A imbecilidade na arquibancada

O Gre-Nal de domingo foi vergonhoso para nós, gremistas. Não pela derrota por 2 a 0 (perder é do jogo, apesar de estar se tornando muito comum recentemente, e de fazer quase dois anos que o Grêmio não vence o rival), e sim pela atitude de uma parcela da torcida gremista no Beira-Rio. Poderia até postar o vídeo aqui, mas acho que quem cantou “o Fernandão morreu” não merece mais publicidade, apenas as mais severas críticas e demonstrações de repúdio.

A trágica morte de Fernandão não deixou apenas os colorados tristes. Ele conseguiu ser admirado também pelos gremistas mesmo sem jamais ter vestido a camisa do Grêmio e, como se não bastasse, tendo sido fundamental nas maiores conquistas do Inter na década de 2000. Como diz o ditado, “uma imagem vale por mil palavras”, e esta abaixo, de um gremista indo ao Beira-Rio homenagear um dos maiores ídolos colorados naquele triste 7 de junho sintetiza tudo (infelizmente não sei a autoria da foto).

fernandão

Domingo, postei no Facebook um link para um “diagrama” que ensina a “ganhar” qualquer discussão sobre futebol. O “diagrama” é genial, mas ao mesmo tempo explica o motivo pelo qual não tenho mais saco para debater futebol a não ser acerca do jogo em si ou de seus aspectos sociais, culturais ou políticos. Tentar provar ao adversário que o meu time é maior que o dele (e ele defenderá até a morte o contrário) é algo totalmente sem sentido, pois não é uma discussão em termos racionais – e aí a própria palavra “discussão” fica totalmente desvirtuada, visto que ela significa “troca de ideias” e não “bate-boca”. Sim, muito já fiz isso, até mesmo aqui no blog, e não sinto nenhuma saudade daquelas trocas de comentários que tenderiam ao infinito se alguém não tomasse a iniciativa de parar com tanta idiotice (aliás, repararam como tenho falado menos de futebol de 2013 para cá?).

Pois tudo o que não precisamos é transformar o debate sobre a demência de domingo em “Gre-Nal”. É preciso discutir, sim, o que leva alguns idiotas a mandarem qualquer senso de humanidade para o espaço, ao ponto de apelarem para a crueldade pura e simples.

Muito se discute sobre o ser humano ser bom ou mau por natureza. É um debate que, creio, jamais chegará ao fim, até porque o conceito de “bom” e “mau” é muito subjetivo. Mas é fato que temos enorme potencial para praticar o mal. Muitas vezes, conseguimos nos conter, até que haja algum espaço onde “extravasamos” sem que isso seja malvisto da mesma maneira que no dia-a-dia. E um desses lugares é, sem dúvida alguma, o estádio de futebol (valendo o mesmo para qualquer ambiente onde se assista ou fale do esporte).

Na arquibancada vemos muitas vezes um homem calmo e bem-comportado “perder a cabeça”. Aquela pessoa que jura não ser racista e/ou homofóbica, no estádio chama o rival de “macaco imundo” e/ou de “viado”. Na internet, o pessoal fala merda e depois acaba recebendo muitas críticas, aí diz que “foi no calor do momento”. Mas a verdade é que “no calor do momento” costumamos revelar o que temos de pior, características reprimidas no cotidiano mas que, uma hora ou outra, virão à tona.


Não, a torcida do Grêmio não é toda como aqueles desvairados de domingo. E não foi só aquele grupelho que agiu de maneira tão baixa, conforme li em alguns comentários e mesmo em alguns livros – exemplos que cito abaixo.

Em 1993, o Grêmio contratou por empréstimo o jovem atacante Dener, revelado pela Portuguesa e que era considerado um dos jogadores mais promissores da época. O Tricolor não tinha dinheiro para comprar o passe de Dener e assim ele foi embora após jogar apenas três meses no clube, mas já como ídolo da torcida graças ao seu grande talento, que rendeu ao Tricolor o título estadual daquele ano. No ano seguinte Dener foi para o Vasco, e em 19 de abril morreu em um acidente de carro no Rio de Janeiro, causando luto no Olímpico. Dias depois, segundo comentários, torcedores colorados teriam ido a um Gre-Nal no Beira-Rio usando cintos de segurança (equipamento de segurança mas que acabou sendo o causador da morte de Dener, visto que o banco onde ele viajava estava reclinado, anulando a eficácia do cinto, que ainda por cima estrangulou o jogador), com a intenção de ironizar e provocar os gremistas.

Na crônica “Os cânticos do desprezo”, de seu excelente livro “Futebol ao sol e à sombra” (1995), Eduardo Galeano lembra algumas músicas de torcida que revelam os velhos preconceitos que encontram no futebol terreno extremamente fértil. Citando o caso do Napoli, clube que a partir da contratação de Maradona passou a jogar um belo futebol e ganhou dois Campeonatos Italianos em curto espaço de tempo (1987 e 1990), Galeano lembra o velho racismo que os italianos do norte dedicam aos do sul, com cânticos que iam do insulto (acusando os napolitanos de serem “sujos”) à pura e simples crueldade (“Vesúvio, contamos contigo”). O mesmo texto também lembra o preconceito no futebol da Argentina em relação ao Boca Juniors, clube mais popular do país em todos os sentidos (tamanho de torcida e extrato social): os “bosteros” (insulto que os boquenses adotaram como simbolo de identidade) seriam “todos negros, todos putos” que teriam de ser “jogados no Riachuelo” (rio extremamente poluído que passa próximo à Bombonera).

Em “Como o futebol explica o mundo” (2004), de Franklin Foer, achei outro exemplo, vindo da Hungria. Um dos clássicos de maior rivalidade da capital húngara, Budapeste, reune MTK e Ferencváros, fundados ainda no Século XIX e cuja rixa intensificou-se na década de 1920. O motivo? O MTK, cuja sigla significa Magyar Testgyakorlók Köre (Círculo Húngaro de Educação Física), foi fundado por judeus e com eles se identifica, enquanto a torcida do Ferencváros era próxima à extrema-direita que muito se fortaleceu após a Primeira Guerra Mundial. No período anterior à guerra os judeus eram dos mais ardosoros defensores do nacionalismo húngaro e em consequência disso eram bem-recebidos na Hungria; a capital Budapeste chegou a reunir uma das maiores concentrações judaicas do mundo naquela época. Após a queda do Império Austro-Húngaro e uma fracassada revolução comunista em 1919, a situação mudou e os judeus passaram a ser os “bodes expiatórios” dos políticos nacionalistas, da mesma forma que em outras partes da Europa. Apesar de terem se passado muitas décadas, o ódio não arrefeceu por completo: nos clássicos, torcedores do Ferencváros costumam ofender aos rivais do MTK com cânticos os mais odiosos possíveis, com menções a Auschwitz e às câmaras de gás nas quais seis milhões de judeus foram assassinados pelo nazismo.

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Decime qué se siente

Antes da seleção da Argentina embarcar para a Copa do Mundo no Brasil, os jogadores Lionel Messi, Javier Mascherano e Ezequiel Lavezzi, além do técnico Alejandro Sabella, participaram de um anúncio televisivo das Avós da Praça de Maio, que há 37 anos buscam por filhos de desaparecidos na última ditadura argentina.

A referência de Messi não foi apenas para “arredondar”. Sob sua mais brutal ditadura, que matou e sumiu com cerca de 30 mil pessoas, em 1978 a Argentina sediou a 11ª Copa do Mundo. Em 2014, o Brasil organizou a 20ª Copa. De fato, são dez Mundiais de ausência. Há quase 40 anos as Avós buscam por seus netos, cujas mães deram à luz na prisão e depois foram assassinadas, com as crianças sendo entregues a orfanatos ou a famílias de agentes da repressão (que, não raro, eram os algozes dos pais biológicos dos filhos adotivos).

Quando da gravação do anúncio com os jogadores, as Avós já tinham recuperado a identidade de 113 netos. Pois na terça-feira, 5 de agosto, surgiu o 114º: Ignacio Hurban, um músico que inclusive já tocou em um evento das Avós, sem imaginar que fosse neto justamente da presidente da associação, Estela de Carlotto. Ignacio decidiu fazer o exame de DNA após assistir ao anúncio no qual Messi disse que sua avó o procurava há dez Copas. A mãe de Ignacio, Laura, foi sequestrada e assassinada em 1978, ano da Copa na Argentina; ao filho que esperava, pretendia dar o nome de Guido.

Na coletiva de imprensa das Avós, ao ser questionada sobre o que faria após encontrar o neto que procurava havia 36 anos, Estela de Carlotto disse: “seguirei buscando os mais de 400 que restam”. Depois, os presentes cantaram uma música num ritmo que conhecemos muito bem durante a Copa:

Milico decime qué se siente
Que hayamos encontrado un nieto más
Te juro que aunque pasen los años
Siempre los vamos a buscar
Porque ahora somos más
Las viejas van a brindar
Y los pibes con nosotros van a estar

Uma provocação aos genocidas, mas bem que poderia mexer conosco aqui no Brasil da mesma forma que o “hit” da torcida argentina na Copa mexeu. Afinal, em termos de reparação histórica e políticas de memória, a Argentina nos mete uma goleada muito maior que 7 a 1. Ano passado, andando pelas ruas de Buenos Aires e lendo jornais argentinos, pude ter uma ideia disso.

Uma de várias placas em memória de desaparecidos políticos em torno do mesmo prédio - todos trabalhavam nele.

Uma de várias placas em memória de desaparecidos políticos em torno do mesmo prédio – todos trabalhavam nele.

No jornal Página 12 de 03/06/2013, pequenos anúncios lembravam desaparecimentos que faziam aniversário naquele dia.

No jornal Página 12 de 03/06/2013, pequenos anúncios lembravam desaparecimentos que faziam aniversário naquele dia.

Para além das políticas oficiais de reparação e memória, a Argentina também já produziu belíssimos filmes sobre o período ditatorial e, em especial, acerca da questão dos bebês de identidades roubadas pela ditadura. Um deles é A História Oficial (1985), ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Outro excelente filme sobre o assunto é Cautiva (2004). Até o momento em que foi finalizado, 74 netos tinham sido localizados.

“Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”

Em 30 de outubro de 1969, o general Emílio Garrastazu Médici, fanático por futebol e que costumava frequentar estádios, tornou-se ditador do Brasil. Durante seu período de governo (até 15 de março de 1974), o país viveu o período mais sangrento da repressão política, com a intensificação da tortura e dos desaparecimentos forçados. Continuar lendo