Comissão da Verdade: “meia-boca” é melhor que nada

A Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei que cria a Comissão Nacional da Verdade. Ou, da “meia verdade”, sob uma visão crítica.

Além de poder ter militares dentre seus apenas sete membros (acharia bem mais interessante que fosse composta majoritariamente por historiadores) e ser de curta duração (dois anos), também abarcará um período muito mais longo do que o necessário: ao invés de se limitar ao intervalo de 31 de março de 1964 a 15 de março de 1985 (ou seja, a ditadura militar propriamente dita), investigará denúncias de violações dos direitos humanos entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988, datas correspondentes às promulgações das duas últimas Constituições democráticas – entre elas, temos a autoritária carta outorgada de 1967 (e sua ainda pior emenda de 1969).

Ainda assim, celebro – e muito – a sua aprovação, embora ainda seja preciso que o projeto passe pelo Senado. Finalmente, o Brasil dá um passo (mesmo que mancando) na direção da Justiça, que ajudará a diminuir aquela sensação de que nasci no país errado. A Comissão pode não ter poderes para punir torturadores – pois isso é da alçada do Poder Judiciário, e também há a lei de anistia de 1979 para atrapalhar -, mas pelo menos poderemos saber os nomes destes criminosos de lesa-humanidade.

————

E também não tinha como deixar passar um momento que pode muito bem entrar para os anais da história parlamentar do Brasil: o deputado Tiririca (PR-SP) chamou Jair Bolsonaro (PP-RJ) de “piada”… Não preciso dizer mais nada.

Anúncios

Véspera de um dia histórico para mim

Faixa levada por torcedores ao jogo "Seleção Gaúcha" x Seleção Brasileira, em 17/06/1972 (foto publicada na Folha da Manhã de 19/06/1972)

Amanhã, eu vou defender minha monstrografia. Será ao final da tarde, assim como a Batalha dos Aflitos em 2005, mas não quero que a banca seja algo tão sofrido. Apesar do trabalho ser justamente sobre futebol.

Eu poderia muito bem divulgar aqui o local em que defenderei o trabalho de título “Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”: Futebol e identidade “gaúcha” nas páginas da Folha Esportiva (1967-1972), aproveitando o efeito do calmante que tomo desde a quarta-feira. Mas prefiro não contar com o ovo no cu da galinha, sei que minha calma é “fabricada”.

De qualquer forma, é natural algum nervosismo, mesmo que meu orientador tenha dito que meu trabalho está “muito bom”. Afinal, trata-se de um verdadeiro rito de passagem: 50 minutos que me tornarão historiador. Não dou a mínima para a formatura, cerimônia que a meu ver não serve para nada, já que o diploma só é entregue depois. Não vou esperar a formatura, prefiro já me sentir historiador depois da banca.

Brabo é que não vou poder sair da banca direto para o bar, beber aquela cerveja gelada. Justamente por causa do calmante, que ainda estará atuando…

————

Amanhã, também defendem seus trabalhos o Alexandre Haubrich e a Cris Rodrigues, do Jornalismo B. BOA SORTE! E para o nervosismo pré-banca, como não sou médico, “receito” um bom e geladinho suco de maracujá! Melhor do que tomar um remédio que transforma em proibição a cervejinha pós-banca…

Previsão de “estiagem” no Cão

Ontem à noite, no Twitter, o Idelber Avelar comentou sobre o fim do blog do Pedro Doria e perguntou “o que está acontecendo com os blogs?” – afinal, é mais um a anunciar o encerramento. No dia 6 de agosto, A Nova Corja teve seu último post. E o próprio Idelber anunciou que  seu ótimo blog O Biscoito Fino e a Massa entrou em “hibernação” por tempo indeterminado, já que nos próximos meses ele se dedicará a um trabalho acadêmico, que impossibilitará a atualização do blog e a resposta a comentários.

Aqui no Cão, os próximos meses deverão ter uma significativa redução das postagens – assim como no caso do Idelber, os motivos são acadêmicos: minha monografia de conclusão do curso de História na UFRGS. Não coloco o blog em “hibernação” por temer não cumprir a “promessa”. Ainda mais que há assuntos interessantes a serem tratados de hoje até janeiro – como os 20 anos da queda do Muro de Berlim, em novembro, fato que merece uma reflexão.

Mas a prioridade, será o meu trabalho de conclusão. Tem de ser prioridade. Até porque o ganho será não apenas meu, mas também dos próprios leitores do Cão, já que a monografia – depois de pronta, claro – certamente será tema de vários posts. É sobre futebol, mas não será simplesmente sobre o esporte, mas sim, sobre como ele pode refletir outros aspectos sociais. Ainda mais num país como o Brasil.

(A propósito, dois anos atrás cursei um seminário sobre História Social do Futebol no Brasil ministrado pelo professor Cesar Guazzelli, meu orientador no TCC. O trabalho final – que rendeu um post – tratou sobre a “trégua” na rivalidade Gre-Nal no primeiro semestre de 1967. Sinceramente, acho que consegui ser imparcial, apesar de não acreditar na existência dela.)

Talvez eu poste novamente alguns textos antigos que sejam interessantes de serem relidos – afinal, é só “copiar e colar” – para que o blog não fique muito parado, principalmente de novembro ao início de janeiro, quando finalizarei e revisarei a monografia, além de preparar a apresentação para a banca. E se for o caso de “congelar” o blog, farei “anúncio oficial”.

1967: uma rara união

Quem acompanha futebol sabe que talvez não haja no Brasil maior rivalidade do que a existente entre Grêmio e Internacional. A ponto de, na última rodada da primeira fase do Brasileirão de 1996, o Grêmio (já classificado) jogar uma péssima partida e perder por 3 a 1 para o Goiás, mas a torcida sair feliz da vida por causa da derrota do Inter para o Bragantino que eliminou o time colorado da competição.

Porém, nem sempre foi assim. Em 1967, pela primeira vez a dupla Gre-Nal participava do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, que reunia os maiores clubes cariocas e paulistas desde 1950, e que em 1967 foi estendido a Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná. O torneio, disputado até 1970, foi o “embrião” do Campeonato Brasileiro, que foi realizado pela primeira vez em 1971.

Como o critério para a participação no “Robertão” para os clubes de fora do eixo Rio-São Paulo era o convite – a princípio seriam convidados apenas os clubes mineiros, visto que as viagens a Belo Horizonte não eram dispendiosas para cariocas e paulistas – era preciso que as partidas em Porto Alegre fossem rentáveis, para que a dupla Gre-Nal continuasse a ser convidada para o “Robertão”. Os dois clubes jogavam no Olímpico, visto que o Inter ainda não tinha um estádio em condições de sediar jogos importantes – o Beira-Rio seria inaugurado somente em 1969.

Para obterem boas rendas, os clubes decidiram adotar o sistema de caixa único, e foi também conclamada uma união entre as duas torcidas para o “Robertão”, pela “afirmação do futebol gaúcho”. Surgia assim a “Torcida Gre-Nal”.

Parecia maluquice, mas a idéia vingou! Gremistas iam aos jogos do Inter e apoiavam o time vermelho, e colorados iam às partidas do Grêmio e apoiavam o Tricolor. E a união deu certo: os dois clubes se classificaram para o quadrangular final, junto com Corinthians e Palmeiras (que foi o campeão). O Inter foi vice-campeão, e o Grêmio acabou em quarto lugar.

As imagens abaixo, de edições do jornal Folha da Tarde Esportiva em 1967, dizem tudo.