Quando a vacina chegar

Mais cedo ou mais tarde, estaremos neste dia tão esperado. Vacina segura e eficaz contra a covid-19, correndo dentro de nossos corpos junto com o sangue e nos imunizando contra essa doença maldita.

Uma moléstia que nos tirou a maioria dos prazeres da vida neste ano aparentemente interminável mas que já nos apresenta as decorações de Natal no comércio.

Saudades de poder ir ao supermercado e não me preocupar com desinfecção de compras ao chegar em casa. Por mais que digam não ser necessário pois “basta lavar as mãos após encostar nos pacotes” – o que me faz preferir higienizá-los a correr o risco do esquecimento e tocar o rosto.

As mesas de bar já começam a encher mas não me encorajo a ir; mas se isso acontecer antes da vacina, será ao ar livre e longe das outras pessoas. Depois, quero aglomeração – em especial no meu próximo aniversário, numa sexta-feira de outubro de 2021.

Sinto falta de ir almoçar ou jantar fora, sem preocupações. Simplesmente convidar alguém e ir, sem precisar cuidar de máscaras e distâncias.

Tenho saudades também de poder receber visitas em casa. Para almoçar, jantar ou simplesmente tomar umas cervejas e jogar conversa fora.

Tem Grêmio na televisão, mas imensa vontade tenho é de reunir a galera para assistir às partidas e principalmente de ir à Arena. Quero voltar a sentir aquele clima dos dias de jogo: sair do trabalho, passar em casa, vestir a camisa tricolor, encontrar a turma no Mercado Público, decidir se vamos de trem ou ônibus, tomar umas cervejas no entorno do estádio, propor pela nonagésima sexta que entremos cedo para não precisar subir correndo a escadaria e, meia hora depois, subir correndo e chegar esbaforido lá em cima… E abraçar todo mundo na hora do gol.

Ah, os abraços… Não há nada que eu mais deseje do que um bom abraço, daqueles bem apertados e demorados.

Quero poder abraçar minha mãe, meu pai, meu irmão, meus amigos. Sem medo e sem pressa de desabraçar.

A pandemia é sinônimo de muitas coisas ruins, e tirando as tantas e tantas mortes, a ausência de abraços é a pior, sem dúvida alguma.

Torço para que, passado esse pesadelo, valorizemos mais os abraços e os afetos. E também para que a humanidade não seja mais tão incompetente a ponto de deixar outra pandemia como essa acontecer.

O pior de todos os verões

Dizer que o verão de Porto Alegre é “infernal” configura redundância. Não é de hoje que faz “calor de desmaiar Batista” (a própria expressão surgiu em 2010 após o referido comentarista passar mal ao vivo na televisão).

Mas o próximo verão, que se aproxima e já faz seus primeiros “ataques”, tem tudo para ser o pior de todos os tempos. Pois se em tempos normais já se passa muito calor por aqui, em 2020/2021 teremos o agravante do uso da máscara por conta da covid-19.

Sexta-feira tive uma “amostra grátis” do que nos aguarda. Fui ao supermercado e cheguei em casa vertendo suor. E isso que nem estava tão quente… Imagina em janeiro.

Pior é pensar que poderia ser menos arriscado sair sem máscara agora que o tempo começa a esquentar. Pois ainda antes do inverno um bando de idiotas vinha com o papo furado de “direitos individuais” para justificar o não uso da proteção. Por conta disso, a pandemia até “arrefece” mas segue muito longe de estar controlada. E provavelmente não será recomendado o uso de ar condicionado no serviço durante o verão.

Os tais “direitos individuais” dessa corja atentam contra o direito coletivo de preservarmos nossa saúde e de sofrermos menos com o calor. Culpa principalmente do ser repulsivo que foi eleito presidente em 2018, apesar de tanto avisarmos que era roubada.

O cansaço das redes

Já faz anos que falo em excluir minhas contas nas redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter etc.) mas nunca o faço. Até desisti disso.

Acabo mantendo mas dando prioridade em seguir perfis que me façam rir e desestressar. Pois se bem utilizadas, tais redes podem ser divertidas. Acho mais válido assistir a um vídeo de gatinho fofo fazendo “gatice” do que às últimas do esgoto bolsonarista ou da “lacrosfera” de uma esquerda que ainda não entendeu por que está em baixa.

Mas tem dias em que elas cansam, não posso negar. Volta aquela vontade de encerrar as contas. Então lembro dos bichos engraçados e fico.


Coincidentemente, hoje mesmo faz nove anos de um hilário episódio (e que até relatei por aqui): ex-colega de uma cadeira na faculdade me mandou e-mail denunciando que o MST roubava ovos de tartarugas às margens do Rio Solimões ao invés de produzir alimentos em seus assentamentos na região. Tinha até foto, mostrando que era possível surfar no rio…

Obviamente não era o Rio Solimões, a foto nem mesmo tinha sido tirada no Brasil. Tratava-se da Praia de Ostional, costa do Oceano Pacífico, na Costa Rica. E a coleta de ovos das tartarugas, conforme informei no link indicado no parágrafo anterior, nada tinha de “roubo” ou de qualquer outra ilegalidade.

A difusão dessas merdas foi facilitada pelas redes sociais, mas elas não são as maiores culpadas: a burrice já existia bem antes delas surgirem. Tanto que Nelson Rodrigues, notório conservador falecido quase quatro anos antes do nascimento de Mark Zuckerberg, já falava que os idiotas dominariam o mundo não pela qualidade, mas sim pela quantidade: afinal de contas, eles são muitos.

Contagem regressiva

Trinta e nove. Quase quarenta.

Idades terminadas em “nove” geralmente são uma “contagem regressiva” para o “número redondo” que vem logo ali na frente. Apesar de que, no meu caso, sempre caem nos anos de “final zero”.

Lembro de quando eu era criança e procurava calcular qual seria minha idade em determinados anos. Fiz a conta para 2000, deu 19. Depois fui para 2010, e o resultado obviamente foi 29. Avancei para 2020, e achei que o 39 era demais.

Mas eis que o dia chegou. Falta um ano para completar 40, que é a metade de 80. Por todas as estimativas de expectativa de vida no Brasil, já ultrapassei o “meio do caminho”, o que deixa muita gente apavorada – ainda que esteja longe de entrar no “grupo de risco” da covid-19.

Só que eu me divirto com o fato. Dou risada de gente mais nova que se acha muito velha e reclama de não ter feito determinadas coisas. Dá aquela vontade de chamar para uma conversa e dizer “ouça a voz da experiência”…

O que não quer dizer que não tenha nenhuma preocupação. Elas existem, e são relacionadas com a pandemia.

A primeira, obviamente, é não contrair a moléstia. Mesmo não sendo do “grupo de risco”, a ideia de ter algo que pode afetar meu paladar por meses é bem desagradável.

Já a segunda diz respeito diretamente ao final da “contagem regressiva” que começa hoje. Pois quero poder festejar minhas quatro décadas de vida, mas isso só será possível se houver vacinação ou um tratamento precoce (que não é nenhum daqueles propagandeados pelo “presidente”) para a covid. E apesar de alguns resultados promissores quanto a vacinas, sei que ainda vai levar um bom tempo para que uma delas ingresse na minha corrente sanguínea.

Eis meu desejo de aniversário: algo que se ocorrer vai se concretizar quando já estiver quase completando outro ano de vida. Que venha logo essa vacina, pois em outubro de 2021 quero celebrar presencialmente e podendo abraçar as pessoas: ficar longe é bem pior do que o uso de máscara, quem se nega a usar merecia levar uma surra bem dada para de repente deixar de ser idiota.

Da vida no interior

Em setembro de 2015, voltar a morar em Porto Alegre não estava em meus planos. Não digo que fosse ficar para sempre em Ijuí: apesar de estar gostando da cidade, pensava em uma mudança para mais perto da capital, onde ficara minha família. Me agradava a vida mais tranquila que tinha no interior, e ainda por cima recém tinha passado um tenso feriadão por conta da violência porto-alegrense agravada pela ausência de policiamento, fruto de protesto dos brigadianos por conta dos salários atrasados.

No final daquele mesmo setembro, veio o acontecimento que me fez começar a mudar de ideia, apesar da insegurança. No final da tarde do dia 28, minha avó Luciana, então aos 93 anos, foi internada no Hospital Ernesto Dornelles em função de problemas neurológicos causados por um tombo no qual bateu fortemente a cabeça. Na noite daquela segunda-feira falei com meu pai e ele recomendou que eu viesse assim que possível pois não se sabia se a vó sobreviveria (o quadro parecia ser bem mais grave do que realmente era) e, se sim, com quantas sequelas.

Na manhã seguinte, pedi autorização para me ausentar do trabalho por alguns dias, que me foi prontamente concedida. E no intervalo fui comprar uma passagem para Porto Alegre: consegui o último lugar disponível no último ônibus daquela terça-feira. (Seria preciso passar a madrugada na estrada, coisa que nunca gostei muito por ter dificuldade para dormir em viagens, mas em tal situação não havia escolha; e no fim eu conseguiria pegar no sono.)

Talvez seja apenas coincidência, mas a vó começou a melhorar com minha chegada a Porto Alegre, na manhã do dia 30. No final da tarde do dia 1º de outubro ela não só tinha recuperado a fala (ainda que não com as mesmas condições de antes) como também sua melhora impressionava os médicos. Meu pai voltou a pé do hospital para baixar a adrenalina e disse que apesar de ter vinho em casa iria comprar uma cerveja pois combinava mais com a situação; meu irmão e eu fizemos a mesma coisa, indo “tomar umas” no bar com nosso amigo Marcel. Era mais do que justo “bebemorar”.

Retornei a Ijuí na noite de 4 de outubro, quando a vó já tinha definitivamente boas perspectivas. E no dia seguinte voltei ao trabalho com uma “missão extra”: compensar as horas equivalentes aos três dias que estive longe, o que fiz ao longo daquele mês. E então reparei que se morasse em Porto Alegre (ou ao menos em uma cidade mais próxima) não precisaria ter me ausentado do serviço por tanto tempo. Já tinha um bom motivo para solicitar remoção no próximo edital, que seria aberto em janeiro de 2016. Mas fui além disso: a situação da vó me fez pensar em minha mãe e meu pai, que também envelheceriam e demandariam mais cuidados (ainda não foi necessário, felizmente), e que não seria justo deixar tudo sobre os ombros do meu irmão.

Então, menos de um ano após dizer com todas as letras que não pretendia morar em Porto Alegre novamente, estava de volta. Das voltas que a vida dá…

Terminei aquele texto de 2015 falando sobre uma visão muito comum entre pessoas da capital acerca do interior: a ideia de que “se tem pouca coisa para fazer”. Traduzindo: de que a vida longe das grandes cidades seria “tediosa”. Pretendia escrever mais sobre o assunto, e acabei não o fazendo. Por isso decidi fazer isso agora, com MEIA DÉCADA de “atraso”, para não parecer que não cumpro promessas (ainda que não tenha prometido nada).


Em junho de 2019, visitei Ijuí pela primeira vez desde que voltei a morar em Porto Alegre, quase três anos antes. Achei a cidade “parada”, e pensei que talvez eu tivesse uma imagem um tanto “idealizada” da vida que levei lá de janeiro de 2015 a agosto de 2016.

Mas não demorou para eu perceber o óbvio: eu tinha me reacostumado com o ritmo da capital e assim sentia estranhamento em uma cidade que pouco mudara desde 2016. Afinal de contas, quando fui morar lá também tive de me adaptar – ainda mais que, morando a 400 quilômetros de Porto Alegre, não teria como vir frequentemente e então precisaria passar muitos finais de semana em Ijuí.

É um enorme equívoco achar que viver no interior significa falta de itens de consumo comuns em capitais e “tédio”, ainda mais em tempos de internet. Do que eu conseguia comprar em Porto Alegre, quase tudo também encontrava em Ijuí: só não tinha como adquirir produtos típicos do Mercado Público, a não ser quando vinha visitar a família. Via Facebook, Skype e WhatsApp eu mantinha contato com pessoas de vários lugares. Sem contar que, não vindo a Porto Alegre com frequência, nos finais de semana eu sempre cozinhava (e inovava), enquanto atualmente só passei a fazer comida mais seguidamente porque a pandemia tornou desaconselhável almoçar fora.

Também não fiquei sem futebol – pelo contrário, visto que em Porto Alegre eu não estava frequentando muito os estádios (tinha deixado de ser sócio do Grêmio em 2013, por corte de gastos). Em Ijuí eu passei a acompanhar o São Luiz, então na Divisão de Acesso do Gauchão. Pena que nas duas temporadas que tiveram minha presença nas arquibancadas do 19 de Outubro o time não tenha conseguido subir (mesmo com a contratação de Paulo Baier, que encerrou a carreira na Baixada em 2016). Nunca presenciei uma derrota do Rubro dentro do estádio, mas ironicamente fiquei com fama de “Mick Jagger” por “dar azar” nos jogos que assistia pela televisão, torcendo por Grêmio e São Luiz ou “secando” o Inter (não à toa decidi não assistir à semifinal da Libertadores de 2015, quando os colorados caíram diante do Tigres do México).


Não é que a vida no interior seja “melhor” ou “pior” que na capital: é diferente. Como já falei, ela se dá em outro ritmo, menos acelerado. Que a mim, agrada bastante: não gosto de fazer as coisas com pressa, sem pensar com calma. Mas isso varia de pessoa para pessoa, sem dúvida alguma.

Vale lembrar que quando da minha nomeação, em dezembro de 2014, eu já pensava em “mudar de ares”, ainda que não pretendesse ir para tão longe de Porto Alegre. Isso certamente favoreceu na minha adaptação à vida interiorana: a saída da capital não era exatamente “forçada”.

E também é algo que me dá certa “nostalgia” daqueles dezenove meses nos quais morei em Ijuí. Volta e meia penso que poderia ter ficado mais tempo lá: eu costumava fazer passeios a pé nos finais de semana, procurando passar por ruas diferentes, “descobrindo” lugares novos. Ainda que a cidade não seja tão grande, foi pouco tempo para conhecê-la melhor.

Sem contar que estive morando relativamente perto de São Miguel das Missões (85 quilômetros de distância) e não fui visitar as ruínas (embora já as tivesse conhecido com o colégio em 1997). Não tinha como ir diretamente de Ijuí para lá de ônibus: seria preciso fazer “baldeação” (ida e volta) em Santo Ângelo, o que tornaria mais demorada uma viagem aparentemente curta, e com isso o passeio tomaria boa parte do dia. O resultado disso é que o fui postergando (preferiria ir quando recebesse visita de Porto Alegre), até que em abril de 2016 o sítio arqueológico foi atingido por um tornado que destruiu o museu nele localizado, que só seria reaberto em setembro de 2017, mais de um ano após meu retorno a Porto Alegre.


Apesar disso, não me arrependo do retorno. Quando a oportunidade apareceu, era algo desejado por conta dos acontecimentos que completam agora cinco anos. Mesmo que a minha preferência não fosse exatamente voltar a Porto Alegre (pensava primeiro em cidades mais próximas como Lajeado ou Santa Cruz do Sul). Não podia deixar ir embora aquele “cavalo encilhado”, visto que poderia demorar muito até passar outro.

E a fama de “Mick Jagger” se esfumaçou. Ou melhor, também “pediu remoção”. Eu tinha uma “crush” em Porto Alegre, na qual pretendia “investir muito” com o retorno, mas foi eu voltar que ela começou a namorar… “Azar no amor, sorte no jogo”, diz o ditado: no final de 2016 o Grêmio saiu da fila e voltou a ganhar um título relevante, a Copa do Brasil; no ano seguinte o Tricolor conquistou a Libertadores e estive presente em quase todos os jogos da campanha na Arena, visto que voltei a ser sócio. (E considerando o futebol que o Grêmio tem apresentado recentemente, penso que atualmente só não tenho sorte no amor pois não estou disposto a me arriscar em tempos de covid.)

O São Luiz, enfim, conseguiu subir em 2017. Pena que não pude comemorar na Baixada e nas ruas de Ijuí, certamente teria sido bacana. Mas certamente não me faltarão oportunidades para voltar a assistir aos jogos do Rubro, aqui mesmo em Porto Alegre.

O fim de um longo inverno?

Tivemos na terça-feira (22 de setembro) o equinócio de primavera no Hemisfério Sul, outono no Norte. Uma passagem que diz respeito ao calendário, “oficial”. Pois o instante inicial da nova estação em Porto Alegre tinha frio que mais lembrava o inverno recém-terminado.

Mas, por outro lado, o sol brilhava nos céus porto-alegrenses, sem nuvens a escondê-lo. Algo que tem sido raro nas últimas semanas. O início deste mês de setembro teve predomínio de dias nublados e chuvosos, com umidade altíssima que propiciou o surgimento de mofo em algumas partes aqui de casa. (Ao mesmo tempo, este tempo “murrinha” era tudo o que precisava a região do Pantanal, sob estiagem severa e que sofre com incêndios.)

Com seus “altos e baixos” de temperatura (se o começo da primavera teve frio, fez calor em pleno 18 de julho, que segundo minha mãe foi o primeiro aniversário dela que recorda de não ter sido gelado), o outono/inverno de 2020 foi talvez o mais “típico” dos últimos tempos, pelo menos no que sinto. Faz quase seis meses que não ligo o meu ar condicionado: a última vez foi (parece mentira) em 1º de abril, lembro que no dia seguinte choveu, esfriou e nunca mais o apartamento ficou quente demais, mesmo com alguns dias de calor que foram registrados. Bem diferente dos anos anteriores em que o verão se prolongou outono adentro.

Por outro lado, foi o primeiro inverno dos últimos anos que terminei sem celebrar que minha avó Luciana tivesse passado por ele: o falecimento dela se deu em 5 de junho, quando ainda era outono, embora o tempo já fosse tipicamente invernal (frio e chuva). Os últimos anos de vida dela foram marcados pelo sofrimento com as baixas temperaturas, por mais roupas que vestisse. Desde 2014, cada final de inverno era motivo digno de comemoração, por menos rigoroso que fosse. Em 2020 não houve o que festejar.

Ainda assim, tive um motivo para ver como positivo o equinócio. Pois este outono/inverno de 2020 foi também da covid-19, que aportou por aqui ainda no final do verão. Após uma situação relativamente tranquila nos primeiros meses, o Rio Grande do Sul (e consequentemente, Porto Alegre) teve uma escalada do contágio que coincidiu com a chegada do inverno. Foram tempos sombrios não apenas pelo pouco tempo de insolação ou pelo excesso de chuva (que também nos afligiu em julho).

A chegada da primavera, portanto, me dá um certo ânimo, embora continue detestando o calorão que marca o verão (do qual a atual estação é a “antessala”) em Porto Alegre. Até 19 de março de 2021 teremos mais da metade do dia com luz solar: bom para o sistema imunológico (vitamina D), e mais “iluminação” em contraponto às “trevas” que de certa forma enfrentamos nos últimos tempos independentemente da estação do ano.

Que esta primavera nos traga, de certa forma, algum tipo de “renascimento”. Duvido que alguém não esteja precisando nem um pouco de esperança em tempos tão tristes.

Uma metáfora do meu 2020

Em meados de dezembro do ano passado, eu estava na dúvida sobre “adiantar” o meu 13º salário (o “adiantamento” significaria recebê-lo em dia via empréstimo; coisas de servidor público que nos últimos cinco anos raramente teve os vencimentos pagos em dia) ou deixar para receber parcelado ao longo de 2020.

Nos dois anos anteriores eu optara pelo “adiantamento”, e pensava em desta vez fazer diferente, para pelo menos sempre receber alguma coisa no último dia útil de cada mês. O efeito seria apenas “psicológico”, é óbvio.

Eis que recebi um boleto do Grêmio. Me era dada a opção de adiantar o pagamento de todas as mensalidades de 2020, com desconto e antes do reajuste previsto para a virada do ano. Algo tentador, até para eu não surtar por “estar gastando demais” a cada mês: o Grêmio já estaria pago, e com desconto!

Então decidi “adiantar” o “décimo” e usar parte do dinheiro para pagar o boleto do ano inteiro de 2020; o resto foi para a poupança. Não só eu, meu amigo Alexandre fez o mesmo. De janeiro a dezembro nossa presença na Arena já estaria garantida.

Porém, veio a pandemia de covid-19. Por conta dela, o último jogo de futebol com público em toda a América do Sul foi o Gre-Nal 424, primeiro da história válido pela Copa Libertadores, em 12 de março. Uma partida que por si só mereceria ganhar um documentário sobre ela – como de fato ganhou.

Fui um dos mais de 50 mil torcedores na Arena naquela noite. Já sabendo que depois levaria um bom tempo até poder voltar a presenciar uma partida, visto que a Conmebol havia suspendido a Libertadores a partir da semana seguinte. Só não imaginava que chegaria ao ponto de dizer “hoje faz seis meses que não vou à Arena”.

E não tenho a menor ideia de quando será possível ir a um estádio novamente – mas a certeza é de que isso não acontecerá em 2020. Sendo que paguei o ano inteiro…

O que de certa forma simboliza bem o que significa 2020 para mim: apesar de recém ser setembro, já digo com segurança que se trata do mais frustrante e sem dúvida alguma o pior ano da minha vida.

Sim, o fato de ter perdido a minha avó Luciana tem um grande peso nisso. Mas poderia ter sido uma exceção, assim como o falecimento do meu avô Pedro Laio em 1996, que apesar disso foi um ano muito bacana e do qual lembro com bastante carinho quase um quarto de século depois.

O mundo já vinha de mal a pior, mas no campo pessoal eu tinha boas expectativas para 2020. Dentre as principais, estava a de viajar ao exterior nas férias que estavam marcadas para o período entre o final de maio e o início de junho: no fim elas serviram para eu mandar trocar a tela do meu computador para facilitar minha vida em tempos de teletrabalho, e no último dia (5 de junho) a vó se foi.

Não falta tanto tempo assim para ser dezembro novamente. Chegará à minha caixa de correspondência um boleto do Grêmio com o valor do ano inteiro de 2021, com desconto. Tenho três meses para decidir se adianto ou não.

O top 10 de 2020

Não, o fato de estarmos ainda em agosto não faz ser “muito cedo” para escrever uma lista assim. Duvido que se deixasse para dezembro ela seria muito diferente. Afinal, 2020 já está garantido no futuro como um ano do qual qualquer sentimento de saudades deveria ser classificado como doença mental.

Neste infame ano, várias expressões “forçaram a porta” e entraram no nosso cotidiano. Todas elas, não vejo a hora que voltem para o lugar de onde jamais deveriam ter saído.

É um top 10 ranqueado pela RAIVA que sinto por cada uma delas. A ordem da publicação é “decrescente”, com uma breve explicação abaixo de cada item. Vamos a eles.

10. Lockdown

Entrou na lista só para “completá-la”. E também para lembrar da raiva que sinto de “líderes” fracos, acovardados, que poderiam ter impedido que vivêssemos uma calamidade – e também que eu escrevesse esta lista, visto que não sentiria 1% da raiva que sinto hoje, na situação pela qual passamos;

9. Fique em casa

Sempre gostei muito de ficar em casa, e inclusive considero que a felicidade só é possível quando nos sentimos bem onde moramos. Mas, desde que isso seja por vontade própria. Ter de ficar em casa – ainda mais quando 95% das pessoas que também precisariam e poderiam não ficam – é uma merda;

8. Cloroquina

Nem era para estar na lista. Trata-se de um medicamento muito útil para quem sofre de doenças como malária e lúpus. O problema é que nosso “presidente” tratou a cloroquina como se fosse um “santo graal” contra a covid-19, e até mostrou uma caixa de remédio para uma ema. Ele jura que se curou graças à cloroquina, mas ainda não vi um vídeo que mostrasse ele abrindo uma caixa e tomando um comprimido tirado de dentro dela;

7. Novo normal

Que a dita “normalidade” mudou muito ao longo da história, não é (ironicamente) uma novidade. Inclusive uma doença, a AIDS, mudou a forma como transamos, nos estimulando a usar preservativo. Mas eu não aguento mais ler e/ou ouvir esta expressão. Pois se o “novo normal” for trabalhar em casa e usar máscara sempre (imagina no verão), prefiro mil vezes o “velho” (mesmo não podendo voltar a ele);

6. Home office

É verdade que já se falava nele antes disso tudo. Mas mesmo antes eu já tinha “os dois pés atrás”. Querem que a pessoa trabalhe de casa, mas sem fornecer equipamento e também a estrutura necessária? Não se surpreendam se as ofertas de emprego num futuro não tão distantes anunciarem como pré-requisitos não só a formação e (em muitos casos) a experiência prévia, como também computador com determinadas aplicações e configurações. O “home office” pode parecer bacana, e dependendo da pessoa até pode ser (não precisar passar horas no trânsito é um ganho em qualidade de vida), mas algum empregador está disposto a dar um auxílio para que seu funcionário tenha uma estrutura melhor em casa, de modo a não precisar trabalhar na mesma sala (e na mesma mesa) onde faz as refeições pelo simples fato de não ter outro local? Me parece óbvio que não;

5. Pandemia

Não é a primeira que a humanidade atravessa, e certamente não é a última. Eu mesmo já passei por outra, a da gripe A em 2009-2010. Só que naquela época ela não era o assunto dominante. Houve algumas alterações de rotina – o início do 2º semestre de 2009 na UFRGS foi adiado em duas semanas para conter a disseminação do vírus, por exemplo. Mas nada parecido com agora, visto que para gripe já existia vacina, bastava adaptá-la à nova cepa do H1N1. Teve até Copa do Mundo: o fim da pandemia foi declarado pela OMS um mês após o apito final do Mundial de 2010 na África do Sul;

4. Coronavírus

Outros coronavírus já causaram surtos no passado, sendo o mais famoso deles o da SARS em 2002-2003. Há vírus da mesma família que causam resfriados, e considerando a quantidade de vezes que me resfriei (só em 2019 foram três), é bem possível que eu já tenha estado em contato com algum deles. Mas seria bem melhor se essa expressão seguisse apenas no cotidiano de virologistas;

3. Covid-19

A doença causada pelo coronavírus descoberto no final de 2019, responsável pela desgraça atual. Maldita para sempre;

2. Quarentena

A própria palavra indica que ela se origina de “quarenta”; no caso, seria o tempo de isolamento de uma pessoa para se curar de uma doença e não transmiti-la. Pode ser até menos, como na própria covid-19: cerca de 15 dias após chegar de uma área onde há grande incidência é suficiente. Mas aqui no Brasil, onde muitas vezes se tem a impressão de que tudo é feito errado desde 1500, já são bem mais de 40 dias. Já deixou de ser “quarentena”, é mais que isso. Passou de “cinquentena”, “sessentena”, “setentena”… 160 dias: “cento-e-sessentena” ou, considerando que é o quádruplo de 40, “quaquarentena”;

1. Isolamento social

A grande campeã, sem dúvida alguma. Uma das grandes desgraças de 2020, provavelmente uma das piores épocas de toda pessoa viva neste momento. O ser humano é um animal social, e por conta de um inimigo invisível está precisando se furtar a uma de suas principais características. Sejamos introvertidos ou extrovertidos, todos nós precisamos de contato social: com nossos familiares, amigos, colegas de trabalho etc. Algumas pessoas necessitam mais, outras menos, mas abdicar totalmente disso, só quem deseja se tornar um ermitão. O que não é o meu caso e o da maioria esmagadora da humanidade, que por conta disso reservará a 2020 um lugar cativo na lista dos piores anos já vividos.

Não era nem o meio do caminho

Hoje, 23 de agosto, o Brasil alcança a absurda marca de cem dias sem um titular no Ministério da Saúde, em meio à maior pandemia dos últimos cem anos.

Para se ter uma ideia da quantidade de tempo que passou – e do quão nos acostumamos com isso – basta olhar para trás. Cem dias antes daquele 15 de maio no qual Nelson Teich pediu exoneração do cargo, o calendário marcava 5 de fevereiro, quando a covid-19 ainda nem tinha recebido sua denominação – que seria dada pela OMS seis dias depois.

Em 15 de maio a minha avó ainda estava viva… Faltavam três semanas para o falecimento dela. Aí resolvi fazer a conta: hoje faz 79 dias que ela se foi.

E naquele triste 5 de junho fazia 79 dias desde que eu trabalhara “normalmente” pela última vez, em 18 de março.

Mas aquela sexta-feira não era “o meio do caminho” entre o início e o fim da “quarentena”. Primeiro pois acabei precisando sair mais de uma vez – e não só para o funeral da vó Luciana. Mas principalmente pois, mesmo considerando minhas saídas como exceções, esse inferno de pandemia e isolamento social ainda parece muito longe do fim.

Já faz tempo que me conformei com a ausência de abraços no meu aniversário – que já não está tão longe como em março. Agora já me preparo para a mesma coisa nas festas de final de ano.

E também para passar muito calor no próximo verão, pois certamente ainda será necessário usar máscara. Aliás, o tempo que falta para acabar 2020 é menor do que o passado desde o início dessa desgraça toda.

Saudade das amenidades

Já fui mais fã do inverno, confesso. É verdade que continuo me sentindo mais confortável em dias como a sexta-feira do print acima (feito numa manhã na qual não precisei sair da cama por conta da quarentena: apenas capturei a tela, virei para o lado e dormi novamente) do que naqueles de calor infernal do verão “forno-alegrense”. Sem contar que em matéria de frio o nosso inverno é bem ameno na comparação com os que se registram no Canadá, na Escandinávia ou na Sibéria. Mas a verdade é que ultimamente ando preferindo as temperaturas amenas do outono – e, às vezes, da primavera (problema dela é ter muito temporal, apesar de ser a época do meu aniversário).

Um dos motivos é, sem dúvida, de ordem social. Não é segredo para ninguém que “curtir o inverno” não é para qualquer pessoa. Sou privilegiado: tenho um teto para me abrigar, roupas para vestir etc. Quem tem poucos recursos e, pior ainda, vive nas ruas, realmente sofre com as baixas temperaturas. (Sim, o verão também é cruel para quem não tem grana para passar dias na praia ou para comprar e usar com regularidade o ar condicionado: o problema maior não é o clima e sim a pobreza.)

Nos últimos anos, também senti muito pela minha avó Luciana. Ela vinha sofrendo bastante os efeitos do frio, e cada inverno que terminava era motivo de celebração. Em 2020 não será, por ela não ter chegado a ele: o próximo domingo (5) marca o primeiro mês da partida dela. E os últimos dez dias demonstram que ainda não “caiu a ficha” por conta do isolamento imposto pela pandemia (a última vez que vi ela com vida foi em março): as previsões de frio intenso ainda me fazem pensar, automaticamente, que “isso é ruim pra vó”.

No ano de 2020, em particular, ainda tem essa maldita pandemia de covid-19. Os fatos demonstram que o tempo quente não está intimidando o vírus: Manaus, onde faz calor o ano inteiro, passou por momentos terrivelmente tristes. Mas é verdade que o inverno aumenta a incidência de doenças respiratórias aqui no Rio Grande do Sul, e não é de hoje que emergências e UTIs lotam nos meses mais frios do ano em Porto Alegre. E é exatamente agora que estamos vendo o forte crescimento da pandemia por aqui, coincidindo com o pico de gripes e pneumonias.

Jamais imaginei que um dia iria perguntar isso, mas: falta muito para a primavera? Ainda que eu goste de assistir filme e dormir enrolado em cobertores, estou bem a fim de uma temperatura amena.

Aliás, queria muito que voltássemos a ter dias mais amenos, sem tantas notícias tristes.