A Copa de 2014 é nossa?

Todo o esforço para as melhorias olímpicas causou, no entanto, grande transtorno aos moradores atenienses e muitas reclamações dos gregos. “Atenas não precisa ser uma cidade olímpica”, queixa-se um morador de Tessalônica. “A Grécia é que precisa ser um país olímpico. Por que todo o investimento está concentrado na capital?”

O projeto das Olimpíadas concentrou os recursos em Atenas. A quantidade de obras fez com que os preparativos ganhassem uma dimensão olímpica por si só. Na lista de pendências da cidade e da região, não apareciam apenas os ginásios e instalações esportivas, mas também 140 quilômetros de novas estradas, duas novas linhas de metrô e 24 quilômetros de linhas de bonde para movimentar 1 milhão de pessoas por dia. A partir do dia em que Atenas foi escolhida como sede, os atenienses passaram a viver dentro de um imenso canteiro de obras. Entrar para a modernidade é um grande negócio se você for capaz de agüentar a poeira, o barulho e os atrasos.

Isso sem falar no custo. Quando as obras para os Jogos Olímpicos terminarem e vencer a fatura de quase 8 bilhões de dólares, a curva ascendente que referenda o crescimento da economia pode despencar. “Acho as Olimpíadas o máximo”, diz Angeliki Kiriakopoulou, 28 anos, secretária de uma escola de artes em Atenas, “mas acho que não temos condições de ser a sede do evento. Ainda não tenho filhos, mas com certeza eles terão de arcar com essa conta.” É claro que as opiniões são controversas. “Temos orgulho de sediar as Olimpíadas”, diz o padre Apostolos, de Komotini, “e pagaremos essa fatura mesmo que leve anos.” Em 2006, quando terminar o atual lote de fundos destinado à Grécia, ela não preencherá mais os requisitos para receber tão generosas contribuições da União Européia. Ao contrário, será a sua vez de fazer doações em prol do desenvolvimento de novas nações-membro da UE, agora mais pobres do que ela.

(Retirado de: National Geographic Brasil, agosto de 2004, p. 48.)

Uma das causas da quebra da Grécia foi o gasto excessivo para os Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas. Foram erguidas modernas instalações esportivas que, após o evento, ficaram às moscas.

E o perigo, é que o Brasil está querendo trilhar o mesmo caminho…

Na última quarta-feira, a CBF deu o anúncio oficial: o Morumbi não receberá os jogos da Copa do Mundo de 2014. O motivo? O São Paulo não estava disposto a torrar 630 milhões de reais para deixar seu estádio no chamado “padrão FIFA” – apostava em um projeto mais modesto, de aproximadamente 265 milhões. A grana a mais que teria de gastar faria com que o clube contasse com menos recursos para contratar jogadores (o torcedor quer um time vencedor, né?), para sediar alguns jogos de Copa.

Com o Morumbi fora, pareceria natural que o estádio de São Paulo para a Copa de 2014 passaria a ser a Arena Palestra Itália, que o Palmeiras deverá concluir até o final de 2012 e terá capacidade para 45 mil torcedores. Só pareceria mesmo… Pois agora o que estão falando é em um novo estádio, o “Piritubão”, de capacidade semelhante, e que além disso seria construído com dinheiro público – para mais adiante ser arrendado ao Corinthians, tal qual o Engenhão no Rio (administrado pelo Botafogo). E ainda transformaria o Pacaembu (que é tombado como patrimônio histórico, logo, não pode ser derrubado) em um legítimo “elefante branco”.

E não pensem que tal absurdo é exclusividade paulista.

Aqui em Porto Alegre, o Internacional até agora não começou as obras no Beira-Rio, estádio da Copa na cidade. Tudo porque queria ter isenção de impostos (claro que os benefícios foram concedidos). E a “arena” do Grêmio, que não receberá jogos da Copa, também entrou na parada…

(A propósito, só se começou a falar em construir essa maldita “arena”, cujo contrato prevê que a maior parte dos lucros do Grêmio com venda de ingressos e produtos licenciados será repassado à construtora que erguerá o estádio, depois que o Brasil apresentou sua candidatura para sediar a Copa do Mundo e se disse que os jogos em Porto Alegre seriam no Beira-Rio, já que o Olímpico Monumental é “velho, ultrapassado”. Concordo que uma reforma cairia bem, mas o Olímpico atende muito bem às minhas necessidades como torcedor do Grêmio, assim como o Morumbi satisfaz ao são-paulino Vinicius Duarte – e certamente ele não é o único que tem tal opinião. Se eu quisesse assistir ao jogo sentado em “cadeiras estofadas”, ficaria em casa, oras! E estou cagando e andando para a Copa ser jogada ou não no estádio do Grêmio.)

Satisfeitos? Calma, que tem mais… Como as novas “arenas” que serão construídos em cidades como Cuiabá e Manaus – que têm tudo para também se tornarem “elefantes brancos”, visto que se tratam de cidades cujos clubes têm pouca tradição no futebol nacional. Há também um novo estádio a ser erguido em Brasília, como se a capital federal já não tivesse o Bezerrão (onde em 2008 a Seleção disputou um de seus raros amistosos no Brasil, 6 a 2 sobre Portugal) que precisaria apenas ser ampliado – e nada demais, para que não se tornasse outro “elefante branco”.

É bom ninguém se iludir achando que poderá ganhar muito dinheiro aproveitando-se da Copa do Mundo no Brasil. Que o digam muitas pequenas e médias empresas sul-africanas, alvo de processos por terem se utilizado de temas ligados à Copa para fazer publicidade: afinal, tudo o que é referente ao torneio só pode ser explorado comercialmente pelas empresas que têm contrato com a FIFA (ela é que ganhará muito, sem pagar um centavo sequer de imposto, tanto na África do Sul como no Brasil).

E os torcedores que se cuidem também. Como vimos nesta semana, em que um grupo de torcedoras holandesas foi expulso do estádio onde jogavam Holanda e Dinamarca por trajarem vestidos laranjas que no entendimento da FIFA teria por objetivo fazer publicidade de uma cerveja que não é a “oficial da Copa”. (Interessante essa tal “liberdade” defendida pelos liberaizinhos de plantão.)

Enfim… A Copa de 2014 “é nossa”? Os benefícios, serão de bem poucos, mas a conta, essa sim, será nossa. Uma conta monstruosa, e que não se resumirá à Copa, pois dois anos depois dela tem a Olimpíada no Rio (e não pensem que a fatura não será paga por todos os brasileiros: lembrem-se do Pan!). Em 2020, o Brasil poderá ser uma versão mais caótica da Grécia de 2010.

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Houve uma vez uma noite de Ano Novo…

Há 10 anos, o mundo estava em um quase êxtase. Era a chegada do ano 2000. Nada simbolizava tanto o “futuro” quanto este número tão “redondo”.

Mesmo nos anos 80, a ideia que eu tinha do mundo do ano 2000 era de um lugar onde os carros voavam e as pessoas usavam roupas esquisitas, tipo nos desenhos dos Jetsons.

Inclusive lembro de um diálogo com o meu pai no dia do aniversário dele em 1999 (ou seja, 31 de dezembro!). Falávamos sobre o ano 2000, que finalmente chegava, e eu lembrava a visão inspirada nos filmes que eu tinha da data: “Pois é, e os carros não estão voando” (apesar de alguns motoristas doidos tentarem isso até a morte – literalmente).

No dia 31 de dezembro de 1999, a televisão passou o dia mostrando imagens da entrada do ano 2000 em diversas partes do mundo. E, claro, não terminava nunca aquela discussão sobre o final do século XX (e do milênio).

E o “bug do milênio”? Havia todo aquele temor quanto às falhas nos computadores na virada do ano, que levariam o mundo ao caos. Inclusive dizia-se que os sistemas de controle das armas nucleares russas seriam muito defasados, e que a partir da meia-noite de 1º de janeiro de 2000 as ogivas nucleares simplesmente se disparariam, acabando com o mundo. Claro que nada disso aconteceu, pois estamos todos aqui…

Esperei a entrada na Usina do Gasômetro. Chovia em Porto Alegre, senti frio por estar molhado e precisei comprar uma capa de chuva. E não chegava nunca meia-noite: não era culpa da expectativa, e sim, dos “excelentes” shows musicais daquela noite… À meia-noite, aconteceu algo comum na vida de um gremista: um foguetório comemorativo. Era o “futuro” chegando.

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O “ano do futuro” não foi tão maravilhoso como se esperava. Nem no âmbito pessoal. Já em janeiro, passei no vestibular para Física na UFRGS: eu largaria o curso dois anos depois, mas fiquei feliz, é claro. Só que o primeiro ano foi desastroso: nas poucas cadeiras nas quais fui aprovado, o conceito foi “C”, ou seja, “suficiente para passar”. Mesmo assim, em nenhum momento de 2000 eu pensei em abandonar o curso (em 2001 eu pensaria nisso pela primeira vez, embora brevemente).

Mas o mais incrível de tudo é perceber que o “futuro” já se encontra 10 anos atrás. Quando estivermos entrando em 2020, o que falaremos dos dias de hoje (e também dos de 10 anos atrás, que lá serão “20 anos atrás”)? E, se o assunto é “futuro”, estará o mundo de daqui a 10 anos semelhante ao do filme Soylent Green, que se passa em 2022?

Não basta “torcer para que não esteja”, e sim, é preciso que também façamos a nossa parte, procurando evitar desperdício de comida, água e energia, consumindo somente o realmente necessário, caminhando mais e andando menos de carro (gastar gasolina para andar duas quadras sozinho é o cúmulo – e o motorista engorda e não sabe por quê…). Quem não age assim, que tal começar em 2010?

Afinal, o “futuro perfeito” que eu acreditava ser o ano 2000, além de já ser passado, também é irreal. O futuro – seja bom ou ruim – será consequência de nossos atos hoje.

E se muito do que desejamos parece impossível, a ponto de nos desmotivar… Passo a palavra a Mario Quintana:

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

A todos os leitores do Cão Uivador, um grande abraço e FELIZ 2010!