Qual é a surpresa?

Causou justíssima indignação o insulto do cidadão que ocupa a presidência do Brasil contra a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de São Paulo. Deveria haver alguma resposta das instituições democráticas contra isso, mas sei que infelizmente nada acontecerá.

Simplesmente porque não é nenhuma novidade: na política há mais de 30 anos, ele já falou inúmeras barbaridades e nunca sofreu qualquer punição. Não vou citar todas elas pois não pretendo me alongar muito neste texto, lembrarei apenas três: defendeu o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso, que na ocasião da declaração (1999) era nada menos que o Presidente da República; em 2016 dedicou seu voto favorável ao impeachment de Dilma a um reconhecido torturador; e durante sua campanha presidencial em 2018 falou em “fuzilar a petralhada” (sendo que para a direita delirante “petralha” é qualquer pessoa de esquerda, petista ou não).

Não, ele não está atacando a imprensa por se sentir “acuado” ou porque a economia vai mal. Ele está apenas sendo o que sempre foi.

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Charge: Kayser

Lembram do quanto avisamos que votar nele era roubada? E de como respondiam que era “exagero” da nossa parte? Acreditando que quando assumisse a presidência ele iria mudar como num passe de mágica…

E todo mundo que “subiu no muro” e deixou a tragédia acontecer, achando que tanto ele quanto seu adversário no segundo turno de 2018 eram “iguais”? Incluindo aí a imprensa tradicional, que agora se apavora com ele mas também tem “culpa no cartório”: lembram daquele editorial do Estadão? Será que a lição foi aprendida?

estadão

Nunca foi tão fácil escolher certo, mas a maioria foi para o lado errado ou “deu de ombros”.

Agora a imprensa tradicional parece ter acordado, as instituições irão enquadrar o presidente… Não vão. Pois nunca o fizeram contra um mero deputado do “baixo clero”, e assim deixaram ele crescer. Agora que está “grandão” vão querer segurar? Lamento informar: tarde demais.

Mas, com toda a sinceridade, quero muito estar errado.

A democracia “cancelada”

Na noite de domingo, li um “fio” no Twitter que compartilhei devido à gravidade do assunto abordado. (A mensagem abaixo é apenas o começo dele, vai lá para ler tudo.)

Como a autora do tweet bem alertou, isso não tem a repercussão que deveria ter: universidades federais não terão recursos para pagar os salários de seus servidores até o final do ano. Deveria ser o assunto mais falado da segunda-feira, principalmente por parte da esquerda.

Mas não. Pois domingo tinha bloco de Carnaval, Alessandra Negrini participou ao lado de lideranças indígenas e caracterizada como elas, e boa parte da esquerda começou a “debater” se a atriz poderia ou não se fantasiar de índia…

Não que eu ache despropositado tal debate. O problema é o momento.

Afinal, o que é mais pertinente discutir agora? Fantasia de Carnaval ou a destruição das universidades públicas?

Provavelmente essa galera “problematizadora” já se formou. Com o diploma garantido, não se preocupa com o que realmente é importante. Então, dê-lhe falar de “apropriação cultural” e “cancelar” quem discorda.

Sabe qual será o resultado disso tudo? A esquerda tomará mais “vareios” nas urnas como já vimos nas recentes eleições, com direito a uma possível (e cada vez mais provável) reeleição do atual (des)governo em 2022. E no fim das contas a nossa já gravemente ferida democracia é que será “cancelada”.

Uma escolha muito fácil

A cada vez que vejo uma crítica ao (des)governo instalado em Brasília vinda de gente que anulou seu voto para presidente ano passado, lembro de um já célebre editorial do jornal Estado de São Paulo, publicado na época do segundo turno. Afirmava o jornal que era muito difícil escolher entre Bolsonaro e Haddad.

Algo como estar em um grupo de excursionistas que antes de entrar no ônibus para uma viagem de quatro horas vai a um restaurante para não pegar a estrada com fome. Por já ser tarde e o estabelecimento estar fechando, sobram apenas duas opções de comida: macarrão “requentado” por já estar na geladeira, ou pastéis com um aspecto péssimo e que atraem muitas moscas.

Óbvio que num cenário desses, eu não tenho dúvidas: vou de massa requentada. Outras pessoas sensatas também. Mas vejo gente dizendo que não quer comer nada por não gostar de nenhuma das duas opções. E também quem opta pelos pastéis: seja por preferi-los ao macarrão, ou por achar que estão ruins mas simplesmente não gostam de massa e por isso “não resta escolha”. Há também um senhor de sotaque engraçado sentado em uma das mesas, que não faz parte do grupo: ele não come nada, mas diz que bom mesmo é o pastel, e que colocaram esperma de porco no molho da massa.

A maioria escolhe pastel, mesmo com todos os alertas.

Logo depois o ônibus sai, e não demora muito para começar o mal-estar generalizado dentro do veículo. Iniciando, como era de se esperar, com quem optou pela comida obviamente estragada. Mas o ambiente empesteado faz vomitar também quem não comeu nada, assim como quem comeu massa: quando chega a minha vez, nem faço questão de não tentar emporcalhar quem ignorou meus avisos…

Em busca de um novo sofá

sofá

Por que buscar, do nada, um novo sofá? Ainda mais que o meu atual ainda está ótimo?

Simples: pois li que será pedida a abertura de um processo de cassação contra o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) por ele ter defendido a instauração de um novo AI-5 (eufemismo para “nova ditadura aos moldes de 1964”) caso o Brasil registre protestos como os que estão acontecendo atualmente no Chile. Líderes de diversos partidos – até do próprio PSL, rachado justamente por conta dos Bolsonaros – manifestaram repúdio.

Quando leio que o “03” poderá ser submetido ao Conselho de Ética da Câmara e ter seu mandato cassado, lembro que seu pai, Jair Bolsonaro, passou vinte e oito anos dizendo barbaridades semelhantes ou piores e… Bom, o fato dele ter ficado lá por tanto tempo já diz tudo. Não apenas nada aconteceu, como também o então deputado acabou virando presidente.

Espero muito estar errado desta vez. Mas, como diz minha própria “voz da experiência”, acho bom adquirir um bom sofá-cama para esperar devidamente sentado e, caso necessário, deitado.

Não foi por falta de aviso

Até o início de 2018, o Partido Social Liberal era politicamente um ilustre desconhecido para a imensa maioria da população brasileira. Minhas lembranças eram poucas: em 2006 lançou Luciano Bivar como candidato à presidência do Brasil (e ele até conseguiu ser presidente, mas não do país e sim do Sport Recife); em 2016, Fábio Ostermann concorreu à prefeitura de Porto Alegre pelo PSL.

Eis que vieram Jair Bolsonaro, sua família e seus apoiadores mais fiéis. Que, como qualquer pessoa com o mínimo de memória sabe, nunca tiveram nada de liberal nem de preocupação com questões sociais. E então o PSL perdeu vários filiados (dentre eles Fábio Ostermann), vinculados a um movimento de caráter liberal (o Livres) que via na filiação de Bolsonaro uma total deturpação das ideias que defendiam; mas ganhou muita força para as eleições gerais de 2018.

E assim o partido que desde seu nascimento era “nanico” tornou-se “grande”, elegendo a segunda maior bancada da Câmara de Deputados graças à associação com Bolsonaro e suas frases de efeito que eram o que grande parte da população queria (não o que precisava) ouvir. E acabou ganhando também a presidência do Brasil.

“Ah, mas agora que o povo decidiu não vamos ficar torcendo contra, pois se o governo der errado é ruim para o Brasil”. Pois então: é um governo que faz tudo errado. O tal de “torcer contra” na verdade significa querer que sejam feitas as coisas certas. Pois a depender das vontades dos que nos governam, a vergonha para o país está apenas no começo. Saudades de quando vexame era perder de 7 a 1 numa semifinal de Copa do Mundo em casa… (Pois tal partida aconteceu quando o Brasil deixava de integrar o “mapa da fome” da ONU, do qual infelizmente voltou a fazer parte.)

E o capítulo mais recente da tragicomédia é a guerra entre o governo (leia-se “Bolsonaro, família e apoiadores mais fiéis”) e o partido pelo qual ele foi eleito. Uma baixaria na qual os dois lados se xingam das piores coisas – e na qual ambos têm razão. Sério, estou rindo muito, ainda que apenas para não chorar por conta do que virou o Brasil.

O pior é que não foi por falta de aviso. Pois eu avisei. Muitos avisaram. Qualquer pessoa com o mínimo de sensatez avisou. Mas ainda assim, uma galera preferiu usar o fígado no lugar do cérebro apenas para “tirar o PT”.

Agora não adianta vir com esse papo de culpar o PT por “não dar outra opção que não Bolsonaro” (que por pouco ele ganhou no primeiro turno). Pois eu lembro bem (e não esquecerei) de todas as merdas que vocês fizeram ainda antes de outubro de 2018.

Quem precisa de autocrítica?

Nos últimos tempos tem-se falado muito sobre a necessidade da esquerda brasileira fazer uma autocrítica acerca de seu passado recente. A cobrança maior recai sobre o PT, maior partido brasileiro deste campo do espectro político.

Concordo que haja tal necessidade e inclusive lamento que a autocrítica praticamente não tenha ocorrido mais de três anos após o golpe travestido de impeachment em 2016 e a consequente eleição de Jair Bolsonaro para a presidência. Porém, há um outro ponto importante, sobre o qual pouco se fala: e a autocrítica dos liberais, quando será feita? Pois não podemos esquecer que eles têm a maior culpa pela situação atual.

Seu candidato na eleição presidencial de 2014, o então senador Aécio Neves (PSDB), foi derrotado por estreita margem. Tal resultado (48,36% dos votos válidos, contra 51,64% para a reeleita Dilma Rousseff) indicava que o PSDB, como principal partido da oposição, chegaria forte em 2018 para a sucessão de Dilma. Ainda mais que ela iniciaria seu segundo mandato com a economia claudicante e com a rejeição ao PT em uma crescente.

Porém, o PSDB e seus aliados optaram pelo caminho do golpismo. Um dia após o encerramento do processo eleitoral, já havia gente falando em impeachment e convocando manifestações (que começaram a ocorrer, ainda que pequenas, já no final de 2014), com pouquíssimas vozes oposicionistas manifestando contrariedade a isso. Em seu retorno ao Senado, Aécio prometeu oposição “incansável e instransigente” ao governo recém reeleito. E para completar, houve o pedido de auditoria nas urnas eletrônicas, insinuando uma fraude que a própria verificação provou não ter ocorrido – mas que contribuiu para não se virar a página de uma virulenta campanha eleitoral.

Tanto insistiram que o impeachment veio em 2016, com uma justificativa duvidosa: as tais “pedaladas fiscais”, que nunca tinham motivado a perda de mandato de nenhum governante anterior, agora eram “crime de responsabilidade”. Mas não foi apenas uma troca de presidente: a oposição se aliou ao vice-presidente Michel Temer e voltou ao governo “pela porta dos fundos” ao invés de esperar até 2018, quando provavelmente triunfaria nas urnas e entraria no Palácio do Planalto pela “porta da frente”, subindo a tradicional (e simbólica) rampa.

O resultado disso é que quem viria forte em 2018 virou “vidraça” por ter se tornado governo (por sinal, péssimo) antes da hora. Quem virou oposição – o PT e seus aliados à esquerda – foi também culpabilizado pelo desastre (“quem votou na Dilma votou no Temer”, lembram?). O resultado é que a soma de insatisfação com o irracional antipetismo nos conduziu à eleição (ainda que mediante o uso de incontáveis mentiras) de um sujeito que está jogando a imagem do Brasil na lama e nos envergonhando dia sim, dia também.

A esquerda – e em especial o PT – cometeu muitos erros, os quais nem vou elencar, por isso prefiro falar apenas da campanha eleitoral de 2018. Penso que o ideal teria sido o PT abrir mão de ser cabeça de chapa: alguém acreditava que deixariam Lula ser candidato quando condenaram ele sem provas justamente para prendê-lo e impedi-lo de disputar – e provavelmente vencer – a eleição? Mas, cometido o primeiro erro, e com Fernando Haddad concorrendo no lugar de Lula e indo ao segundo turno, penso que qualquer pessoa que diga defender a democracia deveria ter apoiado o petista incondicionalmente contra alguém que nunca escondeu sua admiração pela ditadura de 1964 e seus enojantes métodos. Sim, isso é um recado a Ciro Gomes (em quem votei no primeiro turno e que encerrada a primeira votação saiu de férias) mas também – e principalmente – aos autoproclamados liberais, muitos dos quais não hesitaram em apoiar Bolsonaro (que nunca foi liberal) e agora se dizem arrependidos e – incrivelmente – decepcionados com alguém que como presidente não está sendo nem um pouco diferente do que foi em 28 anos como deputado.

Quero muito a autocrítica da esquerda, sim. Mas quero ainda mais a da direita liberal, principal responsável por nos jogar no abismo atual.

Um retrato do “novo Brasil”

Um deputado deixando o país por ameaças de morte. E o cidadão que, incrivelmente, foi eleito presidente deste mesmo país, comemora o fato ao invés de se indignar com ele e garantir a segurança do parlamentar.

Esse é o Brasil de 2019. O país que elegeu um completo despreparado para a presidência – que tem uma horda apoiadora, a qual não pensará sequer uma vez antes de apontar o dedo para a oposição a cada burrada cometida por seu “mito”. Dirão que é “tudo culpa dessa esquerdalha que fica torcendo contra”, como se política fosse futebol e como se não tivéssemos direito de criticar o governo quando ele erra.

Bom, mas é exatamente isso que essa turma fascista aí quer. Que fiquemos calados e não critiquemos nada. Que nos resignemos e andemos pela rua de cabeça baixa. O pior que pode acontecer é justamente fazermos o que eles querem.

Inclusive por isso não critico Jean Wyllys. Não acho que ele tenha sido “covarde” ao deixar o Brasil por ter medo de ser assassinado. Por mais importante que Jean fosse na Câmara de Deputados, é melhor tê-lo vivo no exterior, para denunciar os absurdos que, infelizmente, acontecerão com ainda mais frequência em nosso país. De mártir, já nos basta Marielle Franco – cujo assassinato completará um ano em menos de dois meses e duvido que um dia os autores (e os mandantes) sejam presos…

Feliz ano velho

A última vez que estive realmente otimista quanto ao ano novo foi no apagar das luzes de 2012. Aquele foi para mim um ano bacana, que valeu a pena, mas que poderia ter sido melhor. E pensar em 2013 chegava a me empolgar. Via boas perspectivas.

Só que foi em 2013 que a “coisa virou”. O Brasil realmente não foi mais foi o mesmo após aquele junho, que começou à esquerda e terminou à direita. Nunca mais tive uma perspectiva otimista quanto ao futuro. Mesmo no final de 2014, quando estava na expectativa de ir morar em uma outra cidade (Ijuí): era algo estritamente pessoal, mas nunca consigo me dissociar do entorno, e eram claríssimos os sinais de que tempos muito difíceis estavam por vir.

Não à toa, nos últimos tempos deixei de me empolgar com a virada de ano. Passei a achá-la muito artificial e irrealista. E deixei de acreditar que as coisas mudariam como se fosse um passe de mágica apenas por conta de uma mera convenção: para vários povos, hoje não é o último dia do ano.

E agora estamos à véspera de algo que jamais deveria ocorrer: um extremista de direita assumindo a presidência do Brasil. Algo ruim em qualquer lugar, mas pior ainda num país tão desigual como o nosso: a direita clássica já “caga e anda” para políticas sociais, imagina a vertente extremista dela…

Mas será algo merecido para essa galera toda que votou no cara – pena que todo o país tenha de sofrer com isso. Quem acredita em qualquer lixo que chega pelo WhatsApp – inclusive em absurdos como a famosa “mamadeira de piroca” – tem de se ferrar bonito para aprender que não ser rico e votar na direita é uma tremenda burrice, e que não vai adiantar nada fazer “arminha” com as mãos quando der merda – e vai dar, isso é óbvio demais.

O país vai para o abismo, mas pelo menos não terá sido por culpa minha e de muitas pessoas queridas que conheço e quero ver bem. É com estas que estará o meu coração em 2019.

O ódio nosso de todo dia

Seguindo minha “linha” de escrever no Medium sobre assuntos ditos “relevantes”, resolvi fazê-lo sobre o ódio que temos vivenciado todos os dias. Quando o texto estiver pronto, divulgarei o link – tanto aqui como também no Facebook, no Twitter…

Vou apenas fazer um breve comentário (seria um “texto-comentário”?) acerca de tal assunto que gera tantos “textões” mas pouca reflexão verdadeira. Como se vê no caso do falecimento de Marisa Letícia, esposa de Lula e importante figura do PT.

Ela foi alvo de muitas manifestações de ódio da direita, isso é fato – e nem surpreende, visto que nossa direita é muito competente em odiar. Porém, muitas pessoas de esquerda estão enveredando pelo mesmo caminho em relação aos “desafetos” do outro lado, ou seja, utilizando os mesmos “métodos” repudiados nos discursos. Com direito até mesmo a linchamentos virtuais – coisa que, aliás, nem é de hoje.

A situação está chegando a um ponto em que as pessoas se sentem intimidadas e preferem não tocar no assunto “política”, pois qualquer comentário pode ser alvo do ódio de ambos os lados. E nem tenho como criticá-las, pois elas não querem ser “apolíticas” como muita gente pensa.

Embora seja verdade que o nível da discussão política no Brasil nunca tenha sido dos mais elevados, a situação atual é cada vez mais preocupante, pois temos duas “metades” que se odeiam e, no meio, uma “maioria silenciosa” que ao não se posicionar abertamente é taxada de “coxinha” ou “petralha”. E isso não parece que vai mudar no curto prazo, infelizmente.