Saudade das amenidades

Já fui mais fã do inverno, confesso. É verdade que continuo me sentindo mais confortável em dias como a sexta-feira do print acima (feito numa manhã na qual não precisei sair da cama por conta da quarentena: apenas capturei a tela, virei para o lado e dormi novamente) do que naqueles de calor infernal do verão “forno-alegrense”. Sem contar que em matéria de frio o nosso inverno é bem ameno na comparação com os que se registram no Canadá, na Escandinávia ou na Sibéria. Mas a verdade é que ultimamente ando preferindo as temperaturas amenas do outono – e, às vezes, da primavera (problema dela é ter muito temporal, apesar de ser a época do meu aniversário).

Um dos motivos é, sem dúvida, de ordem social. Não é segredo para ninguém que “curtir o inverno” não é para qualquer pessoa. Sou privilegiado: tenho um teto para me abrigar, roupas para vestir etc. Quem tem poucos recursos e, pior ainda, vive nas ruas, realmente sofre com as baixas temperaturas. (Sim, o verão também é cruel para quem não tem grana para passar dias na praia ou para comprar e usar com regularidade o ar condicionado: o problema maior não é o clima e sim a pobreza.)

Nos últimos anos, também senti muito pela minha avó Luciana. Ela vinha sofrendo bastante os efeitos do frio, e cada inverno que terminava era motivo de celebração. Em 2020 não será, por ela não ter chegado a ele: o próximo domingo (5) marca o primeiro mês da partida dela. E os últimos dez dias demonstram que ainda não “caiu a ficha” por conta do isolamento imposto pela pandemia (a última vez que vi ela com vida foi em março): as previsões de frio intenso ainda me fazem pensar, automaticamente, que “isso é ruim pra vó”.

No ano de 2020, em particular, ainda tem essa maldita pandemia de covid-19. Os fatos demonstram que o tempo quente não está intimidando o vírus: Manaus, onde faz calor o ano inteiro, passou por momentos terrivelmente tristes. Mas é verdade que o inverno aumenta a incidência de doenças respiratórias aqui no Rio Grande do Sul, e não é de hoje que emergências e UTIs lotam nos meses mais frios do ano em Porto Alegre. E é exatamente agora que estamos vendo o forte crescimento da pandemia por aqui, coincidindo com o pico de gripes e pneumonias.

Jamais imaginei que um dia iria perguntar isso, mas: falta muito para a primavera? Ainda que eu goste de assistir filme e dormir enrolado em cobertores, estou bem a fim de uma temperatura amena.

Aliás, queria muito que voltássemos a ter dias mais amenos, sem tantas notícias tristes.

Noventena

Desde 19 de março passo a maior parte do tempo em casa. Já são mais de 90 dias. Dizer que “me acostumei” é um exagero: não vejo a hora de poder voltar a abraçar as pessoas sem medo de covid-19.

Ainda mais que em meio a estes três meses perdi minha avó Luciana, falecida no último dia 5 aos 98 anos. Por mais que ela estivesse sofrendo com as limitações impostas pela idade avançada e a saúde debilitada nos últimos tempos, tudo o que eu mais gostaria era de poder abraçar e ser abraçado no velório (com público reduzido pela pandemia) dela e nos dias que se seguiram. Atos de carinho impedidos por causa de um vírus desgraçado e de uma “quarentena” que nem se pode reclamar de “não terminar nunca”, visto que para grande parte das pessoas ela jamais começou – por não terem o privilégio de poder ficar em casa ou por serem idiotas individualistas.

Até quando? Eis a grande dúvida.

Em março, quando tudo isso começou, acreditava que em junho pelo menos já veríamos uma “luz no fim do túnel”. E de fato a enxergo agora, quando o comércio reabre e uma galera faz fila para entrar em shopping: é um trem vindo em nossa direção.

A verdade é que já me conformo com a ideia de passar as festas de final de ano trancado em casa (ainda que eu tenha gostado do último réveillon, sem ter ideia da “beleza” do 2020 que começava). Tudo por culpa de gente maldita que não pensa nas demais pessoas.

Inveja enorme do Uruguai, onde o governo nem precisou impor quarentena: o senso de coletividade da população uruguaia foi suficiente para as pessoas ficarem em casa e lojas fecharem as portas temporariamente; por conta disso, restam poucos casos ativos no país – boa parte justamente na fronteira com o Brasil, que em muitos trechos é “seca”, sem acidentes geográficos a separarem os dois lados. Temos muito a aprender com nosso pequeno grande vizinho.

Como não temer pelo pior?

Em tempos de pandemia de covid-19, impossível não sentir em nenhum momento o temor de contrair a doença e vir a morrer dela – sem ar e sozinho numa UTI. Como diz o ditado, “quem não está com medo não está entendendo nada”.

Obviamente estou tomando todos os cuidados, talvez até exagerando. Passo a maior parte do tempo em casa há 76 dias. Nas raras vezes que saio, não uso elevador, mantenho distância das pessoas e ao chegar de volta, tiro a roupa e vou tomar banho; trato as compras como se estivessem contaminadas e higienizo tudo o que for perecível ou para consumo imediato, o resto fica “de quarentena” por pelo menos quatro dias. Modéstia à parte, se todo mundo fizesse igual a mim, essa pandemia estaria com os dias contados.

Mas não é o que acontece, e sei que é impossível, pois nesse aspecto sou muito privilegiado (e faço uso de tal condição pelo bem da coletividade, ao contrário do bando de idiotas que se aglomera na Orla do Guaíba para “tomar sol” e, pasmem, fazer roda de chimarrão). Em primeiro lugar, não preciso sair para trabalhar – até quando, não sei – enquanto muitas pessoas não têm essa opção, seja por prestarem serviços essenciais – com destaque para profissionais da saúde e auxiliares – ou simplesmente porque seus auxílios emergenciais ficam eternamente “em análise” e assim precisam sair para tentar ganhar na informalidade algum dinheiro para comprar comida. Em segundo, moro sozinho: ficar tanto tempo sem conversas presenciais com pessoas é ruim, mas por outro lado sinto a segurança de que em casa não irei contrair nem transmitir covid-19 a mais ninguém; em compensação, grande parte da população brasileira vive junto com muitas pessoas em espaços pequenos, o que impossibilita qualquer tipo de isolamento caso alguém pegue a moléstia.

E, ainda assim, meus privilégios não querem dizer que estou livre do risco de ficar doente. Pois com um vírus assim, qualquer deslize pode resultar em contaminação. E não levo fé nessa história de “grupo de risco” (ainda mais com uma doença que surgiu há seis meses): muita gente sem doenças pré-existentes pegou covid-19 e perdeu a vida. Não é uma “gripezinha” nem poupa quem tiver “histórico de atleta”, como disse certa pessoa.

Impossível não temer pelo pior em nenhum momento. Não vejo a hora que isso passe, mas do jeito que fazemos as coisas aqui no Brasil ainda vai demorar muito – e para milhares de pessoas jamais passará, infelizmente.

13 anos de Cão Uivador

miau

Já são dois meses sem abraços, sem futebol…

A última atualização do Cão Uivador tinha sido em 29 de fevereiro. Faz pouco mais de dois meses, mas parece ter passado muito mais tempo desde então. Afinal, na ocasião ainda havia futebol (tanto que fui a um jogo do Grêmio na Arena), visitei minha avó na tarde daquele sábado… Covid-19 era algo distante para mim: apenas dois casos confirmados no Brasil, ambos em São Paulo.

O mês de março, iniciado no dia seguinte, mudou tudo. No começo as coisas pareciam “normais”, com comemoração dos 98 anos da minha avó e expectativa para o histórico Gre-Nal da Libertadores que seria disputado na Arena do Grêmio. A situação na Itália já era calamitosa, mas nossa realidade aqui no sul do Brasil ainda não era alterada.

Quando a mudança veio, ela foi abrupta. No dia 10 de março tivemos a confirmação do primeiro caso no Rio Grande do Sul. Dois dias depois, o Gre-Nal da Libertadores foi também a última partida pela competição antes dela ser paralisada até sabe-se lá quando (acho inclusive que acabou ali), sendo também provavelmente o último jogo com público (53 mil pessoas) em toda a América do Sul desde então.

No final de semana de 14 e 15 de março fiz minhas últimas visitas a familiares, já sem abraços e beijos e também com a perspectiva de que em breve teria de passar um bom tempo longe de avó, irmão, mãe e pai. Continuei trabalhando normalmente até o dia 18, mas já num clima de tensão: além de assuntos relativos ao serviço, só se falava sobre o coronavírus.

A partir de 19 de março, portanto, entrei em uma nova rotina, passando a maior parte do tempo em casa, de onde desenvolvo atividades relacionadas ao trabalho. Não é exagero falar em “nova rotina”: os horários que eu cumpria e aos quais estava acostumado foram “pro brejo” (tanto que comecei este texto durante a madrugada, em hora na qual já deveria estar no terceiro sono em “tempos normais”). Uma sucessão de dias muito parecidos um com o outro: acordando tarde e no máximo indo até o mercadinho da esquina comprar alguma coisa que eu precise.

Não à toa, desde então tenho a impressão de que o tempo “voa”: ainda que março tenha parecido durar anos – por conta da enorme diferença entre os dias 1º e 31 – me espanta perceber que o “Gre-Nal do fim do mundo” (apelido que já é dado ao último jogo antes de tudo parar) tenha ocorrido há mais de dois meses. Praticamente não senti abril passar, e já se foi quase metade de maio. Em um “piscar de olhos” provavelmente já estaremos no segundo semestre de 2020, mas o que eu mais gostaria de saber é quantas “piscadelas” serão necessárias para que a pandemia passe e eu possa voltar a visitar e – principalmente – abraçar pessoas sem que isso signifique um risco à saúde, tanto minha quanto delas.

E os 13 anos do Cão Uivador? Sim, o título é esse pois hoje é 14 de maio, aniversário do blog, que criei nesta data em 2007. Mas no atual contexto não vejo nada a ser comemorado. A efeméride foi apenas motivação para tirar a poeira após mais de dois meses sem escrever: ao contrário do que defendem “coaches” e pessoas “good vibes”, durante a quarentena não tenho a menor pretensão de ser “produtivo” em algo que não paga o meu salário e seguirei escrevendo apenas quando estiver com vontade. Danem-se esses malditos discursos de “crescimento pessoal”: é uma porra de uma pandemia que já matou milhares de pessoas – e que infelizmente ainda vai levar muito mais gente a óbito. Não quero “crescer”, minhas únicas vontades são que essa merda passe logo, e bem longe de mim e das pessoas que amo.


Quanto à postura do (por assim dizer) governo federal: não foi por falta de aviso, ?

Curiosidades e uma temerária coincidência

A partida do Grêmio contra o Juventude, válida pelo Campeonato Gaúcho, foi para mim uma experiência inédita: primeira vez que fui ao estádio em um 29 de fevereiro. Não é comum se jogar nessa data pois só ocorre a cada quatro anos: é o “dia extra” que tem os anos bissextos para equilibrar o calendário com o Sol.

Por mais que eu ache que campeonatos estaduais precisem pelo menos sofrer uma total reformulação, não posso me furtar a uma curiosa escrita acerca do certame do Rio Grande do Sul. Com a derrota do Grêmio na final do primeiro turno diante do Caxias, foi mantida uma escrita que completará, no mínimo, 32 anos: a última vez que tivemos Gre-Nal na decisão do Gauchão em anos bissextos foi em 1992. Dali em diante, o interior sempre se fez presente pelo menos a cada quatro anos, inclusive com direito a título. Só relembrar as decisões seguintes (o campeão é o time da esquerda):

  • 1996: Grêmio x Juventude
  • 2000: Caxias x Grêmio
  • 2004: Inter x Ulbra
  • 2008: Inter x Juventude
  • 2012: Inter x Caxias
  • 2016: Inter x Juventude

Outra curiosidade: o 29 de fevereiro de 1992 também caiu num sábado – o que não foi suficiente para impedir o triunfo do Caxias sobre o Grêmio semana passada.


Já uma coincidência, bem menos feliz, diz respeito a outro ano bissexto em que o 29 de fevereiro foi um sábado. Foi em 1964. Ano do golpe civil-militar que mergulhou o Brasil em uma ditadura de 21 anos.

1964-2020

Tudo bem: não se pode dizer que é exatamente igual pois as festas móveis (Carnaval, Páscoa etc.) em 1964 aconteceram em dias diferentes. Mesmo o quadro político é diferente: 56 anos atrás tínhamos um presidente de centro-esquerda sendo derrubado militarmente, enquanto agora temos um extremista de direita no cargo.

Mas há quem diga que Bolsonaro pode fazer algo como Alberto Fujimori, o presidente do Peru que, enfrentando dificuldades por não ter maioria parlamentar, dissolveu o Congresso com apoio das Forças Armadas em abril de 1992. Ano bissexto em que o dia 29 de fevereiro caiu num… Sábado. Que na ocasião era o de Carnaval, mas isso não me deixa mais tranquilo.

A nossa insignificância

Em 5 de setembro de 1977 a sonda espacial Voyager 1 foi lançada do Cabo Canaveral (Flórida, Estados Unidos) com o objetivo de explorar o Sistema Solar – curiosamente, semanas após sua “gêmea” Voyager 2. Em novembro de 1980 a missão principal foi concluída e a sonda seguiu viagem pelo Espaço; posteriormente, para economizar energia foi decidido que o sistema de câmeras seria desligado de modo que a nave pudesse enviar dados para a Terra pelo maior tempo possível, visto que não haveria mais nada que fosse cientificamente interessante para ser fotografado na sequência. Foi quando o astrônomo Carl Sagan (1934-1996) teve a ideia de que, antes do desligamento, as câmeras fizessem um último registro da Terra e de planetas próximos.

No dia 14 de fevereiro de 1990, quando a Voyager 1 se encontrava a uma distância de 6 bilhões de quilômetros da Terra, o conjunto de quadros fotográficos chamado “Retrato de Família” foi obtido pelas câmeras – seriam as últimas imagens registradas pela sonda, que segue ativa até hoje e com previsão de perder contato com a Terra por volta de 2025.

Uma foto da Terra tirada de tão longe certamente não teria grande valor científico, e Sagan já sabia disso. Mas ajudaria a dar uma perspectiva de nossa localização no Universo. E mais que isso: do quão insignificantes somos.

pálido ponto azul

A Terra é aquele pontinho em meio a um raio solar, com um círculo azul em volta para facilitar a localização.

A fotografia acabou sendo chamada de “Pálido Ponto Azul”, por ser como nosso planeta aparece nela. Nome que batizou o livro lançado por Sagan em 1994, inspirado por tal imagem que acaba de completar 30 anos. Na obra, o astrônomo propôs uma bela reflexão sobre a foto que segue muito válida, ainda mais em tempos de uma crise climática que põe em xeque o futuro da humanidade.

Olhem de novo esse ponto. É aqui, é a nossa casa, somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um sobre quem você ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram as suas vidas. O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada professor de ética, cada político corrupto, cada “superestrela”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali – em um grão de pó suspenso num raio de sol.

A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.

As nossas posturas, a nossa suposta auto importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios.

A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que abriga vida. Não há outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para onde a nossa espécie possa emigrar. Visitar, sim. Assentar-se, ainda não. Gostemos ou não, a Terra é onde temos de ficar por enquanto.

Já foi dito que astronomia é uma experiência de humildade e criadora de caráter. Não há, talvez, melhor demonstração da tola presunção humana do que esta imagem distante do nosso minúsculo mundo. Para mim, destaca a nossa responsabilidade de sermos mais amáveis uns com os outros, e para preservarmos e protegermos o “pálido ponto azul”, o único lar que conhecemos até hoje.

A sexta-feira que mais aguardo

Minha estação do ano preferida é o outono. Gosto tanto dessa época que conto os dias para sua chegada em praticamente todos os verões – e obviamente não está sendo diferente no atual.

Em 2020 o outono terá um “plus”. O início oficial será no habitual 20 de março, que este ano cairá em uma sexta-feira.

Outono e sexta-feira: seria possível uma combinação melhor?

E a melhor notícia é que, contando o tempo que falta para 20 de março “para trás”, o resultado é já depois do Natal. Significa que mais da metade do verão já foi. Que o restante passe ainda mais rápido!

Feliz Mafalda Nova

Minha virada de ano foi totalmente diferente de todas as outras que já vivi. Havia planos de ir à Orla do Guaíba ver os fogos de artifício, mais por vontade da minha mãe do que pela minha. Só que a chuva da tarde do 31 de dezembro e o cansaço depois de adiantar o almoço de ano novo fizeram ela desistir, mesmo que a previsão de tempo seco à noite tenha se confirmado. Um amigo avisou em um grupo que estaria por lá, mas no fim optei por ficar em casa, no ar condicionado e sem “muvuca”. Valeu muito a pena: além de descobrir com dois anos e meio de atraso que da minha janela da sala é possível enxergar os fogos (tem alguns prédios que atrapalham mas não impedem a visão), também pude abrir (quase) na hora certa o meu calendário da Mafalda.

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Não sou supersticioso, mas reparei que não comprei os calendários da Mafalda dos últimos dois anos. E ambos foram bastante ruins: no campo pessoal, 2019 foi melhor que 2018, mas no âmbito geral o balanço do biênio foi negativo.

Inclusive percebi que meu texto de encerramento de 2018 não teve um “balanço” do que foi o ano – aliás, fiz o mesmo em 2019. Apesar de que aqueles 365 dias poderiam ter sido bem resumidos em apenas um: 28 de outubro, dia em que Jair Bolsonaro foi eleito.

Já 2019 foi uma consequência do que aconteceu em 2018 – em especial, daquele 28 de outubro. Conforme eu “previ” no final de 2018, “deu merda”, e muita. Apesar de que os apoiadores “fiéis” (nunca tal expressão fez tanto sentido) acham que está tudo uma maravilha…

Aliás, muita gente que conheço deseja que Bolsonaro não chegue ao final de 2020 como presidente. Confesso que um impeachment (há várias razões para tal, ao contrário do que havia no processo contra Dilma) não me deixaria triste, mas… Eu acho bom que ele cumpra todo o seu mandato, até 31 de dezembro de 2022, fazendo o Brasil passar muita vergonha perante o resto do mundo. Vamos nos ferrar muito, mas isso pode – e precisa – ser didático: é preciso ter mais responsabilidade na hora de votar. Sem contar que, se ele sai, assume o vice-presidente Hamilton Mourão, que teria muito mais facilidade para fazer aquilo que Bolsonaro não consegue justamente por ser Bolsonaro.

“Ah, mas para o Brasil é melhor que ele saia logo”: discordo, o melhor seria que ele não tivesse sido eleito. Agora que a merda foi feita, nos resta fazer (e logo) a autocrítica. Aliás, a esquerda e principalmente a direita liberal precisam refletir muito.

Futuro do pretérito

Como já virou “tradição”, não escrevo mais mensagem otimista pela virada do ano. Isso não quer dizer que eu ache impossível as coisas melhorarem: apenas deixei de acreditar em “pensamento mágico” do tipo “ano novo, vida nova”. Se nada fizermos para que as mudanças aconteçam, não será uma mera troca de calendário que proporcionará isso.

Algo curioso é que a chegada de 2020 me remete muito é ao passado. Primeiramente, ao ano 2000, que na minha infância (e certamente na de muitas pessoas tanto da minha geração quanto das anteriores) simbolizava justamente o futuro. Muitos desenhos animados e filmes “futurísticos” feitos ao longo do Século XX e que se passavam em 2000 ou em anos não tão posteriores mostravam um mundo dominado pela alta tecnologia, caracterizada principalmente pela capacidade dos automóveis levantarem voo (não que motoristas mais estressadinhos já não venham tentando fazer isso há muito tempo) ou pelo alto desenvolvimento da robótica e da engenharia genética. Tanto é que temos carros voadores no 2015 do filme “De Volta para o Futuro II”, assim como androides no 2019 de “Blade Runner” (no qual os veículos também voam).

Não foi à toa que na madrugada de 30 para 31 de dezembro de 1999, quando meu pai completava 48 anos de idade, conversávamos após comermos um churrasco e quando ele comentou “pois é, estamos entrando no ano 2000”, logo emendei: “e os carros não estão voando”…

Duas décadas atrás, fanáticos religiosos acreditavam que estava chegando o fim do mundo. Mas mesmo sem se ter fé havia motivos para algum temor devido ao chamado “bug do milênio” (ainda que a virada tecnicamente se desse apenas em 1º de janeiro de 2001), que poderia fazer os sistemas computacionais mais antigos “entrarem em parafuso”: por economia de memória, neles o ano era representado apenas por seus dois últimos dígitos e os programas assumiam que os dois primeiros eram “19”; assim, 1999 era “99”, e 2000 deveria ser “00” mas seria entendido como “1900”, o que causaria panes generalizadas. Mas com a aproximação da data as empresas investiram na modernização de seus sistemas e praticamente nada aconteceu.

E aqui no Brasil a chegada do ano 2000 teve, pasmem, narração de Galvão Bueno…


Duas décadas depois, além da sensação de estar ficando velho (na entrada de 2000 eu recém tinha completado 18 anos, e hoje já começo a enxergar os 40 no horizonte), também sinto que temos, todos nós, menos tempo para fazer coisas necessárias de modo a garantir o nosso futuro – ou seja, não convém mais esperar ou deixar para depois.

Os efeitos mais dramáticos das mudanças climáticas já não são mais algo projetado para daqui muito tempo. Dentro de dez anos o aumento do nível médio dos mares terá reflexos não só em áreas costeiras, mas mesmo no interior dos continentes por represar as águas de rios, lagunas e lagos: como mostra este mapa interativo, parte considerável das ilhas e algumas áreas da zona sul de Porto Alegre correrão risco de serem invadidas pelo Guaíba já em 2030.

Isso me leva a novamente olhar para o passado, e assim como falei sobre o ano 2000, agora cito um filme que se não fala exatamente de 2020, é “quase”. Trata-se de “Soylent Green” (1973), cujo título no Brasil foi traduzido para “No Mundo de 2020” apesar da história se passar em 2022. Ainda que o mundo “atual” relatado quase 50 anos atrás seja bem diferente do que vemos hoje, não podemos dizer que não é algo que possa acontecer em um futuro não tão distante.

(Aviso: daqui em diante tem “spoiler”, então quem não assistiu ao filme pode parar de ler agora ou continuar por sua conta e risco – não serão aceitas reclamações posteriores.)

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Uma escolha muito fácil

A cada vez que vejo uma crítica ao (des)governo instalado em Brasília vinda de gente que anulou seu voto para presidente ano passado, lembro de um já célebre editorial do jornal Estado de São Paulo, publicado na época do segundo turno. Afirmava o jornal que era muito difícil escolher entre Bolsonaro e Haddad.

Algo como estar em um grupo de excursionistas que antes de entrar no ônibus para uma viagem de quatro horas vai a um restaurante para não pegar a estrada com fome. Por já ser tarde e o estabelecimento estar fechando, sobram apenas duas opções de comida: macarrão “requentado” por já estar na geladeira, ou pastéis com um aspecto péssimo e que atraem muitas moscas.

Óbvio que num cenário desses, eu não tenho dúvidas: vou de massa requentada. Outras pessoas sensatas também. Mas vejo gente dizendo que não quer comer nada por não gostar de nenhuma das duas opções. E também quem opta pelos pastéis: seja por preferi-los ao macarrão, ou por achar que estão ruins mas simplesmente não gostam de massa e por isso “não resta escolha”. Há também um senhor de sotaque engraçado sentado em uma das mesas, que não faz parte do grupo: ele não come nada, mas diz que bom mesmo é o pastel, e que colocaram esperma de porco no molho da massa.

A maioria escolhe pastel, mesmo com todos os alertas.

Logo depois o ônibus sai, e não demora muito para começar o mal-estar generalizado dentro do veículo. Iniciando, como era de se esperar, com quem optou pela comida obviamente estragada. Mas o ambiente empesteado faz vomitar também quem não comeu nada, assim como quem comeu massa: quando chega a minha vez, nem faço questão de não tentar emporcalhar quem ignorou meus avisos…