Se aproxima a “era Soylent Green”

Soylent Green é um filme de 1973, dirigido por Richard Fleischer. Foi lançado no Brasil com o nome de “No Mundo de 2020” (ah, nossos geniais tradutores de nomes de filmes…); em Portugal a tradução foi mais adequada: “À Beira do Fim”.

A história se passa em Nova York, que em 2022 tem 40 milhões de habitantes e um clima muito quente devido ao efeito estufa. Carnes, frutas e legumes se tornaram raros, e portanto, itens caríssimos, aos quais só a elite tem acesso. A maior parte da população é pobre e se alimenta de alimentos processados pela companhia Soylent – são tabletes conhecidos por suas cores. Em 2022 a “novidade” é o Soylent Green, que segundo a publicidade é feito de plâncton.

O protagonista da história é o detetive Robert Thorn (Charlton Heston), que vive com seu amigo “Sol” Roth (Edward G. Robinson), de idade avançada e que tem lembranças de uma Terra mais habitável e com maior disponibilidade de alimento. Thorn é designado para investigar o assassinato de um dos principais acionistas da companhia Soylent e é ajudado por Roth. Este descobre algo estarrecedor (o que explica a decisão das autoridades pelo encerramento das investigações) e por conta disso decide pôr fim à própria vida em uma clínica de suicídio assistido. Roth agoniza assistindo a imagens da Terra de antigamente, com florestas, animais, enfim, bastante vida, coisa rara em 2022.

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Cenário apocalíptico demais, né? Já estamos em 2014 (ou seja, não falta tanto para 2022) e Nova York não tem 40 milhões de habitantes, não nos alimentamos de Soylent Green

Mas, em Pequim, para ver o nascer do sol é preciso olhar para uma tela de LED, pois os elevados níveis de poluição atmosférica na capital chinesa tornam quase impossível enxergar o céu.

Imagem: ChinaFotoPress/Getty Images

Imagem: ChinaFotoPress/Getty Images

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40 anos de um tenebroso 11 de setembro

Numa manhã de terça-feira, uma barbárie chocou o mundo e causou milhares de mortes tanto naquele dia como nos vários anos subsequentes. Foi em Santiago do Chile, em 11 de setembro de 1973 – há exatos 40 anos, portanto. O violento golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet dava fim ao governo de Salvador Allende e à tentativa de construir o socialismo de maneira distinta em relação a outros países: pela via eleitoral.

Os limites da “via chilena para o socialismo” já ficaram claros na própria eleição presidencial de 1970, quando Salvador Allende foi o mais votado, mas sem o apoio de mais da metade do eleitorado: obteve 36,6% dos votos, contra 34,9% do conservador (e ex-presidente) Jorge Alessandri. A decisão ficou nas mãos do Congresso, que elegeu Allende em 24 de outubro: o novo presidente tomou posse no dia 4 de novembro com o desafio de promover a transição ao socialismo sem contar com maioria parlamentar.

O plano de governo da Unidade Popular (coligação de partidos de esquerda pela qual Allende foi eleito) combinava políticas econômicas de caráter socialista (como a estatização de áreas estratégicas da economia) com outras que visavam à redistribuição da riqueza de forma a reativar a economia do país. Algumas das medidas tiveram grande apoio parlamentar, como a nacionalização do cobre; porém, não agradavam aos Estados Unidos, visto que empresas estadunidenses que exploravam o minério no Chile tornaram-se devedoras de grandes cifras ao Estado chileno (em 1975, já sob a ditadura de Pinochet, o governo “indenizou” uma das mineradoras).

Colocar os interesses nacionais acima daqueles defendidos pelos Estados Unidos fez com que não tardasse para o Chile começar a ser “sufucado” pela via econômica: o governo estadunidense, chefiado por Richard Nixon, “investiu” milhões de dólares para desestabilizar o país, promovendo desde greves patronais (“locautes”), até financiamento de grupos terroristas de extrema-direita (como o Pátria y Libertad) que contribuíram sobremaneira para o aumento da violência política no país. Porém, nas eleições legislativas de março de 1973, a UP aumentou sua base parlamentar (embora ainda fosse minoritária), impedindo que a oposição obtivesse dois terços das cadeiras e assim pudesse dar andamento a um processo de impeachment contra Allende, faltando três anos para o término de seu mandato. Assim, podemos dizer que ambos os lados perderam: o governo não tinha maioria para aprovar seus projetos, e a oposição não tinha como derrubar Allende.

As Forças Armadas chilenas tinham certa tradição constitucionalista, porém, em 29 de junho houve uma primeira tentativa de golpe militar, o chamado Tancazo. O levante fracassou, mas ficou claro que não se podia descartar a derrubada do governo pela força, dada a impossibilidade de fazê-lo pela via institucional. O comandante do Exército, general Carlos Prats, defendia a lealdade à Constituição, mas após uma manifestação de esposas de generais defronte à sua casa, e com pouco apoio de seus comandados, renunciou e recomendou o nome do general Augusto Pinochet, considerado “apolítico”, para substituí-lo. Allende atendeu à recomendação e, em 23 de agosto de 1973, nomeou Pinochet.

Sabendo que dificilmente conseguiria concluir seu mandato (que se encerraria apenas em novembro de 1976), Allende decidiu convocar um plebiscito quanto à sua continuidade na presidência: com isso, provavelmente seria derrotado e renunciaria, mas ao mesmo tempo derrotaria os defensores de um golpe militar.

Porém, como sabemos, o plebiscito jamais foi realizado. Apenas 18 dias depois de ser nomeado, o novo comandante do Exército, Augusto Pinochet, traiu seu chefe liderando um dos mais violentos golpes militares que a América já viu. Enquanto aviões bombardeavam o Palácio de La Moneda, sede do governo, lá de dentro Allende fazia seu último pronunciamento anunciando que não renunciaria, como exigiam os militares; pouco depois, para não se render a eles, cometeu suicídio.

Naquele 11 de setembro de 1973, uma terça-feira, o país que era um dos mais estáveis da América do Sul ingressava em uma cruel e assassina ditadura, que só teria fim em 1990. Sob a mão de ferro do general Augusto Pinochet, o Chile tornou-se “laboratório de testes” para o neoliberalismo, detonando o mito de que liberalismo econômico e democracia são sinônimos: ao contrário, os defensores da “mão invisível do mercado” põem o lucro acima de tudo, inclusive da democracia.

Nobel da Paz: total desmoralização

O presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, reagiu assim à proposta da ONG holandesa Drugs Peace Institute de indicá-lo ao Prêmio Nobel da Paz em 2013:

Estão loucos. Que prêmio da paz, nem prêmio de nada. Se me derem um prêmio desses seria uma honra para os humildes do Uruguai conseguirem um dinheiro a mais para fazer casinhas… no Uruguai temos muitas mulheres sozinhas com quatro, cinco filhos porque os homens as abandonaram e lutamos para que possam ter um teto digno… Bom, para isso teria sentido. Mas a paz se leva interiormente. E o prêmio eu já tenho. O prêmio está nas ruas do meu país. No abraço dos meus companheiros, nas casas humildes, nos bares, nas pessoas comuns. No meu país eu caminho pela rua e vou comer em qualquer bar sem essa parafernália de gente de Estado.

Apesar de Mujica rejeitar a possibilidade, vê-lo indicado – e mesmo premiado – faz sentido. Obviamente ainda há muito pelo que avançar no Uruguai, mas o que já aconteceu serve de exemplo aos países vizinhos e em especial ao Brasil, onde o conservadorismo é muito forte. A ONG holandesa propôs “Pepe” ao Nobel da Paz por sua iniciativa de passar ao Estado o controle da maconha para lutar contra o tráfico de drogas (numa lógica oposta àquela defendida pelos Estados Unidos, ou seja, a “guerra” que apenas gera mais violência e vitima inúmeras pessoas na América Latina), mas o Uruguai de Mujica também é o primeiro país na região a legalizar o aborto até a 12ª semana de gestação, o que salva a vida de muitas mulheres – situação diferente da verificada no Brasil. Sem contar inúmeras declarações do presidente uruguaio: considerado “o mais pobre do mundo” por seu estilo de vida simples, Mujica diz que “pobre é quem precisa de muito para viver”; recentemente, recomendou aos jovens que dedicassem mais tempo ao amor do que ao consumo.

Resumindo: Mujica mereceria, e muito, o prêmio. Porém, é o Nobel da Paz que não está mais à altura de “Pepe”. Instituído por iniciativa do químico sueco Alfred Nobel (inventor da dinamite) e entregue desde 1901, já laureou pessoas realmente importantes para a paz mundial, como Martin Luther King e Nelson Mandela. Porém, há também muitos outros interesses por trás das decisões.

Em 11 de setembro de 1973, o Chile sofreu um sangrento golpe militar porque nas palavras de Henry Kissinger, os Estados Unidos não podiam “deixar um país se tornar comunista devido à irresponsabilidade de seu próprio povo”. A “irresponsabilidade” da qual falava Kissinger, então secretário de Estado dos EUA, era a eleição do socialista Salvador Allende à presidência do Chile, em 1970. No final daquele ano de 1973, adivinhem quem ganhou o Prêmio Nobel da Paz? Ele mesmo, Henry Kissinger… A escolha se deveu a acordo com o objetivo de pôr fim à Guerra do Vietnã, razão pelo qual o vietnamita Le Duc Tho também foi laureado – mas este, dignamente, recusou o prêmio.

Ano passado, o prêmio foi atribuído à União Europeia. Foi piada pronta: a UE ganhou o Nobel da Paz, mas perdeu o de Economia…

Mas nada pode ser pior do que a escolha de 2009, como se percebe cada vez mais. Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, foi premiado “pelos esforços diplomáticos internacionais e cooperação entre povos”. Um Nobel da Paz que faz a guerra: enquanto Obama “se esforçava diplomaticamente”, as guerras no Afeganistão e no Iraque prosseguiam.

E agora, Barack Obama prepara mais uma “diplomática” ação pela “paz mundial”. O alvo da vez é a Síria, em guerra civil desde 2011, devido à acusação de que as forças do ditador Bashar al-Assad teriam usado armas químicas. Há vários relatos de que realmente teriam acontecido ataques com o uso de gases venenosos, mas não se sabe de qual lado partiu. No entanto, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, diz ter provas de que o governo sírio usou armas químicas contra os adversários, situação que faz lembrar as “provas contundentes” de que o Iraque tinha armas químicas e biológicas em 2003: foi o que justificou a invasão mesmo após várias inspeções da ONU não encontrarem nada – e de fato, não havia nada; talvez apenas as notas fiscais emitidas pelos próprios Estados Unidos quando Saddam Hussein comprou tais armas para utilizá-las contra o Irã, na década de 1980.

E provavelmente Kerry saiba da posse de armas químicas pela Síria desde aquele jantar em 2009, época em que Assad era aliado

Allende: foi suicídio, não assassinato

Cartum de Carlos Latuff em homenagem a Salvador Allende (2007)

Todas as vezes que lembrei o golpe militar no Chile, disse que não havia a confirmação de como o presidente Salvador Allende tinha morrido: se fora suicídio ou assassinato. Pois (só) hoje descobri que desde o ano passado já há a confirmação: Allende realmente se suicidou. Aliás, a própria família dele já dizia isso, só faltava a perícia comprovar.

Tinha pensado apenas em pôr uma “atualização” reparando o meu texto de ontem (e mesmo o do ano passado e anteriores), mas optei por um novo post e uma espécie de mea culpa. Até para poder escrever mais do que em uma simples “atualização”.

Afinal, se a família de Allende dizia que ele cometeu suicídio, por que insistia tanto em questionar tal informação? Obviamente não era por falta de prova científica, e sim, por conta da ideia de que o suicídio é uma “fuga”. Assim, na dúvida, preferia acreditar na versão de que ele tinha sido assassinado.

Dizer que o presidente chileno se suicidou ao invés de ter sido assassinado parecia dar a impressão de que ele “se acovardou” diante do golpe, “não lutou até a morte”. Porém, basta lembrar tudo o que aconteceu para perceber que, se tem algo que Salvador Allende não fez em 11 de setembro de 1973, foi “fugir”.

Mesmo com o Palácio de la Moneda sob bombardeio, Allende lá permaneceu. Os militares exigiram a renúncia do presidente, o que talvez permitisse que ele saísse vivo do palácio; ainda assim, Allende recusou. Preferiu não capitular.

E, àquela altura, sabendo que não havia mais possibilidades de derrotar os golpistas, fica claro que a única maneira de Salvador Allende não se entregar seria cometendo suicídio. Pois esperar que os militares invadissem o palácio para matá-lo ou levá-lo preso seria exatamente uma rendição.

O outro 11 de setembro

Há 11 anos o dia 11 de setembro virou, para muita gente, um símbolo de barbárie. Não foi sem justificativa: cerca de 3 mil pessoas perderam suas vidas nos atentados terroristas que aconteceram naquela terça-feira de 2001 nos Estados Unidos. Uma das consequências daquele trágico dia foi a “guerra ao terror” travada pelos EUA no Afeganistão e no Iraque, que já matou quase um milhão de pessoas.

Porém, é sempre importante lembrar o outro 11 de setembro, que já era um símbolo de barbárie desde 1973. Há 39 anos, também uma terça-feira, um golpe militar que contou com o apoio dos Estados Unidos derrubou o presidente do Chile, Salvador Allende. O general Augusto Pinochet, que fora nomeado comandante do Exército pelo próprio Allende, traiu seu comandante-em-chefe e liderou a criminosa ação militar que resultou no bombardeio do Palácio de la Moneda, sede da presidência chilena. Allende ensaiou uma resistência, mas ao perceber que não teria como derrotar os golpistas, fez um último pronunciamento pelo rádio. Depois, cometeu suicídio ou foi assassinado – ainda não há uma certeza sobre sua morte.

Pinochet assumiu o poder à força, para governar ditatorialmente até 1990 e comandar uma repressão que foi das mais sangrentas que viu a América Latina. Milhares de pessoas foram assassinadas.

Assim como lembramos e lamentamos as vidas perdidas naquela terça-feira de 2001, é preciso também fazer o mesmo em relação às vítimas do 11 de setembro de 1973.

Terça-feira, 11 de setembro

Em 11 de setembro, uma terça-feira, uma barbárie causou a morte de milhares de pessoas. Teve importantes reflexos na economia, na política e até mesmo no futebol – o ano seguinte seria de Copa do Mundo.

Sim, falamos do 11 de setembro de 2001. Mas também do 11 de setembro de 1973.

Na terça-feira, 11 de setembro de 1973, um golpe militar depôs o presidente do Chile, Salvador Allende. O comandante do Exército, Augusto Pinochet, que havia sido nomeado pelo próprio Allende, chefiou a criminosa ação na qual o Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, foi bombareado por caças da Força Aérea. Allende ensaiou uma resistência, mas ao perceber que não teria como superar as forças golpistas, fez um último pronunciamento no rádio. Depois, cometeu suicídio ou foi assassinado – ainda não há uma certeza sobre a morte do presidente chileno.

O general Augusto Pinochet assumiu o poder, e implantou uma das mais sangrentas ditaduras que já teve a América Latina. De 1973 a 1990, milhares de pessoas foram vitimadas pela repressão. Qualquer um que fosse “suspeito” de simpatizar com o governo de Allende podia ser preso e brutalmente torturado – isso quando não fosse executado ou “desaparecido”.

A economia chilena foi bastante impactada pelo golpe. Antes, o país estava quase paralisado, graças a decisão dos Estados Unidos de “sufocar” o Chile pela via econômica, para não deixar que um país se tornasse comunista “devido à irresponsabilidade de seu povo” como disse Henry Kissinger (ou seja, para ele o povo chileno não valia nada). Com o fim da democracia, os dólares voltaram a entrar no Chile, que transformou-se em “laboratório de testes” para o neoliberalismo dos “Chicago Boys”, cujo maior expoente era Milton Friedman. Exato: não foi com Ronald Reagan nem com Margaret Thatcher que ele começou, mas sim com Augusto Pinochet… Detona-se, assim, o mito segundo o qual liberalismo econômico e democracia são sinônimos.

Até o futebol sofreu o impacto do 11 de setembro de 1973. Mais precisamente, a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha Ocidental. Havia uma preocupação muito grande com a segurança (como veremos no Mundial de 2002, menos de um ano após os atentados nos EUA), devido ao terrorismo: nos Jogos Olímpicos de Verão de 1972, realizados também na Alemanha Ocidental (na cidade de Munique), o grupo Setembro Negro invadiu a Vila Olímpica e assassinou onze atletas israelenses. Mas o impacto do 11 de setembro se deu dentro de campo mesmo: nas repescagens das eliminatórias para a Copa, uma das vagas seria disputada entre uma seleção sul-americana e uma europeia; o Chile seria esta equipe da América do Sul, e a União Soviética a da Europa.

A primeira partida foi disputada em 26 de setembro de 1973 (portanto, já depois do golpe) em Moscou, e terminou empatada em 0 a 0. O jogo decisivo estava marcado para 21 de novembro no Estádio Nacional de Santiago, que após o 11 de setembro se tornara um campo de concentração no qual inúmeras pessoas foram torturadas e fuziladas. Os dirigentes soviéticos pediram que a partida fosse realizada em outro local que não o Estádio Nacional, mas a FIFA se fez de surda e com isso, a seleção da URSS não viajou a Santiago para jogar. Desta forma o Chile garantiu a vaga à Copa sem disputar o jogo que a URSS poderia muito bem vencer apesar de jogar fora de casa, mas para “cumprir tabela” os chilenos entraram em campo e marcaram um gol no arco vazio.

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Em 11 de setembro de 2001, uma terça-feira, quase 3 mil pessoas morreram vítimas dos atentados terroristas nos Estados Unidos. Mas em consequência disso, quase um milhão de vidas foram tiradas nas guerras travadas pelos EUA no Afeganistão e no Iraque. Aquele trágico dia tornou-se “justificativa” para matar ainda mais gente.

A economia sofreu as consequências do 11 de setembro de 2001. Os Estados Unidos vivem hoje a sua pior crise econômica desde 1929, e uma das causas disso são os gastos excessivos com as guerras “justificadas” pela tragédia.

E o futebol, claro, também foi afetado. Na Copa de 2002, realizada na Coreia do Sul e no Japão, a preocupação com a segurança foi muito maior do que nos Mundiais anteriores. E a seleção dos Estados Unidos teve de contar com esquema especial de proteção, devido ao temor de ataques terroristas.

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Como bem disse o chileno Pablo no vídeo que abre este post, em uma carta dirigida aos familiares de vítimas do 11 de setembro de 2001: os chilenos, assim como todo o mundo, lembram as vidas perdidas de 2001; e é preciso que os estadunidenses, e o mundo também, lembrem de 1973.

11 de setembro

Hoje, os Estados Unidos lembram o nono aniversário dos atentados de 2001, que vitimaram quase 3 mil pessoas e foram a desculpa que o presidente da época, George W. Bush, precisava para fazer o que mais gosta: “brincar” de guerra. Sim, “brincar”, pois é que nem criança brincando com seus soldadinhos: independentemente do resultado do confronto, ela sequer se machuca – bem diferente dos soldados de verdade que foram enviados ao Afeganistão e ao Iraque, assim como dos que eles combatiam e também dos civis inocentes (assim como os que morreram em 11 de setembro de 2001).

Mas hoje é também dia de lembrar os 37 anos da derrubada de Salvador Allende no Chile – num 11 de setembro que, assim como em 2001, caiu numa terça-feira. A “grande mídia” prefere lembrar os atentados nos Estados Unidos sem falar muito sobre o golpe comandado pelo general Augusto Pinochet em 1973: talvez seja porque ela era predominantemente favorável às ditaduras militares.

Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Postales e da Rádio Corporación. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos.

A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.

(Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973)

Em um 11 de setembro

A situação política na Bolívia anda por demais complicada, devido aos violentos protestos promovidos pela oposição contra o governo de Evo Morales.

Muita gente acredita que Evo “tem o exército ao seu lado”, e que por isso é difícil que aconteça um golpe na Bolívia. Acho temerária esta crença. Pois num outro mês de setembro, em 1973, o presidente do Chile, Salvador Allende, acreditava ter o exército ao seu lado. E na terça-feira, dia 11, percebeu que muitos militares, que diziam serem leais ao governo e à constituição, na verdade apenas conspiravam, e falavam aquilo da boca pra fora.

Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Postales e da Rádio Corporación. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos.

A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.

(Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973)

11 de setembro

Impossível não escrever sobre o 11 de setembro.
Uma data que marca um atentado contra todas as liberdades possíveis dos povos.
Mancha de sangue a história da humanidade.
E passa a ser um marco para um novo mundo que a procede.
Em 11 de setembro de 1973 morria assassinado Salvador Allende – um presidente socialista eleito democraticamente pelo povo chileno.
Estava, então, se consolidando o projeto imperial estadunidense para a América Latina.

Para ler mais, vá ao Alma da Geral, onde li o excelente texto que serve para lembrar que 11 de setembro trágico não aconteceu só nos Estados Unidos.