Da passagem do tempo

Estava olhando uma fotografia antiga, de minha festa de aniversário em 1988 – ou seja, de quando completei sete anos de idade. Então reparei que estou chegando aos 32 e que, portanto, aquela foto já tem quase um quarto de século (25 anos).

Não raro ouvimos pessoas mais velhas dizendo que têm a impressão de que o tempo passa cada vez mais rápido. É algo estranho, pois há diversas unidades de tempo, mas suas medidas sempre foram as mesmas desde que foram criadas. Um segundo nunca durou mais ou menos que um segundo. Muito embora Albert Einstein tenha “bagunçado tudo” com sua Teoria da Relatividade, que pode ser resumida pela seguinte expressão: “o tempo é relativo”.

Einstein se refere ao tempo físico, aquele que é medido no relógio – e que pode ser nitidamente distorcido em situações possíveis apenas teoricamente (como viajaríamos em uma espaçonave quase à velocidade da luz, sem sermos torrados?). Porém, psicologicamente também é possível ver o tempo como algo relativo. E não pensando apenas em situações em que desejamos que os ponteiros do relógio andem mais devagar ou mais rápido.

Como o caso da foto que falei, batida há quase um quarto de século. Em outubro de 1988, sete anos correspondiam à minha vida inteira. Falar em 25, para mim, era inimaginável: mais que o triplo de tudo o que tinha vivido. Sem contar que sequer tinha ideia real do que era a passagem de sete anos: ninguém tem lembranças desde o nascimento, o que daria uma noção do tempo passado.

Hoje, sete anos correspondem a menos de um quarto de minha existência. Tenho noção do que é a passagem de tal período de tempo: sete anos atrás era 2006, quando completei 25 anos de idade – como diz o ditado, “parece que foi ontem”. Aliás, reparemos que, em 2006, não tinha ideia real do que era um quarto de século – o que só acontece agora, ao ver uma fotografia de 25 anos atrás e perceber que lembro daquele dia.

Assim, fica mais fácil entender a impressão dos mais velhos de que o tempo passa cada vez mais rápido. Quando se é criança, época em que não se tem lembranças muito antigas que permitam dar uma noção da passagem do tempo, um ano parece uma eternidade. Voltando à foto: como demorava para chegar o meu aniversário! E o Natal, então?

Então, o tempo passa, e um ano torna-se um pedaço da vida cada vez menor em termos relativos. A ponto de, hoje em dia, o meu aniversário ser um sinal de que “em dois toques” já será Natal (aquela festa que agora acho chata e, principalmente, repetitiva).

E chega um momento em que já conseguimos “medir o tempo” vivido em décadas. Dez anos já correspondem a menos de um terço de minha existência. A metade, em breve, será 16 anos – a idade que atingi em 1997 e que me encheu de orgulho por me dar o direito ao voto.

Imaginem, então, o que significa um ano para quem já viveu 70, 80, 90…

Anúncios

Montevidéu, uma cidade que dá saudade

Fui (só) duas vezes a Montevidéu. A primeira foi em agosto de 1998, em viagem de intercâmbio escolar: recém o Brasil tinha perdido a Copa do Mundo para a França, e os uruguaios não esqueceram de uma “flautinha básica”, além das já tradicionais referentes à Copa de 1950.

A outra foi em fevereiro de 2006, quando era visível a preocupação dos montevideanos: havia a previsão de um ciclone, seis meses depois de uma tempestade que traumatizou o Uruguai. O vento que presenciamos não foi tão forte quanto o registrado em agosto de 2005, mas foi o suficiente para buscarmos abrigo no saguão de entrada de um prédio na Praça Independência.

Vrc0112

Sete anos e meio separaram as duas primeiras visitas a Montevidéu. Por esta lógica, eu volto lá em agosto do ano que vem. Porém, minhas próximas férias serão em fevereiro, e terei mais uns dias que tirarei em julho para dar os retoques finais em meu trabalho final da especialização. Já tinha tudo certo para ir à Argentina e ao Chile no verão, mas a viagem não sairá mais.

Ainda não redefini meu(s) destino(s) de fevereiro, mas parece que Montevidéu me chama…

Este slideshow necessita de JavaScript.

1960 e 2010: Os Anos da África

Foi ainda no tempo do colégio que li a expressão “1960: O Ano da África” em um livro didático. O motivo, é que só naquele ano 16 países do continente obtiveram sua independência política. Livravam-se de um colonialismo que fora por demais cruel, e do qual sofrem até hoje as consequências.

Meio século passou, e novamente temos um Ano da África. Desta vez, no futebol. 2010 foi o ano da primeira Copa do Mundo no continente africano (embora não haja apenas coisas boas nisso). Por muito pouco, uma seleção africana (Gana) não chegou à semifinal desta Copa.

E agora, no Mundial de Clubes, pela primeira vez a decisão não será entre América do Sul e Europa. Quem está lá? A África. Representada pelo Mazembe, da República Democrática do Congo (antigo Zaire), que foi até 1908 propriedade privada do rei Leopoldo II da Bélgica com o no mínimo irônico nome de “Estado Livre do Congo” – que mascarava a mais brutal colonização europeia na África.

O “reino privado” de Leopoldo II tornou-se colônia em 1908 com o nome de “Congo Belga”, subetendo-se assim ao parlamento da Bélgica, e não mais às decisões pessoais do rei, embora isso não mudasse muita coisa – afinal, a população local continuava sob domínio europeu, que duraria até o Ano da África, ou seja, 1960.

————

E o Mazembe ganhou do Inter com todos os méritos. Certa imprensa quer fazer acreditar que os vermelhinhos “perderam para si mesmos”, contra um adversário “muito inferior, frágil” (que, de tão frágil, foi muito mais competente para marcar não um, mas dois gols).

Provavelmente se tenha lido opiniões semelhantes nos jornais de Barcelona, em dezembro de 2006… Só mudando as cores dos que “perderam para si mesmos”, e dos “frágeis” vencedores.

————

O Grêmio também participou desta grande vitória do Mazembe sobre o co-irmão. Afinal, nós gremistas temos um colega de torcida na República Democrática do Congo. E não é qualquer um: trata-se do médico Denis Mukwege, indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 2009, que é especialista no tratamento de mulheres vítimas de violência e tortura sexual durante a guerra civil que por vários anos assolou seu país.

E, não bastasse um tão ilustre gremista no país do Mazembe, a gloriosa camisa Tricolor se misturou à torcida dos “Corvos” (apelido do clube) em Abu Dhabi.

Afinal, quando o GRÊMIO terá uma camisa oficial que lembre o GRÊMIO?

Em 2005, a Puma passou a ser fornecedora de material esportivo do Grêmio. Seu primeiro modelo de camisa agradou à maioria dos torcedores, por ser relativamente próximo ao tradicional – camisa tricolor, sem invenções e com equilíbrio entre azul e preto, as cores que predominam no manto sagrado gremista (além do branco, nas listras mais estreitas).

A primeira invenção que desagradou a muitos gremistas – inclusive a este que vos escreve – foi a camisa de 2006. A camisa tricolor tinha uma manga azul e outra preta – bizarrice que se acentuava quando o Grêmio vestia mangas longas.

O modelo de 2007 foi melhor – ou, para ser mais exato, menos pior. Acabaram-se as mangas de cores diferentes, mas as listras azuis ficaram mais largas que as pretas (o que se repetirá em 2010, mas falo disso adiante). As duas mangas passaram a ser azuis.

A camisa de 2008 seria a melhor de todas as da Puma, não fosse por um detalhe. As listras azuis e pretas tinham praticamente a mesma largura e também preenchiam as mangas – modelo que lembrava as camisas tradicionais. Porém, o padrão listrado era interrompido nas costas, abaixo do número, em que o tecido era todo azul. Quase imperceptível quando os jogadores colocam a camisa para dentro do calção, é verdade; mas muitas vezes eles preferem deixar a camisa para fora, e os torcedores também costumam fazer o mesmo. Assim, o modelo 2008 não supera 2005.

O ano de 2009 foi marcado por três modelos: dois especiais para a Libertadores, e o terceiro para o Campeonato Brasileiro. A camisa tricolor para a disputa da Libertadores foi uma das mais bonitas que o Grêmio teve nos últimos anos: o único porém foram os diferentes tons de azul adotados para a camisa e o distintivo gremista; ainda assim, “passou”. O uniforme número 2 para La Copa também agradou, com uma camisa de listras azuis e brancas na horizontal, inspirada no uniforme de Los Pumas, a Seleção Argentina de Rugby. Já a tricolor do Brasileirão foi uma das mais criticadas dos últimos anos, devido ao “babador” que apresentava – aquela parte azul próxima à gola, que interrompia o padrão listrado do restante da camisa.

————

Quando se anunciou que a camisa de 2010 seria inspirada naquela inesquecível de 1995, a torcida ficou esperançosa de que, enfim, o Grêmio teria uma camisa com cara de… Grêmio. A direção inclusive vendeu algumas camisas “no escuro”, sabendo que, se ela lembraria o glorioso ano de 1995, muitos não temeriam comprá-la sem vê-la.

Porém, não foi isso que se viu ontem, quando os novos uniformes foram lançados. A nova camisa até que não é feia, mas sequer lembra um clube que é conhecido como o Tricolor dos Pampas.

A frente tem apenas duas listras azuis e uma preta, que fica no meio (a camisa de 2003, o fatídico ano do centenário, também tinha uma listra preta no meio, mas não era a única), padrão que se repete nas costas – com interrupção no espaço em que fica o número (a propósito, é algo importante a dizer: gostei da fonte do número, sem aquele estilo “quadriculado” dos modelos de 2008 e 2009 do “babador”). Como as listras brancas (que sempre são menores) ficaram por demais estreitas, de longe chega a parecer que se trata de uma camisa bicolor.

Do jeito que vai, as camisas do Grêmio feitas pela Puma que mais venderão serão justamente as réplicas de modelos anteriores, todos originalmente de outras fornecedoras…

————

Entendo que a Puma crie “padrões” de camisas utilizados com vários clubes e seleções que a tem como fornecedora de material esportivo. É direito da empresa.

Porém, as “invenções” deveriam se restringir ao uniforme nº 2 ou nº 3. A camisa principal, TRICOLOR, tem de ser, como nós torcedores costumamos dizer, “o manto sagrado”: qualquer invenção que a descaracterize deveria ser proibida pelo estatuto do Grêmio.

E, para se ter uma ideia, das sete camisas Tricolores feitas pela Puma (no post do Bruno Coelho no Grêmio 1903 tem uma linha do tempo Puma/Grêmio), nenhuma é igual a outra. Tanto no design como nos tons de azul. Apesar do modelo 2010 não ser o pior (as mangas diferentes de 2006 e o “babador” de 2009 são insuperáveis), está muito longe de ser uma camisa com a cara do Grêmio (não é só o Autuori que não a tem…).

————————

Atualização: só depois de ter o texto pronto, li o que escreveu o Hélio Paz sobre as novas camisas, e recomendo a leitura.