Sobre a liberdade de expressão e seus limites

Escrevo estas linhas baseado no que o Igor Natusch publicou no Facebook ontem. Para facilitar e também para dar menos menos lucro ao Zuckerberg, vou “piratear” o texto do Igor (mas se ainda assim você quiser ler “na fonte”, clique):

Vou ser ‪#‎polêmico‬: eu discordo do Safatle. Não acho que pedir ditadura nas ruas seja (ou deva ser) um crime. É estúpido, lamentável, tosco, obtuso, um sinal claríssimo de indigência mental e desconhecimento político básico. Mas crime, propriamente, não acho que seja. É uma ideia extremamente condenável, mas ainda assim é uma ideia, que pode ser combatida no terreno das ideias. Precisa colocar ninguém no xilindró não.

Para mim o limite possível é discurso de ódio. Não dá para aceitar, dentro dos limites da liberdade de expressão, um nazista e/ou racista pregando a morte ou extinção de grupos ou etnias. Uma pessoa que pede intervenção militar, bem, eu acho horrendamente equivocada e possivelmente com desvio de caráter. Mas não está cometendo, penso eu, um crime. Se alguma interpretação da Constituição dá margem para jogar essa pessoa na cadeia, eu me reservo o direito de discordar e esperar que esse ponto seja revisto.

O tema é complicado, claro. Há uma série de desdobramentos possíveis, em termos de argumento e de pensamento. Mas eu acho que a restrição de liberdade deve ser exceção, jamais a regra. Então que falem besteira, que sejam contestados e ridicularizados, mas sem colocar tribunal no meio. A gente precisa confiar um pouco mais na força de nossos princípios e das nossas ideias.

Quando li isso, no intervalo do trabalho e via celular, percebi que não teria como fazer um comentário à altura. Pois concordo com algumas coisas que o Igor disse e discordo de outras. Prometi este texto.

Sobre a concordância, é quanto ao direito de alguém achar que nos tempos da ditadura era melhor. Trata-se de mera opinião – que considero tremendamente equivocada (há inúmeros mitos sobre aquela época maldita, de alguns deles eu falo aqui), mas que ainda assim se situa no terreno da opinião. Sem contar que em muitos casos a concepção de determinado regime como democrático ou não depende muito da ideologia da pessoa: dificilmente uma pessoa de direita, daquelas que acredita piamente que o golpe de 1964 “salvou o Brasil de uma ditadura comunista”, não chama o falecido ex-presidente venezuelano Hugo Chávez de “ditador” mesmo que ele tenha permanecido no poder por 14 anos mediante eleições livres e de lisura atestada por observadores de vários países. Assim como há quem consiga dizer que vivemos em uma “ditadura petista”, mesmo que tendo ampla liberdade para dizer isso estando no Brasil.

Agora, a minha discordância é quanto aos pedidos de “intervenção militar constitucional”.

Claro que falar “intervenção militar constitucional” (ou, como alguns “gênios” escreveram, constitutional military intervention already) demonstra que a pessoa simplesmente não conhece o texto constitucional. Em nenhum capítulo, nenhum artigo, nenhum parágrafo sequer, a Constituição autoriza as Forças Armadas a derrubarem o governo. Ao contrário, o artigo 142 deixa bem claro que os militares encontram-se sob a autoridade suprema da Presidência da República: alguém acredita que Dilma ligaria para os chefes militares pedindo a sua própria deposição?

Mas, felizmente, ignorância não é crime. É coisa feia, mas ninguém precisa ir parar na cadeia por conta disso. Melhor ir estudar noções básicas de legislação (aliás, estas deveriam ser ensinadas nas escolas, para as pessoas conhecerem melhor seus direitos e deveres).

O problema é ir para a rua e pedir golpe militar (vamos chamar as coisas pelo que elas são).

Quando se pede um golpe militar, se está pregando abertamente a quebra da ordem constitucional. Ou seja, trata-se de apologia a um crime, à violação da lei máxima do país. Assim como não se pode sair por aí defendendo o assassinato de qualquer pessoa que seja. Logo, não defendo a criminalização de tais atos, pois isso (em minha visão leiga) já configura crime.


“Ah, mas a ditadura matou, torturou, como pode alguém achar aquilo bom?”, você pode me perguntar, com toda a razão. Simples: a imensa maioria das pessoas não tem conhecimento do que aconteceu no Brasil durante aquele triste período – e, como eu disse mais acima, ignorância não é crime. É fruto da má qualidade do nosso sistema de ensino, que estimula a gurizada a apenas “decorar a matéria para a prova”, sem incentivá-la a buscar mais conhecimento. Assim, os conteúdos ministrados nas aulas de História literalmente “entram por um ouvido e saem pelo outro”: a maioria apenas “estuda para a prova” e depois nunca mais quer saber “daquelas coisas de um tempo em que eu nem era nascido”; se prestassem mais atenção àquele conteúdo, saberiam que achar aquela época melhor do que hoje significa desprezar totalmente os direitos humanos e defender um regime que poderia muito bem por até mesmo suas vidas em risco (para tal bastaria manifestar alguma opinião que não agradasse muito aos donos do poder).

Mas também há quem ache que a ditadura “foi branda” e “deveria ter matado mais”. Bom, aí temos discurso de ódio e isso é crime, da mesma forma que defender golpe militar. Que se aplique a lei.

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Sobre a tal “intervenção militar”

Minhas amizades têm os mais variados gostos e opiniões. Sou gremista, e me dou muito bem com colorados. Gosto muito de vinho, mas não exijo de ninguém que aprecie a bebida. Adoro inverno e várias pessoas que preferem o verão têm grande apreço de minha parte.

Nas eleições, obviamente a situação não foi diferente. Da lista de minhas amizades – online ou offline – saíram votos para Dilma Rousseff, Aécio Neves, Marina Silva, Luciana Genro, Eduardo Jorge e Mauro Iasi. Isso levando em conta quem abriu o voto, pois muita gente não se manifestou sobre a eleição e pode ser que tenha votado em algum outro candidato. As discordâncias não me levaram a brigar com ninguém, havia respeito mútuo.

Ou seja, não tenho problema algum com relação a opiniões divergentes da minha. Até porque ninguém nasce com opinião pronta, formamos a nossa a partir do que as outras pessoas dizem – seja por concordar ou discordar. Sem contar que não há em qualquer parte do mundo uma pessoa exatamente igual a outra.

Agora, se você é daquelas pessoas que defende “intervenção militar” (que só é “constitucional” na cabeça de quem não conhece a Constituição) para “acabar com a corrupção”, e ainda acha que na época da ditadura as coisas eram melhores, aí sim temos um problema.

Sendo mais específico, você tem um problema com relação a opiniões diferentes.

Durante a ditadura, bastava alguém gerar desconfiança (mesmo sem nenhum motivo para tal) para ser considerado “subversivo” e sofrer perseguição por motivos políticos; em caso de prisão, com sorte o interrogatório seria “civilizado”, sem espancamento nem tortura; se houvesse tortura, com sorte e muita resistência se sobrevivia a ela. E depois disso, dois caminhos eram possíveis: o da sobrevivência, com sorte mantendo a sanidade mental (muitas pessoas enlouqueceram por conta da tortura); ou o da morte, no qual os entes queridos teriam de contar com a boa vontade dos assassinos para que ao menos pudessem se despedir (e várias famílias nem isso conseguiram fazer, pois os canalhas muitas vezes não se contentavam em matar opositores, ainda tratavam de sumir com os corpos).

Na ditadura que você defende (“afinal, esse pessoal que faz baderna tem mais é que levar porrada para ver se aprende”), seria bem possível que amigos seus fossem considerados “subversivos” por motivos os mais banais possíveis (naquela época, se você não gostasse de alguém e quisesse ferrar com essa pessoa bastava acusá-la de ser comunista, sem necessidade de provas do “crime”). E de nada adiantaria reclamar disso com o argumento de que “fulano de tal é ‘pessoa de bem’, eu conheço”: aliás, talvez você também fosse “convidado” a “prestar informações” (afinal, quem reclama provavelmente é “subversivo”, né?).

Ou seja, se você quer “intervenção militar”, pense bem a respeito disso. Pode ser que uma das vítimas dela seja você mesmo. Sem contar as muitas pessoas que você diz querer bem.

Consciência tranquila

Em 19 de julho de 2007, Luis Fernando Verissimo teve publicada em vários jornais uma excelente crônica, que “norteará” minhas palavras. Vamos a ela.

Cumplicidade

Uma comprida palavra em alemão (há uma comprida palavra em alemão para tudo) descreve a “guerra de mentira” que começou com os primeiros avanços da Alemanha nazista sobre seus vizinhos. A pouca resistência aos ataques e o entendimento com Hitler buscado pela diplomacia européia mesmo quando os tanques já rolavam se explicam pelo temor comum ao comunismo. A ameaça maior vinha do Leste, dos bolcheviques, e da subversão interna. Só o fascismo em marcha poderia enfrentá-la. Assim muita gente boa escolheu Hitler como o mal menor. Ou, comparado a Stalin, o mau menor. Era notório o entusiasmo pelo nazismo em setores da aristocracia inglesa, por exemplo, e dizem até que o rei Edward VIII foi obrigado a renunciar não só pelo seu amor a uma plebéia mas pela sua simpatia à suástica. Não tardou para Hitler desiludir seus apologistas e a guerra falsa se transformar em guerra mesmo, todos contra o fascismo. Mas por algum tempo os nazistas tiveram seu coro de admiradores bem-intencionados na Europa e no resto do mundo – inclusive no Brasil do Estado Novo. Mais tarde estes veriam, em retrospecto, do que exatamente tinham sido cúmplices sem saber. Na hora, aderir ao coro parecia a coisa certa.

Comunistas aqui e no resto do mundo tiveram experiência parecida: apegarem-se, sem fazer perguntas, ao seu ideal, que em muitos casos nascera da oposição ao fascismo, mesmo já sabendo que o ideal estava sendo desvirtuado pela experiência soviética, foi uma opção pela cumplicidade. Fosse por sentimentalismo, ingenuidade ou convicção, quem continuou fiel à ortodoxia comunista foi cúmplice dos crimes do stalinismo. A coisa certa teria sido pular fora do coro, inclusive para preservar o ideal.

Se esses dois exemplos ensinam alguma coisa é isto: antes de participar de um coro, veja quem estará do seu lado. No Brasil do Lula é grande a tentação de entrar no coro que vaia o presidente. Ao seu lado no coro poderá estar alguém que pensa como você, que também acha que Lula ainda não fez o que precisa fazer e que há muita mutreta a ser explicada e muita coisa a ser vaiada. Mas olhe os outros. Veja onde você está metido, com quem está fazendo coro, de quem está sendo cúmplice. A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece.

Enfim: antes de entrar num coro, olhe em volta.

O texto foi escrito no auge do “caos aéreo”, época em que, como bem disse LFV, era grande a tentação de vaiar o então presidente Lula. Na antevéspera do dia em que a crônica foi publicada, aconteceu o desastre com o voo da TAM no Aeroporto de Congonhas, que a direita tentou usar para derrubar Lula mas resultou em fiasco (algumas manifestações convocadas sequer reuniram uma dezena de pessoas). E seis dias antes do texto, o presidente fora muito vaiado na cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, dando a impressão de que seu governo era muito impopular – não podia haver impressão mais falsa.

Quando Verissimo fala “A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece”, aparentemente cai em contradição, considerando o teor de seu texto. Afinal, ele fala justamente em “cumplicidades”, citando dois excelentes exemplos (a falta de condenação à Alemanha nazista por parte de França e Inglaterra por ser considerada por eles “o mal menor” em comparação à União Soviética, e a fidelidade cega de muitos comunistas à URSS mesmo já sabendo que o stalinismo era um total desvirtuamento do ideal marxista). Logo, seria correto simplesmente apoiar Lula de forma acrítica, mesmo que houvesse muita coisa a ser criticada? Bom, o próprio texto, como um todo, diz que não.

O que depreendo da leitura é que criticar Lula (e também Dilma) não pode ser confundido com entrar no coro da direita. Pois eu critico a falta de regulação da mídia em 12 anos de governo (e considero verdadeira “síndrome de Estocolmo” o financiamento de publicações como a Veja por meio de anúncios estatais), a falta de atenção às questões indígena e ambiental, a capitulação frente aos fundamentalistas religiosos (como se viu no episódio da suspensão da distribuição do kit anti-homofobia nas escolas), a “acomodação” do PT (desejava muito que o partido se esforçasse em aumentar sua bancada parlamentar de modo a depender menos ou mesmo poder abrir mão do PMDB para conseguir governar), e poderia citar outras discordâncias que tenho sem me ver ao lado das forças reacionárias. Pois a turma do “acorda Brasil” acha que regular a mídia é censura (a Inglaterra virou ditadura, pelo visto), que índio é vagabundo e ecologista é ecochato, que atender a pautas LGBT implantará uma “ditadura gay”, que descriminalizar o aborto e as drogas causará a morte de milhões de bebês e obrigará os sobreviventes a fumarem maconha, que cotas são racistas (e não o contrário, uma medida paliativa contra ele), que Bolsa Família é “sustentar vagabundo”, que a ditadura de 1964 foi boa para o Brasil por ter impedido uma “ditadura comunista”, dentre outras barbaridades.

Então chegamos à eleição de 2014. Mesmo com todas as críticas que tenho, votei pela reeleição de Dilma Rousseff. Só que não foi simplesmente para dizer não à volta do PSDB ao governo. Também significava dizer sim à redução da miséria, da fome (pela primeira vez o Brasil saiu do “mapa da fome” da ONU); também era um sim à possibilidade de mais brasileiros entrarem na universidade, seja por meio de bolsas do ProUni ou nas várias universidades federais criadas nos governos Lula e Dilma; também era um sim ao maior protagonismo internacional do Brasil nos últimos 12 anos, com uma política externa mais independente; sem contar que o país passou pelos piores momentos da crise econômica sem ter desemprego em massa como se vê em vários países europeus. O coro no qual entrei não era simplesmente “contra Aécio Neves”: era também em defesa de um Brasil que, a despeito de muitos problemas que persistem, é inegavelmente melhor que aquele de 12 anos atrás. Posso dizer que domingo fui dormir não só aliviado, mas também com a consciência tranquila: as críticas que tenho ao governo Dilma são mantidas (e sei que Aécio não atenderia àqueles anseios, pelo simples fato de serem pautas de esquerda); e ao mesmo tempo votei contra o discurso de ódio à diversidade e à democracia de muitas pessoas (“coxinhas”) que deram seus votos a Aécio.

Obviamente nem todo mundo que votou no candidato do PSDB é “coxinha”. Sei porque há amigos meus que digitaram o 45 e ficaram estarrecidos com a reação de vários eleitores de Aécio, que destilavam ódio ao Nordeste e defendiam separatismo (tremenda burrice, pois tanto Dilma como o tucano tiveram votos em todas as partes do Brasil). Quem votou em Aécio por achar que ele seria melhor para o país e não por acreditarem nas insanidades “coxinhas” certamente pensa: será que é possível ser oposição sem ser “coxinha”? A resposta, obviamente, é sim. O problema é que atualmente quem grita mais alto contra o atual governo são justamente os “coxinhas”, que nem sequer são a favor de algum projeto para o país: querem simplesmente “tirar o PT do governo”. Isso não tira a legitimidade de quem se opõe – é um direito inerente à democracia que deve ser plenamente garantido – mas certamente dá um peso na consciência de quem é favorável a um projeto liberal (que nada tem a ver com o defendido pelos pseudoliberais brasileiros) e não simplesmente “anti-PT”.

Que tal mostrar o boletim?

Toda vez que vejo alguém chamar eleitores do PT de “burros”, sinto imensa vontade de publicar uma foto de meus boletins dos tempos de colégio. Em especial quando conheço a pessoa e sei que ela não tirava notas muito boas…

Só não faço isso pois não acho que notas sejam uma medida da inteligência de uma pessoa – especialmente quando a avaliação é feita apenas por meio de provas. Ir mal no colégio não é sinal de “burrice” (várias vezes a pessoa tem um grande talento que não é levado em conta pela escola); mas, por outro lado, quem tira boas notas obviamente não serve para “burro”.

Burrice mesmo é ofender e desqualificar quem pensa diferente, independente de posição política.

O fim do Orkut

No início de 2009 fiquei sabendo que o Esquilo Travesso, escolinha onde fiz o Jardim de Infância, iria fechar as portas pois sua sede (uma antiga casa na Rua Dona Laura) havia sido vendida para, posteriormente, ser posta abaixo.

A notícia me despertou nostalgia por aqueles dias em que eu frequentava a escolinha, de meados de 1986 ao final de 1988. E também me fez decidir pela volta ao Orkut após quase três anos de ausência – cometi meu primeiro orkutcídio no início de 2006 – na esperança de quem sabe reencontrar os coleguinhas daquela época. (Acabei não reencontrando ninguém, lembro que abri um tópico na comunidade perguntando por alguém da turma que concluiu o Jardim em 1988 e não houve resposta…)

No fim, terça-feira foi a vez do próprio Orkut cometer seu orkutcídio. O meu segundo – e definitivo – aconteceu em algum dia em 2012 ou 2013, o que demonstra a decadência da rede que até quatro anos atrás era a mais acessada pelos brasileiros: minha última saída do Orkut não marcou como a primeira, em 2006. No início de 2014, quando a rede completou 10 anos, a Google não tinha pretensões de acabar com ela; mudou de ideia em junho, quando anunciou o fim para 30 de setembro.

Confesso que o fim do Orkut, em si, não me causou maior nostalgia. Afinal, eu já desfizera minha conta e, quando tentei voltar, deu erro. Parecia que o próprio não me queria mais lá.

Por mais cruel que possa parecer minha avaliação, o Orkut não chegou ao fim “por nada”. É preciso avaliar todos os motivos pelos quais uma imensa quantidade de pessoas decidiu trocá-lo pelo Facebook, mas alguns são facilmente identificáveis: excesso de spam (do qual, inclusive, não estamos livres no FB), falta de dinâmica (em 2010, antes do Facebook “bombar”, a rede na qual se compartilhava links e notícias era o Twitter, não o Orkut), sem contar os “benditos” gifs animados que chegavam a dar dor de cabeça.

O ruim mesmo é que no Facebook não tem comunidades e não há sinal de que Mark Zuckerberg pretenda adotar tal funcionalidade “orkutiana” em sua rede. E se nem no Orkut, onde havia uma comunidade do Esquilo Travesso, eu consegui encontrar aquela menininha simpática de quem eu tanto gostava, no Facebook certamente não vou achá-la. Pode parecer bobagem, mas eu adoraria reencontrar alguém que não vejo há quase 26 anos.

Pela família e pela vida

“Vou trabalhar em defesa da família”, dizem vários candidatos e candidatas a cargos parlamentares nas eleições do próximo dia 5 de outubro. Não é de hoje que esse chavão é repetido, mas aumentou bastante sua frequência no horário eleitoral em 2014. Eu até andava pensando: será que existe algum candidato “contra a família”? Ao menos seria algo diferente.

Esses dias, meu amigo Paulo Alcaraz fez um comentário genial sobre esse negócio de “defesa da família”: ora, o Don Corleone também era a favor da família… Não é verdade?

"Um homem que não gasta tempo com sua família nunca será um verdadeiro homem." (Don Corleone em "O poderoso chefão")

“Um homem que não gasta tempo com sua família nunca será um verdadeiro homem.” (Don Corleone, “O Poderoso Chefão”)

E não só o Don Corleone era (muito) a favor da família. Quem assistiu ao excelente “A Queda” certamente sabe o motivo pelo qual o filme foi alvo de muitas críticas: mostrava um Adolf Hitler “humano”, que inclusive era carinhoso com sua família, ao contrário da imagem “monstruosa” geralmente associada a ele e aos nazistas em geral. Afinal de contas, é mais fácil dizer que tragédias como o nazismo foram “monstruosidades” do que admitir o fato de que foram obras de seres humanos e que, consequentemente, todos nós somos suas “sementes”, como bem mostrou o excelente filme “A Onda” (em especial, a versão alemã lançada em 2008).

Mas para não falarmos só de um personagem de ficção e de um ditador, lembremos o traficante de drogas (aquelas que você não quer que sejam legalizadas de jeito nenhum, para a alegria do traficante que assim não perde sua clientela). Ele também tem família. E, obviamente, é a favor dela.

Acho que já deu para sacar o quão vazio é esse discurso de “defesa da família”. Serve apenas para esconder as verdadeiras intenções de quem o profere – em geral, aqueles políticos cuja principal bandeira é defender que “família” só pode ser de um jeito, e de nenhum outro. Na cabeça desses “pró-família”, só heterossexuais têm direito a serem felizes no amor, mas como pega mal ser contra a felicidade alheia, disfarçam com esse papo furado de “ameaça à família brasileira”.


E tem também as candidaturas que “defendem a vida”. Outro discursinho vazio: existe alguém que seja “a favor da morte”? Até mesmo donos de funerárias são “pela vida”: afinal, só vivos podem morrer.

Assim como os “defensores da família”, os “pró-vida” disfarçam suas verdadeiras intenções: que se mantenha a criminalização do aborto (e por eles, seria crime até mesmo interromper uma gravidez fruto de estupro ou de um feto anencéfalo, únicos casos em que o aborto é legalizado). Não é por realmente considerarem que o feto seja uma “vida” (tanto que no meu registro consta como data de nascimento o dia em que deixei o útero de minha mãe, não quando ela descobriu estar grávida), mas sim por que, na cabeça deles, “mulher decente não transa com qualquer um, gravidez indesejada é coisa de vadias e elas que se explodam!”. Ou seja, o bom e velho machismo, pensamento segundo o qual uma mulher não tem o direito a ser livre.

Não por acaso, a maioria das lideranças “pró-vida” é formada por homens: para nós, que não engravidamos, o aborto sempre foi legal.

aborto

Breve comentário sobre o debate dos candidatos ao Senado

Se Lasier Martins for eleito, será um dos episódios mais vergonhosos da história política do Rio Grande do Sul. O ex-comentarista da RBS parece um disco arranhado: só fala em Ford (que foi embora porque quis e não por ter sido “expulsa” como ele diz) e, no debate da Bandeirantes, ficou óbvio seu desespero em desqualificar Olívio Dutra.

Foi tão deselegante, que chegou ao ponto de atacar Olívio nas considerações finais, quando este já não podia mais responder. Mas uma coisa certa Lasier falou: “vote contra o atraso” – ou seja, contra ele mesmo.

Fossa

Dois amigos conversam em uma mesa de bar.

– Meu coração está despedaçado!

– O que houve, cara? Levou um pé na bunda?

– Não, é pior que isso… Ela disse que vai votar na Ana Amélia!

O debate da Band

Terminou agora há pouco (já passa de uma da manhã) o debate presidencial da Rede Bandeirantes. Muito longo e cansativo.

Definitivamente, ainda bem que existe o Twitter. Não fosse ele, eu teria desligado a televisão há bem mais tempo… Mas graças a ele, resisti até o final.

Algumas observações:

  • Luciana Genro (PSOL) mandou muito bem ao chamar o candidato do PSC apenas de Everaldo, lembrando que não se deve misturar religião e política. É assim que funciona um Estado laico;
  • Ainda estou tentando entender como Chico Mendes era “elite”. Marina Silva (PSB?) disse isso;
  • Incrível a insistência na promessa populista de cortar cargos em comissão (CCs). Esquecem que muitos CCs são servidores concursados (ou seja, não “caíram de paraquedas” lá), sem contar que não se pode sair nomeando CCs “a torto e direito”. Nesse debate felizmente não ouvi aquele blá-blá-blá de “governo técnico e não político” (o que criaturas assim fazem disputando eleições?);
  • É tanta gente falando em “renovar a política”, “promover uma nova política”, que a maior novidade que pode acontecer é alguém prometer “a velha política”;
  • Pessoal da direita fala em “Estado mínimo” mas ao mesmo tempo defende mais polícia como uma das “soluções mágicas” para criminalidade;
  • Perto do tom predominante nas perguntas dos jornalistas, William Bonner é apenas um “implicante”. Como disse Marcelo Rubens Paiva no Twitter, “jornalismo da Band está à direita da direita”;
  • Debate mostrou que, infelizmente, a questão indígena só é preocupação das candidaturas mais à esquerda. Dilma poderia ao menos prometer mais diálogo em um segundo mandato. Já para as candidaturas da direita, vale o senso comum de que “índio é vagabundo”;
  • Jornalista da Band (não recordo qual) chamou Política Nacional de Participação Social (PNPS), proposta pelo governo, de “bolivariana”. Avisem ele que para muitos (inclusive eu) isso é elogio;
  • E Aécio Neves (PSDB) concordou com o jornalista da Band;
  • Em um momento Marina se enganou e ao se referir ao PSDB no governo falou “PMDB”. Aí teria de falar dos últimos 30 anos, pois salvo breves interregnos o PMDB está no governo desde 1985;
  • Boris Casoy chamou regulação da mídia de “censura”. Alguém avisa o cara que é hora de “virar o disco”, por favor;
  • Outro jornalista da Band (não recordo qual) falou sobre propostas de ensinar criacionismo nas escolas públicas. Algo que sequer deveria ser cogitado em um Estado laico;
  • Marina disse que Ensino Religioso em escolas públicas não é obrigatório, mas não acho isso suficiente: deveria ser proibido. Já li propostas de que a disciplina ensinasse História das Religiões, mas para isso basta aumentar a carga horária de História;
  • Levy Fidélix (PRTB) falou em mais prisões para “atender aos anseios das ruas do ano passado”; Luciana Genro lembrou que junho de 2013 começou com as pessoas pedindo mais direitos e não mais prisões;
  • Em suas considerações finais, Aécio anunciou Armínio Fraga (presidente do Banco Central durante segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso): sorte dele é que boa parte dos eleitores já tinha ido dormir àquela altura;
  • Eduardo Jorge (PV) foi a surpresa positiva do debate. Único candidato a defender abertamente a descriminalização da maconha e do aborto, o que já lhe rendeu o apelido de “Mujica brasileiro” nas redes sociais;
  • Everaldo Pereira (PSC) é a favor da liberdade de imprensa “sem marco regulatório”, como diz defender o “Estado mínimo”. Exceto em relação aos direitos de mulheres e homossexuais: aí é Estado máximo e marco regulatório rígido.

E o debate acabou aí. Felizmente.

Pastor Everaldo e a contradição de muitos liberais brasileiros

Fazia anos que eu não via um candidato a presidente defender abertamente as privatizações – caso de Everaldo Dias Pereira, o Pastor Everaldo, que concorre à presidência pelo PSC. Ontem, na entrevista ao Jornal Nacional, disse que privatizará a Petrobras caso seja eleito. Além de outras empresas estatais que ele considere como “foco de corrupção”.

Após o governo de Fernando Henrique Cardoso, que privatizou várias estatais e terminou com índices de reprovação que superavam os de aprovação, “privatização” virou uma espécie de “palavrão” no dicionário político brasileiro. Na campanha eleitoral de 2006 tivemos dois exemplos disso. O primeiro, foi na disputa pelo governo do Rio Grande do Sul: a candidata Yeda Crusius (PSDB) tinha como vice o empresário Paulo Afonso Feijó (então PFL, depois DEM), que defendia abertamente as privatizações; a coordenação de campanha procurou forçá-lo a não falar o “palavrão”, temerosa de perder votos; no fim Yeda foi eleita, mas ao assumir o governo já tinha Feijó quase como um “opositor”. O outro foi na disputa pela presidência: o candidato tucano Geraldo Alckmin chegou a vestir uma jaqueta com logotipos de várias estatais, para tentar convencer os trabalhadores delas de que não tinha a pretensão de vender as empresas; não adiantou, e Alckmin conseguiu a façanha de perder obtendo menos votos no segundo turno do que recebera no primeiro.

Everaldo, por sua vez, não esconde o que pensa. Talvez pela baixíssima probabilidade de ser eleito, o que dá a qualquer candidato na mesma situação a tranquilidade de que não precisará cumprir sua promessa: lembro que anos atrás o PCO defendia em seus programas eleitorais o salário mínimo de R$ 1.500, algo que acharia sensacional mas sei que é politicamente inviável ainda nos dias de hoje. Mas a diferença é que Everaldo não é o PCO (esquerda), mas sim, representante da direita mais conservadora. Fosse eleito, não teria dificuldade alguma de aprovar suas propostas: independente de quem vença a disputa presidencial, me parece quase certo que, infelizmente, o Congresso que surgirá das urnas em outubro será bem mais conservador que o atual.

Pois as propostas de Everaldo não se resumem à retomada das privatizações. Na realidade, elas refletem bem uma das maiores contradições de parte considerável dos ditos “liberais” brasileiros, que tanto discursam a favor da “liberdade”: defendem o “Estado mínimo” na economia, mas em compensação pregam a intervenção estatal em assuntos de ordem realmente privada. Sim: como seria de se esperar de um candidato conservador e que prega a “defesa da família” (fica a dica para qualquer um que esteja concorrendo e queira abrir mão do meu voto: fale em “defesa da família”), Everaldo é contra o casamento homossexual, a legalização do aborto e das drogas. Até aí, nenhuma novidade.

Mas o fato é que temos uma candidatura de um típico liberal brasileiro, com um discurso que prioriza a “liberdade” a despeito da igualdade – como se fosse possível real liberdade em uma sociedade desigual – e ao mesmo tempo contrário à liberdade de homossexuais se casarem, de mulheres interromperem uma gravidez indesejada e de pessoas adultas decidirem se drogar com uma substância que não seja álcool, nicotina ou ritalina. Se há algo positivo nisso (ele não esconde o que realmente defende), por outro lado também mostra que a direita mais conservadora está perdendo a vergonha de ser “autêntica” (além de Everaldo há também o candidato do PRTB, Levy Fidélix, que quer “endireitar” o Brasil), justamente por perceber que isso não significa mais votações baixíssimas – o que é muito preocupante.


“Mas eu sou contra o aborto, o casamento homossexual e as drogas”, alguém poderá dizer. Tudo bem: isso se chama liberdade de opinião. Mas, pense um pouquinho: nem todas as pessoas são obrigadas a pensar como você.

A mulher grávida que aborta não “assassina” um bebê: ela interrompe uma gravidez, o que leva à morte o feto que carrega em seu útero. Cientificamente falando, é isso mesmo: aquele pequeno organismo não é um bebê (ou seja, um pequeno ser humano, que vive por conta própria mesmo que precisando de cuidados), é como se fosse qualquer outro órgão do corpo da mulher, tal como o apêndice (que quando inflama sempre é removido cirurgicamente). Claro que, no caso de uma mulher grávida e que deseja ser mãe, é diferente: metaforicamente, ela já se sente mãe de um bebê, mesmo que cientificamente ainda não seja. Mas para a mulher que tem uma gravidez indesejada (pelos mais variados motivos), aquele feto é um tormento e poderá continuar a sê-lo mesmo depois de bebê.

Você é heterossexual e por motivos óbvios não pretende casar com alguém do mesmo sexo? Eu também.

Toma uma cervejinha todas as semanas? Pois, assim como eu, você está usando drogas… A diferença é que a nossa não é proibida. (E, inclusive, é causa de incontáveis acidentes de trânsito, que todos os anos matam milhares de pessoas em nosso país.)

Repare que garantir tais direitos (aborto, casamento homossexual e liberação de drogas como a maconha) em nada nos prejudica. Só prestar atenção no que acontece com os já garantidos: drogas como álcool e tabaco são legalizadas e ninguém é obrigado a beber ou fumar, inúmeros casais héteros optam por não formalizarem a união mesmo que tenham direito a tal… Ou seja: o aborto legalizado não impedirá mulher alguma de ser mãe, o casamento homossexual não obrigará ninguém a deixar de ser hétero, assim como ter o direito de fumar maconha é exatamente isso, direito, não obrigação.

Ou seja, se você é mulher e contra o aborto, é só não interromper uma gravidez mesmo que seja indesejada; se é contra o casamento homossexual, não case com alguém do mesmo sexo; se é contra as drogas, antes de tudo seja coerente e nunca mais ponha na boca um cigarro ou um gole de cerveja. Mas para isso não é preciso obrigar todas as pessoas a fazerem o mesmo.