A onda revolucionária de 2011

A historiografia costuma usar a expressão “onda revolucionária” para descrever certas épocas em que irrompem diversos movimentos contestatórios à ordem vigente, que têm mais em comum do que apenas a proximidade temporal. Temos diversos exemplos, como as revoluções liberais de 1848, as socialistas de 1917-1919 (inspiradas na Revolução de Outubro de 1917 na Rússia), os protestos de 1968 (contra a ordem tanto de direita quanto de esquerda – como prova a Primavera de Praga), os movimentos por independência em diversas épocas (no início do Século XIX na América Latina; nas décadas de 1950 a 1970 na África) e as manifestações de 1989 nos países do Leste Europeu que resultaram na queda do chamado “socialismo real”.

O ano de 2011 ainda não terminou, mas já podemos dizer sem receio que ele é marcado por mais uma onda revolucionária. Aliás, tão significativa que qualquer um que tenha o mínimo de bom senso jamais repetirá a afirmação de Francis Fukuyama de que em 1989 se havia alcançado “o fim da História” com a suposta “vitória capitalista”. Afinal, por mais que seja óbvio que enquanto houver sociedades haverá História, muita gente fingia não enxergar isso.

Todos os grandes protestos registrados neste ano têm a mesma origem: a crise econômica iniciada em 2008 e que não havia realmente acabado. Milhões de pessoas empobreceram muito, enquanto um punhado enriqueceu demais. Foi o que desencadeou a Primavera Árabe e derrubou três ditadores (Ben Ali na Tunísia, Hosni Mubarak no Egito e Muammar al-Gaddafi na Líbia), além de abalar outros regimes autoritários (como o de Bashar al-Assad na Síria e de Ali Abdullah Saleh no Iêmen). E serviu de exemplo aos europeus: na Grécia e em Portugal o povo foi às ruas, e em maio na Espanha, os cidadãos demonstraram sua insatisfação com o atual estado das coisas através do movimento dos “indignados”, que começou a ocupar praças em várias cidades e exigir democracia real, JÁ.

Agora, vemos os protestos de indignados contra a ditadura do mercado chegarem exatamente ao centro do sistema (Wall Street), e se tornarem “a coisa mais importante do mundo hoje” nas palavras de Naomi Klein. Algo impensável anos atrás. São novamente as massas, e não os “grandes homens”, fazendo a História.

E a onda revolucionária de 2011 terá mais um belo capítulo a ser escrito no próximo sábado, 15 de outubro*, quando os indignados de todo o mundo acamparão em praças para exigir uma democracia verdadeira, não esta falsificada que temos. Afinal, as principais decisões acerca de nosso futuro não são tomadas na esfera política, sobre a qual temos aparente influência. Podemos eleger o presidente do Brasil, mas, e os das multinacionais? E a eleição para presidente da FIFA, na qual não pudemos votar? Isso já fora lembrado, anos atrás, por José Saramago.

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Porém, é preciso também ficar atento em relação ao que virá pela frente, como também alerta Slavoj Zizek. Pois em comum entre as diversas ondas revolucionárias do passado, é que foram seguidas por violenta reação. Após as revoluções liberais de 1848, lideradas pela burguesia (revolucionária desde 1789), esta tornou-se conservadora, por temer o proletariado que reivindicava mais direitos – o que prejudicaria os interesses burgueses. As revoluções de 1917-1919 também: na Rússia ela foi vitoriosa, mas a tentativa de construção do socialismo acabou resultando no stalinismo e no próprio autoritarismo que caracterizou a política da União Soviética; já em outros países onde houve movimentos revolucionários de caráter socialista a repressão foi violenta – e, a soma “ameaça comunista” mais a gravíssima crise econômica de 1929 resultou em muitos regimes ditatoriais de extrema-direita.

Em 1968, quando o ímpeto contestador arrefeceu, os conservadores venceram as eleições (França e Estados Unidos), ou intensificaram a repressão na defesa da ordem (caso do Brasil) – e foi o que se viu também em países em que o status quo era “socialista” (caso da Tchecoslováquia invadida por tropas do Pacto de Varsóvia, para esmagar a Primavera de Praga e manter intacto o “socialismo real”, burocrático e autoritário). No Leste Europeu em 1989, o povo foi às ruas pedir democracia, mas confiou na condução do processo democratizante pelos mesmos burocratas que já estavam há décadas no poder e acabou por ganhar esta falsificação que hoje é questionada em todo o mundo.

Ou seja, foram revoluções incompletas, e por isso que é preciso ficar atento. Pois até já está acontecendo, como se vê no Egito: após a queda de Mubarak em fevereiro, uma junta militar assumiu o poder prometendo entregá-lo aos civis após as eleições presidenciais que eram previstas para setembro. Já estamos em outubro, e nada dela acontecer…

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* Curiosamente, em 1968 uma das palavras de ordem era “não confie em ninguém com mais de 30 anos”. E o próximo sábado é justamente o dia em que deixarei de ser “uma pessoa confiável”… Logo, virou dever cívico ir até o acampamento de Porto Alegre, que acontecerá na Praça da Matriz, demonstrar que vale mais a idade de coração do que a do cartório.

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Eduardo Galeano na Praça Catalunya: “Um outro mundo está na barriga deste, infame”

Sempre vale a pena ler ou ouvir as palavras do escritor uruguaio Eduardo Galeano. E este depoimento que ele deu no mês passado em visita ao acampamento dos indignados na Praça Catalunya, em Barcelona, é sensacional.