A respeito de longevidade

Morreu a rainha Elisabeth II do Reino Unido e, junto com ela, os memes sobre uma suposta “imortalidade”. O melhor, sem dúvida, era um que nos perguntava que mundo iríamos deixar para a veterana monarca.

Partiu aos 96 anos, após ser Chefe de Estado por sete décadas. Quando Elisabeth II tornou-se rainha, o presidente do Brasil era Getúlio Vargas, que iniciava o segundo ano de seu mandato conquistado nas urnas em 1950; o atual presidente (se é que dá para chamar assim alguém que puxa um coro de “imbrochável” em pleno bicentenário da Independência) ainda nem havia nascido. Fazia tão somente sete anos que havia acabado a Segunda Guerra Mundial. Ela deu posse a um primeiro-ministro nascido em 1874 (Winston Churchill) e a uma nascida em 1975 (a atual, Liz Truss, nomeada dois dias antes do falecimento da rainha). Apenas quatro Copas do Mundo haviam sido disputadas e o Brasil ainda não tinha conquistado nenhuma; tal glória era restrita a Itália e Uruguai.

Minha avó Luciana tinha 30 anos de idade, meu pai era bebê de colo e minha mãe tinha quatro anos e meio. A rainha, nascida em 1926, era em 2022 mais velha que 99% da população mundial.

Dizer, portanto, que terminou uma era não me parece exagero. Vou além: desde que me conheço por gente ouço falar no noticiário da “rainha da Inglaterra”. Por mais que eu seja contra a monarquia e a glorificação em torno dela, é inegável que de certa forma tornou-se uma “referência”.


Quando Jô Soares faleceu, no último dia 5 de agosto, imediatamente lembrei de uma excelente crônica escrita em 2014 por Eliane Brum. O título já diz tudo: “o mundo da gente morre antes da gente”.

Reparei naquele dia que boa parte das referências simbólicas de minha criação ou estão na casa dos 70, 80 anos, ou morreram sem que isso fosse um choque: é bem diferente Jô Soares nos deixar por uma doença aos 84 do que Ayrton Senna partir aos 34 após bater a 200 km/h numa curva de uma pista insegura. (Aliás, se fosse vivo, Senna teria hoje 62 anos: quantos títulos mais teria conquistado? E prefiro nem ficar nessa de pensar se seria ou não bolsominion.)

Cazuza, falecido em 1990, teria 64 anos se estivesse vivo. Era mais novo, mas não tão mais novo assim, que Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento… Diferença inferior a 20 anos.

Segundo Paulo Roberto Falcão, o jogador de futebol tem duas mortes: a primeira é quando para de jogar e a segunda quando morre de fato. Então lembro de Ronaldo “estourando” no Cruzeiro em 1993, aos 17 anos: pendurou as chuteiras cedo (com apenas 34), é verdade, mas já se aproxima dos 46. Vários ídolos da década de 1990 já passaram dos 50, e alguns dos jogadores que marcaram a inesquecível Copa do Mundo de 1994 até já faleceram (ainda que esses casos se enquadrem naquele critério “morte chocante”: o nigeriano Rashidi Yekini partiu em 2012, aos 48 anos; já o “lobo búlgaro” Trifon Ivanov sofreu um infarto fulminante aos 50, em 2016). O camaronês Roger Milla já era veterano quando “me conheci por gente”, mas hoje tem 70 anos – apenas alguns meses mais novo que meu pai.


Lembro de quando meu pai ainda não tinha nenhum fio de cabelo branco, em um evento de dia dos pais na escolinha onde eu fazia o Jardim de Infância, respondendo a coleguinhas que perguntaram a idade dele: “tenho 35 anos”. Hoje ele tem o dobro de idade, além de barba e cabelo totalmente brancos. E é minha barba e o (que me resta de) cabelo que está embranquecendo aos 40, quase 41.

Mas o que me chama mais a atenção, ainda mais na comparação com a rainha falecida, é o caso de minha avó paterna Luciana, que morreu em 2020 com 98 anos. E me faz pensar ainda mais no que Eliane Brum escreveu, de que “o mundo da gente morre antes da gente”.

Se pinta muito uma ideia bacana da longevidade, de “ver muitas coisas acontecerem”. Como se todo mundo fosse a rainha: rica e com a chefia de um poderoso Estado em mãos única e exclusivamente por ter herdado tal direito do pai, sem ter feito esforço algum para isso (alô, defensores da meritocracia: expliquem essa, por favor).

A minha avó teve muitos cuidados até o final da vida. No dia em que faleceu, um médico foi atendê-la na casa geriátrica onde viveu seus últimos três anos: como diagnosticou que ela provavelmente estava morrendo, deu uma potente injeção contra a dor para que sofresse o mínimo possível.

Mas isso não saiu “de graça”. Os cuidados necessários para que uma pessoa viva quase 100 anos com o máximo de conforto possível são bastante dispendiosos. Boa parte das famílias não têm condições para que seus velhinhos possam ter equipes de cuidadores (em casa ou numa geriatria). Penso até mesmo no meu caso: não tenho e nem quero ter filhos num mundo que dá pinta de que a vida será insuportável num futuro não tão distante por conta das mudanças climáticas; como também tenho preguiça da “burocracia” para conseguir casar (mesmo sem cerimônia), quando estiver velho provavelmente serei apenas eu por mim e, certamente, sem ganhar o suficiente para bancar as despesas. Alcançar uma idade muito avançada sem precisar de cuidados é bastante improvável, então já acho que é melhor não chegar tão longe.

Só que o principal aspecto que penso é no fim do “mundo da gente”, que acontece antes de morrermos quando chegamos à velhice. Se eu percebo que boa parte de minhas referências simbólicas estão partindo de forma natural, as de minha avó já não existiam muito tempo antes de 2020.

E tem algo pior: as pessoas com que se convive a partir de um momento na vida começam a morrer sem causarem choque por terem pouca idade (visto que tendemos a nos relacionar com pessoas que “regulam” conosco nesse aspecto). Felizmente não perdi nenhum amigo mais próximo mas já se foram antigos colegas que tinham idade semelhante à minha, vítimas de acidente de carro ou doenças graves; em ambos os casos a sensação era de que tinham morrido “antes do tempo”. Meu pai já perdeu amigos com idade próxima à dele sem que isso fizesse pensar que tinham ido “cedo”; cerca de metade dos irmãos de minha mãe já morreram: ainda que ambos tenham saúde (que obviamente não é a mesma de anos atrás), não deixa de ser um “sinal dos tempos”, que passam para todo mundo.

Minha avó, em 2020, não era apenas uma velhinha de quase 100 anos que não conseguia mais caminhar e dependia de ajuda para fazer quase que qualquer coisa. Ela também já tinha perdido todas as amizades. O único irmão vivo (que faleceu em 2021, aos 95 anos) sofria de Alzheimer e tinha perdido praticamente toda a memória; morava com ela na geriatria mas poucos dias após ela morrer já se esqueceu. As demais pessoas vivas e próximas a ela eram muito mais novas, de “outro tempo” que já não era o dela.

Vale a pena? Sinceramente, acho que não.

As redes da previsibilidade

Duvido que exista algo mais previsível do que as redes antissociais. Não à toa, alguns anos atrás chegaram a criar um “calendário de tretas do Facebook” que era INCRIVELMENTE CERTEIRO.

Uma das mais manjadas é a do Dia dos Pais. Para além daquela que também existe no Dia das Mães, sobre validar ou não a “maternidade/paternidade de pet”, também tem toda aquela polêmica sobre os pais serem muito ausentes e ainda assim celebrados.

Não discordo: o fato de meu pai sempre ter sido muito presente ainda que separado de minha mãe desde que eu tinha 5 anos de idade (hoje tenho 40) não torna isso uma regra. Conheço muitas pessoas cuja relação com o pai é de ruim para péssima. (Da mesma forma que também há mães que não fazem muito por merecer homenagens.)

Mas mesmo dentre essas pessoas muitas delas não ficam reclamando de outras celebrarem o Dia dos Pais, inclusive com postagens nas redes antissociais. O problema é que os “reclamões” sempre chamam mais a atenção (e isso que nem são tão poucos realmente). Aí, dê-lhe “problematização” sobre a ausência paterna e o fato de ser uma data comercial. (E qual desses dias comemorativos mais badalados não é?)

Engraçado é que muitos desses “reclamões” não deixam de postar, quando comprometidos, mensagens “fofas” no Dia dos Namorados, que é uma data assumidamente comercial (surgiu para incrementar as vendas em junho), e sem pensar na “ausência sentimental” de pessoas que não gostariam de estar solteiras.

Particularmente, prefiro as homenagens às mães e aos pais que fazem jus a isso (felizmente posso fazê-las sem ser apenas de forma protocolar, ainda que eu prefira comemorar dando abraços e carinho sempre). E no ano que vem, as postagens serão para celebrar as mesmas pessoas. Já as de junho, eu só observo quantas vezes as figurinhas mudam… Acho bem divertido.

Bons tempos em que eu escrevia

Julho, mês que costuma representar o auge do inverno no Rio Grande do Sul, terminou com um friozinho que não representa o que ele realmente foi. Não sei de dados estatísticos quanto a isso, mas provavelmente foi o menos frio desde, pelo menos, 2017.

Se faltou cara de inverno justamente no mês que em outros anos foi o auge dele, também é verdade que o frio esteve mais presente do que eu aqui neste espaço. Tanto que fui escrever estas linhas já perto da meia-noite, quando julho já estava virando agosto.

Julho terminou tendo como destaque a quarta dose da vacina da covid-19, que tomei justamente no aniversário da primeira. Como boa “comemoração”, a dose fabricada na Fiocruz tal qual a que começou minha imunização em 7 de julho de 2021 me deu uma reaçãozinha, mas muito leve na comparação com a do ano passado: apenas um pouco de sonolência e dor no corpo que na manhã seguinte nem senti mais.

Algo que julho também não teve foi derrota do Grêmio, tal qual junho. Aliás, desde o começo de maio não sabemos o que é perder: não jogamos um futebol vistoso mas fazemos pontos, que afinal de contas é o que importa na Série B – penso que o fundamental é sair desse inferno.

Não prometo maior frequência de textos em agosto pois já faz oito anos que fracasso retumbantemente todas as vezes que digo “agora vou retomar a frequência de textos”. Pois infelizmente não vejo possibilidade de uma retomada da blogosfera como se tinha no final dos anos 2000 e no começo dos 2010. Sem leitores frequentes como naquela época, a motivação para escrever cai.

E o app móvel do Medium?

Semanas atrás decidi “reviver” meu perfil no Medium, publiquei algumas vezes mas tomei um balde de água fria no dia em que, com meu computador no conserto, decidi escrever alguma coisa pelo celular. O app móvel, que um dia já foi muito bom e permitia a edição e mesmo a publicação de textos, hoje em dia não tem a opção.

A ideia do Medium, de ser quase que uma “rede social de texto”, é interessante, mas falha. Pois além de funcionar na mesma lógica algorítmica, também despreza justamente o meio pelo qual boa parte das pessoas acessa e produz conteúdo na internet hoje em dia: o celular.

Não pretendo abandonar o Medium, mas também não o WordPress. Tenho um carinho por este espaço que mantenho há 15 anos, e não posso deixá-lo de lado.

E se passaram 15 anos

Em 25 de maio de 2015, publiquei o texto de despedida do Cão Uivador, dando fim ao blog que havia começado havia oito anos e onze dias, em 14 de maio de 2007. Achava que não fazia mais sentido manter o Cão sem a frequência de atualizações que ele tinha de 2007 a 2013.

Ao encerrar o Cão (que permaneceu no ar, apenas sem atualizações), criei outro blog cujo nome era o meu, e que teve curta duração: em setembro de 2015 comecei a escrever no Medium, que era a “febre” do momento. Em fevereiro de 2017 resolvi retomar o blog com o meu nome para “reflexões pessoais” enquanto o Medium seria para “temas relevantes”. (Quanta pretensão…)

Consequência disso: quando o Cão completou 10 anos, em 14 de maio de 2017, ele estava inativo. Não teve postagem, não teve nada.

Em fevereiro de 2018 tomei a única decisão moralmente aceitável no tocante à minha escrita na internet: reativar o Cão Uivador. Tempos depois, importei todos os textos do blog “meu xará” (que deixou de existir) para o Cão.

Mas o reinício não foi nos mesmos moldes de 2007 a 2013. Já anunciava que não teria atualizações frequentes: a pretensão era apenas tentar voltar a escrever com mais frequência – no que falhei miseravelmente em vários períodos.

Graças a isso, desde então o Cão teve “falhas” mas nunca mais me passou pela cabeça a ideia de encerrá-lo novamente. E também posso escrever aqui que hoje ele completa 15 anos. Sendo assim bem mais longevo que a maioria esmagadora dos blogs que conheço.

O começo dele foi num período muito especial da minha vida: a participação do Grêmio na Libertadores de 2007. Que não acabou em título, mas foi marcada por inesquecíveis partidas no Olímpico Monumental – foi ele que levou o Tricolor até a final. Não ao acaso, no período de 2007 a 2013 o futebol foi dos temas mais frequentes por aqui: além de Grêmio, também teve Copa do Mundo em 2010 (foi graças a ela que o Cão teve sua maior audiência diária na véspera da abertura do torneio na África do Sul, quando a galera buscava palpites para seus bolões).

Um tema que segue frequente é política. A eleição de 2010 também deu bastante visibilidade ao Cão, que se tornou parte da chamada “blogosfera progressista”, de muita importância naquela época mas que logo depois começou a minguar, pelos mais diversos motivos. Porém, não apenas ela: o que “matou” a maioria dos blogs foi o “roubo” da audiência pelo Facebook, onde se costumava divulgar os links dos textos – aí as pessoas comentavam no post da rede ao invés de clicarem para ler e comentar nos blogs, e no fim das contas muita gente começou a escrever direto no Facebook pois queriam que suas palavras fossem, afinal de contas, lidas.

Por conta disso, penso que os 15 anos do Cão merecem muito ser celebrados, com direito a brinde (mesmo que só virtual). Ainda que com poucas atualizações e pouca repercussão na comparação com dez anos atrás, manter por tanto tempo um blog independente em tempos de burrice empoderada e pessoas com preguiça de clicar em links que as tirem de suas bolhas construídas por algoritmos é, de certa forma, um ato de resistência.

Que venham mais 15, mais 30, mais muitos anos de Cão Uivador. E que os próximos tempos, por favor, sejam melhores: chega de burrice! E que em 2023, para falar do Grêmio, o campeonato seja a Série A…


E num sinal dos novos tempos caninos, o texto de comemoração foi escrito no improviso, aos 45 do segundo tempo…

Encerrando uma longa ausência

Desde o começo da pandemia eu não passava tanto tempo sem aparecer por aqui. Mais de dois meses.

Nesse meio tempo a guerra da qual falei no último texto não apenas não teve um fim, como se intensificou. Quase 60 anos após a crise causada pelos mísseis soviéticos em Cuba (outubro de 1962), se volta a falar em Terceira Guerra Mundial.

Mas nesse meio tempo também tirei férias de verdade pela primeira vez desde 2019. Fui conhecer Curitiba, e voltei a visitar Florianópolis. Era uma arejada na cabeça da qual estava precisando muito, mesmo tendo viajado a Rio Grande no começo do ano (foram poucos dias e sem poder aproveitar mais pois era o começo da onda da variante ômicron).

Voltei lamentando não só pelo fim das férias, como também por Porto Alegre não ser um pouco como as duas cidades. É bem verdade que não temos a mesma paisagem que Florianópolis, mas acho que a cidade onde nasci e vivo desde então (excetuando o ano e meio que morei em Ijuí) tem suas belezas que fazem ela valer a pena, e deveriam mesmo ser mais valorizadas. O pior é não termos a organização de Curitiba: isso daria para mudar se votássemos melhor. (Votar em qualquer porcaria por medinho da esquerda, como fizemos em 2020, dá nisso.)

Tempos de hipocrisia

A Rússia está sendo isolada internacionalmente por sua absurda agressão à Ucrânia. Não é injusto, pois guerras nunca têm motivos justos – e esta em curso foi iniciada por decisão do presidente russo, Vladimir Putin.

Já não teríamos a participação da Rússia como tal na Copa do Mundo de 2022 – assim como aconteceu nas últimas Olimpíadas (de Verão e de Inverno), os russos não poderiam usar seus símbolos nacionais e seriam chamados pelos nomes de suas federações esportivas. Agora nem assim sua seleção irá ao Mundial.

É justo que se puna a Rússia, inclusive excluindo-a de competições esportivas tal qual aconteceu com a Iugoslávia (aliás, uma das histórias mais interessantes da história do futebol se deu por conta disso: a Dinamarca havia perdido a vaga na Eurocopa de 1992 para os iugoslavos, e por conta da punição foi chamada em cima da hora e acabou campeã). Mas é preciso apontar a hipocrisia: está muito fácil só bater na Rússia.

Nem vou falar do passado recente (o qual seria motivo para excluir os Estados Unidos até de jogos de videogame em qualquer esporte, assim como Israel). Fico no presente mesmo. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos estão intervindo, com bombardeios e tudo, na guerra civil travada no Iêmen (país mais pobre da Península Arábica), e não vejo qualquer sinal de punição a qualquer um dos dois países que fazem a mesma coisa que a Rússia. Aliás, faz pouco mais de três semanas que a FIFA realizou um Mundial de Clubes justamente nos Emirados Árabes.

A próxima Copa do Mundo, da qual a Rússia está excluída, acontecerá no Catar, país onde mulheres vítimas de estupro podem acabar passando à condição de acusadas.

Aliás, a última Copa foi realizada justamente na Rússia, que em 2018 já intervinha em partes da Ucrânia onde a maioria da população é de origem russa. Quando envolvia seus lucros, a FIFA foi bem amiguinha de Putin… Agora, repito, é fácil bater nele.

Das falsas equivalências

Está na moda ser “nem a nem b” no Brasil. “Nem Lula nem Bolsonaro”, diz uma galera louca de vergonha de admitir que, em caso de segundo turno entre os dois, vota no segundo pois “PT nunca mais”. (Engraçado que provavelmente nunca tenham vivido tão bem como na época em que o PT “destruía nossas vidas”.)

O pior desse (por assim dizer) argumento “nem Lula nem Bolsonaro” é a falsa equivalência entre os dois. “Sou contra extremos, temos que romper a polarização”, diz quem consegue ver algum resquício de extremismo nos governos petistas. “PT vai transformar o Brasil em Venezuela”: tchê, se em 13 anos de presidência isso não aconteceu, ou foi muita incompetência ou simplesmente nunca houve tal objetivo (dica: a resposta certa é a segunda).

Se houve algum extremo nos governos Lula e Dilma, foi de moderação. Os bancos lucraram como nunca. Não houve regulação da mídia. Foi um período no qual o capitalismo brasileiro se fortaleceu. Mas para isso acontecer era preciso haver maior inclusão social (como defendem liberais de verdade), o que é (e continua) inaceitável para as elites e boa parcela da chamada “classe média” – que se identifica mais com a classe dominante mesmo estando muito próxima do “andar de baixo”.

Ou seja, não há uma extrema-esquerda viável eleitoralmente no Brasil. Ao contrário da extrema-direita que, graças ao apoio desses ditos “setores moderados”, é governo atualmente. Onde está a polarização?

Resposta: na cabeça de quem apertou 17 em 2018 e não apenas se recusa a admitir que fez cagada, como também tem disposição de repetir a cagada em 2022.


De certa forma, o mesmo ocorre no tocante à famosa “treta” entre “frioristas” e “caloristas” que se repete ano após ano quando vivemos o auge ou do inverno, ou do verão. Ouvi ao longo deste domingo (um dos dias mais sufocantes da história dessa cidade infernal chamada Porto Alegre) que “nenhum extremo é bom, nem inverno nem verão”.

Olha, eu já nem sou mais muito fã do inverno, confesso que “encaranguei” no último, quando junho e julho foram mais frios que o normal. Tenho preferido temperaturas amenas.

Mas… Inverno ou verão para mim é quase como um segundo turno entre Lula e Bolsonaro (com a diferença de que na eleição eu já vou de 13 no primeiro turno). É uma falsa equivalência dizer que são “dois extremos”.

O inverno é bem cruel com os mais pobres (especialmente moradores de rua), é verdade. O que torna ainda mais revoltante a desigualdade no Brasil: reduzindo a pobreza, também se diminui o sofrimento com o frio, visto que não temos temperaturas realmente extremas como no Canadá ou na Noruega (países onde o inverno não é uma tragédia social). Falta calefação nas construções aqui no sul do Brasil, mas ao mesmo tempo isso encareceria os imóveis: excetuando os municípios de maior altitude (onde faz mais frio), será que valeria a pena considerando que são muito poucos os dias nos quais realmente é preciso aquecer ambientes? Alguém poderia dizer que não posso ser a referência mas lembro do quanto senti frio em junho e julho de 2021: ainda que eu tenha “encarangado”, foram bem poucos os dias nos quais realmente senti falta de ter aquecimento; nos demais bastava vestir mais roupas e tomar uma taça de vinho para ficar confortável. Sem contar que nosso inverno não é inteiramente frio, não são incomuns dias de intenso calor quando se esperariam temperaturas baixas.

Já o verão é igualmente cruel com os mais pobres, mas isso não dá tanto “ibope” nas redes sociais: é mais fácil posar de defensor dos moradores de rua dizendo que odeia inverno mesmo esquecendo deles quando chega a primavera. Num dia como foi o domingo, com Porto Alegre registrando mais de 40 graus, os pobres com teto precisaram escolher entre ligar o ar condicionado (quando o têm) e pôr comida na mesa (é preciso dinheiro para pagar a conta de energia); moradores de rua dormem no chão muito quente (e desconfortável), à mercê de baratas e outros insetos, e passando muita sede. E contornar o calor é muito mais difícil por se depender muito mais de energia elétrica: se no inverno só não conseguimos nos aquecer apenas vestindo mais roupas em meia dúzia de dias, no verão o ar condicionado é uma necessidade ao longo de quase toda a estação para que se possa trabalhar com conforto (e em muitos dias também é necessário para conseguir dormir). Ainda mais que, ao contrário do inverno, o verão nunca dá trégua: já vesti bermuda em julho mais de uma vez, e nunca usei blusão de lã em janeiro.

O fato é que ninguém gosta de passar frio ou calor, a diferença é na facilidade para lidar com um ou outro. Aqui não é o Canadá (onde faz 50 graus negativos), nosso inverno é muito moderado, ao contrário do verão que é, cada vez mais, extremo. Escolher entre um e outro é algo como… Optar entre Lula e Bolsonaro. É uma escolha facílima.

O verão é o Bolsonaro do nosso clima.

2021, o ano suficiente

Em 31 de dezembro de 2020, quando escrevi meu tradicional texto de “balanço” do ano que acabava, ele teve o seguinte parágrafo:

Não nutro lá muitas esperanças de que o próximo ano será bom. Ainda que haja vacina, muitos milhões de pessoas empobrecerão bastante por conta do estrago na economia causado pela pandemia. Mas, se 2021 for péssimo, já será melhor que 2020 sem sombra de dúvidas.

O final muito melhor que o começo dá a impressão de que nem foi lá um ano tão ruim, mas a verdade é que ele foi bem complicado. Pesado.

Começou com uma tentativa de golpe no país que tantas outras patrocinou ao redor do mundo. A CPI da Pandemia no Senado mostrou que quem nos “governa” é imensamente mais cruel do que parecia ser. E por incrível que pareça, essa gente má ainda tem bastante apoio (como demonstrou o dia 7 de setembro), mesmo que seja (agora) minoritária.

Também tivemos o TSUNAMI de casos de covid-19 de fevereiro a abril, época na qual as redes sociais viraram obituários. Culpa da falta de noção e da irresponsabilidade patrocinada pelo genocida de Brasília. Não à toa, na enquete que faço no Instagram sobre qual foi o pior ano entre 2020 e 2021, a parcial no momento em que escrevo é um empate.

2021 foi o ano do retorno da torcida aos estádios, mas ainda não me encorajei – menos pela arquibancada em si, ao ar livre, e sim pelas aglomerações no transporte público. Não perdi nada: o Grêmio fez o Campeonato Brasileiro mais ridículo em 118 anos de História, conseguindo a façanha de ser rebaixado com as contas em dia. Meu último jogo na Arena foi o Gre-Nal da Libertadores de 2020, e o retorno por uma competição que não seja o Gauchão será na Série B, algo que jamais imaginei.

2021 também foi um ano complicado em matéria de saúde para a minha mãe, mas felizmente terminou tudo bem. Foram três cirurgias, com duas internações: a primeira em fevereiro, pouco antes do pior momento da pandemia; a segunda em novembro, quando ela felizmente já tinha tomado a terceira dose da vacina. Por conta disso, decidi abrir mão de morar sozinho (algo que por tanto tempo desejei), para poder estar mais próximo dela após tantos problemas; meu projeto para o futuro (e muito improvável que se concretize em 2022) é financiar um apartamento próprio aqui por perto, para não ficar mais à mercê dos reajustes de aluguel. (Aliás, no tocante à residência, em 2021 me convenci em definitivo que acertei ao retornar a Porto Alegre em 2016.)

Ainda assim, 2021 não foi um ano que considero perdido como 2020. O principal motivo para tal se chama VACINA. Minha mãe e meu pai tomaram três doses, meu irmão e eu recebemos duas – e agora em janeiro teremos a terceira. Enquanto as PRAGAS ANTIVACINA falam que a vacinação obrigatória é um “atentado à liberdade”, a vacina significa justamente o contrário: graças à imunização, voltei a sentar em uma mesa de bar após 630 dias, pude sair com menos medo (ainda tomando cuidados pois a pandemia está longe de acabar), foi possível voltar a encontrar e, principalmente, ABRAÇAR PESSOAS após tantos meses. Não ter vacinas (como o genocida queria que fosse) é que tirava a nossa liberdade.

2021 foi também o ano no qual entrei nos “enta”. Infelizmente não tive como reunir amigos em um bar para celebrar pois nem todos estavam completamente vacinados. Ficou para 2022, quando o 15 de outubro cairá num sábado.


Faz um bom tempo que decidi fazer igual ao Luís Fernando Veríssimo: não mais fazer resoluções de ano novo. Não será agora que mudarei de ideia – ainda mais considerando o que foram 2020 e 2021.

Tenho dois alentos para 2022. O primeiro é que tem boas chances de ser o último ano em que o Brasil sofre com seu pior presidente em 133 anos de República. Não me iludo com as pesquisas que apontam vitória fácil do Lula: a eleição será dificílima, com as criaturas saídas do bueiro jogando ainda mais sujo do que em 2018.

O segundo é que 2022 é ano de Copa do Mundo. Que será um tanto diferente: no final do ano, para escapar do calor absurdo que faz no absurdo país-sede do Mundial, o Catar (primeiro anfitrião estreante desde a Itália em 1934). A perspectiva da bola rolar no maior de todos os torneios de futebol sempre dá um ânimo. Recordo 1998, que comecei “na fossa” por um “coração partido”: lembrar que cinco meses depois começaria a Copa da França me ajudou MUITO a levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. (E no final das contas aquele foi um dos melhores anos da minha vida: fazendo uma analogia com o futebol, foi uma fantástica “vitória de virada”.)

Mas, ainda assim, prefiro desejar em especial que o novo ano SE COMPORTE. Se 2022 reservar alguma surpresa, POR FAVOR, que seja positiva. (Tipo um impeachment do genocida: acho que ainda dá tempo, apesar de que motivos para ele ocorrer em 2021 abundaram e não rolou.)

Perdendo datas redondas e poder de compra

Se em 2 de novembro eu não esqueci de postar uma referência aos 10 mil dias do início da Copa do Mundo de 1994 (evento futebolístico máximo para boa parte da minha geração afora conquistas de clubes), um mês depois acabei passando batido. Mas por um bom motivo: estava na antevéspera de me mudar e assim rasgava boletos vencidos há tempos. Por isso não lembrei de vir aqui falar dos 10 mil dias de quando o Galvão gritou “É TETRAAAAA” abraçado ao Pelé, com o complemento de que a Seleção quebrava um jejum que já tinha 24 anos. (Detalhe: 17 de julho de 1994 está distante de nós mais de 27 anos, ou seja, mais perto da magia de 1970 do que dos dias atuais; e lá se vão quase 20 que não celebramos um Mundial vencido pelo Brasil.)

Dentre os boletos que eu rasguei enlouquecidamente no dia em que deveria ficar lamentando os DEZ MIL DIAS DE SAUDADES da Copa com a qual ainda sonho de vez em quando, estavam faturas do cartão de crédito pagas em 2014. Sim, antes de minha mudança para Ijuí (2015), e mesmo de outro Mundial inesquecível – apesar dos tristemente famosos 7 a 1.

O fato de ter toda essa papelada inútil guardada sem necessidade (por que guardar boletos pagos há SETE anos?) me deixou menos impressionado do que os valores. Incrível como as coisas eram BARATAS em 2014.

Nas faturas do cartão de crédito, por exemplo, identifiquei as vezes em que fui assistir a jogos do Grêmio em uma lanchonete (fechada há um bom tempo) na frente de casa. Lembro bem que costumava pedir um xis ou um cachorro quente, e (pelo menos) uma cerveja de garrafa (600 ml). A maioria das vezes em que identifiquei pagamentos com o cartão no local, a despesa era de menos de 20 reais.

MENOS DE 20 REAIS.

Hoje em dia só a cerveja sai por pelo menos 14 reais. E só um xis, nunca mais comi por menos de 20.


Nosso poder de compra caiu absurdamente nos últimos sete anos. Lembro de quando me mudei para Ijuí e fui procurar apartamento para alugar: a maior dificuldade foi ESCOLHER um dentre as opções boas e baratas que tinha (interior costuma ser mais barato que capital); no final estava entre dois imóveis excelentes, ambos com dois quartos, e fiquei com um que tinha sacada (que saudades).

Hoje em dia, com o meu salário, eu nem chegaria perto de poder ir morar num apartamento como aquele escolhido no início de 2015. Tanto em Porto Alegre como em Ijuí.

Ficaram mais caros aluguel, condomínio, gasolina, pão, arroz, feijão, carne, cerveja etc. E os salários, quando não ficaram estacionados no mesmo lugar, não subiram no mesmo ritmo. Só caíram a Dilma (por um motivo que definitivamente não se justifica, ainda mais diante do horror atual) nosso poder de compra e a imagem do Brasil perante o resto do mundo.