E agora, onde marco encontro com quem não é de Porto Alegre?

Porto-alegrense: pense em alguma pessoa querida que mora em outra cidade e não conhece Porto Alegre. E de repente ela avisa: “semana que vem estarei aí”. Primeira coisa que passa pela cabeça: montar um “roteiro turístico”, para levar ela aos lugares bacanas da cidade.

O roteiro obviamente varia de acordo com quem o monta e com os gostos da visita, pois nem todos gostam dos mesmos lugares. Mas duvido que alguém deixaria o Mercado Público fora. Se a visita vier durante o verão, então, é praticamente obrigatório tomar o delicioso e refrescante caldo de frutas na Banca 40. O meu roteiro para a pessoa de outra cidade, caso ela não se hospedasse em meu lar, começaria pelo Mercado: um ponto de referência, central e histórico, que nenhum porto-alegrense desconhece, de modo que seria fácil orientar visitas de fora sobre como chegar lá.

mercado

Como viram, usei as palavras “deixaria”, “começaria” e “seria”. Pois agora, por um certo tempo, o Mercado ficará fora do roteiro turístico, e se quiser marcar encontro com pessoas vindas de outras cidades, terá de ser do lado de fora.

Quando soube do incêndio, pensei no pior: que o prédio seria totalmente consumido pelas chamas. Felizmente, o estrago foi menor do que se previa, e o térreo praticamente não foi atingido pelo fogo.

Não foi a primeira vez que o Mercado Público teve sua existência ameaçada. Ele já sofreu três incêndios, e em 1972 o então prefeito Telmo Thompson Flores queria derrubá-lo para dar passagem aos carros e construir uma imensa esplanada que provavelmente seria um estacionamento – sonho ainda acalentado pelos “defensores do progresso” mas “adaptado”, já que a maioria da população jamais concordou com a demolição do Mercado: agora “eles” querem uma garagem subterrânea.

Folha da Manhã, 23 de maio de 1972, pág. 35

Folha da Manhã, 23 de maio de 1972, pág. 35

Depois de resistir a tudo isso, não resta dúvidas de que nosso Mercado Público retornará logo. Só espero que depois disso, seja melhor protegido: tanto com um Plano de Prevenção contra Incêndios (o PPCI do Mercado estava vencido desde 2007) e também com um Corpo de Bombeiros melhor estruturado para combater incêndios. Aliás, certamente é o que mais se deseja no Rio Grande do Sul, ao qual o fogo já causou sofrimento demais neste 2013 que mal passou da metade.

“Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”

Em 30 de outubro de 1969, o general Emílio Garrastazu Médici, fanático por futebol e que costumava frequentar estádios, tornou-se ditador do Brasil. Durante seu período de governo (até 15 de março de 1974), o país viveu o período mais sangrento da repressão política, com a intensificação da tortura e dos desaparecimentos forçados. Continuar lendo

Morre o criador do “Jean Marie”

O meio esportivo do Rio Grande do Sul está de luto pelo falecimento, no final da tarde da terça-feira, de Escurinho, ex-atacante do Inter e exímio cabeceador. O jogador recebeu justas homenagens de vários ex-colegas, dirigentes, até mesmo do Grêmio e de ídolos tricolores, como Tarciso.

Na terça também se perdeu outro nome ligado aos esportes. Trata-se do jornalista Antônio Carlos Porto, 81 anos, que sofria de câncer. Porto destacou-se como cronista esportivo, e trabalhou nos jornais Folha da TardeFolha Esportiva – no último, assinava a coluna “De alto a baixo”.

Foi justamente na Esportiva que Antônio Carlos Porto começou a definir o título de minha monografia de conclusão de curso, 37 anos antes dela ser escrita.

Em 1972, o Brasil celebrava os 150 anos de sua independência política. Dentre os diversos eventos (dos quais todos eram vistos pelo governo ditatorial como oportunidade de fazer propaganda), havia um torneio de futebol, chamado “Taça Independência” – ou também “Minicopa”, por reunir várias seleções nacionais, algumas delas fortes, como Argentina, Uruguai e França. Apesar das ausências de Alemanha Ocidental, Inglaterra e Itália (na época, as únicas seleções europeias campeãs mundiais), por perceberem que o campeonato era de cunho mais político do que esportivo – e não apenas por parte da ditadura militar: o presidente da CBD, João Havelange, convidou algumas seleções fraquíssimas como a Venezuela (pagando uma cota bem maior do que a cobrada pela Seleção Brasileira), de olho em seus votos na eleição para a presidência da FIFA que ocorreria em 1974 e seria vencida por Havelange.

No dia 15 de maio de 1972 o técnico da Seleção Brasileira, Zagallo, anunciou a lista de jogadores convocados para representarem o Brasil na “Minicopa”. E nela não constava o nome de Everaldo, lateral-esquerdo do Grêmio titular da Seleção de 1970 – e que mantivera a titularidade desde então. Mais do que passá-lo para a reserva, Zagallo sequer relacionava Everaldo para vestir a camisa da Seleção, e também não convocara mais nenhum jogador de clubes do Rio Grande do Sul.

É, quem acha que antigamente os gaúchos não eram tão bairristas… Começou uma “guerra” de palavras, via imprensa. Na Folha Esportiva do dia 16 de maio, Antônio Carlos Porto foi o primeiro a “jogar lenha na fogueira”: propôs um boicote aos jogos da “Minicopa” em Porto Alegre, como forma de retaliação à CBD pela ausência de Everaldo na Seleção.

A reação da CBD foi quase imediata. João Havelange afirmou que o boicote à competição que celebrava os 150 anos da independência era uma atitude “antipatriótica” – palavras confirmadas em nota oficial. Porto respondeu em sua coluna do dia 18 de maio:

Até por uma questão de cheiro, poluição ou coisas desta ordem, vamos dispensar qualquer lição de brasilidade que parta do próspero empresário Jean Marie, presidente full-time da CBD. Não vamos invocar os sentimentos de brasilidade de nossa gente e trazer os múltiplos exemplos. Infantilidade ou maldade o chamamento deste sentimento para as coisas simples do futebol, especialmente em se tratando de uma “microcopa” vergonhosamente desprezada pelas seleções mais representativas do Velho Mundo.

Surgiu aí a genial ironia: Havelange acusava os gaúchos de não terem “sentimento de brasilidade”, mas tinha um nome “estrangeiro” – filho de belgas, foi registrado como “Jean Marie Faustin de Godefroid Havelange”. Dali em diante, os colunistas da Folha Esportiva começaram a constantemente chamar o dirigente apenas por seu nome de batismo, sem sequer citarem o sobrenome.

Um dos jogos da Seleção preparatórios para a “Minicopa” – ou “microcopa”, como os colunistas também passaram a constantemente ironizar – estava marcado para o dia 17 de junho, um sábado, em Porto Alegre. O adversário ainda era indefinido quando do início da polêmica pela não-convocação de Everaldo, mas não demorou a surgir uma proposta que, hoje em dia, pareceria notícia d’O Bairrista: uma “seleção gaúcha” (na verdade, um combinado Gre-Nal) desafiar a Seleção Brasileira.

Poucos acreditavam que a CBD aceitasse o desafio, mas o fato é que aceitou. E a partida, realizada no Beira-Rio, reuniu o maior público da história do estádio: mais de 110 mil pessoas estiveram presentes. Ficou claro que não havia uma “revolta separatista em curso”: na preliminar, a Seleção Olímpica do Brasil venceu o Hamburgo por 4 a 1 e foi bastante aplaudida. Já no jogo principal (que acabou empatado em 3 a 3, sem que em nenhum momento os “gaúchos” ficassem atrás no placar), de nada adiantou os dois times entrarem em campo juntos e carregando uma bandeira brasileira: a Seleção de Zagallo foi intensamente vaiada pelo público. Que também lembrou Havelange e sua afirmação quanto à “falta de brasilidade” dos gaúchos, com uma faixa: “Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”.

Quando vi a foto acima pela primeira vez, na hora já achei o texto “perfeito” para ser parte do nome do meu trabalho – que é intitulado “Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”: futebol e identidade “gaúcha” nas páginas da Folha Esportiva (1967-1972). Embora eu tenha escrito o trabalho em 2009, não posso deixar de lembrar que o título começou a surgir em 18 de maio de 1972, naquela coluna de Antônio Carlos Porto.

A Copa e a política no Brasil (parte 3)

Clique e confira a segunda parte, caso ainda não a tenha lido.

Acharam que só porque a Copa acabou, eu não ia continuar com a série? Como eu poderia acabá-la sem falar da época da ditadura, quando o governo mais se utilizou do futebol para obter dividendos políticos?

Desta vez, o texto – longo, por sinal – não se restringe apenas às Copas, mas trata bastante justamente da influência política sobre a Seleção Brasileira na época. Continuar lendo

Véspera de um dia histórico para mim

Faixa levada por torcedores ao jogo "Seleção Gaúcha" x Seleção Brasileira, em 17/06/1972 (foto publicada na Folha da Manhã de 19/06/1972)

Amanhã, eu vou defender minha monstrografia. Será ao final da tarde, assim como a Batalha dos Aflitos em 2005, mas não quero que a banca seja algo tão sofrido. Apesar do trabalho ser justamente sobre futebol.

Eu poderia muito bem divulgar aqui o local em que defenderei o trabalho de título “Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”: Futebol e identidade “gaúcha” nas páginas da Folha Esportiva (1967-1972), aproveitando o efeito do calmante que tomo desde a quarta-feira. Mas prefiro não contar com o ovo no cu da galinha, sei que minha calma é “fabricada”.

De qualquer forma, é natural algum nervosismo, mesmo que meu orientador tenha dito que meu trabalho está “muito bom”. Afinal, trata-se de um verdadeiro rito de passagem: 50 minutos que me tornarão historiador. Não dou a mínima para a formatura, cerimônia que a meu ver não serve para nada, já que o diploma só é entregue depois. Não vou esperar a formatura, prefiro já me sentir historiador depois da banca.

Brabo é que não vou poder sair da banca direto para o bar, beber aquela cerveja gelada. Justamente por causa do calmante, que ainda estará atuando…

————

Amanhã, também defendem seus trabalhos o Alexandre Haubrich e a Cris Rodrigues, do Jornalismo B. BOA SORTE! E para o nervosismo pré-banca, como não sou médico, “receito” um bom e geladinho suco de maracujá! Melhor do que tomar um remédio que transforma em proibição a cervejinha pós-banca…