Saindo do recesso

Declaro encerrado o recesso do Cão, antes mesmo da prova. Afinal, li que quando se faz concurso à tarde, o ideal é não estudar nada pela manhã – o que faz sentido: o conteúdo que não consegui decorar aprender até agora, não será em poucas horas que conseguirei fixar. Então, que seja como tiver que ser – de preferência, uma prova facinha, e que o desempate seja uma questão sobre a Revolução Romena de 1989, já que daquele contexto (1989) a maioria prefere estudar a queda do Muro de Berlim (se bem que isso tá caindo de maduro, pois semana passada fez 50 anos que o “Muro da Vergonha” foi construído).

Mas este período sem escrever foi inspirador para o pós-recesso. Virão mais textos sobre o fenômeno dos “concurseiros”, que expõe algumas contradições da classe média: o “médio-classista padrão” acha que pobre é “vagabundo que não quer trabalhar” (mesmo que se arrebente trabalhando o dia inteiro), mas não fique surpreso se o mesmo “médio-classista padrão” deixar de trabalhar para passar os dias inteiros estudando para concursos…

Só não prometo para logo à noite, pois depois da prova vou sofrer assistir ao jogo do Grêmio.

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Atualização (21/08/2011, 11:55). Acabo de descobrir que o jogo começa às 16h, então perderei de assistir à maior parte…

A ressurreição de Nicolae Ceausescu

O Natal de 1989 foi inesquecível para mim: passei o dia inteiro brincando com meu presente preferido daquele ano, um “Pense Bem”. Aquele 25 de dezembro foi também memorável na Romênia, mas por outro motivo: foi o dia em que o ditador Nicolae Ceausescu (que estava no poder desde 1965) e sua esposa Elena acabaram executados por um pelotão de fuzilamento, três dias depois da derrubada da ditadura por uma insurreição popular.

Porém, oito anos e meio depois, Ceausescu voltou à vida por um mês. E acreditem, foi na tela da Rede Globo!

Simples: a vinheta que abria as transmissões “globais” da Copa do Mundo de 1998 terminava com o logotipo da emissora, que continha dentro algumas bandeiras de países. Reparem que falei simplesmente em “países”, e não em “países da Copa”. Pois havia a presença de bandeiras como as de Austrália, Canadá e Irlanda, cujas seleções não disputaram o Mundial da França.

Mas procurando por mais erros, reparei que a bandeira da Romênia continha o brasão “socialista”, que fora retirado do pavilhão romeno após dezembro de 1989. Por motivos óbvios: com o fim da ditadura de Ceausescu, a Romênia deixara de ser “socialista”. (Inclusive, durante os protestos contra o regime se via muitas bandeiras romenas, todas com um buraco no lugar do brasão, recortado pelos manifestantes – as bandeiras “vazias” se tornaram um símbolo da insurreição popular.)

É importante lembrar que não foi só a bandeira romena que saiu errada: a África do Sul adotou a sua atual em 1994, mas a que aparece na vinheta é a anterior, dos tempos do apartheid.

Provavelmente o leitor deve estar pensando que em 1998 a Globo cometera a façanha de ainda não ter atualizado seu “arquivo de bandeiras”. Pois é, então como explicar que, na vinheta de 1994, a bandeira da Romênia estava correta? Mas não pensem que a “plim plim” tinha deixado de fazer de fazer sua propaganda comunista: sobrou para a Bulgária, cuja bandeira desde 1990 não tinha mais brasão… (É muito rápido, e por isso difícil de perceber o brasão no pavilhão búlgaro, mas ele está lá.)

Campanha antidemocrática

"Cabos eleitorais do Serra", por Carlos Latuff

Quando anunciei minha mudança de voto no primeiro turno, de Plínio para Dilma, meu amigo Diego Rodrigues, que foi de Marina, criticou a decisão. Pelo que entendi, não foi por meu voto em si, mas sim pela motivação: declarei que iria votar contra a realização de um segundo turno nesta eleição presidencial de 2010, devido ao jogo sujo da direita. O Diego afirmou que era muito problemático a candidata petista ser eleita apenas por conta de “transferência de votos” gerada pela altíssima popularidade do presidente Lula, de cuja política Dilma representa a continuidade, e que seria “bom para o Brasil” a realização de um segundo turno – embora ele mesmo ache que o PSDB não tem projeto para o país.

Pois minha pergunta é: no que esta campanha para o segundo turno, que já é considerada mais suja até mesmo que a de 1989 por quem tem lembranças “em primeira mão” (eu tinha oito anos, lembro, mas não entendia realmente o que acontecia), está sendo boa para o Brasil? Como o Diego mesmo disse, a campanha do PSDB deixa clara a ausência de um projeto para o país: ao invés de apresentar argumentos que sustentem a afirmação “Serra é o melhor para o Brasil” (da qual discordo), a maior preocupação é difamar Dilma. Vale tudo, até o repetido uso de mentiras, uma estratégia goebbeliana (Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, disse que “uma mentira muitas vezes repetida, torna-se verdade”).

Collor jogou sujo em 1989, utilizando-se de vários factoides para disseminar no eleitorado o medo de uma vitória do PT. Que iam desde o “anticomunismo” (enquanto os brasileiros escolhiam seu futuro presidente, os regimes burocráticos que se diziam “socialistas” caíam no Leste Europeu) até a declarações de que “os empresários iriam embora do Brasil” caso Lula fosse eleito. Mas não se chegou ao ponto de usar a religião como “arma política”, como está se vendo agora – Dilma já falou em “Deus” no seu programa (aliás, ela nunca negou ter fé), assim como Serra.

Como eu já declarei várias vezes, não acredito na existência de algum ser superior. Mesmo assim, me dou muito bem com gente que tem fé. Como religiões são baseadas em dogmas, e todo dogma é algo considerado “inquestionável”, evito discutir tal tema, ainda mais com amigos, por saber que não haverá a mínima possibilidade de alguma concordância (a não ser que esteja conversando com quem eu sei ser agnóstico ou ateu). Fé, definitivamente, trata-se de uma questão de foro íntimo: por mais que eu critique as religiões, sei que uma pessoa religiosa lerá o que eu escrevo e não deixará de ser religiosa; assim como ela poderá deixar um comentário falando sobre a existência de um ser superior, céu, inferno etc., e eu continuarei a não acreditar em nada disso.

O problema é que muita gente não tem a tolerância que, modéstia a parte, eu tenho com quem tem fé religiosa – e estes comigo. E quando Serra diz que se eleito defenderá “os valores cristãos”, o que ele faz (mesmo que não seja sua intenção) é estimular a intolerância religiosa num país cujo Estado é laico – ou seja, no qual seu presidente não deve defender “valores cristãos” ou de qualquer outra religião, e sim, o direito de todos os brasileiros, de quaisquer crenças (inclusive, os que não têm crença nenhuma), a se expressarem e acreditarem (ou não) no que quiserem.

E por conta disso, considero que a campanha de José Serra é, sim, antidemocrática. Pois a palavra “democracia” significa “governo do povo”, logo, exercido em nome de e para todos, não apenas para os que têm determinada fé.

23 de agosto é dia de RESISTÊNCIA

Na última segunda-feira, se deu o primeiro aniversário do NÃO ao projeto Pontal do Estaleiro. No dia 23 de agosto de 2009, foi realizada uma consulta popular onde os eleitores decidiram aprovar ou não a construção de edifícios residenciais na Ponta do Melo, onde funcionava o antigo Estaleiro Só, falido em 1995. 80,7% dos que compareceram (o voto era facultativo) optaram pelo NÃO.

Embora a consulta fosse apenas sobre as residências e a vitória do NÃO ainda permita a construção de edifícios comerciais, foi uma derrota moral para os concretoscos, defensores do Pontal, por dois motivos: o primeiro, pelo alto percentual de votos na opção “não”, cuja campanha se manifestou claramente contra não apenas a construção dos prédios residenciais, como também se opondo à qualquer tipo de espigão na orla do Guaíba; o segundo, pela baixa participação no processo (apenas 2% do eleitorado compareceu às urnas), demonstrando claramente que o discurso dos concretoscos de que “a maioria dos porto-alegrenses não aguenta mais esses ecochatos que impedem o progresso” era falso, já que tão poucos saíram de casa para votar a favor.

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E foi exatos vinte anos antes da vitória do NÃO que também se viu um grande episódio de resistência. Em 23 de agosto de 1989, cerca de dois milhões de pessoas se deram as mãos e formaram uma “corrente humana” que ficou conhecida como Cadeia Báltica, cruzando Estônia, Letônia e Lituânia, que na época ainda eram pertencentes à União Soviética.

A data não foi escolhida por acaso: naquele dia, se completavam 50 anos da assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, entre a Alemanha nazista e a URSS, que abriu caminho para a Segunda Guerra Mundial e originou a invasão soviética das três repúblicas bálticas, independentes desde 1918. A ideia da Cadeia Báltica era chamar a atenção do mundo para a situação em comum dos três países, que diferentemente da Polônia – dividida pelo mesmo acordo – não tiveram suas independências restituídas com o fim da guerra em 1945. No mesmo 23 de agosto de 1989 também houve protestos na Moldávia, anexada pela URSS com base no mesmo pacto – antes o território integrava a Romênia.

Em 11 de março de 1990 a Lituânia declarou sua independência, que só foi reconhecida no ano seguinte, o mesmo no qual as outras duas repúblicas bálticas também se tornaram novamente independentes – e a própria URSS se dissolveu.

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A Cadeia Báltica não foi a primeira, nem a maior “corrente humana” já formada, mas foi um fato extraordinário. O interessante nesta relação com o 23 de agosto, é que no ano anterior à grande manifestação nas repúblicas bálticas, uma deste mesmo tipo aconteceu justamente em Porto Alegre! Claro que não do mesmo tamanho, mas ainda assim, significativa para a cidade.

Em 1988, a inauguração da Avenida Edvaldo Pereira Paiva (popularmente conhecida como “Beira-Rio” por ser próxima ao Guaíba) era a etapa inicial de um projeto chamado “Praia do Guaíba”, cuja “urbanização da orla” significaria o fim do Parque Marinha do Brasil, visto que no lugar deste seriam construídos edifícios. Em protesto, uma multidão se deu as mãos, em um simbólico “abraço ao Guaíba” que se estendeu por três quilômetros.

Dias depois, a avenida foi inaugurada pelo prefeito Alceu Collares (PDT), e os porto-alegrenses escolheram Olívio Dutra (PT) para suceder Collares. O primeiro dos quatro prefeitos petistas de Porto Alegre prometeu fechar a via ao trânsito de carros nos finais de semana, e cumpriu. E a medida foi mantida por todos os prefeitos seguintes – exceto quando há jogos de futebol num estádio próximo.

E lá se vão mais de 20 anos…

A Cris Rodrigues escreveu um interessante post lembrando muitas coisas que aconteceram na vida dela – não necessariamente particulares, como também marcantes para todos nós – nos últimos 10 anos. E então chamou a atenção para o fato de que lembrava de acontecimentos da década de 1990, mas que pareciam ter ocorrido há pouquíssimo tempo.

Eu, velho que estou, também comentei sobre coisas antigas, mas até mesmo anteriores à década de 1990, que também dão a impressão de “terem sido ontem”. Depois, lembrei ainda mais. Principalmente de fatos acontecidos em 1989, um ano realmente muito marcante.

Naquele ano comecei a 1ª série do 1º grau (olha a velhice aí: já faz mais de 10 anos que é “ensino fundamental”!), no colégio Marechal Floriano Peixoto. No dia 1º de março, para ser mais preciso. Como eu já sabia ler (só precisava aprender a escrever direito), achava as aulas muito chatas, já que tudo que a professora falava, eu de certa forma já sabia… Talvez por isso eu tenha começado a gostar de Matemática (a ponto de dez anos depois optar por um curso que a tinha): era novidade aprender a somar e subtrair. Tanto que durante todo o colégio (1º e 2º graus) eu sempre gostei de Matemática.

Mas os principais fatos estavam guardados para o final do ano. Como a eleição presidencial no Brasil, a primeira direta desde 1960. Eu ouvi o apresentador do telejornal falar em “os brasileiros votam para presidente depois de 29 anos” e obviamente não entendi nada: eleição não era para ser de 4 em 4 anos? (Naquele caso, seria a cada 5 anos, como previa a Constituição até a aprovação de emenda reduzindo a duração do mandato presidencial.)

Eu era “brizolista”, seguindo a minha avó. E a minha turma no colégio também: em uma votação simulada que fizemos na véspera do primeiro turno, o Brizola ganhou de lavada! Lembro que a professora votou no Lula, e o Collor, se não me engano, não recebeu nenhum voto… No segundo turno, sem Brizola, meu pai me ensinou a fazer o “L” do Lula. Mas, o Collor ganhou, com ajuda da Globo e vários meios de comunicação.

Naquela época, ser “anticomunista” fazia parte da campanha, e podia dar votos. Afinal, o chamado “socialismo real” ruía: no dia 9 de novembro, a Alemanha Oriental anunciou a abertura de suas fronteiras com a vizinha Alemanha Ocidental. Era a queda do Muro de Berlim, que assisti pela televisão, embora sem entender nada. Se derrubar um muro era algo tão importante a ponto de aparecer na televisão, eu podia muito bem pegar uma picareta e derrubar um muro na minha rua, né? Mas não fiz isso, felizmente.

E nem precisava, se o objetivo era aparecer na televisão. Afinal, naqueles mesmos dias eu fui entrevistado pela RBS, em uma reportagem sobre… Natal! Acreditem se quiser, eu gostava do troço… E a entrevista se deu por insistência minha, pois quando vi a equipe da televisão no Iguatemi, ela já se preparava para se dirigir ao estúdio, levando a fita das entrevistas feitas no local. Acabaram demorando um pouco mais para irem embora, mas com minhas imagens gravadas. (Moral da história: meu passado me condena…)

A febre naquele Natal de 1989 foi um brinquedo que mais lembrava um computador, chamado “Pense Bem” – ajudando a alavancar a venda de brinquedos eletrônicos. Quando vi pela primeira vez, obviamente quis ganhar de presente. E começou toda a expectativa. À meia-noite do dia 25 de dezembro, ganhei o tão esperado presente. Assim como a minha rua inteira… A expectativa em torno do “Pense Bem”, somada à euforia por tê-lo ganho – e desta forma, não querer largá-lo por um segundo sequer – impediu que, como em novembro, eu pudesse acompanhar “ao vivo” (pela televisão, é claro…) à História acontecendo.

Na Romênia, uma insurreição popular derrubava a ditadura de Nicolae Ceausescu, que governara o país com mão de ferro desde 1965. O ditador e sua esposa, Elena, fugiram de Bucareste em um helicóptero no dia 22 de dezembro, mas foram capturados por militares que aderiram à revolta, e depois de um julgamento sumário, fuzilados no dia 25. Só fui saber disso vários anos depois – inclusive, a primeira lembrança que tenho da Romênia é de Gheorghe Hagi e aquele timaço da Copa do Mundo de 1994, e não da queda da ditadura.

Romênia: afinal, a Securitate resistiu?

Semana passada, escrevi sobre os acontecimentos de 1989 na Europa Oriental, citando também a revolta popular que derrubou a ditadura de Nicolae Ceausescu na Romênia.

Segundo a versão mais difundida, a resistência proporcionada pelas forças da Securitate (polícia secreta) foi responsável por milhares de mortes. Além disso, Elena e Nicolae Ceausescu foram fuzilados sob a acusação de genocídio, baseada no descobrimento de corpos maltratados enterrados em fossas comuns na cidade de Timisoara – onde se iniciaram as manifestações de dezembro de 1989.

Porém, segundo um interessante texto de Ignacio Ramonet sobre a “guerra da informação” que acompanha os conflitos armados, trata-se justamente de uma versão difundida por muitos jornalistas que estavam na Romênia na época, e que não seria a mais verdadeira. Segundo Ramonet, a Securitate não foi tão fiel a Ceausescu, e os corpos encontrados em Timisoara eram de pessoas pobres mortas acidentalmente, e não de vítimas da repressão.

Possivelmente o único fato incontestável sobre a queda de Ceausescu seja que foi a “exceção que confirma a regra” acerca do colapso dos regimes socialistas burocráticos da Europa Oriental: enquanto os vizinhos realizaram uma transição pacífica e por iniciativa própria (mesmo que devido a protestos nas ruas), a Romênia teve seu governo derrubado por uma revolta popular.

Ao mesmo tempo, a derrubada de Ceausescu confirmou outra regra, e esta parece não ter exceção: que em conflitos armados, a primeira vítima é a verdade.

Em 1989 não teve revolução, mas sim, ELEIÇÃO

No dia 15 de novembro de 1989, os brasileiros votaram para presidente pela primeira vez após o fim da ditadura militar. A última eleição direta acontecera em 1960: foi o mais longo período sem eleições diretas para a presidência do Brasil desde que o país se tornou uma república – exatamente 100 anos antes do pleito de 1989.

Era a primeira eleição regida pela Constituição de 1988, que previa a realização de um segundo turno entre os dois candidatos mais votados caso nenhum obtivesse mais de 50% dos votos válidos. Foi o que aconteceu em 15 de novembro, e por isso, foi marcado um segundo turno para o dia 17 de dezembro entre Fernando Collor de Melo (PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No dia 14 de dezembro, foi realizado o último debate antes da votação – sim, aquele do famoso resumo manipulado pela Globo. Eram outros tempos: havia um entusiasmo geral por se poder votar para presidente, após tantos anos de ditadura. Bem diferente dos dias de hoje, quando a maioria só vota por obrigação, e não falta gente para dizer “são todos iguais!” – sem, é claro, deixar de votar nos direitosos de sempre.

Só um aviso: cuidado para não tomarem um susto no final do vídeo abaixo, caso o assistam todo… É o início do Jornal da Globo exibido logo após o debate. A parte referente à eleição vai até 4:43.

No dia do segundo turno, Lobão se apresentou no programa do Faustão e pediu votos para Lula. Era programa ao vivo, não teve como ser tirado do ar pela Globo…

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Ano passado, escrevi um outro post sobre a eleição de 1989. Clique para ler.

Lembranças do “meu tempo”

Parece “coisa de velho”, mas… Bons tempos aqueles. As crianças brincavam na rua. Apostávamos corridas de bicicleta – eu disputava a hegemonia com o Leonardo, enquanto o Vinicius (meu irmão) e o Diego, os mais novos da turma, brigavam para não ficar em último. Também fingíamos que as calçadas eram as ruas de uma cidade inventada: o Leonardo e eu éramos os patrulheiros, e o Vini e o Diego, para variar, se davam mal.

O trecho acima é do texto “A rua onde eu cresci”, publicado em 7 de julho de 2008. De tantos comentários elogiosos que recebeu, estou convencido de que foi um dos melhores que escrevi… (Espero então que agora receba uma enxurrada de críticas para que eu aprenda a ser humilde.)

Um ano e três meses depois, a Rua Pelotas, da qual falei, está menos verde: dois jacarandás, que estavam doentes, foram removidos em julho e setembro. E ainda há mais árvores doentes na rua, que correm risco de queda – aumentado com ventanias como as registradas na segunda-feira passada e ontem.

Essas horas, começo a de fato me sentir velho: “no meu tempo as coisas não eram assim”. As crianças brincavam na rua, e as árvores não estavam em mau estado.

Mas deixando um pouco de lado a “amargura de velho” e os prazos acadêmicos (afinal, a monstrografia está pronta na minha cabeça, mas boa parte dela ainda precisa ser traduzida ao papel), não custa nada lembrar algumas coisas boas da infância (dentre elas, não ter de escrever uma monstrografia).

  • No Natal de 1986 (sim, eu gostava de Natal!), chegou-se à solução de um sério problema: o que fazer para que eu comesse alguma coisa na ceia? Como eu sempre gostei muito de sopa (aprende, Mafalda!), a ideia foi de fazer um creme de ervilha. O “lance decisivo” foi a travessura do Papai Noel, que tomou um prato de creme de ervilha. Meu pai “ouviu um barulho”, foi verificar o que era e “expulsou o bom velhinho” (velhinho aos 35 anos???) a pontapés, por comer nossa ceia. Seguindo o exemplo do Papai Noel, eu quis creme de ervilha e assim, utilizando as palavras de Eric Hobsbawm (a academia me persegue, mesmo no passado), foi inventada uma tradição na nossa família, a do creme de ervilha no Natal, seguida à risca até hoje. Exceto a parte do Papai Noel: embora o “bom velhinho” ainda retornasse por mais alguns Natais (apesar dos pontapés de 1986), hoje ele foi deixado de lado, é claro;
  • Em novembro de 1989, a televisão começou a falar da queda de um muro em Berlim e de como aquilo era importante. Na hora eu não entendia o real motivo para tanta falação: achei que derrubar muros era algo digno de aparecer na televisão, então imaginei que se derrubasse um muro na Rua Pelotas, seria notícia no mundo inteiro. Ainda bem que eu não tinha uma picareta a meu alcance;
  • Na mesma época, tinha eleição para presidente. Eu já entendera mais ou menos o que era o negócio: os candidatos são eleitos mas não ficam o resto da vida “lá”, então periodicamente se realizavam eleições para determinar quem entrava no lugar. Então ouvi o noticiário dizer “os brasileiros votam para presidente pela primeira vez em 29 anos” e não entendi mais nada. Vale lembrar também que fizemos uma simulação daquela eleição na minha turma do colégio (eu estava na 1ª série) e o Brizola ganhou disparado, com direito ao meu voto. Depois eu aprendi a fazer o “L do Lula” para o segundo turno, mas infelizmente deu Collor;
  • Também na mesma época, durante uma ida ao Iguatemi com minha mãe, vi uma equipe da RBS, que acabara de gravar uma reportagem sobre… O Natal! Os caras se preparavam para levarem as fitas à emissora, mas de tanto eu encher o saco, aceitaram me gravar. E eu apareci na televisão! Ou seja: “meu passado me condena”;
  • Ainda em 1989, desta vez no dia de Natal, ganhei um “Pense Bem” de presente. Feliz da vida, quis chamar meus amiguinhos para conhecerem a novidade, mas todo mundo tinha ganho um “Pense Bem”;
  • No inverno de 1993, a Rua Pelotas sediou a inesquecível Copa América de futebol de botão, com a participação de quatro seleções: Argentina (Diego), Brasil (Leonardo), Equador (eu) e Uruguai (Vinicius). A Celeste foi campeã, mas não de forma invicta: na primeira rodada, perdeu por 2 a 1 para o Equador (que acabou em 4º lugar, ou seja, último). De qualquer forma, chora Vini!

Um muro dentro dos gramados

Politicamente, a Alemanha foi reunificada no dia 3 de outubro de 1990. Foi um processo extremamente rápido (muito bem mostrado no excelente filme “Adeus, Lenin!”): em outubro de 1989, a pressão por reformas democratizantes (vinda tanto de protestos populares como da União Soviética, que não mais interviria em favor dos regimes “linha-dura” de partido único na Europa Oriental) provocou a queda de Erich Honecker, líder do Partido Comunista da Alemanha Oriental; em novembro, foi permitido o trânsito entre as Alemanhas, e o Muro de Berlim começou a ser demolido pelo povo.

Mas, se o muro físico desapareceu há duas décadas, segue existindo um outro, “invisível a olho nu”. E que se percebe nos campos de futebol da Alemanha “unida”: não há nenhum clube da antiga Alemanha Oriental na primeira divisão alemã (Bundesliga). O único que integrava a competição na temporada 2008/09, o Energie Cottbus, foi rebaixado após ficar em 16º lugar no campeonato (disputado por 18 equipes) e perder um play-off para o 3º colocado da 2. Bundesliga (segunda divisão)  – apenas os dois últimos são rebaixados diretamente.

Nos gramados, a reunificação alemã não veio junto com a política. Em 3 de outubro de 1990, já estavam em andamento tanto no oeste como no leste da Alemanha as temporadas 1990/91 dos campeonatos nacionais de futebol correspondentes aos países antes separados – um ano antes, não se havia programado uma unificação das ligas, visto que quando a temporada 1989/90 começou não se imaginava tudo o que ia acontecer. Assim, duas Alemanhas continuaram a existir oficialmente nos gramados até 25 de maio de 1991, quando foi disputada a última rodada da primeira divisão alemã oriental. Na temporada 1991/92, a liga alemã oriental (DDR-Oberliga) desapareceu, com todos os clubes – orientais e ocidentais – disputando as várias divisões de uma liga unificada.

A última edição da primeira divisão do leste foi disputada por 14 clubes, e apenas o campeão (Hansa Rostock) e o vice (Dynamo Dresden) obtiveram o direito de disputar a Bundesliga na temporada 1991/92. Os clubes entre o 3º e o 6º lugar foram para a 2. Bundesliga 1991/92, o 7º e o 8º disputaram play-offs por vagas na “segundona”, enquanto do 9º ao 14º foram relegados para ligas regionais – equivalentes à terceira divisão.

Para se efetuar a união das ligas, a Bundesliga foi ligeiramente ampliada: disputada por 18 equipes na temporada 1990/91, subiu a 20 participantes na 1991/92: 18 do oeste, e apenas dois do leste. Quatro clubes dentre os 20 foram rebaixados (dentre eles o Hansa Rostock, último campeão do leste), e na temporada 1992/93 a Bundesliga voltou a contar com 18 clubes.

Ao analisar as tabelas, fica claro que uma simples “junção” das duas ligas seria inviável. Afinal, colocar os 14 clubes da primeira divisão do leste junto com os 18 do oeste criaria um campeonato com 32 clubes, extremamente longo.

Porém, só se deu o direito a participar da primeira divisão a dois clubes do leste. Futebolisticamente falando, até teria uma certa lógica.

A Alemanha Oriental não obteve o mesmo sucesso nos gramados que a Ocidental. O único feito expressivo do futebol alemão oriental foi a medalha de ouro olímpica nos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976 – a participação de jogadores profissionais era vedada, o que beneficiava os países de regime socialista de partido único na Europa Oriental, que enviavam suas seleções principais, cujos jogadores eram (oficialmente) amadores.

No mesmo período, a seleção da Alemanha Ocidental conquistou três Copas do Mundo (1954, 1974 e 1990), e os clubes do país obtiveram bastante sucesso. Inclusive foi um deles, o Hamburgo, que teve a honra suprema de enfrentar o Grêmio na disputa pelo título mundial de 1983 (e felizmente, perdeu!).

Mas, vale lembrar, no único confronto entre as duas Alemanhas em uma Copa do Mundo (1974), os orientais venceram por 1 a 0, em pleno território ocidental. Ou seja: um espaço maior aos clubes do leste na primeira divisão, pelo menos na primeira temporada unificada, não seria nada demais. Apenas duas vagas dentre 20, mostra como os “ricos” ocidentais trataram os “pobres” orientais, em todos os sentidos: deram-lhes “migalhas”.

E, não por acaso, 20 anos depois da queda do muro ainda persistem as diferenças entre os dois lados da Alemanha. A população do leste é discriminada, e não cresce: muitos jovens emigram para o oeste, em busca de melhores condições de vida e de empregos, difíceis de serem conseguidos no leste. E as dificuldades são um fator desmotivador à geração de filhos: o leste alemão é a região onde menos nascem crianças na Europa.

Burrice global

No documentário “Muito além do Cidadão Kane”, que fala sobre o poder da Rede Globo no Brasil, Armando Nogueira, que trabalhava como chefe de jornalismo lá na época da eleição presidencial de 1989, disse que a edição do resumo do último debate antes do 2º turno, excluindo bons momentos de Lula e mostrando apenas os de Collor, foi “burra”, e que ele não deixaria que fosse ao ar se a tivesse visto.

O mesmo se aplica ao que aconteceu ontem (isso na visão de Armando Nogueira, pois para mim a edição do debate de 1989 foi manipulação pura e simples). Quando eu soube que o jogo Vitória x Grêmio, pelo Campeonato Brasileiro, seria às 4 da tarde, pensei: “ótimo, vai passar na TV aberta” (visto que, em geral, os jogos às 6 e meia da tarde/noite nos domingos só passam no pay-per-view, que eu não tenho em casa). Quando chamei um amigo para ver o jogo aqui, ele disse que ia passar Santos x Corinthians na Globo. Achei que ele estava errado, porque Vitória x Grêmio era às 4 da tarde, logo, seria essa a partida transmitida, pelo menos para o Rio Grande do Sul. Resolvi esperar para ver: não queria ir para um bar porque, como tinha de terminar a revisão de um artigo – cujo prazo de envio via e-mail encerrava ontem -, não achava uma boa ideia beber cerveja (mesmo com frio eu tomaria, ainda mais estando num buteco) e depois terminar a revisão de um texto acadêmico.

Na hora do jogo, liguei a televisão e… Passava Santos x Corinthians na Globo!

Suprema burrice da Globo. Não por causa de “birra contra gaúcho” e o escambau (até porque nunca vi nada igual à narração do 2º gol do Sport na final da Copa do Brasil de 2008, parecia que era gol de um time estrangeiro: pelo jeito a “plim plim” esqueceu que Pernambuco é Brasil). A Globo foi burra comercialmente mesmo. Tivesse transmitido Vitória x Grêmio, pelo menos para o Rio Grande do Sul, teria tido muito mais audiência por aqui do que com Santos x Corinthians.

Falo de audiência de verdade: muita gente deve ter deixado a televisão ligada, mas sem volume, para ouvir o jogo do Grêmio no rádio. Considerando que muita gente só olharia para ela quando saísse algum gol – ou seja, os anúncios feitos ao longo da transmissão do futebol não atingiram a maioria da audiência no Rio Grande do Sul, ainda mais que o único gol (infelizmente, foi do Vitória…) saiu no apagar das luzes.

Tudo bem que a audiência no Rio Grande do Sul não é tão grande quanto em Estados mais populosos. Mas que foi burrice da Globo, foi.

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Outra coisa que me tira do sério em relação ao futebol brasileiro, é a questão dos horários dos jogos. Nesse caso, todos os envolvidos – televisão (Globo), CBF e clubes – têm sua parcela de culpa.

A rodada de ontem foi emblemática. Vitória x Grêmio, na sempre quente Salvador, foi às 4 da tarde (e sem transmissão para cá!). Inter x Avaí, na ontem gélida Porto Alegre (e o Beira-Rio, segundo o meu irmão, consegue ser ainda mais frio por causa do vento forte da beira do Guaíba), foi às 6 e meia da noite (sim, porque 6 e meia só é “da tarde” durante o verão). E o pior de tudo são os jogos às 10 da noite, no meio da semana, por causa daquela bosta de novela.

O torcedor, como sempre, que se lixe, na visão dos manda-chuvas do futebol brasileiro. Que compre o pacote do pay-per-view e assista o jogo em casa. Ou, se quiser ir ao estádio, aguente calorão, frio cortante… E chegue em casa na madrugada de quinta-feira, depois de gastar uma nota em táxi porque não tem mais ônibus.