZER FESTA COM A GALERA?), quatro décadas de idade.

Enfim, acabando

Capa da revista Time, 14/12/2020

Já falei muitas vezes de como ultimamente a virada do ano tem significado para mim apenas o momento de fazer um balanço do que se passou e pensar no futuro, sem acreditar que tudo mudará magicamente no momento em que o 31 de dezembro vira 1º de janeiro. Então, não me estenderei falando disso.

Nem preciso também falar muito sobre o que foi 2020 – a capa da Time resume tudo. Para alguns ele pode ter sido especial por acontecimentos particulares, mas a verdade é que, de modo geral, foi realmente péssimo. A esmagadora maioria das pessoas vivas de agora provavelmente nunca passou por um ano tão ruim.

O motivo é óbvio: a pandemia, que causou tantas mortes e trancafiou em casa as pessoas sensatas, privando-as de vida social, de abraços, de trabalho… 2020 me dá como único motivo de comemoração o fato de chegar vivo ao seu final, o que é muito pouco – por essa lógica todos os anos desde 1981 são dignos de celebração.

No Brasil ainda tivemos o agravante chamado Jair Bolsonaro, principal responsável pela tragédia que vivemos e por ainda não termos ideia de quando começará a vacinação por aqui. Mas a população também não ajuda, aglomerando em plena pandemia: mandei à merda todo mundo que veio com papo “good vibes” de “agradecer aos ensinamentos deste ano que acaba”, mas é fato que em 2020 eu aprendi que uma imensa quantidade de pessoas é simplesmente babaca e não vale a pena fazer um esforço sequer por gente assim.

Mas chega de me estender, pois o ano que é velho desde março merece ouvir uma “homenagem” vinda da Itália*. Vaffanculo 2020!

(Aqui, o vídeo com legendas em português, que foi postado com restrição de idade e só pode ser assistido diretamente no YouTube.)

Não nutro lá muitas esperanças de que o próximo ano será bom. Ainda que haja vacina, muitos milhões de pessoas empobrecerão bastante por conta do estrago na economia causado pela pandemia. Mas, se 2021 for péssimo, já será melhor que 2020 sem sombra de dúvidas.


* Em março a mesma galera que agora aglomera como se não houvesse amanhã fazia posts solidários ao sofrimento italiano… Enfim, a hipocrisia.