Facebook: nosso “1984” pessoal

Uma das maiores reivindicações dos usuários do Facebook é o botão “não curti”, para sinalizar publicações e comentários que não agradam. Afinal, a única opção que temos, aparentemente, é o “curtir”.

Como disse, “aparentemente”. Pois existe, sim, como “não curtir” comentários no Facebook. Só que o “não curtir” está escondido na opção “denunciar abuso”. Ao clicar nesta, aparece um menu para selecionar o motivo pelo qual o comentário é considerado um abuso – e dentre eles, o “não curti este comentário”. Porém, o “não curtir” nos oferece algo a mais, como comprovei ontem.

Em uma longa discussão sobre política na qual tinha me envolvido no final de semana (não entrarei em detalhes, mas adianto que pretendo escrever um texto mais amplo, no qual discutirei um dos argumentos que nortearam a troca de ideias), o debate corria bem, com concordâncias e discordâncias, mas tudo respeitosamente. Eis que então entrou um cara que não só discordava de mim, como me achava idiota por isso – a propósito, deu para perceber que ele acha idiota qualquer um que não concorde com ele, numa amostra do quão “tolerantes” são os neoliberais fundamentalistas.

A última questão do fanático, decidi que não iria responder, tamanha idiotice que era aquilo. Fiquei na dúvida entre simplesmente não fazer nada, pedir que ele fosse mais respeitoso, mandá-lo àquele lugar ou tomar uma atitude diferente. Me decidi pela última opção: denunciar o comentário como abuso. E lá apareceu o “não curti este comentário”.

Só que, como falei, tinha “algo mais”: era oferecida a possibilidade de bloquear o cara, para que ele “não me enxergue mais”, nem eu o visse mais no Facebook. Resolvi, então, bloquear, e assim ter um fanático de direita a menos para encher o saco.

Mais tarde, voltei à discussão, e os comentários do cara tinham desaparecido… Então entendi: ao bloquear alguém, qualquer coisa que a pessoa já tenha postado antes mesmo do bloqueio “desaparece”. Entre aspas, pois um não vê os comentários do outro.

Diante disso, foi impossível não lembrar do livro “1984”, de George Orwell, que retrata uma sociedade totalitária onde o governo controla absolutamente toda a informação, de modo a simplesmente apagar fatos históricos e não se ter a menor possibilidade de provar a manipulação. “Se algo não existe, nunca existiu”, mesmo que existisse menos de cinco minutos antes.

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Quanto ao bloqueio, apesar da cara de “1984” que ficou, não só o mantenho como também posso vir a usar mais vezes. E quem vier com o papo furado de “censura”, eu mando àquele lugar (já que não mandei o fundamentalista, tem uma vaga sobrando): bloquear uma pessoa no Facebook não a impede de falar, mas ao menos eu não preciso aguentar seus comentários caso eles não me agradem (até porque ela também não terá como ler o que eu escrevo por lá). Quem não gostou, que vá se queixar pro Zuckerberg por ter nos dado tal opção na rede que ele criou (ou me bloqueie, ora!).

Mas os colorados que não se preocupem, não são eles o “alvo”, apesar de alguns serem um pouco malas. Prefiro aguentar flauta do que trollagem reacionária.

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Que chegue logo o outono!

No momento que escrevo, milhões estão grudados na televisão para assistirem à maior idiotice da TV brasileira – tanto que é um dos motivos pelos quais odeio o verão.

Uma pergunta muito pertinente: qual a percentagem de fanáticos que sabe o motivo do programa ter o nome que tem? Triste ironia: o negócio é inspirado em um personagem de um livro (o “Grande Irmão”, de 1984, clássico de George Orwell), mas seu objetivo ao confinar pessoas numa casa não é que elas discutam literatura (ou o crescente vigilantismo dos dias atuais).

Aliás, mais um motivo para ter nojo da Globo: na Argentina, eles assistem ao Gran Hermano – ou seja, tradução ao espanhol do original em inglês. Já a “vênus platinada”, como defensora do Brasil que é (né, Galvão Bueno?), prefere que falemos Big Brother

A única coisa boa nessa bosta é que, quando terminar, já estaremos no outono. Que chegue logo!

Quem são os “revanchistas”

Há quem acredite ser “revanchismo” estabelecer uma Comissão da Verdade para investigar os crimes cometidos pelo Estado brasileiro durante a ditadura militar. Afinal, isso resultaria em deixar de lado o que fez “o outro lado”, ou seja, a esquerda que lutava contra o regime.

Porém, nessa questão, o verdadeiro “revanchismo” não parte da esquerda, e sim, da extrema-direita, defensora da ditadura militar. Pois ela foi moralmente derrotada com o fim do regime autoritário, tão desejado pelos brasileiros a ponto de saírem às ruas aos milhões em 1984, para pedirem “Diretas Já”. Sem contar que a ditadura deixou o Brasil com a economia em frangalhos, graças às enormes dívidas contraídas para a execução de obras faraônicas.

Até a promulgação da lei de anistia de 1979, apenas a esquerda havia recebido punições: seja por ações armadas como guerrilhas, sequestros e assaltos a bancos (as chamadas “expropriações revolucionárias”), ou por simplesmente não concordarem com o regime militar (caso do jornalista Vladimir Herzog, torturado até a morte em 25 de outubro de 1975).

Ora, se os “criminosos” eram apenas os militantes de esquerda… Por que se anistiou os torturadores em 1979? Por motivos óbvios: já se sabia que a ditadura não iria durar para sempre (afinal, estávamos na “abertura lenta, gradual e segura”), e assim seus apoiadores teriam de prestar contas à sociedade mais cedo ou mais tarde. Para evitar tais “contratempos”, a solução foi anistiar “todo mundo”, mesmo os que jamais haviam sido considerados como criminosos pela ditadura. E assim os torturadores escaparam de serem punidos – diferentemente dos que combateram a ditadura, que já haviam sofrido nas mãos dela própria.

E agora, quando se fala em finalmente se tomar alguma medida de modo a punir os torturadores e “desaparecedores”, eles e seus defensores, em resposta, falam em “necessidade de se julgar os dois lados”. Ou seja, de se empreender punição – de novo! – aos que combateram a ditadura. E como boa parte da mídia defende isso abertamente ou nas entrelinhas (não esqueçamos que ela deu importantíssimo apoio ao golpe em 1964), muita gente inocentemente também acaba sendo favorável a “julgar os dois lados”, sem ter conhecimento do passado.

O cigarro e eu

Quem já me viu perto de fumantes, sabe o quanto sou chato… Êta fumacinha desgraçada! O fato do meu pai e da minha mãe serem fumantes apenas ajuda a aumentar minha repulsa por essa (autêntica) droga.

Cheiro de cigarro é simplesmente horrível. Tão ruim, que acredito detestá-lo mais do que o verão de Porto Alegre. Aquele calorão pode ser nojento, me deixar de mau humor… Mas, em si, ele não mata: as doenças típicas do verão – como a dengue – podem ser prevenidas mesmo que a temperatura mantenha-se alta.

Já o cigarro, causa no mínimo um câncer. E o pior de tudo, é que aquela fumaça maldita é mais maléfica para quem não está com o cigarro na boca: afinal, a porcaria tem filtro que impede o fumante de aspirar todo o lixo contido no negócio. Ou seja, quem acompanha o “chaminé” corre mais risco: guardadas as proporções, andar com um fumante é como ter uma Chernobyl ambulante ao lado (afinal, radiação também causa no mínimo um câncer).

Ou seja, quem me conhece acha que eu devo adorar “leis antifumo”, como a que começou a vigorar em São Paulo, e a que já existe em Porto Alegre (não sei se é exatamente igual à paulista). Mas, incrivelmente, eu sou contra. Por quê?

Simples. Apesar do cigarro ser uma droga (literalmente), fazer mal à saúde etc., acho que a melhor maneira de combatê-lo é a educação: ou seja, divulgando o máximo possível os malefícios causados por ele, tornando as pessoas conscientes disso. Assim como, é claro, os fumantes aprenderem que nem todo mundo gosta de cigarro e daquela fumaça desgraçada, e assim evitarem fumar junto a quem não se mata aos poucos.

Sem contar que não vejo lógica em uma lei que proiba o fumo em tantos lugares, sendo o cigarro uma droga legalizada. Ou seja, o fumante pode comprar cigarro (pagando uma porrada de imposto – e tem que pagar mesmo) mas ao mesmo tempo não pode consumi-lo mesmo em alguns locais abertos.

Porém, e se um dono de bar decidir que seu estabelecimento é “exclusivo para fumantes”? Afinal, não haveria conflitos, visto que quem não fuma não entraria. Já aconteceu em Porto Alegre, logo que a lei antifumo passou a vigorar por aqui: o proprietário colocou uma placa em frente avisando que o bar era “exclusivo para fumantes”, mas alguém chamou a Brigada, o que gerou confusão.

E já que falei em bar, não custa nada lembrar a estúpida proibição ao álcool nos estádios de futebol. Venderam isso como a solução para a violência entre as torcidas, e assim desde o Campeonato Brasileiro do ano passado não se pode tomar uma cervejinha gelada durante o jogo. Mas, no dia 16 de novembro de 2008, uma briga entre torcidas gremistas após o jogo Grêmio x Coritiba terminou em tiroteio e pessoas baleadas em estado grave no HPS. E a motivação é bem mais séria do que uma simples desavença provocada por umas cervejas a mais.

O que eu quero dizer com tudo isso? É que utilizando-se de motivos nobres – como o combate aos malefícios causados por uma droga – o Estado vai se “bigbrotherzando” aos poucos. Uma coisa é a defesa da saúde do cidadão e a repressão ao crime, outra é usá-las como desculpas para controlar o dia-a-dia e os costumes das pessoas. Afinal, o que é a Lei Azeredo?

Hoje, os vilões são os pedófilos, os fumantes e os torcedores que gostam de tomar uma cervejinha no estádio (claro que não todo o estoque do bar, aí sim é coisa de bebum!). No futuro, poderão ser todas as pessoas que não se encaixem no padrão para uma “sociedade ideal”. Ou seja, que sua aparência, seus costumes, seus hábitos, não agradem a quem detém o poder.

Lei Azeredo: o medo deles não é o que se “baixa”, e sim o que se “sobe”

A Claudia Cardoso disse tudo, lá no Dialógico. Embora haja muitos interesses da indústria cultural (gravadoras, editoras etc.) em criminalizar a troca de arquivos de áudio, vídeo e textos via internet, a maior preocupação é quanto ao que se “sobe” para ela. Afinal, a web permite o acesso a informações que jamais se teria na mídia corporativa, e pode até mesmo influenciar as pautas dela.

Um exemplo atual é a situação vivida por moradores de uma área cobiçada pela especulação imobiliária no bairro Cristal, zona sul de Porto Alegre.  Através da música, denunciaram as “propostas” dos especuladores para que deixem o local onde moram há anos (o vídeo, pesquei do Alma da Geral).

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Claro que os mentores do projeto não dirão isso, pelo medo de serem acusados – com toda a justiça – de defensores do autoritarismo. Pelo que eles dizem – e que convencerá os que não têm conhecimento do que se trama – a lei a la 1984 servirá para combater a pirataria e, principalmente, a pedofilia. Ou seja: se utilizando de uma causa nobre – proteger crianças de tarados que não estão só na internet – passarão a considerar qualquer internauta como um criminoso em potencial, que até prova em contrário, será suspeito.

Contra o AI-5 digital

No próximo dia 25 de maio (segunda-feira), às 14 horas, será realizado um ato público em defesa da liberdade na internet. Será na Sala Maurício Cardoso da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (4º andar do prédio). O horário é ruim, mas é fundamental que quem puder, compareça.

O motivo é o projeto de lei do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que se aprovado, instaurará o vigilantismo na rede, e criminalizará práticas cotidianas como a troca de arquivos em redes P2P. Será mais um passo na transformação em realidade da distopia de George Orwell.

E percebam que ao mesmo tempo em que se fala num projeto ditatorial, o ministro das Comunicações defende que troquemos a internet pela TV, como lembrou o Guga Türck: ontem eu apenas havia criticado a declaração do ministro, sem reparar a coincidência.

O Google é o Grande Irmão?

bigbrother

Em cada artigo na Desciclopédia (a hilária sátira da Wikipédia), aparecem frases (em geral fictícias, mas engraçadas) sobre o tema. Em todos, aparece a expressão “Você quis dizer: …”, e abaixo “Google sobre [tema do artigo]”.

Pois bem: no artigo sobre o Grande Irmão, a frase do Google era “Você quis dizer: Google“. Não bastasse isso, o artigo ainda era vigiado! Pelo próprio Grande Irmão (Google?), claro.

Ontem, ao acessar as estatísticas do Cão, vi que o blog havia sido citado em algum fórum do Orkut. Algo que já havia acontecido outras diversas vezes. Fora do Orkut desde março de 2006, me era vedada a possibilidade de ver onde havia sido citado o blog.

Como tenho um e-mail no Google (Gmail), isso quer dizer que tenho conta no Google. Logo, poderia me recadastrar no Orkut. Decidi então fazê-lo, mas não chamar ninguém. Apenas veria onde o Cão havia sido citado, e depois sairia. Não me passava pela cabeça voltar a cuidar de perfil, mensagens e outros inconvenientes.

Logo que completei o processo de cadastro, apareceu uma lista de “sugestões de amigos”. E logo no começo da lista, uma guria que eu mandaria para o inferno se eu acreditasse na existência dele.

Apavorado, fiz o que eu pretendia fazer: vi de onde no Orkut haviam clicado no meu blog. Era uma comunidade sobre futebol…

Logo, desfiz meu cadastro novamente. O Orkut é do Google, e ele sabia quais seriam meus “amigos”. Havia gente legal na lista (e faltava muita também), mas a presença dessa guria é a prova: o Google é o Grande Irmão! E assim como na obra de George Orwell, ele é do mal, mas quer que o amemos!

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Como o post é de humor, não posso deixar de recomendar essa, apesar de não ser relacionado ao fato acima.

E não custa nada dizer a verdade para não apavorar os mais impressionáveis: as “sugestões de amigos” do Orkut eram baseadas em quem tem meu endereço do Gmail. Sim, o Google sabe muito, mas só porque tem o meu e-mail.

“Diletas” Já!

Caderno "Domingo" do Correio do Povo, 22 de janeiro de 1984 (clique para ampliar)

Caderno "Domingo", Correio do Povo, 22 de janeiro de 1984 (clique para ampliar)

O ano era 1984. Ao contrário do que previra George Orwell, (ainda) não vivíamos em uma sociedade da vigilância total. O que não quer dizer que fosse um mundo muito democrático: aqui no Brasil, os militares ainda estavam no governo.

Porém, a ditadura iniciada em 1964 se encaminhava para seu final, conforme a idéia de uma abertura “lenta, gradual e segura”. Pela primeira vez, se vislumbrava a eleição de um civil para a Presidência da República, após 20 anos de governos militares. Mas, conforme previa a Constituição de 1967, a escolha do sucessor do general Figueiredo se daria de forma indireta, via Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985.

Em março de 1983, o deputado Dante de Oliveira (PMDB-MT) apresentou uma proposta de emenda constitucional para reestabelecer a eleição direta para presidente. Para mostrar à ditadura militar que o povo queria votar, diversos líderes políticos decidiram mobilizar a sociedade. Em 27 de novembro de 1983 foi realizado um comício no Pacaembu (São Paulo), e no dia seguinte, diversos governadores oposicionistas assinaram manifesto por eleições presidenciais diretas em 1984.

Zero Hora, 14 de janeiro de 1984 (capa)

Zero Hora, 14 de janeiro de 1984 (clique para ampliar)

A campanha adotou as palavras de ordem “Diretas Já!” e “Eu quero votar para presidente”. O primeiro comício aconteceu em Curitiba, no dia 12 de janeiro, reunindo 60 mil pessoas. No início da tarde do dia seguinte, uma passeata de 10 mil pessoas percorreu o Centro de Porto Alegre, apesar do forte calor – que provocou indisposição no governador mineiro Tancredo Neves, impedindo sua ida ao comício de lançamento das “Diretas Já” no Estado, realizado na noite de 13 de janeiro em Cachoeira do Sul, com a presença de 5 mil pessoas.

No dia 14 de janeiro, o veraneio deu lugar à politização em Camboriú (SC), onde um comício reuniu 15 mil pessoas. A campanha cresceu e ganhou força com o comício realizado na Praça da Sé, em São Paulo, no dia do aniversário da cidade (25 de janeiro) – utilizado pela Globo como pretexto para encobrir a verdadeira razão de um público estimado entre 250 mil e 400 mil pessoas se reunir.

O título “à moda Cebolinha” se deve ao fato de que o meu pai me ensinou a gritar “Diretas Já!”, mas eu, com 2 anos e meio de idade em abril de 1984 (quando se realizaram os maiores comícios da campanha, dentre eles o que reuniu 200 mil pessoas em frente à Prefeitura de Porto Alegre), gritava “DILETAS JÁ!”.