Ser de esquerda não é “voto de pobreza”

Muito antes pelo contrário: é contra a pobreza. É por uma distribuição mais justa de renda – portanto, da riqueza.

Acho hilário – para não dizer tosco – criticar uma pessoa declaradamente de esquerda por ela ter um celular bom, fazer viagens bacanas ou mesmo por assistir determinados esportes.

(Sim, teve gente idiota no Twitter falando de uma suposta “incoerência” que seria uma pessoa ser de esquerda e assistir ao Super Bowl. Mostrando que sequer sabem como funcionam as principais ligas esportivas dos Estados Unidos: ainda que por um propósito bem capitalista – faturar mais – elas possuem mecanismos que evitam um desequilíbrio muito grande na disputa, tornando-as bem mais atraentes do que campeonatos monótonos como o de futebol na Espanha.)

Sem contar que, se uma pessoa que vive com relativo conforto não pode ser de esquerda, pela mesma lógica quem está sempre mal de grana não poderia ser de direita. Mas infelizmente gente do segundo tipo é o que não falta.

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Porto Triste

Passei o último feriadão em Porto Alegre. Quando embarquei sabia que a situação por lá não era das melhores. Desde terça-feira da semana passada eram frequentes as notícias relativas à violência, e colegas de trabalho chegaram a sugerir que talvez fosse melhor ficar em Ijuí. Não fosse a saudade da minha família (desde junho eu não ia para lá), provavelmente eu teria cancelado a viagem, esperando que as coisas acalmassem.

Sexta-feira à noite, quando cheguei, logo soube de mais um tiroteio – que infelizmente resultou na morte do dono de uma padaria do bairro Menino Deus. Na manhã seguinte, li a notícia de que um pub tinha sido assaltado no Moinhos de Vento (bairro “chique”), e em um grupo de amigos do tempo do colégio no WhatsApp, uma amiga disse não ter respondido às mensagens trocadas no dia anterior porque na hora estava em pânico devido a um tiroteio na esquina da casa dela.

Apesar da impressão de estar em meio a um filme de faroeste, saí para a rua, pois queria ir ao Mercado Público tomar um caldo de frutas, para matar a saudade. E no final da tarde de sábado fui para a casa da minha avó, no bairro Bom Fim (onde dias antes um homem fora executado em plena tarde), passar a noite lá – e só me senti tranquilo quando cheguei. Só em ambientes fechados eu me sentia seguro.

No domingo, passei boa parte do dia na casa da minha avó, e à tarde fui à Arena do Grêmio, onde exorcizei minha “síndrome de Mick Jagger” com a vitória de virada do Tricolor sobre o Goiás. Assisti ao jogo com o Hélio, a Lu e o Evandro. Comentei que se não tivessem compromisso depois poderíamos ir à Cidade Baixa, mas aí o Hélio disse que na situação atual, com tantos assaltos, era melhor evitar. Voltei da Arena para o Centro de ônibus, desci no Mercado e pretendia pegar outro para chegar à casa da minha mãe. Só que na hora ele não estava no fim da linha, e por temer ficar esperando quando já escurecia (ainda mais que dias antes houve registros de “arrastões” no Centro), resolvi pegar um táxi: “melhor dar 10 reais para o taxista do que 20 para um assaltante”, pensei. E fiquei em casa na noite de domingo, conversando com a minha mãe – o que não foi ruim, pois não tinha passado muito tempo com ela, que me contou que ultimamente vinha evitando andar a pé na rua à noite.

Embarquei de volta para Ijuí às 13h de segunda-feira (cedo, pois não gosto de viajar à noite). Lamentando pelo feriadão ter passado tão rápido – passei bastante tempo com a família, mas gostaria de poder ficar mais. Só que ao mesmo tempo, com um certo alívio, pois durante a maior parte do tempo que estive em Porto Alegre me senti muito inseguro. Não sou uma pessoa de muitas certezas na vida, mas estou cada vez mais convicto de que não quero voltar a morar na cidade onde nasci e vivi por 33 anos – o que não digo sem uma boa dose de tristeza, pois continuo me sentindo em casa quando estou em Porto Alegre.

Sim, sei que a violência fora de controle neste início de setembro se deveu muito à redução do já deficitário efetivo policial causada pela paralisação em protesto contra o parcelamento dos salários (muito embora eu, como graduado em uma ciência humana, bem saiba que a criminalidade não se resolve simplesmente com “mais polícia”).

Só que no interior vivo muito menos intranquilo que na capital. No último dia 4, quando viajei, Ijuí amanheceu sem policiamento e andei na rua sem a mesma apreensão que senti muitas vezes em certas partes de Porto Alegre mesmo com a polícia trabalhando normalmente. Embora não pense em ter filhos, se um dia resolver tê-los quero que cresçam em uma cidade onde andar na rua não seja algo arriscado.

Por isso eu digo a quem deseja uma vida mais tranquila: quando aparecer uma oportunidade de morar no interior, não deixe de aproveitar. “Ah, mas no interior não se tem tantas coisas para fazer como na capital”: sobre isso falarei outra hora, em outro textão.

Tenho medo do “cidadão de bem”

Uma pequena lista de coisas que vi/li/ouvi nos últimos dias:

Faltou bastante coisa, é verdade, mas concluo que se Adolf Hitler reencarnasse e viesse morar no Brasil, precisaria apenas alterar seu nome, aprender português, raspar o bigode e mudar o corte de cabelo. Os “cidadãos de bem” ajudariam a consagrá-lo nas urnas.

Já se foi metade de 2015

E eu, que tanto reclamava de 2014, começo a achar que ele não foi tão ruim assim. Pois exceto por estar empregado (ao contrário do ano passado), ter me mudado e feito algumas novas amizades, até agora acho que 2015 está sendo uma bela de uma bosta.

2015 é o ano do ódio. Só acompanhar o que acontece no Congresso. Nas ruas. Na internet.

O mais desalentador é ter certeza de que a tendência não é de melhorar. Se o atual Congresso é horrível, não gosto nem de pensar no que será eleito em 2018… Isso se chegarmos até lá, pois do jeito que vai, sei não.

Das lições que o Chaves nos deixa

Roberto Gómez Bolaños (21/02/1929 - ∞)

Roberto Gómez Bolaños (21/02/1929 – ∞)

Na tarde de sexta-feira, 28 de novembro de 2014, o SBT interrompeu a transmissão do Chaves justamente para dar a notícia que todos os que estavam defronte à televisão jamais gostariam de receber. Preste atenção ao vídeo, pois mais adiante voltarei a falar dele em específico.

O seriado pelo qual Roberto Gómez Bolaños tornou-se mais famoso foi produzido entre 1971 e 1979. No Brasil, seus direitos de transmissão foram adquiridos pelo SBT e começou a ser transmitido em 24 de agosto de 1984. Desde então cada episódio já deve ter sido reprisado mais de cem vezes, quem o assiste chegou a decorar os diálogos, e ainda assim damos risada. Só o fato de ser um sucesso mesmo que se repetindo há 30 anos já é algo extraordinário, mas tem ainda mais um detalhe: tudo isso sem estar na tela da Globo. (Valendo lembrar que o seriado foi produzido pela Televisa, que tem no México o mesmo peso que a Globo no Brasil.)

Muitos se perguntam como um seriado produzido na década de 1970 pode continuar a fazer tanto sucesso mais de 40 anos depois. Arrisco dizer, com uma boa dose de certeza, que isso se deve principalmente ao fato do Chaves, sendo mexicano e, acima disso, latino-americano, retratar uma realidade muito mais próxima à nossa do que aquela de seriados estadunidenses. Afinal, mesmo as melhores séries do “Tio Sam” (por exemplo, “Arquivo X”) não mostram algo que vivenciemos no dia-a-dia, como nos depararmos com uma criança órfã e com fome na rua.

É um retrato bem-humorado da América Latina com o qual nos identificamos. Mas trata-se de um humor quase ingênuo, de maneira a que seja compreendido pelo público infantil. E com isso, nos ensinou várias lições inesquecíveis.

Mas talvez nenhuma tenha sido tão contundente quanto a do episódio abaixo, no qual o Chaves foi injustamente acusado de ter roubado diversos objetos na vila – a cena em que todos à sua volta o chamam de ladrão fez incontáveis pessoas chorarem na frente da televisão. Ele decidiu ir embora da vila, mas no dia seguinte retornou, e contou que rezara “para tudo ficar direito”. Quando a Chiquinha respondeu dizendo que as orações de nada tinham adiantado, visto que os roubos continuavam a acontecer, o Chaves contou que não rezara para que encontrassem o ladrão, mas sim para que ele se arrependesse e se tornasse bonzinho. O Senhor Furtado, autor dos roubos, passava pelo local naquele momento e ouviu o desejo do Chaves: consequentemente, devolveu os objetos e ainda presenteou o menino com um sanduíche de presunto.

O que aconteceu no episódio acima não foi apenas um sonho aparentemente ingênuo (de que criminosos se arrependam de serem “maus” e se tornem “bons”). O pedido do Chaves pelo arrependimento do ladrão foi também uma comovente defesa do humanismo, extremamente necessária frente ao crescente clamor por severa punição (ou seria pura e simples “vingança”?) a autores de quaisquer tipos de crimes. Pois se o personagem é um menino um tanto inocente, seu criador já era na época bem adulto, e com isso passou uma mensagem muito clara: não podemos acreditar que tratando mal as pessoas que cometem erros elas se tornarão “boas”.


Vamos transportar o acontecido no episódio acima relatado para a realidade brasileira em 2014.

Acusado de ladrão, sem nenhuma prova, o Chaves provavelmente seria amarrado a um poste e linchado. O fato seria amplamente comentado nas redes sociais, e nos portais de notícia quem dissesse que o espancamento era um absurdo ouviria muitos “tá com pena, leva pra casa” como resposta. Na televisão a âncora de um telejornal, famosa por também opinar sobre os fatos noticiados, ironizaria os críticos do linchamento dizendo “faça um favor ao Brasil, adote um bandido”.

Agora lembre do vídeo lá de cima, do anúncio do falecimento de Roberto Gómez Bolaños. Repare em quem deu a notícia.


Quando Rachel Sheherazade proferiu a polêmica frase “faça um favor ao Brasil, adote um bandido” e foi criticada por isso, ela própria e seus defensores se queixaram de que estava em curso “tentativa de censura” por parte de uma “partulha ideológica de esquerda” (que só existe na cabeça dos reacionários delirantes). Uma bobagem, pois não foram os críticos que impediram Sheherazade de falar: foi o próprio SBT que optou por remover os comentários, determinando que âncoras apenas cumprissem sua função de ler as notícias.

Espero que Sheherazade tenha tenha refletido bastante sobre o significado do que disse e por que foi tão criticada por isso. É só assistir ao Chaves, principal atração da emissora em que trabalha, para entender.

O progresso homogeneizante

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A capa acima é do Jornal Já Bom Fim, edição deste mês. Além de chamar a atenção para o fato de cinemas darem lugar a um banco, o jornal também informa que, em média, o preço do metro quadrado de imóveis para alugar no Bom Fim já supera o do Moinhos de Vento.

Em processo semelhante ao que aconteceu no Moinhos de Vento, no Bom Fim a arquitetura tradicional do bairro (sobrados e prédios pequenos) vem dando lugar a espigões muito parecidos entre si. Mas a transformação vai além da mera questão arquitetônica: o Bom Fim, que por muito tempo foi um dos principais (se não o principal) reduto alternativo de Porto Alegre, hoje vê a diversidade ser cada vez mais restrita a poucos espaços, como Redenção e Lancheria do Parque.

Dizem que não tem jeito, “isso é o progresso” etc e tal. Mas eu só vejo homogeneização: se “progredir” é isso, então eu sou “retrógrado” desde criancinha.

E se isso acontece em bairros como Moinhos de Vento e Bom Fim, imagine o que se passa nas regiões periféricas que atraem o olho grande do poder econômico…

Gauchismo é complexo de vira-lata às avessas

Nelson Rodrigues cunhou a expressão “complexo de vira-lata”, que definiria o Brasil enquanto povo: por melhor que fosse, “tremeria” em momentos decisivos (sendo a derrota na decisão da Copa do Mundo de 1950 o maior exemplo disso). Seria essa a explicação para o “atraso” do Brasil em comparação com os Estados Unidos e países da Europa Ocidental.

Passaram-se mais de 60 anos e obviamente o Brasil não é mais o mesmo país “atrasado” daquela época, embora ainda haja muito a se fazer para que ele seja realmente justo (por mais que tenha melhorado nos últimos tempos). Mas, ainda assim o complexo de vira-lata persiste, e não falta quem encha a boca para falar dos problemas do Brasil como se eles fossem exclusividade brasileira. E não, definitivamente não são. Por exemplo, reclamamos (com razão) de sermos transportados “feito sardinhas em lata” no transporte público nos horários de pico, mas se trocássemos as sardinhas em lata por cidadãos de Tóquio, não deixaríamos de estar certos.

Já no Rio Grande do Sul, acontece um fenômeno aparentemente contrário. O tal “orgulho gaúcho”, presente o ano inteiro mas que tem ainda mais força em setembro, se alimenta de diversos mitos como, por exemplo, o de que “somos o povo mais politizado do Brasil”: uma olhadinha na lista de governadores derrubaria rapidamente essa lenda (basta lembrar quem governou o Rio Grande do Sul de 2007 a 2010 e o porquê disso); e além disso, as últimas pesquisas eleitorais mostram oportunistas (cujas histórias políticas se resumem a “aparecer na televisão”) ponteando as disputas ao governo estadual e ao Senado, quando um povo realmente politizado não lhes daria sequer 1% dos votos. Também adoramos nos gabar dizendo que “defendemos com bravura as fronteiras meridionais”, como se guerra para defender o Brasil de “invasores estrangeiros” fosse “privilégio” do Rio Grande do Sul. (Ao contrário do que sugere o chamado Grito do Ipiranga, o processo de emancipação política do Brasil em relação à Portugal não foi pacífico, e muito sangue foi derramado em diversas partes do país – em especial, na Bahia – para que a unidade territorial brasileira fosse mantida.)

Mas em geral, quem mora no Rio Grande do Sul acredita em tais mitos. E mais: reclama de um suposto pouco reconhecimento pelo restante dos brasileiros. “Somos os melhores, fazemos tanto pelo Brasil, e eles insistem em não reconhecer”, bradam em discursos inflamados.

No fundo, trata-se do complexo de vira-lata com uma aparência diferente. É como uma camiseta virada do lado avesso: você pode vesti-la e dizer que é outra, mas sabe que se trata da mesma.

Afinal, o Rio Grande do Sul como parte do Brasil que é, obviamente não ficaria imune ao “vira-latismo” que supostamente caracteriza o povo brasileiro. Mas, com a absurda mania que temos de querermos mostrar que somos tão “diferentes”, manifestamos nosso complexo de vira-latas de maneira também diferente: batendo no peito e gritando que “somos os melhores”. Pois da mesma maneira que o Brasil nas últimas décadas sempre buscou ser reconhecido como um “equivalente” pelos países considerados “mais importantes”, o Rio Grande do Sul pleiteia o mesmo em relação ao centro do país. O discurso é diferente, mas o objetivo é exatamente igual.

Calado, é um poeta

Foi, sem dúvida alguma, o maior jogador de todos os tempos. Mas como pessoa…

A cada declaração de Pelé, mais admiro Maradona. (E mais concordo com Romário: “O Pelé calado é um poeta.”)

“Tá com pena, leva pra casa!”

Foi só os “juízes” das redes sociais descobrirem os perfis de Patrícia Moreira (torcedora gremista que as câmeras flagraram gritando “macaco” para o goleiro santista Aranha) que os ataques baixos começaram, logo após Grêmio x Santos. Ela teve de apagar suas contas no Facebook e no Instagram para se livrar das ofensas, a maior parte de cunho machista.

Na última quinta-feira, Patrícia prestou depoimento. E na sexta-feira, deu uma declaração à imprensa. Tanto na quinta como na sexta, ela chorava muito, e não acho que sejam “lágrimas de crocodilo” como alguns já disseram. A superexposição e o “linchamento virtual” (aos quais não foram submetidos os outros torcedores que também ofenderam Aranha) obviamente deixaram a jovem muito abalada.

Mas, adivinhem, pessoas que recordo muito bem de terem chamado Patrícia de “vagabunda” agora dizem sentir “pena” dela. Foram de um extremo ao outro: da fúria condenatória à total solidariedade. Acreditem se quiser, até uma página “solidária” a Patrícia foi criada no Facebook: quando recebi o convite para curti-la, pensei seriamente em ironizar e mandar uma mensagem ao amigo que me fez a “sugestão” dizendo o bom e velho “tá com pena, leva pra casa” – uma das frases mais repetidas pela turma da indignação seletiva e do “bandido bom é bandido morto”.

Por essa lógica, genialmente ironizada no vídeo acima, o brado nas redes sociais não deveria ser pelo “justiçamento” de Patrícia? Afinal, injúria racial é crime, quem comete crime é “bandido”, e “bandido bom é bandido morto”, logo…

Mas não, já mudou tudo. Primeiro, porque o Grêmio foi condenado, e boa parte da fúria dirigida por muitos gremistas a Patrícia passou a ser direcionada ao STJD (que merece muitas críticas, é verdade, mas não exatamente por este episódio). Segundo, por conta da postura “chorosa” da torcedora: como disse, não acredito que foram “lágrimas de crocodilo” que tinham por objetivo fazer com que se sentisse pena dela; mas ao mesmo tempo, é óbvio que ela pedir perdão aos prantos gera um sentimento de compaixão por parte de muitas pessoas. Afinal, quem nunca errou?


Sabem aquele velho senso comum sobre direitos humanos, segundo o qual seus defensores só se preocupam em “proteger bandidos”? Pois bem: quem milita pela causa dos direitos humanos têm por objetivo garanti-los a todas as pessoas.

Mas, então, por que eles não “defendem” os “cidadãos de bem” (detesto essa expressão mais do que o verão de Porto Alegre) contra a “maldade” dos “bandidos”?

Não, não é porque os defensores dos direitos humanos são “contra as pessoas honestas” (me pergunto como alguém pode pensar tamanha merda), e sim porque criminosos (ou pessoas que simplesmente foram acusadas) se encontram em uma situação de extrema vulnerabilidade: em geral, temos a tendência a vê-los como párias e mesmo “monstros”, e não como sintomas de uma desordem social (ainda mais em uma sociedade tão desigual como a brasileira), o que para não poucas pessoas “justifica” que se façam as piores barbaridades (afinal, são “bandidos” que põem em risco os “cidadãos de bem”).

Pois bem: não é exatamente a situação na qual Patrícia Moreira se enquadra atualmente? Basta lembrar o “linchamento virtual” do qual ela foi vítima: a jovem foi tratada como se fosse a “encarnação do mal” (no caso, o racismo) e não como produto de uma sociedade racista, e mesmo que seja crescente o sentimento de “pena” por ela, ainda há quem pense que a torcedora é o problema e não um sintoma dele.

Ou seja: quem se preocupa com Patrícia está defendendo os direitos humanos, mesmo que sem saber disso. Aliás, da mesma forma que eu fiz já no início de toda a polêmica: por mais que a jovem procure “se justificar” pelo que fez, não pode ficar impune; mas, ao mesmo tempo, não se pode usar isso como desculpa para cometer qualquer tipo de violência contra ela. Só que penso o mesmo sobre qualquer pessoa que cometa (ou seja acusada de cometer) crimes: minha defesa dos direitos humanos não é seletiva.

Quem nunca?

“Que atire a primeira pedra quem nunca…”, começa assim um famoso ditado citado por muitas pessoas. Que podemos “resumir” na expressão “quem nunca?”, pois tem bastante semelhança.

Certa vez, em conversa com uma amiga eu lembrava de um porre homérico que tomei e demonstrava incômodo com aquilo: minha amiga respondeu que eu não devia me atucanar por aquilo e disse “quem nunca?”, o que foi de certa forma reconfortante. Afinal, qual pessoa que consome ou já consumiu bebidas alcoolicas nunca exagerou?

O “quem nunca?” pode ser aplicado às mais diversas situações em que alguém “passa do limite”. Pode ser na bebida, na comida (quem nunca passou mal depois de encher a pança de lasanha, por exemplo?)… Mas também em questões mais sérias.

Quinta, algumas pessoas na torcida do Grêmio ofenderam de forma racista o goleiro Aranha, do Santos. O assunto virou polêmica nacional, e não falta quem defenda severa punição ao Tricolor (inclusive eu, que sou gremista). Mas, ainda assim há quem ache exagero e diz “quem nunca gritou ‘macaco’ no ‘calor do momento’?”.

Foram algumas pessoas que ofenderam Aranha. Mas quem está “pagando o pato” é apenas uma torcedora que, não bastasse as consequências óbvias (será indiciada e, devido à publicidade negativa, corre risco de perder o emprego), teve de ouvir todo tipo de ofensas machistas nas redes sociais (a ponto de apagar suas contas no Facebook e no Instagram). Mas, “quem nunca xingou uma mulher de ‘vadia’ ou ‘vagabunda’ alguma vez?”, muitos devem questionar.

Entre os colorados, há a maioria sensata, que defende a punição ao Grêmio mas faz questão de lembrar, corretamente, que aquele grupo não representa toda a torcida gremista. Só que sempre tem aquela galera “que faz barulho” e acusa todos os “gaymistas” (sim, é isso mesmo que costumam dizer) de serem racistas. Aí ouvem em resposta que estão agindo de forma homofóbica (sem contar os que certamente dirão que todos os colorados são homofóbicos), e então lá vem o “quem nunca chamou o adversário de ‘viado’ no estádio?”, dizendo que sem tais gritos o futebol vai acabar e etc. e tal.

Já deu para perceber o óbvio: o “quem nunca?” é sempre usado como atenuante para nossos erros. Afinal, “quem nunca” errou? O problema é por conta disso achar que tudo está bem, quando na verdade não está.


“Mas tu falas disso e certamente já cantou ‘chora macaco imundo’ junto com a Geral e o estádio inteiro”, alguém poderá dizer – com toda a razão, diga-se de passagem. Todos nós já agimos de forma preconceituosa, justamente porque vivemos em uma sociedade cheia de preconceitos e acabamos tendo-os como “naturais”. Porém, isso não nos tira a responsabilidade por agirmos de tal maneira.

Sim, já cantei a infame música da Geral (“e quem nunca cantou aquilo no estádio?”), assim como já tive inúmeras outras atitudes que podem ser caracterizadas como racistas, machistas, homofóbicas etc. Sempre “no calor do momento” (“e quem nunca falou merda ‘no calor do momento’?”), ofendi muitas pessoas, sejam próximas ou desconhecidas: elas podem nem saber, mas foi isso que minhas atitudes significaram, mesmo que “involuntariamente”. A todas, peço desculpas.

“Ah, mas desse jeito o mundo vai ficar muito chato, essa patrulha do politicamente correto etc.”, alguém poderá dizer. Pois olhe: eu não tenho medo algum de tal “patrulha do politicamente correto”. Primeiro porque há diferenças entre respeitar e ser “politicamente correto”. Segundo porque ao repensar minhas atitudes, também aprendi a me “policiar”: penso bem antes de dizer qualquer coisa, procuro ter certeza de que aquilo não vai ofender ninguém. Afinal, eu não gostaria nem um pouco que alguém falasse algo ofensivo à minha pessoa: por que então eu teria o direito a fazer o mesmo com outras?

“Mas no calor do momento sempre acabamos exagerando”. Fica a dica, então: sempre que estiveres de “cabeça quente”, espera ela esfriar antes de falar qualquer coisa.