A nossa insignificância

Em 5 de setembro de 1977 a sonda espacial Voyager 1 foi lançada do Cabo Canaveral (Flórida, Estados Unidos) com o objetivo de explorar o Sistema Solar – curiosamente, semanas após sua “gêmea” Voyager 2. Em novembro de 1980 a missão principal foi concluída e a sonda seguiu viagem pelo Espaço; posteriormente, para economizar energia foi decidido que o sistema de câmeras seria desligado de modo que a nave pudesse enviar dados para a Terra pelo maior tempo possível, visto que não haveria mais nada que fosse cientificamente interessante para ser fotografado na sequência. Foi quando o astrônomo Carl Sagan (1934-1996) teve a ideia de que, antes do desligamento, as câmeras fizessem um último registro da Terra e de planetas próximos.

No dia 14 de fevereiro de 1990, quando a Voyager 1 se encontrava a uma distância de 6 bilhões de quilômetros da Terra, o conjunto de quadros fotográficos chamado “Retrato de Família” foi obtido pelas câmeras – seriam as últimas imagens registradas pela sonda, que segue ativa até hoje e com previsão de perder contato com a Terra por volta de 2025.

Uma foto da Terra tirada de tão longe certamente não teria grande valor científico, e Sagan já sabia disso. Mas ajudaria a dar uma perspectiva de nossa localização no Universo. E mais que isso: do quão insignificantes somos.

pálido ponto azul

A Terra é aquele pontinho em meio a um raio solar, com um círculo azul em volta para facilitar a localização.

A fotografia acabou sendo chamada de “Pálido Ponto Azul”, por ser como nosso planeta aparece nela. Nome que batizou o livro lançado por Sagan em 1994, inspirado por tal imagem que acaba de completar 30 anos. Na obra, o astrônomo propôs uma bela reflexão sobre a foto que segue muito válida, ainda mais em tempos de uma crise climática que põe em xeque o futuro da humanidade.

Olhem de novo esse ponto. É aqui, é a nossa casa, somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um sobre quem você ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram as suas vidas. O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada professor de ética, cada político corrupto, cada “superestrela”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali – em um grão de pó suspenso num raio de sol.

A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.

As nossas posturas, a nossa suposta auto importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios.

A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que abriga vida. Não há outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para onde a nossa espécie possa emigrar. Visitar, sim. Assentar-se, ainda não. Gostemos ou não, a Terra é onde temos de ficar por enquanto.

Já foi dito que astronomia é uma experiência de humildade e criadora de caráter. Não há, talvez, melhor demonstração da tola presunção humana do que esta imagem distante do nosso minúsculo mundo. Para mim, destaca a nossa responsabilidade de sermos mais amáveis uns com os outros, e para preservarmos e protegermos o “pálido ponto azul”, o único lar que conhecemos até hoje.

A sexta-feira que mais aguardo

Minha estação do ano preferida é o outono. Gosto tanto dessa época que conto os dias para sua chegada em praticamente todos os verões – e obviamente não está sendo diferente no atual.

Em 2020 o outono terá um “plus”. O início oficial será no habitual 20 de março, que este ano cairá em uma sexta-feira.

Outono e sexta-feira: seria possível uma combinação melhor?

E a melhor notícia é que, contando o tempo que falta para 20 de março “para trás”, o resultado é já depois do Natal. Significa que mais da metade do verão já foi. Que o restante passe ainda mais rápido!

Feliz Mafalda Nova

Minha virada de ano foi totalmente diferente de todas as outras que já vivi. Havia planos de ir à Orla do Guaíba ver os fogos de artifício, mais por vontade da minha mãe do que pela minha. Só que a chuva da tarde do 31 de dezembro e o cansaço depois de adiantar o almoço de ano novo fizeram ela desistir, mesmo que a previsão de tempo seco à noite tenha se confirmado. Um amigo avisou em um grupo que estaria por lá, mas no fim optei por ficar em casa, no ar condicionado e sem “muvuca”. Valeu muito a pena: além de descobrir com dois anos e meio de atraso que da minha janela da sala é possível enxergar os fogos (tem alguns prédios que atrapalham mas não impedem a visão), também pude abrir (quase) na hora certa o meu calendário da Mafalda.

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Não sou supersticioso, mas reparei que não comprei os calendários da Mafalda dos últimos dois anos. E ambos foram bastante ruins: no campo pessoal, 2019 foi melhor que 2018, mas no âmbito geral o balanço do biênio foi negativo.

Inclusive percebi que meu texto de encerramento de 2018 não teve um “balanço” do que foi o ano – aliás, fiz o mesmo em 2019. Apesar de que aqueles 365 dias poderiam ter sido bem resumidos em apenas um: 28 de outubro, dia em que Jair Bolsonaro foi eleito.

Já 2019 foi uma consequência do que aconteceu em 2018 – em especial, daquele 28 de outubro. Conforme eu “previ” no final de 2018, “deu merda”, e muita. Apesar de que os apoiadores “fiéis” (nunca tal expressão fez tanto sentido) acham que está tudo uma maravilha…

Aliás, muita gente que conheço deseja que Bolsonaro não chegue ao final de 2020 como presidente. Confesso que um impeachment (há várias razões para tal, ao contrário do que havia no processo contra Dilma) não me deixaria triste, mas… Eu acho bom que ele cumpra todo o seu mandato, até 31 de dezembro de 2022, fazendo o Brasil passar muita vergonha perante o resto do mundo. Vamos nos ferrar muito, mas isso pode – e precisa – ser didático: é preciso ter mais responsabilidade na hora de votar. Sem contar que, se ele sai, assume o vice-presidente Hamilton Mourão, que teria muito mais facilidade para fazer aquilo que Bolsonaro não consegue justamente por ser Bolsonaro.

“Ah, mas para o Brasil é melhor que ele saia logo”: discordo, o melhor seria que ele não tivesse sido eleito. Agora que a merda foi feita, nos resta fazer (e logo) a autocrítica. Aliás, a esquerda e principalmente a direita liberal precisam refletir muito.

Futuro do pretérito

Como já virou “tradição”, não escrevo mais mensagem otimista pela virada do ano. Isso não quer dizer que eu ache impossível as coisas melhorarem: apenas deixei de acreditar em “pensamento mágico” do tipo “ano novo, vida nova”. Se nada fizermos para que as mudanças aconteçam, não será uma mera troca de calendário que proporcionará isso.

Algo curioso é que a chegada de 2020 me remete muito é ao passado. Primeiramente, ao ano 2000, que na minha infância (e certamente na de muitas pessoas tanto da minha geração quanto das anteriores) simbolizava justamente o futuro. Muitos desenhos animados e filmes “futurísticos” feitos ao longo do Século XX e que se passavam em 2000 ou em anos não tão posteriores mostravam um mundo dominado pela alta tecnologia, caracterizada principalmente pela capacidade dos automóveis levantarem voo (não que motoristas mais estressadinhos já não venham tentando fazer isso há muito tempo) ou pelo alto desenvolvimento da robótica e da engenharia genética. Tanto é que temos carros voadores no 2015 do filme “De Volta para o Futuro II”, assim como androides no 2019 de “Blade Runner” (no qual os veículos também voam).

Não foi à toa que na madrugada de 30 para 31 de dezembro de 1999, quando meu pai completava 48 anos de idade, conversávamos após comermos um churrasco e quando ele comentou “pois é, estamos entrando no ano 2000”, logo emendei: “e os carros não estão voando”…

Duas décadas atrás, fanáticos religiosos acreditavam que estava chegando o fim do mundo. Mas mesmo sem se ter fé havia motivos para algum temor devido ao chamado “bug do milênio” (ainda que a virada tecnicamente se desse apenas em 1º de janeiro de 2001), que poderia fazer os sistemas computacionais mais antigos “entrarem em parafuso”: por economia de memória, neles o ano era representado apenas por seus dois últimos dígitos e os programas assumiam que os dois primeiros eram “19”; assim, 1999 era “99”, e 2000 deveria ser “00” mas seria entendido como “1900”, o que causaria panes generalizadas. Mas com a aproximação da data as empresas investiram na modernização de seus sistemas e praticamente nada aconteceu.

E aqui no Brasil a chegada do ano 2000 teve, pasmem, narração de Galvão Bueno…


Duas décadas depois, além da sensação de estar ficando velho (na entrada de 2000 eu recém tinha completado 18 anos, e hoje já começo a enxergar os 40 no horizonte), também sinto que temos, todos nós, menos tempo para fazer coisas necessárias de modo a garantir o nosso futuro – ou seja, não convém mais esperar ou deixar para depois.

Os efeitos mais dramáticos das mudanças climáticas já não são mais algo projetado para daqui muito tempo. Dentro de dez anos o aumento do nível médio dos mares terá reflexos não só em áreas costeiras, mas mesmo no interior dos continentes por represar as águas de rios, lagunas e lagos: como mostra este mapa interativo, parte considerável das ilhas e algumas áreas da zona sul de Porto Alegre correrão risco de serem invadidas pelo Guaíba já em 2030.

Isso me leva a novamente olhar para o passado, e assim como falei sobre o ano 2000, agora cito um filme que se não fala exatamente de 2020, é “quase”. Trata-se de “Soylent Green” (1973), cujo título no Brasil foi traduzido para “No Mundo de 2020” apesar da história se passar em 2022. Ainda que o mundo “atual” relatado quase 50 anos atrás seja bem diferente do que vemos hoje, não podemos dizer que não é algo que possa acontecer em um futuro não tão distante.

(Aviso: daqui em diante tem “spoiler”, então quem não assistiu ao filme pode parar de ler agora ou continuar por sua conta e risco – não serão aceitas reclamações posteriores.)

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Uma escolha muito fácil

A cada vez que vejo uma crítica ao (des)governo instalado em Brasília vinda de gente que anulou seu voto para presidente ano passado, lembro de um já célebre editorial do jornal Estado de São Paulo, publicado na época do segundo turno. Afirmava o jornal que era muito difícil escolher entre Bolsonaro e Haddad.

Algo como estar em um grupo de excursionistas que antes de entrar no ônibus para uma viagem de quatro horas vai a um restaurante para não pegar a estrada com fome. Por já ser tarde e o estabelecimento estar fechando, sobram apenas duas opções de comida: macarrão “requentado” por já estar na geladeira, ou pastéis com um aspecto péssimo e que atraem muitas moscas.

Óbvio que num cenário desses, eu não tenho dúvidas: vou de massa requentada. Outras pessoas sensatas também. Mas vejo gente dizendo que não quer comer nada por não gostar de nenhuma das duas opções. E também quem opta pelos pastéis: seja por preferi-los ao macarrão, ou por achar que estão ruins mas simplesmente não gostam de massa e por isso “não resta escolha”. Há também um senhor de sotaque engraçado sentado em uma das mesas, que não faz parte do grupo: ele não come nada, mas diz que bom mesmo é o pastel, e que colocaram esperma de porco no molho da massa.

A maioria escolhe pastel, mesmo com todos os alertas.

Logo depois o ônibus sai, e não demora muito para começar o mal-estar generalizado dentro do veículo. Iniciando, obviamente, com quem optou pela comida obviamente estragada. Mas o ambiente empesteado faz vomitar também quem não comeu nada, assim como quem comeu massa: quando chega a minha vez, nem faço questão de não tentar emporcalhar quem ignorou meus avisos…

Outubro, de novo

Quando o número que designa em qual mês estamos passa a ter dois dígitos (pois o zero à esquerda não conta), me “cai a ficha”: não falta muito para o ano acabar. Tanto o “meu” como o do calendário. Tanto que costumo dizer que após o dia 15 de outubro em “um piscar de olhos” já estaremos nas festas de final de ano.

Para mim o mês de outubro sempre tem um significado especial, por ser o mês do meu aniversário (comemorado no já citado dia 15). É um momento em que costumo refletir sobre minha vida, algo habitual quando ocorre a passagem de um ciclo a outro: é verdade que também se faz isso em dezembro, mas outubro me proporciona uma análise mais “pessoal” sobre o que aconteceu nos últimos 365 (ou 366) dias.

Só que, depois de 2018, chegar ao décimo mês do ano nunca mais será a mesma coisa, tanto para mim como para incontáveis pessoas, independentemente de quando elas fazem aniversário. Ainda mais em tempos de redes sociais: o Facebook nos recorda que um ano atrás estávamos angustiados com a campanha eleitoral mais suja que já se viu no Brasil.

Uma eleição fraudada, digo com total convicção. Mas não foi uma fraude do tipo “urnas eletrônicas não confiáveis”: os votos por elas computados eram realmente o que o eleitorado decidia – como, aliás, sempre foram. O problema é que muitas pessoas escolheram seu candidato a presidente com base em mentiras deslavadas. Desde o tal “comunismo” do PT (algo tão real quanto unicórnios ao meu lado enquanto escrevo este texto) até absurdos como a tal “mamadeira de piroca”. Falar a verdade, infelizmente, não rende mais votos.

Outubro, no qual se celebra o meu aniversário, foi em 2018 o pior mês da minha vida. Já começou bem ruim e terminou péssimo. Ainda mais com o agravante da tristemente inesquecível noite do dia 30: dois dias após a catástrofe eleitoral fui ao jogo do Grêmio contra o River Plate pela semifinal da Libertadores e, como se não bastasse a derrota gremista no final, ainda fui roubado e caiu um temporal na hora da saída.

Espero que em 2019 não se repita a desgraça do ano passado. Tem jogo do Grêmio logo “de início” (de novo uma semifinal de Libertadores, agora contra o Flamengo), mas desta vez vou tomar mais cuidado com meus bolsos. E felizmente não tem eleição: aquele cara lá ganhou um ano atrás e, conforme minha previsão, está nos fazendo passar muita vergonha mundo afora; é ruim para o Brasil, mas torço para que ao menos seja didático.

Que tal detestar a coisa certa?

Está acabando o inverno e isso não me deixa feliz. Mesmo que eu não desgoste da primavera (estação na qual vim ao mundo há quase 38 anos), lembrar que mais um verão está a caminho me leva a já contar os dias para o outono, que é minha estação do ano preferida. Mas entre inverno e verão eu prefiro o primeiro, ainda que para os mais pobres o frio cause muito sofrimento: comigo acontece o contrário pois acho mais fácil lidar com as baixas temperaturas que com as altas, já que para mim basta vestir mais roupas enquanto no calor só o ar condicionado resolve – o que resulta em alto gasto de energia elétrica e, consequentemente, em uma conta mais cara.

Claro que é fácil preferir o inverno quando se está debaixo de um teto e se tem roupas para vestir. Ao mesmo tempo que gostar de verão podendo passar a maior parte dele na praia ou no ar condicionado é “barbada”. Difícil é curtir o frio tendo poucos recursos para se proteger dele, ou calor precisando trabalhar debaixo do sol a pino do meio-dia.

Acredito que os dois parágrafos anteriores deixaram bem claro qual é o maior problema. Não é nada de ordem climática: é a pobreza e a desigualdade social. Não importa a época do ano, para rico não existe adversidade: no verão ele pode curtir uma piscina pois tem condições de manter uma, ir para a praia ou simplesmente pegar um avião e ir para algum país frio sem se preocupar com os custos da viagem; no inverno pode desfrutar de um café colonial em Gramado ou esquiar em Bariloche sem sentir aquela “dor no bolso”, ou embarcar em um voo (igualmente “barato”) para algum lugar quente (vão pra Cuba!); na primavera é possível escapar de eventuais alergias pelo florescimento viajando sem preocupação para onde é outono – a propósito, alguém consegue ter alguma coisa a reclamar do outono?

Ruim mesmo não é inverno ou verão. A falta de grana para se sofrer menos com o clima é que é uma bosta: mesmo detestando calor eu tenho ar condicionado e posso usá-lo com frequência mesmo isso que pese no bolso depois. Para os mais pobres, isso significa menos comida na mesa – e a fome independe da estação do ano.

Logo, que tal passar a atacar e detestar o que realmente importa? Pois não adianta “sentir pena” dos pobres no inverno só para “fazer média” nas redes sociais e votar na direita depois que chega a primavera…

O tempo voou e minha paciência se foi

Estou gostando desse negócio de voltar a escrever. Uma consequência disso é que tenho lido textos que escrevi um bom tempo atrás – alguns, há mais de 10 anos – para comparar tanto o pensamento que eu tinha na época como também meu zelo com a língua portuguesa.

Até não mudou muita coisa em termos de pensamento. Já o cuidado com o idioma aumentou – a ponto de algumas vezes eu reler um texto lá de 2007, notar uma palavra repetida no mesmo parágrafo ou uma pontuação fora de lugar, e editá-lo mesmo que esteja quase esquecido nos arquivos de 12 anos atrás. Ultimamente sempre termino um texto e fico um tempinho longe dele para depois revisar.

Mas a maior diferença que notei foi no tocante à minha paciência com comentaristas – em especial, os que “opinavam” sem fundamentação alguma nos textos sobre política. (Aliás, vale uma observação: reclamamos tanto das redes sociais por ajudarem a propagar fake news e criarem uma “bolha ideológica” em torno de seus usuários, e esquecemos que a maioria das pessoas já era assim e “bostejava” em caixas de comentários de grandes portais e blogs.)

Desde o início do Cão nenhum comentário é publicado sem antes passar por minha moderação. É algo de que sinto muita falta em redes como o Facebook: tem gente que só fala merda e faz questão de “opinar” só por gostar de “ver o circo pegar fogo”, e não tenho como exercer papel de moderador a não ser excluindo o “bostejo” – muitas vezes depois do estrago já feito. No Cão, por algum tempo deixei passar praticamente tudo – inclusive comentários com ofensas pessoais contra mim – em nome de uma “defesa da democracia”, até que um dia me liguei no óbvio: democrática tem de ser a internet e o acesso a ela, e ninguém impor regras de como devo administrar meu blog pessoal também é democracia; por isso, passei a impedir a publicação de muitos comentários odiosos – exceto quando a tosquice era tanta que nem precisava de resposta, a pessoa já se expunha ao ridículo só por escrever tamanha asneira.

Ainda assim, por um tempo continuei “debatendo” com os que dissimulavam seu ódio “falando bonito”, respeitando as regras gramaticais etc. Não adiantava nada, mas eu era muito paciente e insistia. Depois os comentários de forma geral diminuíram pois o Facebook “canibalizou” a audiência dos blogs, e muitas vezes eu postava o link na rede de Zuckerberg e as pessoas comentavam lá, não aqui.

Vários anos se passaram, e a minha paciência se foi. Não à toa, no Facebook muitas postagens sobre política têm público restrito, para evitar a incomodação causada por bolsominions que gostam, antes de tudo, de ter palco para defender seu ídolo (tanto é que quando o post vai nos “stories”, onde a resposta vai direto para mim sem que mais ninguém veja, eles ficam quietos). Pois, além de não ter como impedir a publicação de comentários que não acrescentam absolutamente nada a um bom debate de ideias, também não tenho mais saco para discutir com essa gente: posso argumentar um monte, mostrar fatos, que no final vão acabar dizendo os já “clássicos” chavões “e o Lula, e o PT?” e “o Lula tá preso babaca”. Por que perder tempo com isso?

Quem precisa de autocrítica?

Nos últimos tempos tem-se falado muito sobre a necessidade da esquerda brasileira fazer uma autocrítica acerca de seu passado recente. A cobrança maior recai sobre o PT, maior partido brasileiro deste campo do espectro político.

Concordo que haja tal necessidade e inclusive lamento que a autocrítica praticamente não tenha ocorrido mais de três anos após o golpe travestido de impeachment em 2016 e a consequente eleição de Jair Bolsonaro para a presidência. Porém, há um outro ponto importante, sobre o qual pouco se fala: e a autocrítica dos liberais, quando será feita? Pois não podemos esquecer que eles têm a maior culpa pela situação atual.

Seu candidato na eleição presidencial de 2014, o então senador Aécio Neves (PSDB), foi derrotado por estreita margem. Tal resultado (48,36% dos votos válidos, contra 51,64% para a reeleita Dilma Rousseff) indicava que o PSDB, como principal partido da oposição, chegaria forte em 2018 para a sucessão de Dilma. Ainda mais que ela iniciaria seu segundo mandato com a economia claudicante e com a rejeição ao PT em uma crescente.

Porém, o PSDB e seus aliados optaram pelo caminho do golpismo. Um dia após o encerramento do processo eleitoral, já havia gente falando em impeachment e convocando manifestações (que começaram a ocorrer, ainda que pequenas, já no final de 2014), com pouquíssimas vozes oposicionistas manifestando contrariedade a isso. Em seu retorno ao Senado, Aécio prometeu oposição “incansável e instransigente” ao governo recém reeleito. E para completar, houve o pedido de auditoria nas urnas eletrônicas, insinuando uma fraude que a própria verificação provou não ter ocorrido – mas que contribuiu para não se virar a página de uma virulenta campanha eleitoral.

Tanto insistiram que o impeachment veio em 2016, com uma justificativa duvidosa: as tais “pedaladas fiscais”, que nunca tinham motivado a perda de mandato de nenhum governante anterior, agora eram “crime de responsabilidade”. Mas não foi apenas uma troca de presidente: a oposição se aliou ao vice-presidente Michel Temer e voltou ao governo “pela porta dos fundos” ao invés de esperar até 2018, quando provavelmente triunfaria nas urnas e entraria no Palácio do Planalto pela “porta da frente”, subindo a tradicional (e simbólica) rampa.

O resultado disso é que quem viria forte em 2018 virou “vidraça” por ter se tornado governo (por sinal, péssimo) antes da hora. Quem virou oposição – o PT e seus aliados à esquerda – foi também culpabilizado pelo desastre (“quem votou na Dilma votou no Temer”, lembram?). O resultado é que a soma de insatisfação com o irracional antipetismo nos conduziu à eleição (ainda que mediante o uso de incontáveis mentiras) de um sujeito que está jogando a imagem do Brasil na lama e nos envergonhando dia sim, dia também.

A esquerda – e em especial o PT – cometeu muitos erros, os quais nem vou elencar, por isso prefiro falar apenas da campanha eleitoral de 2018. Penso que o ideal teria sido o PT abrir mão de ser cabeça de chapa: alguém acreditava que deixariam Lula ser candidato quando condenaram ele sem provas justamente para prendê-lo e impedi-lo de disputar – e provavelmente vencer – a eleição? Mas, cometido o primeiro erro, e com Fernando Haddad concorrendo no lugar de Lula e indo ao segundo turno, penso que qualquer pessoa que diga defender a democracia deveria ter apoiado o petista incondicionalmente contra alguém que nunca escondeu sua admiração pela ditadura de 1964 e seus enojantes métodos. Sim, isso é um recado a Ciro Gomes (em quem votei no primeiro turno e que encerrada a primeira votação saiu de férias) mas também – e principalmente – aos autoproclamados liberais, muitos dos quais não hesitaram em apoiar Bolsonaro (que nunca foi liberal) e agora se dizem arrependidos e – incrivelmente – decepcionados com alguém que como presidente não está sendo nem um pouco diferente do que foi em 28 anos como deputado.

Quero muito a autocrítica da esquerda, sim. Mas quero ainda mais a da direita liberal, principal responsável por nos jogar no abismo atual.

Das efemérides

Depois do ótimo almoço de domingo (feijão tropeiro, feito por gaúchos com feijão argentino), conversando com o meu pai recordei uma efeméride: 1º de setembro é o aniversário do início da Segunda Guerra Mundial. Neste caso em específico, foi o de 80 anos.

Meu pai comentou que o fato era digno de uma postagem no blog. Pensei que realmente era. E que isso aconteceria sem dúvida alguma nos meus bons tempos, em que bastava pensar em um assunto e sentar à frente do computador que o texto sairia quase ao natural. Então lembrei que não precisava ficar apenas me lamentando: exatos dez anos atrás escrevi um sobre o 70º aniversário do início da guerra que eu não mudaria muito nos dias de hoje, pois só foi preciso corrigir um ou outro erro de português (nada como uma década para ajudar na revisão, e os equívocos que sobrarem serão corrigidos em setembro de 2029).

A efeméride me fez pensar que nosso mundo atual anda cada vez mais parecido com aquele de 1939. Em várias partes do mundo a extrema-direita ganha força, por mais que as pessoas digam rejeitar o nazi-fascismo: ele é pintado como algo “anormal”, e a humanidade acredita estar “vacinada” contra ele.

Mas não está: uma das principais características do fascismo (do qual o nazismo era a versão alemã, com algumas particularidades) é oferecer “soluções simples” para tudo e, principalmente, ter um “inimigo” que sirva para dividir a sociedade entre “nós” e “eles”. Na União Europeia, o medo dos imigrantes de origem árabe que fogem da guerra e da pobreza em seus países de origem deu força à extrema-direita até mesmo na Alemanha (onde ela obteve em 2017 seus melhores resultados eleitorais no pós-guerra) e elegeu governos que descambaram para o autoritarismo puro e simples, como é o caso da Hungria. Nos Estados Unidos, Donald Trump foi eleito presidente prometendo construir um muro na fronteira com o México para barrar a imigração de latino-americanos, por lá chamados pejorativamente de cucarachas (baratas).

Já aqui no Brasil, várias pessoas culpam o PT por todos os males, desde a crise econômica iniciada em 2014 (que qualquer pessoa com o mínimo conhecimento de geopolítica sabe que foi causada apenas por erros do governo petista) até mesmo a problemas que podemos chamar de “sistêmicos” (como a corrupção) e também imaginários como a tal “ameaça comunista” (que já tinha “justificado” o golpe civil-militar de 1964, e mesmo que em 13 anos de governo o PT jamais tenha implantado uma só política que se assemelhasse ao comunismo). Contra ele vale tudo, até votar em um político que em 2016 foi apontado como um dos mais repulsivos do mundo por um importante site de notícias australiano.


Adolf Hitler não era levado a sério com suas promessas de romper os humilhantes tratados de 1919 que tinham sido impostos à Alemanha; quando seu Partido Nazista chegou ao poder em 1933, não foi visto como ameaça pelos grandes industriais alemães (alguns dos quais aderiram com entusiasmo ao nazismo) nem pelas potências europeias rivais (França e Grã-Bretanha), que temiam mais o comunismo e a União Soviética de Josef Stalin que um renascimento do expansionismo alemão (que anteriormente já tinha sido uma das causas da Primeira Guerra Mundial). Ainda mais que Hitler também elegia como “inimiga” a URSS. Logo a Alemanha começou a anexar territórios estrangeiros: primeiro a Áustria (terra natal do ditador), depois a região tchecoslovaca dos Sudetos e na sequência a Tchecoslováquia inteira. O máximo que ouviram foi uma ameaça de britânicos e franceses de que não tolerariam uma invasão da Polônia: fazendo concessões, acreditaram que seria possível “segurar” Hitler e deram com os burros n’água.


Jair Bolsonaro não era levado a sério com seus discursos odiosos e que teciam loas à ditadura, e não era visto como ameaça pela direita tradicional, liderada pelo PSDB, visto que ambos tinham como “inimigo” o PT, que queriam derrotar a qualquer custo. Quando Bolsonaro tornou-se líder nas pesquisas de opinião sobre a eleição presidencial de 2018, boa parte da direita tradicional teve certeza que ele “perderia força”, mas depois, quando o candidato da extrema-direita foi ao segundo turno e venceu, ela acreditou que fazendo concessões (leia-se “oferecendo apoio parlamentar a reformas de caráter ultraliberal”) seria possível “segurá-lo”, tornando seu governo “normal”, respeitador da Constituição de 1988 e do pacto sócio-político que foi vigente por quase 30 anos. Vários setores do empresariado e do agronegócio viram nele uma opção “menos pior que o PT”, e alguns aderiram ao bolsonarismo com entusiasmo…

Ei, já não vimos um filme parecido?


No fim, acabei escrevendo um texto bem maior do que imaginava, ainda mais que não estou nos meus bons tempos. Mas nada de novo, ao menos no tocante à Segunda Guerra Mundial.

E nem sequer respeitei o prazo: só terminei no dia 2 de setembro, quando a efeméride já passou.