Feliz Mafalda Nova

Minha virada de ano foi totalmente diferente de todas as outras que já vivi. Havia planos de ir à Orla do Guaíba ver os fogos de artifício, mais por vontade da minha mãe do que pela minha. Só que a chuva da tarde do 31 de dezembro e o cansaço depois de adiantar o almoço de ano novo fizeram ela desistir, mesmo que a previsão de tempo seco à noite tenha se confirmado. Um amigo avisou em um grupo que estaria por lá, mas no fim optei por ficar em casa, no ar condicionado e sem “muvuca”. Valeu muito a pena: além de descobrir com dois anos e meio de atraso que da minha janela da sala é possível enxergar os fogos (tem alguns prédios que atrapalham mas não impedem a visão), também pude abrir (quase) na hora certa o meu calendário da Mafalda.

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Não sou supersticioso, mas reparei que não comprei os calendários da Mafalda dos últimos dois anos. E ambos foram bastante ruins: no campo pessoal, 2019 foi melhor que 2018, mas no âmbito geral o balanço do biênio foi negativo.

Inclusive percebi que meu texto de encerramento de 2018 não teve um “balanço” do que foi o ano – aliás, fiz o mesmo em 2019. Apesar de que aqueles 365 dias poderiam ter sido bem resumidos em apenas um: 28 de outubro, dia em que Jair Bolsonaro foi eleito.

Já 2019 foi uma consequência do que aconteceu em 2018 – em especial, daquele 28 de outubro. Conforme eu “previ” no final de 2018, “deu merda”, e muita. Apesar de que os apoiadores “fiéis” (nunca tal expressão fez tanto sentido) acham que está tudo uma maravilha…

Aliás, muita gente que conheço deseja que Bolsonaro não chegue ao final de 2020 como presidente. Confesso que um impeachment (há várias razões para tal, ao contrário do que havia no processo contra Dilma) não me deixaria triste, mas… Eu acho bom que ele cumpra todo o seu mandato, até 31 de dezembro de 2022, fazendo o Brasil passar muita vergonha perante o resto do mundo. Vamos nos ferrar muito, mas isso pode – e precisa – ser didático: é preciso ter mais responsabilidade na hora de votar. Sem contar que, se ele sai, assume o vice-presidente Hamilton Mourão, que teria muito mais facilidade para fazer aquilo que Bolsonaro não consegue justamente por ser Bolsonaro.

“Ah, mas para o Brasil é melhor que ele saia logo”: discordo, o melhor seria que ele não tivesse sido eleito. Agora que a merda foi feita, nos resta fazer (e logo) a autocrítica. Aliás, a esquerda e principalmente a direita liberal precisam refletir muito.

Futuro do pretérito

Como já virou “tradição”, não escrevo mais mensagem otimista pela virada do ano. Isso não quer dizer que eu ache impossível as coisas melhorarem: apenas deixei de acreditar em “pensamento mágico” do tipo “ano novo, vida nova”. Se nada fizermos para que as mudanças aconteçam, não será uma mera troca de calendário que proporcionará isso.

Algo curioso é que a chegada de 2020 me remete muito é ao passado. Primeiramente, ao ano 2000, que na minha infância (e certamente na de muitas pessoas tanto da minha geração quanto das anteriores) simbolizava justamente o futuro. Muitos desenhos animados e filmes “futurísticos” feitos ao longo do Século XX e que se passavam em 2000 ou em anos não tão posteriores mostravam um mundo dominado pela alta tecnologia, caracterizada principalmente pela capacidade dos automóveis levantarem voo (não que motoristas mais estressadinhos já não venham tentando fazer isso há muito tempo) ou pelo alto desenvolvimento da robótica e da engenharia genética. Tanto é que temos carros voadores no 2015 do filme “De Volta para o Futuro II”, assim como androides no 2019 de “Blade Runner” (no qual os veículos também voam).

Não foi à toa que na madrugada de 30 para 31 de dezembro de 1999, quando meu pai completava 48 anos de idade, conversávamos após comermos um churrasco e quando ele comentou “pois é, estamos entrando no ano 2000”, logo emendei: “e os carros não estão voando”…

Duas décadas atrás, fanáticos religiosos acreditavam que estava chegando o fim do mundo. Mas mesmo sem se ter fé havia motivos para algum temor devido ao chamado “bug do milênio” (ainda que a virada tecnicamente se desse apenas em 1º de janeiro de 2001), que poderia fazer os sistemas computacionais mais antigos “entrarem em parafuso”: por economia de memória, neles o ano era representado apenas por seus dois últimos dígitos e os programas assumiam que os dois primeiros eram “19”; assim, 1999 era “99”, e 2000 deveria ser “00” mas seria entendido como “1900”, o que causaria panes generalizadas. Mas com a aproximação da data as empresas investiram na modernização de seus sistemas e praticamente nada aconteceu.

E aqui no Brasil a chegada do ano 2000 teve, pasmem, narração de Galvão Bueno…


Duas décadas depois, além da sensação de estar ficando velho (na entrada de 2000 eu recém tinha completado 18 anos, e hoje já começo a enxergar os 40 no horizonte), também sinto que temos, todos nós, menos tempo para fazer coisas necessárias de modo a garantir o nosso futuro – ou seja, não convém mais esperar ou deixar para depois.

Os efeitos mais dramáticos das mudanças climáticas já não são mais algo projetado para daqui muito tempo. Dentro de dez anos o aumento do nível médio dos mares terá reflexos não só em áreas costeiras, mas mesmo no interior dos continentes por represar as águas de rios, lagunas e lagos: como mostra este mapa interativo, parte considerável das ilhas e algumas áreas da zona sul de Porto Alegre correrão risco de serem invadidas pelo Guaíba já em 2030.

Isso me leva a novamente olhar para o passado, e assim como falei sobre o ano 2000, agora cito um filme que se não fala exatamente de 2020, é “quase”. Trata-se de “Soylent Green” (1973), cujo título no Brasil foi traduzido para “No Mundo de 2020” apesar da história se passar em 2022. Ainda que o mundo “atual” relatado quase 50 anos atrás seja bem diferente do que vemos hoje, não podemos dizer que não é algo que possa acontecer em um futuro não tão distante.

(Aviso: daqui em diante tem “spoiler”, então quem não assistiu ao filme pode parar de ler agora ou continuar por sua conta e risco – não serão aceitas reclamações posteriores.)

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A Copa de 2014 é nossa?

Todo o esforço para as melhorias olímpicas causou, no entanto, grande transtorno aos moradores atenienses e muitas reclamações dos gregos. “Atenas não precisa ser uma cidade olímpica”, queixa-se um morador de Tessalônica. “A Grécia é que precisa ser um país olímpico. Por que todo o investimento está concentrado na capital?”

O projeto das Olimpíadas concentrou os recursos em Atenas. A quantidade de obras fez com que os preparativos ganhassem uma dimensão olímpica por si só. Na lista de pendências da cidade e da região, não apareciam apenas os ginásios e instalações esportivas, mas também 140 quilômetros de novas estradas, duas novas linhas de metrô e 24 quilômetros de linhas de bonde para movimentar 1 milhão de pessoas por dia. A partir do dia em que Atenas foi escolhida como sede, os atenienses passaram a viver dentro de um imenso canteiro de obras. Entrar para a modernidade é um grande negócio se você for capaz de agüentar a poeira, o barulho e os atrasos.

Isso sem falar no custo. Quando as obras para os Jogos Olímpicos terminarem e vencer a fatura de quase 8 bilhões de dólares, a curva ascendente que referenda o crescimento da economia pode despencar. “Acho as Olimpíadas o máximo”, diz Angeliki Kiriakopoulou, 28 anos, secretária de uma escola de artes em Atenas, “mas acho que não temos condições de ser a sede do evento. Ainda não tenho filhos, mas com certeza eles terão de arcar com essa conta.” É claro que as opiniões são controversas. “Temos orgulho de sediar as Olimpíadas”, diz o padre Apostolos, de Komotini, “e pagaremos essa fatura mesmo que leve anos.” Em 2006, quando terminar o atual lote de fundos destinado à Grécia, ela não preencherá mais os requisitos para receber tão generosas contribuições da União Européia. Ao contrário, será a sua vez de fazer doações em prol do desenvolvimento de novas nações-membro da UE, agora mais pobres do que ela.

(Retirado de: National Geographic Brasil, agosto de 2004, p. 48.)

Uma das causas da quebra da Grécia foi o gasto excessivo para os Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas. Foram erguidas modernas instalações esportivas que, após o evento, ficaram às moscas.

E o perigo, é que o Brasil está querendo trilhar o mesmo caminho…

Na última quarta-feira, a CBF deu o anúncio oficial: o Morumbi não receberá os jogos da Copa do Mundo de 2014. O motivo? O São Paulo não estava disposto a torrar 630 milhões de reais para deixar seu estádio no chamado “padrão FIFA” – apostava em um projeto mais modesto, de aproximadamente 265 milhões. A grana a mais que teria de gastar faria com que o clube contasse com menos recursos para contratar jogadores (o torcedor quer um time vencedor, né?), para sediar alguns jogos de Copa.

Com o Morumbi fora, pareceria natural que o estádio de São Paulo para a Copa de 2014 passaria a ser a Arena Palestra Itália, que o Palmeiras deverá concluir até o final de 2012 e terá capacidade para 45 mil torcedores. Só pareceria mesmo… Pois agora o que estão falando é em um novo estádio, o “Piritubão”, de capacidade semelhante, e que além disso seria construído com dinheiro público – para mais adiante ser arrendado ao Corinthians, tal qual o Engenhão no Rio (administrado pelo Botafogo). E ainda transformaria o Pacaembu (que é tombado como patrimônio histórico, logo, não pode ser derrubado) em um legítimo “elefante branco”.

E não pensem que tal absurdo é exclusividade paulista.

Aqui em Porto Alegre, o Internacional até agora não começou as obras no Beira-Rio, estádio da Copa na cidade. Tudo porque queria ter isenção de impostos (claro que os benefícios foram concedidos). E a “arena” do Grêmio, que não receberá jogos da Copa, também entrou na parada…

(A propósito, só se começou a falar em construir essa maldita “arena”, cujo contrato prevê que a maior parte dos lucros do Grêmio com venda de ingressos e produtos licenciados será repassado à construtora que erguerá o estádio, depois que o Brasil apresentou sua candidatura para sediar a Copa do Mundo e se disse que os jogos em Porto Alegre seriam no Beira-Rio, já que o Olímpico Monumental é “velho, ultrapassado”. Concordo que uma reforma cairia bem, mas o Olímpico atende muito bem às minhas necessidades como torcedor do Grêmio, assim como o Morumbi satisfaz ao são-paulino Vinicius Duarte – e certamente ele não é o único que tem tal opinião. Se eu quisesse assistir ao jogo sentado em “cadeiras estofadas”, ficaria em casa, oras! E estou cagando e andando para a Copa ser jogada ou não no estádio do Grêmio.)

Satisfeitos? Calma, que tem mais… Como as novas “arenas” que serão construídos em cidades como Cuiabá e Manaus – que têm tudo para também se tornarem “elefantes brancos”, visto que se tratam de cidades cujos clubes têm pouca tradição no futebol nacional. Há também um novo estádio a ser erguido em Brasília, como se a capital federal já não tivesse o Bezerrão (onde em 2008 a Seleção disputou um de seus raros amistosos no Brasil, 6 a 2 sobre Portugal) que precisaria apenas ser ampliado – e nada demais, para que não se tornasse outro “elefante branco”.

É bom ninguém se iludir achando que poderá ganhar muito dinheiro aproveitando-se da Copa do Mundo no Brasil. Que o digam muitas pequenas e médias empresas sul-africanas, alvo de processos por terem se utilizado de temas ligados à Copa para fazer publicidade: afinal, tudo o que é referente ao torneio só pode ser explorado comercialmente pelas empresas que têm contrato com a FIFA (ela é que ganhará muito, sem pagar um centavo sequer de imposto, tanto na África do Sul como no Brasil).

E os torcedores que se cuidem também. Como vimos nesta semana, em que um grupo de torcedoras holandesas foi expulso do estádio onde jogavam Holanda e Dinamarca por trajarem vestidos laranjas que no entendimento da FIFA teria por objetivo fazer publicidade de uma cerveja que não é a “oficial da Copa”. (Interessante essa tal “liberdade” defendida pelos liberaizinhos de plantão.)

Enfim… A Copa de 2014 “é nossa”? Os benefícios, serão de bem poucos, mas a conta, essa sim, será nossa. Uma conta monstruosa, e que não se resumirá à Copa, pois dois anos depois dela tem a Olimpíada no Rio (e não pensem que a fatura não será paga por todos os brasileiros: lembrem-se do Pan!). Em 2020, o Brasil poderá ser uma versão mais caótica da Grécia de 2010.

Houve uma vez uma noite de Ano Novo…

Há 10 anos, o mundo estava em um quase êxtase. Era a chegada do ano 2000. Nada simbolizava tanto o “futuro” quanto este número tão “redondo”.

Mesmo nos anos 80, a ideia que eu tinha do mundo do ano 2000 era de um lugar onde os carros voavam e as pessoas usavam roupas esquisitas, tipo nos desenhos dos Jetsons.

Inclusive lembro de um diálogo com o meu pai no dia do aniversário dele em 1999 (ou seja, 31 de dezembro!). Falávamos sobre o ano 2000, que finalmente chegava, e eu lembrava a visão inspirada nos filmes que eu tinha da data: “Pois é, e os carros não estão voando” (apesar de alguns motoristas doidos tentarem isso até a morte – literalmente).

No dia 31 de dezembro de 1999, a televisão passou o dia mostrando imagens da entrada do ano 2000 em diversas partes do mundo. E, claro, não terminava nunca aquela discussão sobre o final do século XX (e do milênio).

E o “bug do milênio”? Havia todo aquele temor quanto às falhas nos computadores na virada do ano, que levariam o mundo ao caos. Inclusive dizia-se que os sistemas de controle das armas nucleares russas seriam muito defasados, e que a partir da meia-noite de 1º de janeiro de 2000 as ogivas nucleares simplesmente se disparariam, acabando com o mundo. Claro que nada disso aconteceu, pois estamos todos aqui…

Esperei a entrada na Usina do Gasômetro. Chovia em Porto Alegre, senti frio por estar molhado e precisei comprar uma capa de chuva. E não chegava nunca meia-noite: não era culpa da expectativa, e sim, dos “excelentes” shows musicais daquela noite… À meia-noite, aconteceu algo comum na vida de um gremista: um foguetório comemorativo. Era o “futuro” chegando.

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O “ano do futuro” não foi tão maravilhoso como se esperava. Nem no âmbito pessoal. Já em janeiro, passei no vestibular para Física na UFRGS: eu largaria o curso dois anos depois, mas fiquei feliz, é claro. Só que o primeiro ano foi desastroso: nas poucas cadeiras nas quais fui aprovado, o conceito foi “C”, ou seja, “suficiente para passar”. Mesmo assim, em nenhum momento de 2000 eu pensei em abandonar o curso (em 2001 eu pensaria nisso pela primeira vez, embora brevemente).

Mas o mais incrível de tudo é perceber que o “futuro” já se encontra 10 anos atrás. Quando estivermos entrando em 2020, o que falaremos dos dias de hoje (e também dos de 10 anos atrás, que lá serão “20 anos atrás”)? E, se o assunto é “futuro”, estará o mundo de daqui a 10 anos semelhante ao do filme Soylent Green, que se passa em 2022?

Não basta “torcer para que não esteja”, e sim, é preciso que também façamos a nossa parte, procurando evitar desperdício de comida, água e energia, consumindo somente o realmente necessário, caminhando mais e andando menos de carro (gastar gasolina para andar duas quadras sozinho é o cúmulo – e o motorista engorda e não sabe por quê…). Quem não age assim, que tal começar em 2010?

Afinal, o “futuro perfeito” que eu acreditava ser o ano 2000, além de já ser passado, também é irreal. O futuro – seja bom ou ruim – será consequência de nossos atos hoje.

E se muito do que desejamos parece impossível, a ponto de nos desmotivar… Passo a palavra a Mario Quintana:

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

A todos os leitores do Cão Uivador, um grande abraço e FELIZ 2010!