Viver bastante vale a pena, seja por muito ou pouco tempo

O título parece uma frase sem sentido, mas não é. Viver bastante, não é a mesma coisa que viver por muito tempo.

Na última segunda-feira, 5 de março, minha avó Luciana completou 90 anos de idade. Mais que isso: 90 anos de vida. Pois ela nunca aceitou aquele papel que costuma ser designado aos idosos, o de apenas existirem. Faz comida (com especial preocupação voltada ao almoço de sábado, que é quando meu irmão e eu costumamos visitá-la), toma cerveja, lava louça, roupa, e até pouco tempo atrás, ia sozinha ao supermercado e ao banco – só não tem mais ido porque já levou dois tombos graças às “maravilhosas” calçadas de Porto Alegre, o que é muito perigoso para quem tem osteoporose.

A verdade é que existir não é igual a viver. Conheço idosos que são “úteis”, não no sentido de “trabalhar para fazer o sistema funcionar” (como pregam os defensores do status quo), e sim, de procurarem fazer alguma diferença, e assim serem importantes para as pessoas que conhecem – e muitas vezes, até para quem não conhecem.

Ao mesmo tempo conheço gente com menos idade que a minha avó, mas que só existe para se alimentar e assistirem televisão – e falo da programação de domingo da TV aberta; antes fossem os documentários do National Geographic ou do Discovery. Sinceramente, não consigo me imaginar vivendo assim: só de tentar, já me vem à cabeça a palavra “depressão”.

Não sei se viverei por tanto tempo, igual à minha avó (que deve ir ainda mais longe). Mas se eu chegar aos 90, quero que seja igual a ela: podendo fazer a maior parte das coisas que gosto. Mas, caso eu tenha muitas limitações, espero que não me impeçam de ler bastante.

Anúncios

Maioridade

Há algumas semanas, o Vicente Fonseca fez um comentário no Facebook que demonstra bem o quanto é interessante essa história de “ficar velho”. Ele chamou a atenção para o fato de que pessoas nascidas em 1994 completam 18 anos em 2012.

Tá, até aí, nada mais natural, pura “questão de matemática”. Os números podem ser “frios”; porém, o fato é que ele lembra bem daquele ano de 1994 – e eu também.

Alguém poderá dizer que lembramos com facilidade porque 1994 foi realmente um ano marcante: Copa do Mundo, morte de Ayrton Senna, Plano Real, rebelião do Presídio Central, neve granular em Porto Alegre, Grêmio bi da Copa do Brasil… Bastante coisa para 365 dias. Porém, 1989 também foi um ano histórico (massacre da Praça da Paz Celestial, primeiras eleições presidenciais no Brasil depois de 29 anos, queda dos regimes autoritários ditos “socialistas” na Europa Oriental etc.), mas não teve para mim o mesmo significado: lembro “em primeira mão” (ou seja, sem ser graças ao conhecimento adquirido posteriormente) apenas de que foi o ano em que entrei no Floriano, de ter torcido para o Brizola no primeiro turno e para o Lula no segundo, e de ter ganho um Pense Bem no Natal.

Já de 1994, lembro bem de todos aqueles fatos que citei. Além de acontecimentos mais pessoais como, por exemplo, a apendicite que me mandou para uma sala de cirurgia no mês de abril.

Agora, como entender que gente nascida naquele ano, que não lembra nada da Copa do Mundo mais marcante para nossa geração (a dos nascidos nos anos 80), que não conheceu inflação de verdade (quando os preços subiam todos os dias), agora esteja em idade de prestar vestibular, tirar carteira de motorista, ser obrigada a votar e se alistar no Exército? (Lembram do filho do Bebeto, que ele “embalou” após marcar aquele gol contra a Holanda? Pois é…)

Pois é, tudo que aconteceu em 1994 completa 18 anos em 2012. Passou-se o mesmo tempo que o compreendido entre 1981 e 1999 – com a diferença de que em 1999 (quando completei 18 anos) eu não lembrava de absolutamente nada acontecido em 1981 sem precisar me “socorrer” de memórias alheias e livros de História.

Dois dias unidos por 30 anos

Foi num 15 de outubro, em 1981, que este blogueiro veio ao mundo.

Já este sábado, 15 de outubro de 2011, é dia de exigir um outro mundo possível. Afinal, “imaturidade” é defender o sistema injusto que temos.

Em comum entre as duas datas, não apenas o período exato de 30 anos que ao invés de separá-las, as une. Há também a ideia de “nascimento” (ambos difíceis, em partos complicados), e não apenas deste que vos escreve.

O que este 15 de outubro significará no futuro, não temos como saber agora. Mas a esperança é de que represente o dia no qual, em todo o mundo, um outro começou a nascer, “da barriga deste, infame”, como disse Eduardo Galeano no acampamento dos indignados na Praça Catalunya, em Barcelona, no último mês de maio. (E quem sabe, daqui mais 30 anos, eu possa lembrar orgulhoso do dia em que completei os primeiros 30.)

Isto sim que é referência para o Grêmio

3 de maio de 1981. Há 30 anos, o Grêmio era campeão brasileiro pela primeira vez.

Taí a inspiração para tentar reverter a dificílima situação na Libertadores (e também para depois): o Grêmio teve de superar muitas dificuldades ao longo do Campeonato Brasileiro de 1981, e ao chegar à decisão contra o São Paulo, o adversário era considerado o favorito absoluto. (Bem diferente de uma certa partida na qual Paulo Odone resolveu buscar inspiração, em que na base do “drama” o Tricolor conseguiu apenas o que era sua obrigação.)

GRANDE GRÊMIO!

————

Para ler (e ver, e também ouvir…) mais duas dicas: o especial Grêmio no Brasileiro 1981 (do blog Grêmio 1903) e o blog Brasileiro1981, do André Kruse (do blog Grêmio 1983).

30 anos do atentado terrorista no Riocentro

Na mais recente campanha eleitoral, fomos bombardeado (geralmente, via e-mail) com a baixaria de que “Dilma foi terrorista”, e que por isso não deveríamos votar nela. Ora, se havia motivos para não votar nela, alguns eram os que apresentei em um texto postado em 5 de maio do ano passado (acabaria mudando o voto cinco dias antes do 1º turno). O fato dela ter combatido a ditadura militar (embora sem provas de que tenha participado de ações armadas), que motivou a alcunha de “terrorista” por parte dos reacionários, na minha opinião pesa a favor dela, e não contra.

Porém, o que os mesmos reaças teriam a dizer do acontecido na noite de 30 de abril de 1981? Naquela ocasião, enquanto acontecia no Riocentro um show de música popular para um público de 20 mil pessoas (comemorativo ao 1º de Maio), duas bombas explodiram no lado de fora: uma delas, dentro de um carro que manobrava no estacionamento do local; já a outra, mais potente, foi lançada contra a casa de força do Riocentro, mas não chegou a atingir seu alvo, e assim a explosão não resultou na escuridão que provavelmente causaria o pânico nas milhares de pessoas que assistiam ao show, o que obviamente teria consequências funestas. Dentro do automóvel Puma destruído por uma das bombas, estavam dois militares do Exército: um morreu na hora (sargento Guilherme do Rosário), o outro (capitão Wilson Machado) sobreviveu à explosão.

O atentado terrorista no Riocentro não foi um fato isolado. Desde o início do ano anterior, várias bombas já tinham explodido em várias partes do Brasil, inclusive com consequências fatais: em 27 de agosto de 1980, a explosão de uma carta-bomba na sede da OAB-RJ resultou na morte de sua secretária, Lyda Monteiro.

Por motivos óbvios, o governo (militar e ainda ditatorial, apesar da “abertura lenta, gradual e segura”) acusava “radicais de esquerda” de serem os autores dos atentados. Porém, tal hipótese era absurda, visto que a feroz repressão dos anos 60 e (principalmente) 70 acabara com os grupos armados de esquerda no Brasil. E o fato da bomba no Puma ter explodido no colo de um dos seus passageiros (que ainda por cima eram militares) não deixou dúvidas de que era a extrema-direita que, por meio do terrorismo, pretendia “fabricar” uma ameaça, de modo a “justificar” a retomada de uma repressão mais severa e, consequentemente, a continuidade da ditadura por mais tempo. O que obviamente interessava ao governo de então.

A investigação do atentado foi feita no âmbito da Justiça Militar, e o inquérito acabou arquivado em setembro de 1981. A reabertura do caso, em 1999, foi breve: três meses depois, o processo foi novamente arquivado; apesar de alguns envolvidos terem sido indiciados, nenhum deles cumpriu pena. Em 30 de abril de 2001 (ou seja, há dez anos), o crime prescreveu.

————

Agora voltemos ao começo do texto, e à questão do uso do termo “terrorista”. Acusavam (erradamente) Dilma de ter participado de ações armadas contra a ditadura, considerando isso como “terrorismo”, mesmo que os alvos fossem específicos (ou seja, gente ligada ao regime, de modo a conseguir a libertação de presos políticos).

Pode-se até questionar o método dos militantes de esquerda em sua luta contra a ditadura (afinal, houve inocentes que acabaram morrendo). Mas não é possível falar sério deixando de considerar o contexto histórico: mesmo que se consiga realmente provar que as guerrilhas pretendiam instalar “uma ditadura comunista” no Brasil, não foi contra um regime democrático que elas pegaram em armas, e sim contra o terrorismo de Estado que imperava desde 1964.

Bem diferente dos que tramaram os diversos atentados acontecidos em 1980 e 1981 em várias partes do país. Estes, eram contra a democracia – que, aliás, ainda nem tinha sido restaurada, mas só tal possibilidade já era suficiente para deixá-los em polvorosa. E aquelas bombas não tinham alvos específicos: o objetivo era assustar a população. Ou seja, terrorismo.

Sinal de que estou ficando velho

Não bastasse o claro viés de direita que a Zero Hora dá às notícias que publica, agora aquela seção “Há 30 anos em ZH” lembra fatos acontecidos no ano em que eu nasci.

Pois é, preciso ir me acostumando com a ideia de que, a partir de 15 de outubro, sempre que perguntarem a minha idade a resposta não começará mais com “vinte”…

————

30 é a metade de 60, e um terço de 90. Bacana, né?