Noite 972

A sexta-feira que acabou há pouco mais de uma hora, 25 de junho de 2021, foi o 971º dia após a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil. Ou seja, logo mais (depois de tomar umas cervejas que o dia MERECEU) irei dormir pela 972ª vez desde aquele trágico 28 de outubro de 2018, quando esse SER REPULSIVO ganhou a eleição.

Será a 972ª noite em que deitarei a cabeça no travesseiro sem peso algum na consciência. Pois naquele segundo turno eleitoral eu simplesmente fiz o que era certo: votei em Fernando Haddad, adversário de Bolsonaro, para presidente.

Se a alternativa a Bolsonaro fosse Ciro, teria meu voto sem pestanejar. Fosse Marina, idem. Podia também ser Alckmin, não teria vergonha alguma de votar no PSDB (partido contra o qual muita campanha fiz) para derrotar o fascismo.

Tem gente que votou em Bolsonaro e se arrependeu, acho ótimo. Mas tento me colocar no lugar dessas pessoas: deve ser muito ruim carregar a culpa de ter dado um voto que resultou em mais de meio milhão de mortes.

Provavelmente acreditando que estava elegendo um “honesto” ao invés da “corrupção do PT”. Para perceber, 971 dias depois, que sufragou uma corrupção muito pior.

Não quero ficar apontando o dedo – até porque o resultado disso costuma ser o contrário do esperado. Mas torço para que, sinceramente, a lição tenha sido aprendida. Se não, então nunca mais será.

O “mea culpa” que mais espero

Muito se cobra a esquerda (em especial o PT) para que faça uma autocrítica. Concordo tanto que inclusive gosto de lembrar que boa parte das pessoas que conheço de tal lado do espectro político já a fez. Eu mesmo venho fazendo há muito tempo.

Os governos de centro-esquerda do PT cometeram muitos erros, ainda que isso não apague seus acertos, que foram em muito maior número. Milhões de pessoas saíram da pobreza extrema (agora infelizmente estão voltando a ela por culpa de decisões tomadas nos últimos cinco anos) por conta de políticas de inclusão social promovidas pelas administrações petistas, foram abertas muitas universidades país afora, e na política externa o Brasil foi respeitado como poucas vezes em sua história (em compensação, agora…). Da mesma forma que as opiniões lamentáveis sobre política e a clara decadência do futebol do Grêmio nos últimos dois anos não me fazem querer “cancelar” Renato Portaluppi, que como jogador ganhou a Libertadores e o Mundial (com direito a marcar os dois golaços da vitória) em 1983; como treinador, tirou o clube de uma fila de 15 anos sem títulos de peso em 2016 ao vencer a Copa do Brasil, e em 2017 ganhou mais uma Libertadores, a terceira da história gremista. (Achei boa a saída, tanto para o próprio Renato como para o Grêmio.)

O “senso comum” associou o PT à “corrupção”, e considero um erro enorme que o partido não tenha agido com firmeza contra ela. Outro, tão grande e que teve o primeiro como uma de suas consequências, foi a política de alianças pela “governabilidade”, visto que era preciso ter uma forte base aliada no Congresso e a esquerda não tinha maioria. Foi ela que nos “legou” Michel Temer, ainda que isso não justifique a traição dele, que conspirou para virar presidente aliado a quem perdeu nas urnas em 2014.

Quem precisa ainda mais fazer autocrítica é a direita liberal – algo do que já falei aqui. Em especial, no tocante a algo que aconteceu há exatos cinco anos: a infame votação do impeachment na Câmara dos Deputados em 17 de abril de 2016, que mais adiante colocaria Temer na presidência. Foi um show de horrores digno de um livro de Stephen King. E que só aconteceu porque os derrotados de 2014 resolveram ganhar no “tapetão”, cansados de perder eleições.

Considerando a crise econômica na qual o Brasil estava entrando e o desgaste natural do PT após tanto tempo no governo, o mais provável é que, se não resolvessem tirar Dilma Rousseff na marra da presidência, em 2018 a oposição liderada pelo PSDB venceria com facilidade. Talvez com Aécio Neves (que quase ganhou em 2014), talvez com Geraldo Alckmin (com mais base eleitoral por ser de São Paulo). Jair Bolsonaro? Acredito que nem se candidataria: sem apoios de peso para sua candidatura, dificilmente abriria mão da mamata de ser deputado (desde 1991) sem fazer nada de útil pelo país.

Com a opção golpista, a direita liberal que a eleição de 2014 manteve na oposição passou a ser governo em 2016, sem votos. Virou também “vidraça”, levando as “pedradas” que o PT levaria sozinho até 2018 caso continuasse no comando do país. O resultado disso, somado à Operação Lava-Jato (que fez boa população da população achar que “político nenhum presta”), foi a eleição de Bolsonaro à presidência, que conseguiu engambelar uma penca de gente dizendo ser “contra tudo o que está aí” e com apoio (mesmo que em alguns casos só no segundo turno) de quem conspirou pela queda de Dilma pois, afinal, “PT nunca mais”. O PSDB, que se tivesse respeitado as regras provavelmente teria sido o vencedor de 2018, viu Alckmin não receber 5% dos votos após dois mandatos consecutivos como governador de São Paulo, ambos conquistados com vitórias em primeiro turno.

Quando se confirmou o que qualquer pessoa bem informada sabia – ou seja, que Bolsonaro não tinha a menor condição de governar o país – boa parte de quem o apoiou “contra o PT” começou a “tirar o corpo fora”, culpando a esquerda – e não seus votos equivocados – pela eleição do pior presidente da história do Brasil. E dê-lhe pedidos de “autocrítica” para quem tanto avisou em 2018 que, ora bolas, não era boa ideia colocar no Palácio do Planalto alguém que defende torturadores, agressões a homossexuais e salários menores a mulheres “pois engravidam”.

Desculpem, mas essa fatura não é nossa. Afinal, não fomos nós que digitamos “17” na urna eletrônica. (Aliás, dois algarismos que em sequência formam o placar daquele famoso Brasil x Alemanha: um bom sinal de que seria motivo de vergonha para o país, mas que nesse caso é bem maior pois na Copa do Mundo era só futebol.)

Cria cuervos…

O dia 6 de janeiro de 2021 entra para a História: assistimos a uma tentativa de golpe de Estado não na América Latina, mas no país que patrocinou tantos movimentos com as mesmas intenções ao sul do Rio Grande.

É fato inédito nos Estados Unidos, mas não surpreendente. Tudo indicava que Donald Trump, desesperado pela possibilidade de ser preso por fraude fiscal, faria de tudo para permanecer na Casa Branca. Dois meses após a eleição, não reconheceu a derrota e sequer recebeu Joe Biden para uma transição de governo como fizeram todos os presidentes anteriores. Várias vezes contestou os resultados, mesmo com todas as auditorias confirmando que não houve fraude. A única coisa que faltava era tentar um golpe, e eis que aconteceu: praticamente exigiu que Mike Pence, vice-presidente e que também tem a função de presidir o Senado, impedisse a certificação dos resultados eleitorais pelo Congresso (o que sempre foi mera formalidade) e insuflou uma turba de fanáticos a marchar em direção ao Capitólio para intimidar os congressistas. Pence não topou a aventura golpista mas o parlamento foi invadido, o que não ocorria há mais de 200 anos.

O golpe de Trump fracassou, mas seu mandato presidencial vai até o próximo dia 20 e ele tem em mãos os códigos para acionar um arsenal nuclear capaz de destruir o planeta várias vezes: duas semanas, nesse caso, é tempo suficiente para se fazer uma merda bem grande. Não à toa que já estão sendo considerados tanto um impeachment às pressas como a possibilidade de ser invocada a 25ª emenda à Constituição dos Estados Unidos, que prevê o afastamento do presidente caso o vice e a maioria do gabinete o considerem incapaz de seguir no cargo; se isso ocorrer, Pence assume o poder até a posse de Biden. (Sinceramente, torço muito não só para que isso aconteça como também para que Trump seja retirado da Casa Branca algemado.)

Independente do que acontecer nos próximos dias, o fato é que o problema não acaba em 20 de janeiro. Mesmo derrotado, Donald Trump recebeu 74 milhões de votos, o que significa uma enormidade de gente que se sente representada por um sujeito tão boçal. A polarização nos Estados Unidos, país no qual é muito fácil comprar uma arma de fogo e que já teve quatro presidentes assassinados no exercício do cargo, é tão acirrada que não poucas pessoas temem uma guerra civil.

E ainda tem o “exemplo” para os discípulos de Trump, como Jair Bolsonaro. Alguma dúvida de que ele vai tentar melar a eleição de 2022 caso seja derrotado? Com um agravante: no Brasil as instituições são bem mais frágeis que nos Estados Unidos, como provam os vários golpes que já ocorreram por aqui.

Como foi possível?

Já se passaram dois anos da eleição, e ainda fico pasmo ao pensar que mais de 57 milhões de pessoas escolheram Jair Bolsonaro para ser o presidente do Brasil. Até mesmo gente de direita que eu considerava sensata não viu nada de errado votar em alguém como ele só para derrotar o PT.

As atitudes dele na pandemia estarrecem, mas são apenas “mais do mesmo”. Ele sempre foi essa pessoa perversa. Bastava uma rápida pesquisa no Google para saber. A única coisa que mudou é que, como presidente, Bolsonaro tem um poder que não tinha como deputado.

Já vi gente de direita me questionar se contra Bolsonaro eu votaria em um candidato de tal lado do espectro político (SPOILER: já estou pronto para votar em João Doria em um eventual segundo turno contra “a coisa” em 2022) ou anularia o voto como fiz em 2016, quando teria de escolher entre Sebastião Melo (MDB) e Nelson Marchezan Júnior (PSDB) para prefeito de Porto Alegre no segundo turno, e digitei 71 ao invés do 15 ou do 45. Bom, já no primeiro ano da gestão tucana me arrependi de minha opção mesmo que meu voto sozinho não mudasse o resultado da eleição: se por um lado eu não tinha consentido com a vitória do PSDB, também não fizera nada contra ela mesmo que fosse preciso votar em outro candidato do qual não gostava.

Então, veio 2018, e eis que o segundo turno para governador do Rio Grande do Sul repetiu o duelo entre MDB e PSDB. Inicialmente hesitei, mas depois decidi pela primeira vez na minha vida digitar o 45 em uma urna eletrônica, votando em Eduardo Leite contra José Ivo Sartori. Sabia que discordaria da maioria esmagadora das decisões de Leite, mas também achava inaceitável a ideia de que um governo lamentável (para dizer o mínimo) como o de Sartori pudesse merecer mais quatro anos. E a covid-19 me deu a certeza de que não me equivoquei: acho que o governo Leite cometeu falhas – faltam testes e o Distanciamento Controlado precisava ser muito mais rigoroso do que é – mas não tenho dúvidas de que estaríamos vivendo um completo caos caso o resultado eleitoral tivesse sido outro, ainda mais que o negacionista Osmar Terra é do mesmo MDB de Sartori e não duvido que fosse nomeado para a Secretaria da Saúde, o que levaria o Rio Grande do Sul a ser um dos piores lugares do mundo para se morar durante a maior pandemia dos últimos 100 anos.

Ou seja: eu já votei em um candidato do qual discordava por não querer um pior. E isso que nem era uma diferença tão grande assim como a que se via na campanha presidencial daquele mesmo ano, que não era uma mera disputa entre dois projetos: era civilização contra barbárie. E a maioria, ou iludida com correntes no WhatsApp ou raivosa, optou pela barbárie…

Mas, será que era tanta ilusão assim? Não tinha como saber que seria um desastre?

O vídeo abaixo é de antes da eleição.

Não era uma escolha muito difícil. Não foi por falta de aviso.

Era só pesquisar no Google, porra.

Minha Porto Alegre… Minha?

Ao contrário da eleição anterior, não publiquei texto abrindo meus apoios às vésperas da votação. Meu computador estava com problema e não rolava escrever muito no celular. Mas quem acompanha minhas redes sociais (sinceramente, muito mais gente do que quem costuma vir aqui) já sabia meu posicionamento. De qualquer forma, para constar: votei em Karen Santos para vereadora e Fernanda Melchionna no primeiro turno. Ambas do PSOL. No segundo turno, não tive dúvidas: fui de Manuela. Meus votos em 2020 foram todos para mulheres.

Uma obviedade por minha posição política de esquerda, mas era algo que vai além disso: Porto Alegre é governada pela direita há 16 anos, que agora chegará a 20 com a eleição de Sebastião Melo. Era mais do que um voto “ideológico”: era para a cidade sair da mesmice. Ainda mais se considerarmos que é uma mesmice RUIM: há cidades governadas pela direita onde se vive melhor, as coisas funcionam, o que não é o caso de Porto Alegre.

Com o agravante de que o eleito é o vice do lamentável segundo mandato de José Fortunati, o prefeito que mandava cortar árvores com o estúpido argumento de que “as pessoas não as usavam” para alargar uma avenida e que deixou a cidade com inúmeras obras inacabadas – aliás, boa parte delas eram para a Copa de 2014, e não ficaram prontas até agora quando já acontecem as eliminatórias para 2022. E como se não bastasse, Melo promete “abrir tudo” como se fosse possível acabar com a pandemia por decreto; de aumentar a testagem da população para que tal abertura possa ser mais segura ele não falou em nenhum momento.

A maioria do eleitorado porto-alegrense prefere continuar na mesmice ruim para não votar na esquerda. Um voto puramente ideológico… Como costumam ser os meus?

Não. Pois não estou do lado que se utiliza de desinformação e um discurso muito velho. Apoiadores de Melo falavam que se Manuela ganhasse a população porto-alegrense iria “comer carne de cachorro”, o próprio candidato apelava a um anticomunismo que mais caberia na década de 1960 do que em 2020… Sem contar os ataques de Rodrigo Maroni, ex-noivo de Manuela que parecia ser candidato mais por “dor de cotovelo” do que por ter propostas para a cidade (não tinha). Houve campanhas de mais baixo nível em outras cidades brasileiras, mas em Porto Alegre não recordo de outra tão suja.


Lembro de quando cogitei pela primeira vez morar no interior do Rio Grande do Sul, quando fiz um concurso para a prefeitura de Farroupilha em 2013. Um conhecido, de esquerda como eu e que era da Serra, disse: “te prepara”.

Não fui para Farroupilha, me saí (muito) mal na prova. Mas pouco tempo depois passei em outro concurso e em janeiro de 2015 me mudei para Ijuí, a 400 quilômetros de Porto Alegre. Eu pensava seriamente em morar no interior: embora não planejasse ir para tão longe (as outras opções eram ainda mais distantes), o fato de ter o desejo de “mudar de ares” facilitou bastante minha adaptação a uma nova vida interiorana.

Imaginava ficar pelo menos três anos em Ijuí, mas circunstâncias pessoais (das quais não falarei novamente, escrevi sobre isso não faz tanto tempo) me fizeram retornar a Porto Alegre assim que surgiu uma oportunidade. E como disse no texto citado, não me arrependi do retorno: era o famoso “cavalo encilhado” que não podia deixar passar.

Ao mesmo tempo, o isolamento social imposto pela pandemia muitas vezes me levou a refletir sobre como seria melhor morar em uma cidade no interior, onde pelo mesmo valor que pago de aluguel em Porto Alegre eu estaria em um apartamento maior, com sacada, talvez até com churrasqueira: não era o caso de Ijuí (onde quase consegui um com), mas não custaria uma exorbitância como em Porto Alegre.

Fala-se muito sobre o conservadorismo do povo do interior, e o exemplo que relatei do conhecido me “alertando” sobre como seria morar na Serra diz tudo. Mas, sinceramente, o povo de Ijuí (que é de onde posso falar um pouco, por já ter morado lá) não me parece tão mais conservador que o de Porto Alegre, que aceita ser governado pela direita por (pelo menos) 20 anos mesmo que ela não faça muito por merecer cinco vitórias eleitorais consecutivas. (E sim, também acho que a esquerda também errou nesta e em campanhas anteriores, somos muito fracos em comunicação.)

Mas, se é para conviver com tantos conservadores (e mesmo reacionários)… Não seria melhor fazer isso onde eu tivesse mais qualidade de vida?

Eis algo em que vou pensar com bastante carinho, especialmente após o fim desta maldita pandemia, já que agora nem adianta muito. Não necessariamente me mudarei, mas pensarei seriamente.

O “fundão” no poder

Recebi a imagem acima via WhatsApp. Achei simplesmente genial, em especial pela explicação do que é o PSL – partido pelo qual Jair Bolsonaro foi eleito presidente em 2018, apesar de ter se desfiliado ano passado.

Os “encrenqueiros” dos Simpsons, os “valentões”, a “turma do fundão”. É a melhor representação da turma que nos governa há quase dois anos.

(Também diz bem quem são Donald Trump e seus apoiadores nos Estados Unidos, que não aceitam a derrota eleitoral e querem tumultuar a transição de governo.)

Temos um presidente – com apoiadores que fazem jus à fama de “robôs”, já que não pensam por si próprios – que se recusa a cumprimentar Joe Biden pela eleição por ser “capacho” de Trump. Que boicota a vacina da Sinovac contra a covid-19 por temer a concorrência de João Doria na disputa pelos votos da direita na eleição presidencial de 2022 e chega a celebrar a suspensão dos testes do imunizante (ou seja, indiretamente comemorou o falecimento de um voluntário que, comprovadamente, não tem relação com os estudos). Que “caga e anda” para as mais de 160 mil mortes causadas pela pandemia no Brasil e, como se não bastasse, destila homofobia para se referir a quem, com razão, se preocupa em não contrair nem propagar a doença.

Nos Estados Unidos, a boçalidade em pessoa deixa a Casa Branca no próximo dia 20 de janeiro, por bem ou por mal. Já o nosso ainda tem pouco mais de dois anos de mandato, e inspirado por Trump provavelmente vai tumultuar o processo eleitoral em 2022 caso seja derrotado. O que restará de Brasil após essa tragédia?

Democracia?

Hoje é, aparentemente, dia de eleição presidencial nos Estados Unidos.

O “aparentemente” se refere não ao fato de que boa parte do eleitorado votou antecipadamente (por medo de aglomerações nos locais de votação em meio à pandemia), mas sim à existência do famigerado e anacrônico colégio eleitoral, onde ocorre formalmente a escolha do presidente.


Em 2016, antes de saber quais seriam os resultados, comentei que exatos 27 anos após a abertura do Muro de Berlim (fato ocorrido em 9 de novembro de 1989) os jornais do dia poderiam ter como manchete principal a vitória eleitoral nos Estados Unidos de um candidato à presidência, Donald Trump, que propunha a construção de um muro na fronteira com o México.

Acabou acontecendo: Trump foi eleito, apesar de ter recebido quase 3 milhões de votos a menos que Hillary Clinton. Coisas da “democracia” estadunidense: não é necessário respaldo popular, basta ter a maioria absoluta no colégio eleitoral. E com exceção de Maine e Nebraska, não há proporcionalidade: o vencedor leva todos os delegados do estado em questão, mesmo que ganhe por diferença mínima e sem precisar da maioria absoluta (mais de 50%) do eleitorado estadual.

É o que causa tal distorção que, embora não ocorra com frequência, também não foi fato inédito em 2016: já acontecera em 1876, 1888 e 2000. (Também há o caso de 1824, quando o mais votado pelo povo também recebeu mais “votos eleitorais” no colégio, mas como não teve maioria absoluta coube à Câmara de Representantes a escolha do presidente, e o eleito foi o segundo colocado.)

Além disso, a não exigência de uma maioria absoluta praticamente inviabiliza o surgimento de uma “terceira via” aos partidos Democrata e Republicano. Ainda que eleições geralmente tenham um caráter “plebiscitário” sobre o governo do momento (seja com o presidente concorrendo à reeleição ou tentando fazer seu sucessor), em casos como o Brasil a previsão de segundo turno caso o mais votado não ultrapasse os 50% dá ao eleitorado mais de uma opção que não seja governista; já nos Estados Unidos vota-se em democratas por rejeição a republicanos e vice-versa. Tanto que se diz que o maior mérito de Joe Biden é não ser Donald Trump.


O triunfo do socialista Salvador Allende na eleição presidencial chilena de 1970 não agradou nem um pouco aos Estados Unidos, então governados pelo republicano Richard Nixon. Henry Kissinger, então Secretário de Estado, disse que não se podia permitir que um país se tornasse comunista pela “irresponsabilidade de seu próprio povo”. Infame mas de certa forma coerente com o histórico imperialista: se nos Estados Unidos valia mais o colégio eleitoral que a vontade popular, no Chile deveria ser igual.

Em 11 de setembro de 1973, Allende foi deposto por um violento golpe militar, e preferiu cometer suicídio a se entregar e virar um troféu para os traidores do povo chileno. Nascia assim mais uma ditadura “em nome da democracia”, patrocinada pelos interesses dos Estados Unidos.

Agora, ironicamente é a “democracia” estadunidense que está em xeque. Parafraseando Kissinger (mas neste caso falando com correção), um país pode dar mais um passo rumo ao fascismo por irresponsabilidade de boa parte de seu povo – mas que não necessariamente é a maioria.

Qual é a surpresa?

Causou justíssima indignação o insulto do cidadão que ocupa a presidência do Brasil contra a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de São Paulo. Deveria haver alguma resposta das instituições democráticas contra isso, mas sei que infelizmente nada acontecerá.

Simplesmente porque não é nenhuma novidade: na política há mais de 30 anos, ele já falou inúmeras barbaridades e nunca sofreu qualquer punição. Não vou citar todas elas pois não pretendo me alongar muito neste texto, lembrarei apenas três: defendeu o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso, que na ocasião da declaração (1999) era nada menos que o Presidente da República; em 2016 dedicou seu voto favorável ao impeachment de Dilma a um reconhecido torturador; e durante sua campanha presidencial em 2018 falou em “fuzilar a petralhada” (sendo que para a direita delirante “petralha” é qualquer pessoa de esquerda, petista ou não).

Não, ele não está atacando a imprensa por se sentir “acuado” ou porque a economia vai mal. Ele está apenas sendo o que sempre foi.

kayser

Charge: Kayser

Lembram do quanto avisamos que votar nele era roubada? E de como respondiam que era “exagero” da nossa parte? Acreditando que quando assumisse a presidência ele iria mudar como num passe de mágica…

E todo mundo que “subiu no muro” e deixou a tragédia acontecer, achando que tanto ele quanto seu adversário no segundo turno de 2018 eram “iguais”? Incluindo aí a imprensa tradicional, que agora se apavora com ele mas também tem “culpa no cartório”: lembram daquele editorial do Estadão? Será que a lição foi aprendida?

estadão

Nunca foi tão fácil escolher certo, mas a maioria foi para o lado errado ou “deu de ombros”.

Agora a imprensa tradicional parece ter acordado, as instituições irão enquadrar o presidente… Não vão. Pois nunca o fizeram contra um mero deputado do “baixo clero”, e assim deixaram ele crescer. Agora que está “grandão” vão querer segurar? Lamento informar: tarde demais.

Mas, com toda a sinceridade, quero muito estar errado.

A democracia “cancelada”

Na noite de domingo, li um “fio” no Twitter que compartilhei devido à gravidade do assunto abordado. (A mensagem abaixo é apenas o começo dele, vai lá para ler tudo.)

Como a autora do tweet bem alertou, isso não tem a repercussão que deveria ter: universidades federais não terão recursos para pagar os salários de seus servidores até o final do ano. Deveria ser o assunto mais falado da segunda-feira, principalmente por parte da esquerda.

Mas não. Pois domingo tinha bloco de Carnaval, Alessandra Negrini participou ao lado de lideranças indígenas e caracterizada como elas, e boa parte da esquerda começou a “debater” se a atriz poderia ou não se fantasiar de índia…

Não que eu ache despropositado tal debate. O problema é o momento.

Afinal, o que é mais pertinente discutir agora? Fantasia de Carnaval ou a destruição das universidades públicas?

Provavelmente essa galera “problematizadora” já se formou. Com o diploma garantido, não se preocupa com o que realmente é importante. Então, dê-lhe falar de “apropriação cultural” e “cancelar” quem discorda.

Sabe qual será o resultado disso tudo? A esquerda tomará mais “vareios” nas urnas como já vimos nas recentes eleições, com direito a uma possível (e cada vez mais provável) reeleição do atual (des)governo em 2022. E no fim das contas a nossa já gravemente ferida democracia é que será “cancelada”.