O fim de um longo inverno?

Tivemos na terça-feira (22 de setembro) o equinócio de primavera no Hemisfério Sul, outono no Norte. Uma passagem que diz respeito ao calendário, “oficial”. Pois o instante inicial da nova estação em Porto Alegre tinha frio que mais lembrava o inverno recém-terminado.

Mas, por outro lado, o sol brilhava nos céus porto-alegrenses, sem nuvens a escondê-lo. Algo que tem sido raro nas últimas semanas. O início deste mês de setembro teve predomínio de dias nublados e chuvosos, com umidade altíssima que propiciou o surgimento de mofo em algumas partes aqui de casa. (Ao mesmo tempo, este tempo “murrinha” era tudo o que precisava a região do Pantanal, sob estiagem severa e que sofre com incêndios.)

Com seus “altos e baixos” de temperatura (se o começo da primavera teve frio, fez calor em pleno 18 de julho, que segundo minha mãe foi o primeiro aniversário dela que recorda de não ter sido gelado), o outono/inverno de 2020 foi talvez o mais “típico” dos últimos tempos, pelo menos no que sinto. Faz quase seis meses que não ligo o meu ar condicionado: a última vez foi (parece mentira) em 1º de abril, lembro que no dia seguinte choveu, esfriou e nunca mais o apartamento ficou quente demais, mesmo com alguns dias de calor que foram registrados. Bem diferente dos anos anteriores em que o verão se prolongou outono adentro.

Por outro lado, foi o primeiro inverno dos últimos anos que terminei sem celebrar que minha avó Luciana tivesse passado por ele: o falecimento dela se deu em 5 de junho, quando ainda era outono, embora o tempo já fosse tipicamente invernal (frio e chuva). Os últimos anos de vida dela foram marcados pelo sofrimento com as baixas temperaturas, por mais roupas que vestisse. Desde 2014, cada final de inverno era motivo digno de comemoração, por menos rigoroso que fosse. Em 2020 não houve o que festejar.

Ainda assim, tive um motivo para ver como positivo o equinócio. Pois este outono/inverno de 2020 foi também da covid-19, que aportou por aqui ainda no final do verão. Após uma situação relativamente tranquila nos primeiros meses, o Rio Grande do Sul (e consequentemente, Porto Alegre) teve uma escalada do contágio que coincidiu com a chegada do inverno. Foram tempos sombrios não apenas pelo pouco tempo de insolação ou pelo excesso de chuva (que também nos afligiu em julho).

A chegada da primavera, portanto, me dá um certo ânimo, embora continue detestando o calorão que marca o verão (do qual a atual estação é a “antessala”) em Porto Alegre. Até 19 de março de 2021 teremos mais da metade do dia com luz solar: bom para o sistema imunológico (vitamina D), e mais “iluminação” em contraponto às “trevas” que de certa forma enfrentamos nos últimos tempos independentemente da estação do ano.

Que esta primavera nos traga, de certa forma, algum tipo de “renascimento”. Duvido que alguém não esteja precisando nem um pouco de esperança em tempos tão tristes.

Uma metáfora do meu 2020

Em meados de dezembro do ano passado, eu estava na dúvida sobre “adiantar” o meu 13º salário (o “adiantamento” significaria recebê-lo em dia via empréstimo; coisas de servidor público que nos últimos cinco anos raramente teve os vencimentos pagos em dia) ou deixar para receber parcelado ao longo de 2020.

Nos dois anos anteriores eu optara pelo “adiantamento”, e pensava em desta vez fazer diferente, para pelo menos sempre receber alguma coisa no último dia útil de cada mês. O efeito seria apenas “psicológico”, é óbvio.

Eis que recebi um boleto do Grêmio. Me era dada a opção de adiantar o pagamento de todas as mensalidades de 2020, com desconto e antes do reajuste previsto para a virada do ano. Algo tentador, até para eu não surtar por “estar gastando demais” a cada mês: o Grêmio já estaria pago, e com desconto!

Então decidi “adiantar” o “décimo” e usar parte do dinheiro para pagar o boleto do ano inteiro de 2020; o resto foi para a poupança. Não só eu, meu amigo Alexandre fez o mesmo. De janeiro a dezembro nossa presença na Arena já estaria garantida.

Porém, veio a pandemia de covid-19. Por conta dela, o último jogo de futebol com público em toda a América do Sul foi o Gre-Nal 424, primeiro da história válido pela Copa Libertadores, em 12 de março. Uma partida que por si só mereceria ganhar um documentário sobre ela – como de fato ganhou.

Fui um dos mais de 50 mil torcedores na Arena naquela noite. Já sabendo que depois levaria um bom tempo até poder voltar a presenciar uma partida, visto que a Conmebol havia suspendido a Libertadores a partir da semana seguinte. Só não imaginava que chegaria ao ponto de dizer “hoje faz seis meses que não vou à Arena”.

E não tenho a menor ideia de quando será possível ir a um estádio novamente – mas a certeza é de que isso não acontecerá em 2020. Sendo que paguei o ano inteiro…

O que de certa forma simboliza bem o que significa 2020 para mim: apesar de recém ser setembro, já digo com segurança que se trata do mais frustrante e sem dúvida alguma o pior ano da minha vida.

Sim, o fato de ter perdido a minha avó Luciana tem um grande peso nisso. Mas poderia ter sido uma exceção, assim como o falecimento do meu avô Pedro Laio em 1996, que apesar disso foi um ano muito bacana e do qual lembro com bastante carinho quase um quarto de século depois.

O mundo já vinha de mal a pior, mas no campo pessoal eu tinha boas expectativas para 2020. Dentre as principais, estava a de viajar ao exterior nas férias que estavam marcadas para o período entre o final de maio e o início de junho: no fim elas serviram para eu mandar trocar a tela do meu computador para facilitar minha vida em tempos de teletrabalho, e no último dia (5 de junho) a vó se foi.

Não falta tanto tempo assim para ser dezembro novamente. Chegará à minha caixa de correspondência um boleto do Grêmio com o valor do ano inteiro de 2021, com desconto. Tenho três meses para decidir se adianto ou não.

O top 10 de 2020

Não, o fato de estarmos ainda em agosto não faz ser “muito cedo” para escrever uma lista assim. Duvido que se deixasse para dezembro ela seria muito diferente. Afinal, 2020 já está garantido no futuro como um ano do qual qualquer sentimento de saudades deveria ser classificado como doença mental.

Neste infame ano, várias expressões “forçaram a porta” e entraram no nosso cotidiano. Todas elas, não vejo a hora que voltem para o lugar de onde jamais deveriam ter saído.

É um top 10 ranqueado pela RAIVA que sinto por cada uma delas. A ordem da publicação é “decrescente”, com uma breve explicação abaixo de cada item. Vamos a eles.

10. Lockdown

Entrou na lista só para “completá-la”. E também para lembrar da raiva que sinto de “líderes” fracos, acovardados, que poderiam ter impedido que vivêssemos uma calamidade – e também que eu escrevesse esta lista, visto que não sentiria 1% da raiva que sinto hoje, na situação pela qual passamos;

9. Fique em casa

Sempre gostei muito de ficar em casa, e inclusive considero que a felicidade só é possível quando nos sentimos bem onde moramos. Mas, desde que isso seja por vontade própria. Ter de ficar em casa – ainda mais quando 95% das pessoas que também precisariam e poderiam não ficam – é uma merda;

8. Cloroquina

Nem era para estar na lista. Trata-se de um medicamento muito útil para quem sofre de doenças como malária e lúpus. O problema é que nosso “presidente” tratou a cloroquina como se fosse um “santo graal” contra a covid-19, e até mostrou uma caixa de remédio para uma ema. Ele jura que se curou graças à cloroquina, mas ainda não vi um vídeo que mostrasse ele abrindo uma caixa e tomando um comprimido tirado de dentro dela;

7. Novo normal

Que a dita “normalidade” mudou muito ao longo da história, não é (ironicamente) uma novidade. Inclusive uma doença, a AIDS, mudou a forma como transamos, nos estimulando a usar preservativo. Mas eu não aguento mais ler e/ou ouvir esta expressão. Pois se o “novo normal” for trabalhar em casa e usar máscara sempre (imagina no verão), prefiro mil vezes o “velho” (mesmo não podendo voltar a ele);

6. Home office

É verdade que já se falava nele antes disso tudo. Mas mesmo antes eu já tinha “os dois pés atrás”. Querem que a pessoa trabalhe de casa, mas sem fornecer equipamento e também a estrutura necessária? Não se surpreendam se as ofertas de emprego num futuro não tão distantes anunciarem como pré-requisitos não só a formação e (em muitos casos) a experiência prévia, como também computador com determinadas aplicações e configurações. O “home office” pode parecer bacana, e dependendo da pessoa até pode ser (não precisar passar horas no trânsito é um ganho em qualidade de vida), mas algum empregador está disposto a dar um auxílio para que seu funcionário tenha uma estrutura melhor em casa, de modo a não precisar trabalhar na mesma sala (e na mesma mesa) onde faz as refeições pelo simples fato de não ter outro local? Me parece óbvio que não;

5. Pandemia

Não é a primeira que a humanidade atravessa, e certamente não é a última. Eu mesmo já passei por outra, a da gripe A em 2009-2010. Só que naquela época ela não era o assunto dominante. Houve algumas alterações de rotina – o início do 2º semestre de 2009 na UFRGS foi adiado em duas semanas para conter a disseminação do vírus, por exemplo. Mas nada parecido com agora, visto que para gripe já existia vacina, bastava adaptá-la à nova cepa do H1N1. Teve até Copa do Mundo: o fim da pandemia foi declarado pela OMS um mês após o apito final do Mundial de 2010 na África do Sul;

4. Coronavírus

Outros coronavírus já causaram surtos no passado, sendo o mais famoso deles o da SARS em 2002-2003. Há vírus da mesma família que causam resfriados, e considerando a quantidade de vezes que me resfriei (só em 2019 foram três), é bem possível que eu já tenha estado em contato com algum deles. Mas seria bem melhor se essa expressão seguisse apenas no cotidiano de virologistas;

3. Covid-19

A doença causada pelo coronavírus descoberto no final de 2019, responsável pela desgraça atual. Maldita para sempre;

2. Quarentena

A própria palavra indica que ela se origina de “quarenta”; no caso, seria o tempo de isolamento de uma pessoa para se curar de uma doença e não transmiti-la. Pode ser até menos, como na própria covid-19: cerca de 15 dias após chegar de uma área onde há grande incidência é suficiente. Mas aqui no Brasil, onde muitas vezes se tem a impressão de que tudo é feito errado desde 1500, já são bem mais de 40 dias. Já deixou de ser “quarentena”, é mais que isso. Passou de “cinquentena”, “sessentena”, “setentena”… 160 dias: “cento-e-sessentena” ou, considerando que é o quádruplo de 40, “quaquarentena”;

1. Isolamento social

A grande campeã, sem dúvida alguma. Uma das grandes desgraças de 2020, provavelmente uma das piores épocas de toda pessoa viva neste momento. O ser humano é um animal social, e por conta de um inimigo invisível está precisando se furtar a uma de suas principais características. Sejamos introvertidos ou extrovertidos, todos nós precisamos de contato social: com nossos familiares, amigos, colegas de trabalho etc. Algumas pessoas necessitam mais, outras menos, mas abdicar totalmente disso, só quem deseja se tornar um ermitão. O que não é o meu caso e o da maioria esmagadora da humanidade, que por conta disso reservará a 2020 um lugar cativo na lista dos piores anos já vividos.

Feliz Mafalda Nova

Minha virada de ano foi totalmente diferente de todas as outras que já vivi. Havia planos de ir à Orla do Guaíba ver os fogos de artifício, mais por vontade da minha mãe do que pela minha. Só que a chuva da tarde do 31 de dezembro e o cansaço depois de adiantar o almoço de ano novo fizeram ela desistir, mesmo que a previsão de tempo seco à noite tenha se confirmado. Um amigo avisou em um grupo que estaria por lá, mas no fim optei por ficar em casa, no ar condicionado e sem “muvuca”. Valeu muito a pena: além de descobrir com dois anos e meio de atraso que da minha janela da sala é possível enxergar os fogos (tem alguns prédios que atrapalham mas não impedem a visão), também pude abrir (quase) na hora certa o meu calendário da Mafalda.

IMG_20200101_001410660

Não sou supersticioso, mas reparei que não comprei os calendários da Mafalda dos últimos dois anos. E ambos foram bastante ruins: no campo pessoal, 2019 foi melhor que 2018, mas no âmbito geral o balanço do biênio foi negativo.

Inclusive percebi que meu texto de encerramento de 2018 não teve um “balanço” do que foi o ano – aliás, fiz o mesmo em 2019. Apesar de que aqueles 365 dias poderiam ter sido bem resumidos em apenas um: 28 de outubro, dia em que Jair Bolsonaro foi eleito.

Já 2019 foi uma consequência do que aconteceu em 2018 – em especial, daquele 28 de outubro. Conforme eu “previ” no final de 2018, “deu merda”, e muita. Apesar de que os apoiadores “fiéis” (nunca tal expressão fez tanto sentido) acham que está tudo uma maravilha…

Aliás, muita gente que conheço deseja que Bolsonaro não chegue ao final de 2020 como presidente. Confesso que um impeachment (há várias razões para tal, ao contrário do que havia no processo contra Dilma) não me deixaria triste, mas… Eu acho bom que ele cumpra todo o seu mandato, até 31 de dezembro de 2022, fazendo o Brasil passar muita vergonha perante o resto do mundo. Vamos nos ferrar muito, mas isso pode – e precisa – ser didático: é preciso ter mais responsabilidade na hora de votar. Sem contar que, se ele sai, assume o vice-presidente Hamilton Mourão, que teria muito mais facilidade para fazer aquilo que Bolsonaro não consegue justamente por ser Bolsonaro.

“Ah, mas para o Brasil é melhor que ele saia logo”: discordo, o melhor seria que ele não tivesse sido eleito. Agora que a merda foi feita, nos resta fazer (e logo) a autocrítica. Aliás, a esquerda e principalmente a direita liberal precisam refletir muito.

Futuro do pretérito

Como já virou “tradição”, não escrevo mais mensagem otimista pela virada do ano. Isso não quer dizer que eu ache impossível as coisas melhorarem: apenas deixei de acreditar em “pensamento mágico” do tipo “ano novo, vida nova”. Se nada fizermos para que as mudanças aconteçam, não será uma mera troca de calendário que proporcionará isso.

Algo curioso é que a chegada de 2020 me remete muito é ao passado. Primeiramente, ao ano 2000, que na minha infância (e certamente na de muitas pessoas tanto da minha geração quanto das anteriores) simbolizava justamente o futuro. Muitos desenhos animados e filmes “futurísticos” feitos ao longo do Século XX e que se passavam em 2000 ou em anos não tão posteriores mostravam um mundo dominado pela alta tecnologia, caracterizada principalmente pela capacidade dos automóveis levantarem voo (não que motoristas mais estressadinhos já não venham tentando fazer isso há muito tempo) ou pelo alto desenvolvimento da robótica e da engenharia genética. Tanto é que temos carros voadores no 2015 do filme “De Volta para o Futuro II”, assim como androides no 2019 de “Blade Runner” (no qual os veículos também voam).

Não foi à toa que na madrugada de 30 para 31 de dezembro de 1999, quando meu pai completava 48 anos de idade, conversávamos após comermos um churrasco e quando ele comentou “pois é, estamos entrando no ano 2000”, logo emendei: “e os carros não estão voando”…

Duas décadas atrás, fanáticos religiosos acreditavam que estava chegando o fim do mundo. Mas mesmo sem se ter fé havia motivos para algum temor devido ao chamado “bug do milênio” (ainda que a virada tecnicamente se desse apenas em 1º de janeiro de 2001), que poderia fazer os sistemas computacionais mais antigos “entrarem em parafuso”: por economia de memória, neles o ano era representado apenas por seus dois últimos dígitos e os programas assumiam que os dois primeiros eram “19”; assim, 1999 era “99”, e 2000 deveria ser “00” mas seria entendido como “1900”, o que causaria panes generalizadas. Mas com a aproximação da data as empresas investiram na modernização de seus sistemas e praticamente nada aconteceu.

E aqui no Brasil a chegada do ano 2000 teve, pasmem, narração de Galvão Bueno…


Duas décadas depois, além da sensação de estar ficando velho (na entrada de 2000 eu recém tinha completado 18 anos, e hoje já começo a enxergar os 40 no horizonte), também sinto que temos, todos nós, menos tempo para fazer coisas necessárias de modo a garantir o nosso futuro – ou seja, não convém mais esperar ou deixar para depois.

Os efeitos mais dramáticos das mudanças climáticas já não são mais algo projetado para daqui muito tempo. Dentro de dez anos o aumento do nível médio dos mares terá reflexos não só em áreas costeiras, mas mesmo no interior dos continentes por represar as águas de rios, lagunas e lagos: como mostra este mapa interativo, parte considerável das ilhas e algumas áreas da zona sul de Porto Alegre correrão risco de serem invadidas pelo Guaíba já em 2030.

Isso me leva a novamente olhar para o passado, e assim como falei sobre o ano 2000, agora cito um filme que se não fala exatamente de 2020, é “quase”. Trata-se de “Soylent Green” (1973), cujo título no Brasil foi traduzido para “No Mundo de 2020” apesar da história se passar em 2022. Ainda que o mundo “atual” relatado quase 50 anos atrás seja bem diferente do que vemos hoje, não podemos dizer que não é algo que possa acontecer em um futuro não tão distante.

(Aviso: daqui em diante tem “spoiler”, então quem não assistiu ao filme pode parar de ler agora ou continuar por sua conta e risco – não serão aceitas reclamações posteriores.)

Continuar lendo

A Copa de 2014 é nossa?

Todo o esforço para as melhorias olímpicas causou, no entanto, grande transtorno aos moradores atenienses e muitas reclamações dos gregos. “Atenas não precisa ser uma cidade olímpica”, queixa-se um morador de Tessalônica. “A Grécia é que precisa ser um país olímpico. Por que todo o investimento está concentrado na capital?”

O projeto das Olimpíadas concentrou os recursos em Atenas. A quantidade de obras fez com que os preparativos ganhassem uma dimensão olímpica por si só. Na lista de pendências da cidade e da região, não apareciam apenas os ginásios e instalações esportivas, mas também 140 quilômetros de novas estradas, duas novas linhas de metrô e 24 quilômetros de linhas de bonde para movimentar 1 milhão de pessoas por dia. A partir do dia em que Atenas foi escolhida como sede, os atenienses passaram a viver dentro de um imenso canteiro de obras. Entrar para a modernidade é um grande negócio se você for capaz de agüentar a poeira, o barulho e os atrasos.

Isso sem falar no custo. Quando as obras para os Jogos Olímpicos terminarem e vencer a fatura de quase 8 bilhões de dólares, a curva ascendente que referenda o crescimento da economia pode despencar. “Acho as Olimpíadas o máximo”, diz Angeliki Kiriakopoulou, 28 anos, secretária de uma escola de artes em Atenas, “mas acho que não temos condições de ser a sede do evento. Ainda não tenho filhos, mas com certeza eles terão de arcar com essa conta.” É claro que as opiniões são controversas. “Temos orgulho de sediar as Olimpíadas”, diz o padre Apostolos, de Komotini, “e pagaremos essa fatura mesmo que leve anos.” Em 2006, quando terminar o atual lote de fundos destinado à Grécia, ela não preencherá mais os requisitos para receber tão generosas contribuições da União Européia. Ao contrário, será a sua vez de fazer doações em prol do desenvolvimento de novas nações-membro da UE, agora mais pobres do que ela.

(Retirado de: National Geographic Brasil, agosto de 2004, p. 48.)

Uma das causas da quebra da Grécia foi o gasto excessivo para os Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas. Foram erguidas modernas instalações esportivas que, após o evento, ficaram às moscas.

E o perigo, é que o Brasil está querendo trilhar o mesmo caminho…

Na última quarta-feira, a CBF deu o anúncio oficial: o Morumbi não receberá os jogos da Copa do Mundo de 2014. O motivo? O São Paulo não estava disposto a torrar 630 milhões de reais para deixar seu estádio no chamado “padrão FIFA” – apostava em um projeto mais modesto, de aproximadamente 265 milhões. A grana a mais que teria de gastar faria com que o clube contasse com menos recursos para contratar jogadores (o torcedor quer um time vencedor, né?), para sediar alguns jogos de Copa.

Com o Morumbi fora, pareceria natural que o estádio de São Paulo para a Copa de 2014 passaria a ser a Arena Palestra Itália, que o Palmeiras deverá concluir até o final de 2012 e terá capacidade para 45 mil torcedores. Só pareceria mesmo… Pois agora o que estão falando é em um novo estádio, o “Piritubão”, de capacidade semelhante, e que além disso seria construído com dinheiro público – para mais adiante ser arrendado ao Corinthians, tal qual o Engenhão no Rio (administrado pelo Botafogo). E ainda transformaria o Pacaembu (que é tombado como patrimônio histórico, logo, não pode ser derrubado) em um legítimo “elefante branco”.

E não pensem que tal absurdo é exclusividade paulista.

Aqui em Porto Alegre, o Internacional até agora não começou as obras no Beira-Rio, estádio da Copa na cidade. Tudo porque queria ter isenção de impostos (claro que os benefícios foram concedidos). E a “arena” do Grêmio, que não receberá jogos da Copa, também entrou na parada…

(A propósito, só se começou a falar em construir essa maldita “arena”, cujo contrato prevê que a maior parte dos lucros do Grêmio com venda de ingressos e produtos licenciados será repassado à construtora que erguerá o estádio, depois que o Brasil apresentou sua candidatura para sediar a Copa do Mundo e se disse que os jogos em Porto Alegre seriam no Beira-Rio, já que o Olímpico Monumental é “velho, ultrapassado”. Concordo que uma reforma cairia bem, mas o Olímpico atende muito bem às minhas necessidades como torcedor do Grêmio, assim como o Morumbi satisfaz ao são-paulino Vinicius Duarte – e certamente ele não é o único que tem tal opinião. Se eu quisesse assistir ao jogo sentado em “cadeiras estofadas”, ficaria em casa, oras! E estou cagando e andando para a Copa ser jogada ou não no estádio do Grêmio.)

Satisfeitos? Calma, que tem mais… Como as novas “arenas” que serão construídos em cidades como Cuiabá e Manaus – que têm tudo para também se tornarem “elefantes brancos”, visto que se tratam de cidades cujos clubes têm pouca tradição no futebol nacional. Há também um novo estádio a ser erguido em Brasília, como se a capital federal já não tivesse o Bezerrão (onde em 2008 a Seleção disputou um de seus raros amistosos no Brasil, 6 a 2 sobre Portugal) que precisaria apenas ser ampliado – e nada demais, para que não se tornasse outro “elefante branco”.

É bom ninguém se iludir achando que poderá ganhar muito dinheiro aproveitando-se da Copa do Mundo no Brasil. Que o digam muitas pequenas e médias empresas sul-africanas, alvo de processos por terem se utilizado de temas ligados à Copa para fazer publicidade: afinal, tudo o que é referente ao torneio só pode ser explorado comercialmente pelas empresas que têm contrato com a FIFA (ela é que ganhará muito, sem pagar um centavo sequer de imposto, tanto na África do Sul como no Brasil).

E os torcedores que se cuidem também. Como vimos nesta semana, em que um grupo de torcedoras holandesas foi expulso do estádio onde jogavam Holanda e Dinamarca por trajarem vestidos laranjas que no entendimento da FIFA teria por objetivo fazer publicidade de uma cerveja que não é a “oficial da Copa”. (Interessante essa tal “liberdade” defendida pelos liberaizinhos de plantão.)

Enfim… A Copa de 2014 “é nossa”? Os benefícios, serão de bem poucos, mas a conta, essa sim, será nossa. Uma conta monstruosa, e que não se resumirá à Copa, pois dois anos depois dela tem a Olimpíada no Rio (e não pensem que a fatura não será paga por todos os brasileiros: lembrem-se do Pan!). Em 2020, o Brasil poderá ser uma versão mais caótica da Grécia de 2010.

Houve uma vez uma noite de Ano Novo…

Há 10 anos, o mundo estava em um quase êxtase. Era a chegada do ano 2000. Nada simbolizava tanto o “futuro” quanto este número tão “redondo”.

Mesmo nos anos 80, a ideia que eu tinha do mundo do ano 2000 era de um lugar onde os carros voavam e as pessoas usavam roupas esquisitas, tipo nos desenhos dos Jetsons.

Inclusive lembro de um diálogo com o meu pai no dia do aniversário dele em 1999 (ou seja, 31 de dezembro!). Falávamos sobre o ano 2000, que finalmente chegava, e eu lembrava a visão inspirada nos filmes que eu tinha da data: “Pois é, e os carros não estão voando” (apesar de alguns motoristas doidos tentarem isso até a morte – literalmente).

No dia 31 de dezembro de 1999, a televisão passou o dia mostrando imagens da entrada do ano 2000 em diversas partes do mundo. E, claro, não terminava nunca aquela discussão sobre o final do século XX (e do milênio).

E o “bug do milênio”? Havia todo aquele temor quanto às falhas nos computadores na virada do ano, que levariam o mundo ao caos. Inclusive dizia-se que os sistemas de controle das armas nucleares russas seriam muito defasados, e que a partir da meia-noite de 1º de janeiro de 2000 as ogivas nucleares simplesmente se disparariam, acabando com o mundo. Claro que nada disso aconteceu, pois estamos todos aqui…

Esperei a entrada na Usina do Gasômetro. Chovia em Porto Alegre, senti frio por estar molhado e precisei comprar uma capa de chuva. E não chegava nunca meia-noite: não era culpa da expectativa, e sim, dos “excelentes” shows musicais daquela noite… À meia-noite, aconteceu algo comum na vida de um gremista: um foguetório comemorativo. Era o “futuro” chegando.

————

O “ano do futuro” não foi tão maravilhoso como se esperava. Nem no âmbito pessoal. Já em janeiro, passei no vestibular para Física na UFRGS: eu largaria o curso dois anos depois, mas fiquei feliz, é claro. Só que o primeiro ano foi desastroso: nas poucas cadeiras nas quais fui aprovado, o conceito foi “C”, ou seja, “suficiente para passar”. Mesmo assim, em nenhum momento de 2000 eu pensei em abandonar o curso (em 2001 eu pensaria nisso pela primeira vez, embora brevemente).

Mas o mais incrível de tudo é perceber que o “futuro” já se encontra 10 anos atrás. Quando estivermos entrando em 2020, o que falaremos dos dias de hoje (e também dos de 10 anos atrás, que lá serão “20 anos atrás”)? E, se o assunto é “futuro”, estará o mundo de daqui a 10 anos semelhante ao do filme Soylent Green, que se passa em 2022?

Não basta “torcer para que não esteja”, e sim, é preciso que também façamos a nossa parte, procurando evitar desperdício de comida, água e energia, consumindo somente o realmente necessário, caminhando mais e andando menos de carro (gastar gasolina para andar duas quadras sozinho é o cúmulo – e o motorista engorda e não sabe por quê…). Quem não age assim, que tal começar em 2010?

Afinal, o “futuro perfeito” que eu acreditava ser o ano 2000, além de já ser passado, também é irreal. O futuro – seja bom ou ruim – será consequência de nossos atos hoje.

E se muito do que desejamos parece impossível, a ponto de nos desmotivar… Passo a palavra a Mario Quintana:

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

A todos os leitores do Cão Uivador, um grande abraço e FELIZ 2010!