Meus jogos no Olímpico Monumental: 1996

O ano de 1996 foi muito bom para o Grêmio. Um pouco menos glorioso que 1995, é verdade, já que a Libertadores não veio. Mas ganhamos o Campeonato Brasileiro, em uma final sofrida. E que teve minha presença no Olímpico.

5. Grêmio 4 x 0 Santo Ângelo (Campeonato Gaúcho, 12 de maio)

O mais marcante da partida é que pela primeira vez assisti ao jogo das cadeiras. E percebi o quão menos animado era tal setor: quando o árbitro não marcou um pênalti para o Grêmio, imediatamente levantei e comecei o tradicional “feira da fruta”. Gritei praticamente sozinho meus palavrões…

6. Grêmio 2 x 1 Caxias (Campeonato Gaúcho, 26 de maio)

Outro jogo que poderia ter caído no esquecimento, não fosse um fato curioso: passei mal no estádio.

Hora antes da partida, almocei com meu pai num restaurante próximo à casa dele. Mais: comi feito um urso após o inverno. A barriga cheia somada às comemorações dos gols do Grêmio não podia dar bom resultado.

Um fato curioso: onde era o restaurante, hoje funciona uma funerária.

7. Grêmio 1 x 0 Portuguesa (Campeonato Brasileiro, 29 de setembro)

Nesse jogo, não quis sair antes do fim. Graças a isso, vi o gol de Rivarola, marcado nos últimos minutos. Tinha aprendido a lição daquele Grêmio x Sport do ano anterior.

8. Grêmio 1 x 0 Juventude (Campeonato Brasileiro, 13 de outubro)

Ambos os times faziam boa campanha, mas esta partida fez as coisas mudarem. O Grêmio engrenou de vez, rumo à classificação para as finais; já o Juventude entrou numa série de maus resultados que levaram o time a acabar o campeonato mais perto dos rebaixados do que dos classificados.

9. Grêmio 1 x 1 Palmeiras (Campeonato Brasileiro, 27 de outubro)

O jogo mais aguardado da primeira fase: Grêmio e Palmeiras se reencontravam após o confronto (em todos os sentidos) pela Copa do Brasil, quando deu Porco e após a partida de volta, no Olímpico, houve briga generalizada. Viola abriu o placar para o Palmeiras, mas Paulo Nunes fez, de cabeça, o gol de empate do Grêmio.

10. Grêmio 0 x 2 Coritiba (Campeonato Brasileiro, 17 de novembro)

Pachequinho e Basílio (o mesmo que em 2003 jogaria pelo Grêmio) marcaram os gols da vitória do Coxa, em tarde de calor e solaço – pela primeira vez fui nas cadeiras centrais, onde o sol bate direto durante à tarde.

11. Grêmio 1 x 3 Goiás (Campeonato Brasileiro, 24 de novembro)

Com o Grêmio já classificado para as finais, Felipão não foi nada bobo: escalou time misto na última rodada da fase inicial. O Goiás aproveitou e construiu a vitória já no primeiro tempo, quando abriu 3 a 0. Aílton descontou na segunda etapa, mas o destaque foi ao final: a torcida, ao invés de vaiar a má atuação gremista, saiu cantando, feliz da vida.

Tudo porque, em Bragança Paulista, o Inter perdeu por 1 a 0 para o já “rebaixado” Bragantino (as aspas se devem à virada de mesa que manteria o clube paulista na Série A em 1997, junto com o Fluminense), e assim perdeu uma classificação que parecia certa. Foi o placar do Olímpico que levantou a galera: TORCEDOR GREMISTA, “ELES” ESTÃO FORA.

12. Grêmio 2 x 2 Goiás (Campeonato Brasileiro, 8 de dezembro)

Duas semanas depois, Grêmio e Goiás se enfrentavam novamente no Olímpico. Desta vez pela semifinal, com boa vantagem gremista: após vencer por 3 a 1 no Serra Dourada, o Tricolor podia até perder por dois gols de diferença que ainda assim se classificaria para a final. Jogando tranquilo, o Grêmio permitiu que o Goiás estivesse por duas vezes à frente do placar, mas sem jamais ter sua vaga ameaçada, e ao final, acabou empatando em 2 a 2. Os dois gols gremistas foram de Adílson.

13. Grêmio 2 x 0 Portuguesa (Campeonato Brasileiro, 15 de dezembro)

Esse foi o maior de todos os jogos que assisti no Olímpico. Final de Campeonato Brasileiro, e ao contrário do que aconteceu na semifinal, o Grêmio em desvantagem: tinha levado 2 a 0 em São Paulo e por isso precisava vencer por dois gols de diferença.

A partida começava às sete da noite. Cheguei ao estádio às três, a fila era quilométrica. Debaixo de um solaço. Não me importei: valia a pena para ver o Grêmio campeão. Faltando duas horas para o início do jogo, o Olímpico já estava lotado.

O gol de Paulo Nunes, no início, deu a impressão de que seria fácil. Mas, como qualquer um que estava no Olímpico naquele fim de tarde lembra, não foi. O tempo passava, e nada de sair o segundo gol, que daria o título.

Quando faltavam aproximavamente 10 minutos para o final, Felipão tirou Dinho e pôs o contestadíssimo Aílton no lugar. Houve um ou outro protesto por parte de torcedores, mas a maioria estava focada mesmo em dar um jeito de fazer o Grêmio chegar ao segundo gol. Quando vi o camisa 15 entrar no gramado no lugar de Dinho, na hora me passou um pensamento pela cabeça: “o Aílton vai fazer o gol do título”.

E fez. Quando Carlos Miguel levantou aquela bola na área e a zaga da Lusa rebateu, lamentei mais uma possibilidade de gol perdida. Então, vi aquele jogador distante meter uma patada na bola. Tive a impressão de que fora para fora, me levando a lamentar mais uma vez. Mas um décimo de segundo depois, o estádio levantou gritando gol. Questão de lógica: se 50 mil pessoas gritam gol, só pode ser gol. E vibrei junto. Logo depois, a informação: AÍLTON!

Fato curioso: também quando faltava em torno de 10 minutos para o final do jogo, minha mãe quis ir embora, achando que não dava mais. Lembrando o primeiro jogo com a Portuguesa no campeonato, três meses antes, decidi que não arredaria o pé do estádio. Ela também decidiu não sair, e assim, pudemos festejar muito ao final.

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Estatísticas de 1996:

  • Jogos: 9
  • Vitórias: 5
  • Empates: 2
  • Derrotas: 2
  • Gols marcados: 14
  • Gols sofridos: 9
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O passado não volta, mas pode servir de inspiração

Vez que outra, sou tomado pela nostalgia. Nada mais normal no ser humano do que, em um dia ruim, desejar muito que o tempo volte apenas para reviver dias mais felizes.

Depois a nostalgia passa, e percebo que é impossível voltar no tempo. Não tem jeito: o passado literalmente passou, e se o presente é ruim, que se faça algo para que o futuro seja melhor.

Porém, isso não quer dizer que o passado deva simplesmente ser jogado em “um canto” da memória (aliás, se eu concordasse com isso deveriam cassar meu diploma de História). Ele precisa ser relembrado, tanto em seus aspectos bons como nos ruins: as coisas boas podem muito bem servir de inspiração na construção do tão sonhado futuro melhor, já as ruins devem ser recordadas para que não cometamos erros semelhantes.

Os parágrafos acima se devem à eleição de hoje no Grêmio, na qual tenho três opções: o presente, o passado errado, e o passado nostálgico.

O presente do qual falo, obviamente, é Paulo Odone. É preciso ser extremamente desonesto para dizer que ele é um dos piores presidentes que o Grêmio teve: quem acha isso, não sabe o completo fracasso que foram as gestões de Flávio Obino, Rafael Bandeira dos Santos, e mesmo a de Cacalo (foi um grande vice de futebol, mas como presidente ganhou apenas um título, a Copa do Brasil de 1997, ainda com o time de 1996). Sem contar José Alberto Guerreiro, que até ganhou a Copa do Brasil de 2001, mas deixou o clube endividado, à beira da falência. Já Odone assumiu no pior momento da história do Grêmio (no início de 2005 o Tricolor estava rebaixado e afundado em dívidas até a testa) e, não se pode negar, conseguiu tirar o clube do inferno, embora não o tenha posto no paraíso, como dizem: boa parte da dívida com o condomínio de credores (uma boa iniciativa de Odone) foi quitada no biênio 2009-2010, ou seja, quando Duda Kroeff era presidente.

Porém, vem sendo muito repetida a afirmação de que só o Odone quis assumir a bronca. Não é verdade: em 2004 houve eleição para presidente do Grêmio e Odone não foi candidato único, teve de enfrentar Adalberto Preis e Antônio Vicente Martins – inclusive, foi a primeira vez em que os sócios foram chamados a elegerem o presidente e eles escolheram Odone.

Outro fato é que o estilo de Odone não me agrada nem um pouco. Não me esqueço de suas entrevistas após derrotas do Grêmio, quando para fugir do assunto ele falava de Arena, imortalidade, Batalha dos Aflitos… Sem contar o fiasco daquela negociação com Ronaldinho.

Assim, se não me agrada o presente, me restam duas opções ligadas ao passado. A primeira, é a de Homero Bellini Júnior, que é do mesmo movimento político de Guerreiro e era vice jurídico do Grêmio em 2001, quando Ronaldinho saiu praticamente de graça do clube. Ou seja, posso até estar sendo injusto com Bellini (que nunca foi presidente, ao contrário de Odone e Koff, que assim podem ter melhor analisados seus defeitos e qualidades), mas ele representa o “passado errado” do qual falo.

Assim, prefiro ficar com o “passado nostálgico”, que obviamente atende pelo nome de Fábio André Koff. Trata-se do presidente mais vitorioso da história do Grêmio (que, vale lembrar, não começou em 2005): com Koff, o Tricolor comemorou títulos, e não vagas. Mesmo que a classificação para a Libertadores de 1983 tenha vindo com um vice-campeonato (no Campeonato Brasileiro de 1982), o Grêmio não se contentou em comemorar a vaga, e tratou de ganhar a América e, depois, o Mundo. Então Koff saiu e voltou em 1993, para reerguer o Grêmio que voltava da Série B: ganhou a Copa do Brasil de 1994, a Libertadores de 1995 (assim foi ao Mundial e perdeu nos pênaltis para o timaço do Ajax), e se despediu da presidência com a conquista do Campeonato Brasileiro de 1996.

Porém, votar em Koff não é mero pensamento mágico, do tipo “voltar a 1995” – até porque, como já disse, o passado não volta. Nem é votar “pelo fim do projeto Arena”, como alguns dizem: na chapa de Koff está Adalberto Preis, presidente da Grêmio Empreendimentos (responsável pela Arena) durante a gestão de Duda Kroeff – vale lembrar que a obra começou em 2010, ou seja, com Kroeff e Preis.

Voto em Koff também porque não suporto mentiras. Muitas li (em panfletos apócrifos) e ouvi: além da tolice de que ele iria “acabar com a Arena”, também vieram com o papo de que ele “abandonou o Grêmio”, quando a verdade é que ele ajudou muito o clube – clique aqui e leia o item 3. (E é bom lembrar que Odone se licenciou da presidência para concorrer a deputado estadual em 2006: por que ninguém se queixa de seu “abandono”?)

E quanto a Fábio Koff “ter ajudado Fernando Carvalho”… Sinceramente, não vejo motivos para ficarmos tão bravos, tão “amargos”. Pelo contrário, é uma flauta a mais que podemos tocar em nossos rivais: sozinhos, eles não ganham nada!

Aliás, era o que acontecia naqueles anos inesquecíveis de Koff à frente do Grêmio: enquanto eles se matavam por uma vaguinha nas finais dos campeonatos que jogavam, nós levantávamos taças. O ano de 1995, por exemplo, foi um dos mais sensacionais que tive: além da turma do colégio, foi muito marcante aquela Libertadores que se somou à de 1983 e a muitas outras taças que o Tricolor ganhou com Fábio Koff na presidência.

Carandiru, 20 anos depois

Ontem completaram-se 20 anos do Massacre do Carandiru, quando a Polícia Militar de São Paulo invadiu a Casa de Detenção para terminar com uma rebelião. A repressão, comandada pelo Coronel Ubiratan Guimarães, acabou com o motim, e também com a vida de 111 presos.

Até hoje, ninguém foi responsabilizado pelo massacre. O mais perto que se chegou disso foi com a condenação do Coronel Ubiratan, em 2001; porém, a sentença foi revista e ele acabou absolvido em 2006 – mesmo ano em que foi assassinado. No próximo mês de janeiro, outros 28 policiais acusados de participarem do massacre finalmente irão a julgamento.

Graças à impunidade, a violência policial no Brasil continua sendo a regra, e não a exceção. Foi o que vimos em Eldorado dos Carajás no dia 17 de abril de 1996, quando a Polícia Militar do Pará matou 19 sem-terras (massacre igualmente impune); e também nos Crimes de Maio de 2006, quando a PM de São Paulo assassinou centenas de pessoas suspeitas de terem participado dos ataques do PCC. Aliás, a mesma PM paulista matou 229 pessoas apenas no primeiro semestre de 2012.

Mas, se a impunidade revolta, pior ainda é ver gente que concorda com o que aconteceu naquele 2 de outubro de 1992. Tanto que o Coronel Ubiratan chegou a ser eleito deputado estadual em São Paulo. Só que tem mais. Basta acessar as notícias sobre os 20 anos do massacre em vários portais para se deparar com uma grande quantidade de opiniões nauseantes, dizendo que “deveriam ter matado todos”, defendendo que a polícia sempre “desça a porrada e mande bala nos vagabundos” (só torça para que a PM não ache que você é o “vagabundo”).

Em vários destes comentários sobre o massacre se lê as palavras “limpeza” e “faxina”, que sempre foram usadas para “justificar” genocídios: o Holocausto consistiu no anseio nazista de “limpar” a Alemanha, eliminando as “raças inferiores”; o Império Turco-Otomano também quis fazer uma “faxina” durante a Primeira Guerra Mundial e assim exterminou mais de um milhão de armênios; em Ruanda, os extremistas hutus consideravam os tutsis como uma “praga social” e assim decidiram fazer, claro, uma “limpeza”, que resultou em quase um milhão de mortos entre abril e julho de 1994.

O persistente fantasma golpista no Paraguai

A deposição do presidente Fernando Lugo por um golpe “disfarçado” faz soar o sinal de alerta para quem conhece a história do Paraguai, e da própria América Latina. Pois infelizmente a democracia não é exatamente uma tradição por estas bandas do mundo.

O Paraguai, particularmente, tem um longo histórico de autoritarismo e golpes de Estado. A própria ditadura de 35 anos do general Alfredo Stroessner encerrou-se mediante um golpe militar: em 3 de fevereiro de 1989, o ditador foi deposto por um movimento chefiado por seu co-sogro, o general Andrés Rodríguez, que três meses depois foi eleito presidente. Apenas em 1993 o poder passou às mãos dos civis (pela primeira vez em quase 40 anos), quando Juan Carlos Wasmosy assumiu a presidência.

Só que a era dos golpes não estava encerrada no Paraguai – graças às divisões internas do Partido Colorado, que salvo o período de 1904 a 1946, dominava a política do país desde que fora fundado em 1887. Na primária que determinou o candidato colorado para a eleição presidencial de 1993, Wasmosy derrotou Luis Maria Argaña (ex-ministro do ditador Alfredo Stroessner) em um processo marcado por denúncias de fraude. Eleito presidente, Wasmosy fez um governo impopular, e sendo acusado de corrupção, passou a sofrer ameaça de impeachment por parte do Congresso. Além disso, perdeu o apoio de seu principal cabo eleitoral dentro do partido, o general Lino Oviedo (reparem como esse nome será presença constante daqui para frente), ferrenho adversário de Argaña e que gozava de certa popularidade entre os paraguaios devido à sua participação na deposição de Stroessner (apesar de ser acusado de ligações com o narcotráfico).

O populista general Oviedo, comandante do Exército, era cotado para ser candidato à presidência em 1998. Só que para ganhar terreno precisava vencer Argaña na eleição interna do Partido Colorado, marcada para 28 de abril de 1996. A possibilidade de Argaña vencer preocupava Wasmosy, que assim veria sua permanência no governo mais ameaçada; para agradar à ala rival, seis dias antes da votação o presidente decidiu destituir Oviedo do comando do Exército. Em resposta, o general anunciou que não obedeceria mais a Wasmosy, sinalizando um golpe de Estado, mas recuou após ser convidado para assumir o Ministério da Defesa. As manifestações solidárias ao presidente (não por ele em si, mas sim em defesa da legalidade) “inverteram o sinal”, e ele acabou decidindo “desconvidar” Oviedo – que, passado para a reserva do Exército, fez comício anunciando sua pré-candidatura à presidência. Posteriormente, Wasmosy foi acusado pelo ex-general de ter tentado cooptá-lo para dar um “autogolpe” semelhante ao de Alberto Fujimori no Peru, em 1992.

Luis Maria Argaña tornou-se líder do Partido Colorado, mas ainda assim Lino Oviedo acabou conquistando a candidatura à presidência, com Raúl Cubas vice. Porém, condenado e preso devido ao fracassado golpe de 1996 por um tribunal de exceção criado por Wasmosy, Oviedo foi impedido de concorrer, e Cubas foi indicado para substituí-lo (a vaga de vice passou para Argaña). O candidato do “oviedismo” venceu a eleição e assumiu a presidência em 15 de agosto de 1998. Três dias depois, Cubas cumpriu promessa feita durante a campanha e determinou a libertação de Oviedo.

Em 23 de março de 1999, o vice-presidente Argaña foi assassinado em uma esquina de Assunção, deflagrando o chamado “Março Paraguaio”, quando oito jovens foram mortos pela repressão aos protestos contra Cubas e Oviedo. Suspeitava-se que o assassinato fora tramado por Oviedo de modo a assumir a vice-presidência; consequentemente ele se tornaria o presidente, pois seria previsível que Cubas renunciaria em favor de seu padrinho político.

Porém, a suposta manobra não deu certo. Cubas renunciou em 28 de março e no dia seguinte exilou-se no Brasil. Em seu lugar, assumiu o presidente do Senado, Luis González Macchi, para completar o mandato presidencial. Oviedo obteve asilo político na Argentina, mas no final de 1999 os argentinos elegeram Fernando de la Rúa para suceder Carlos Menem, e o novo presidente ameaçava tirar o status de asilado político do ex-general; assim Oviedo fugiu secretamente para o Brasil e por vários meses disse estar escondido em território paraguaio, até que em junho de 2000 (semanas após uma nova tentativa de golpe militar no Paraguai) foi preso pela Polícia Federal em Foz do Iguaçu, a pedido da Justiça paraguaia.

Apesar do pedido de extradição feito pelo Paraguai, Oviedo obteve permissão para permanecer no Brasil, desde que se abstivesse de manifestar-se politicamente, determinação descumprida várias vezes pelo ex-general.

Em 2004, Oviedo decidiu retornar ao Paraguai, entregando-se à polícia. Libertado três anos depois, candidatou-se à presidência em 2008, acabando em terceiro lugar.

Fernando Lugo, eleito por uma coligação de esquerda e que obteve apoio do Partido Liberal Radical Autêntico (ao qual pertence o vice Federico Franco), foi deposto na última sexta-feira, praticamente sem apoio parlamentar. Para amanhã é prevista uma marcha do PLRA, que como qualquer movimento golpista que se preze no Paraguai de 20 anos para cá, contará com o apoio de Lino Oviedo e seus partidários.

Todos os caminhos levam ao Olímpico

No texto de ontem, um leitor comentou dizendo que sofro de “nostalgismo agudo” por não concordar com o fim do Olímpico Monumental. Respondi a ele dizendo que talvez seja verdade, mas que isso é melhor do que ser acometido de “progressismo acrítico agudo”.

Mas, agora vale a pergunta: como não sentir uma certa nostalgia quando algumas horas nos separam do início de um “mata-mata” entre Grêmio e Palmeiras?

Um confronto eliminatório entre os dois clubes é coisa que não acontece desde 1996, quando o Grêmio passou pelo Palmeiras nas quartas-de-final do Campeonato Brasileiro que viria a ser conquistado pelo Tricolor. Mais do que jogos, eram duelos entre os dois times que dominavam o futebol brasileiro na época – apesar de, ironicamente, jamais terem se enfrentado numa decisão de título.

E o mais irônico ainda é perceber que 16 anos depois, os técnicos são os mesmos, apenas em casamatas diferentes. Em 1996, quem ousasse dizer que um dia Wanderley Luxemburgo treinaria o Grêmio, seria tachado de “louco”, no mínimo; provavelmente o mesmo aconteceria em relação ao nome de Luiz Felipe Scolari no Palmeiras. Porém, logo em seguida (1997) os palmeirenses aprenderiam a aplaudir Felipão, assim como os gremistas agora aplaudem Luxemburgo.

De 1996 para cá, Grêmio e Palmeiras ainda conquistaram títulos de expressão (só que pararam já faz mais de uma década). O Tricolor levou as Copas do Brasil de 1997 e 2001 (a primeira com Evaristo de Macedo e a segunda com Tite). Já o Porco ganhou a Copa do Brasil de 1998 e a Libertadores de 1999; ambos os títulos foram com Felipão.

Mas este confronto pela semifinal da Copa do Brasil não deixa de dar aquela nostálgica impressão de que “os bons tempos estão de volta”. Mesmo que só restem daquela época os treinadores que se defrontam. Nem o Estádio Palestra Itália, palco de inesquecíveis partidas entre Palmeiras e Grêmio, existe mais: em seu lugar está sendo erguida uma “arena multiuso”; mesmo modelo de estádio que o Tricolor ergue no Humaitá, longe do Olímpico Monumental.

E atentem para um fato: a não ser que Grêmio e Palmeiras se reencontrem na Copa Sul-Americana, a partida desta quarta-feira será a última entre os dois clubes no Olímpico, visto que no Campeonato Brasileiro o Tricolor e o Porco já se enfrentaram em Porto Alegre.

Ou seja, motivos não faltam para os gremistas se dirigirem ao estádio. Na noite deste 13 de junho de 2012, todos os caminhos levam ao Olímpico.

Feliz década de 1990

Como de costume, fui caminhando ao Olímpico. E comecei a pensar no que viria com a confirmação da classificação contra o Bahia: um confronto com o Palmeiras na semifinal da Copa do Brasil.

Grêmio x Palmeiras num “mata-mata”: coisa que não acontecia desde 1996. Impossível não pensar que “os bons tempos estão de volta”, tanto sendo gremista ou palmeirense. Curiosamente, com os técnicos “invertidos”: agora Luxemburgo é tricolor, Felipão é alviverde.

Em comum entre os dois grandes rivais da década de 1990, uma grande “seca” de títulos. Excetuando-se estaduais e Série B, Grêmio e Palmeiras não ganham nada de importante há mais de 10 anos: a última conquista gremista foi a Copa do Brasil de 2001; já a última taça do Palmeiras foi a Libertadores de 1999 – ou, para quem preferir, a Copa dos Campeões de 2000, que não levo muito em conta porque já foi extinta há anos.

Só uma pena que este reencontro aconteça já na semifinal, e não na decisão – ainda mais que Grêmio e Palmeiras jamais fizeram uma final entre si. Mas ao menos a minha torcida deu certo.

Gauchão bissexto

Esta quarta-feira é um dia como não se tem toda hora. O motivo é óbvio: fevereiro só tem 29 dias quando o ano é bissexto.

Porém, não bastasse ser um dia no qual uma pessoa que nascer nele só comemorará seu aniversário no dia certo daqui a quatro anos, este 29 de fevereiro de 2012 ainda tem vários amistosos internacionais, e a decisão de turno no Gauchão. E mais: não tem nem Grêmio e nem Inter nela, o que é garantia de que na pior das hipóteses, o vencedor de Novo Hamburgo x Caxias será vice-campeão estadual.

Como já disse, acho este modelo de campeonato estadual anacrônico, ruim mesmo para os clubes do interior. A única coisa que ainda acho bacana é quando não temos Gre-Nal na decisão (preferencialmente quando quem fica de fora é o Inter, claro).

E, curiosamente, isso tem sido regra nos últimos anos bissextos. O último Gauchão de ano bissexto que teve a dupla Gre-Nal ocupando as duas primeiras posições na classificação final foi o de 1992. Desde então, a cada quatro anos se passou a ter a certeza de que o estadual não seria decidido em Gre-Nal, embora não necessariamente a ausência de um dos dois clubes se desse apenas em anos bissextos.

  • 1996. No primeiro ano de nossa série, o Grêmio chegou ao bicampeonato estadual batendo o Juventude com facilidade na decisão: 3 a 0 no Alfredo Jaconi, 4 a 0 no Olímpico (três de Jardel neste último jogo, um deles totalmente sem querer).
  • 2000. Quatro anos depois, a decisão novamente foi entre as cidades de Caxias do Sul e Porto Alegre. O Caxias chegava à final contra o Grêmio para tentar repetir o feito do Juventude, campeão em 1998 diante do Inter. E fez história: 3 a 0 no Centenário, 0 a 0 no Olímpico e festa grená.
  • 2004. Não foi exatamente uma decisão que pusesse frente-a-frente a Capital e o Interior. Mas não teve Gre-Nal: o Grêmio foi eliminado de forma vexatória pela Ulbra na semifinal ao perder de 3 a 1; e por pouco o adversário do time de Canoas não foi o Glória de Vacaria, que chegou a estar vencendo o Internacional na prorrogação da outra semifinal, e acabou derrotado nos pênaltis. A final – que assim como as semifinais foi em partida única – foi no Complexo Esportivo da universidade, em Canoas: de virada, o Inter fez 2 a 1 e conquistou o bicampeonato estadual.
  • 2008. Inter e Juventude fizeram a decisão, e parecia que a história de 1998 iria se repetir. Na primeira partida, no Alfredo Jaconi, 1 a 0 para o Ju, que ficou a um empate do título. Porém, numa prova de que aquele papo de “filial do Grêmio” já era passado (afinal, o Ju eliminara o próprio Grêmio nas quartas-de-final), o Inter aplicou uma histórica goleada de 8 a 1 no Beira-Rio e acabou campeão.

Depois de 2008, só vinha dando dupla Gre-Nal nas primeiras posições do Gauchão – escrita quebrada justamente em 2012, bissexto como 2008. Em 2009, quando foi adotada a atual fórmula do campeonato, o Inter ganhou os dois turnos, um contra o Grêmio e outro contra o Caxias; a soma das outras campanhas que não a do Inter deu ao Tricolor o vice-campeonato. Já em 2010 e 2011 tivemos Gre-Nal na decisão entre os campeões dos turnos: deu Grêmio em 2010 e Inter em 2011.

Mito detonado

Tem um famoso ditado que diz o seguinte:

Quem não for de esquerda até os 30 anos não tem coração. Quem for de esquerda depois dos 30 anos não tem cérebro.

É aquele mito conservador do “amadurecimento”, que serve apenas para justificar a manutenção do status quo. Contestar o sistema é considerado “imaturidade”, a famosa “rebeldia juvenil” – vista por muitos como “sem causa”.

Ironicamente, uma grande manifestação de contestação ao status quo aconteceu justamente no dia em que completei 30 anos. Em várias partes do mundo, os indignados tomaram as ruas para exigir democracia real. Naquele dia, escrevi: “‘imaturidade’, é defender o sistema injusto que temos”. Ou seja, na visão conservadora, não “amadureci”…

Mas não é só isso: estou ainda mais “imaturo”, conforme o teste de visão política que já havia feito e postado os resultados aqui no blog em janeiro de 2009 e fevereiro de 2010.

Em janeiro de 2009, quando eu tinha 27 anos de idade, deu isto:

  • Derecha/Izquierda Economicista: -8.62
  • Anarquismo/Autoritarismo Social: -8.31

Já em fevereiro de 2010, aos 28, meu resultado foi este:

  • Derecha/Izquierda Economicista: -8.75
  • Anarquismo/Autoritarismo Social: -8.36

Posteriormente, cheguei a fazer o teste novamente mas sem postar os resultados no blog, daí a ausência de números relativos ao começo de 2011, quando eu estava com 29 anos.

Agora, vejamos como é minha visão política aos 30 anos de idade:

  • Derecha/Izquierda Economicista: -9.75
  • Anarquismo/Autoritarismo Social: -9.79

Como as escalas vão de -10 a 10 (em ambos os critérios), estou chegando aos extremos e por isso não tenho como ficar muito mais libertário e socialista. Mas é um legítimo “tapa com luva de pelicas” naqueles que, alguns anos atrás, achavam que à medida que eu ficasse mais velho eu iria “endireitar”.

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Decidi fazer um exercício de imaginação: responder o teste com base no que eu pensava 15 anos atrás, quando tinha a metade de minha idade atual. Digo que é “imaginação” pois o que penso hoje obviamente influi sobre a visão que tenho de meu próprio passado, sem contar que certas questões, como sobre “a luta contra o terrorismo”, na época (entre 1996 e 1997) não fariam tanto sentido quanto hoje.

O resultado é o seguinte:

  • Derecha/Izquierda Economicista: -5.75
  • Anarquismo/Autoritarismo Social: 2.00

Ou seja, em 1996-1997 eu seria um projeto de stalinista… Felizmente, abortado.

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Agora, como nas outras vezes, “passo a bola” aos leitores. Façam o teste (em espanhol ou em inglês) e, claro, postem seus resultados nos comentários.

Quando 15 anos se tornam um detalhe

As páginas de redes sociais (Orkut, Facebook etc.) têm muitos defeitos, como a exposição exagerada (privacidade vai virando “peça de museu”, mas tomando cuidado, é possível não tornar pública toda sua vida). Mas uma de suas qualidades inegáveis é a possibilidade de aproximar muitas pessoas que têm algo em comum. Gostos, preferências políticas, times de futebol, religiões (ou não ter religião), mesmo ambiente de estudo, de trabalho etc.

Muitas vezes, estas estas pessoas têm também em comum um passado. Anos de vivência no colégio, na faculdade, no trabalho, nos mais diversos espaços. Porém, o tempo passa, e se a vivência deixa de ser compartilhada, os laços podem acabar se desfazendo. Mais uma função para as redes: não deixar que as pessoas se afastem (se não fisicamente, “virtualmente”).

Mas o mais legal é a possibilidade de reaproximar as pessoas que as redes proporcionam. O fato de perder o contato com um velho amigo não quer dizer que ele não fosse importante para nós: à medida que vamos conhecendo pessoas novas, muitas vezes elas acabam meio que “tomando o lugar” das mais “antigas”. Mas, aí reencontramos um amigo que não víamos há vários anos, e parece que fazia pouco tempo que tínhamos nos falado pela última vez.

Foi o que aconteceu este ano, quando reencontrei parte da minha turma do 1º Grau (“Ensino Fundamental” é denominação posterior, portanto, anacrônica se aplicada ao período de 1989 a 1996), que cursei na Escola Estadual de 1º e 2º Graus Marechal Floriano Peixoto. Fora alguns colegas que vi mais seguido, a maioria eu tinha visto poucas vezes nos últimos 15 anos. (Naquela época, a internet engatinhava, Orkut e Facebook não existiam…)

Quando nos reencontramos, foi como se não tivesse passado tanto tempo. Lembramos, “como se fosse ontem”, de como nos divertíamos naquela época, das mais variadas maneiras possíveis. Passeios, festas, futebol (sempre ele…), professores, e mesmo as paixões frustradas (ou não) daquela época. O meu desempenho “a la Barcelona de 2011” nas provas também foi lembrado, mas interessante que do meu quase fiasco de 1993, ninguém lembra.

O bacana é que um mero reencontro presencial que reuniu apenas cinco pessoas em junho, acabou resultando num grupo no Facebook que já conta com mais de 20 integrantes. E agora, ninguém fala mais em “reencontro”: toda hora, a ideia que surge lá é a de “vamos tomar um chopp?” (e já tomamos mais de um). Ou seja, é como se 15 anos de distância tivessem se tornado apenas um detalhe.

Foi, sem dúvida, uma das melhores coisas que aconteceram neste ano que, infelizmente, se encaminha para o final. Aliás, algo em comum com 1995 e 1996, os dois anos mais marcantes daquela época em que estudei no Floriano: eu gostaria que durassem um pouco mais.

17 de abril

A guerra mais longa de todos os tempos não foi a Guerra dos Cem Anos (que durou 115 anos), como a maioria pensa. Hoje pela manhã, descobri pelo meu amigo Antonio Duarte, em seu perfil do Facebook, que houve um conflito quase três vezes mais longo.

Foi a Guerra dos Trezentos e Trinta e Cinco Anos, entre a Holanda e as Ilhas Scilly, localizadas a sudoeste do Reino Unido. O conflito, que se iniciou em 1651, teve origem na Guerra Civil Inglesa de 1648-1649. Defensores da monarquia absolutista (realistas) e do parlamentarismo se enfrentaram. A marinha britânica estava ao lado do rei, mas acabou forçada a se retirar para as Ilhas Scilly.

A Holanda, que recém havia proclamado sua independência, decidira apoiar militarmente os parlamentaristas. Mas sua marinha acabou sofrendo pesadas baixas, impostas pelos realistas baseados nas Ilhas Scilly, e os holandeses decidiram exigir uma indenização. Sem obter resposta, a decisão da Holanda foi de declarar guerra às pequenas ilhas – e só a elas, já que o restante das ilhas britânicas encontrava-se em mãos dos parlamentaristas.

Logo após a declaração de guerra, os realistas foram forçados a renderem-se aos parlamentaristas, e a marinha holandesa retirou-se das Ilhas Scilly sem disparar nenhum tiro. Porém, a Holanda esqueceu-se de um detalhe: assinar a paz. (Sim, antigamente as guerras tinham início e fim formalmente, não eram que nem hoje, quando se inventa uma desculpa do tipo “nós vamos libertar vocês” e assim se mantém indefinidamente a invasão.)

Dessa forma, tecnicamente, as pequenas ilhas continuaram a ser inimigas dos holandeses até 17 de abril de 1986, quando o tratado de paz foi assinado após uma pesquisa histórica comprovar que realmente a Holanda declarara guerra em 1651. Terminava assim, sem nenhum tiro e nenhuma morte, a guerra mais longa de todos os tempos.

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Mas, se uma guerra que durou mais de 300 anos não matou ninguém, um acontecimento acontecido num dia específico – 17 de abril de 1996 – resultou em 19 mortes.

Cartum de Carlos Latuff

Hoje, completam-se 15 anos do massacre de Eldorado dos Carajás. Nenhum dos policiais responsáveis pela matança foi punido.