Um luto incompleto

Sábado, fez um ano do falecimento de minha avó Luciana. Passou muito rápido.

Em tempos normais, eu teria passado pelos famosos “estágios do luto”, e um ano depois lembraria com saudades mas sem a estranha sensação de “não ter caído a ficha”. Fruto da pandemia.

A última vez que vi a Vó com vida foi em 14 de março de 2020. Logo depois a geriatria onde ela residia proibiu visitas devido ao temor causado pela covid-19, e passei a vê-la apenas por chamadas de vídeo do WhatsApp – mas ela se atrapalhava toda, estranhava que eu estivesse em uma tela e não lá. O que ela mais fazia era me perguntar quando eu iria novamente visitá-la, sempre respondia “assim que passar essa gripe” (bem longe de concordar com o discurso negacionista e genocida do presidente, é que a cabeça dela não estava bem o suficiente para entender que a pandemia em curso não era de uma gripe), mas temendo que ou ela não chegasse viva ao “pós-pandemia” (aliás, até agora ninguém chegou), ou demorasse tanto tempo que quando fosse possível retomar as visitas ela não reconhecesse mais ninguém.

Daí veio aquela chuvosa sexta-feira, 5 de junho de 2020. Ela acordou muito mal do estômago, e com a saúde tão fragilizada qualquer coisinha poderia ser suficiente para levá-la ao óbito. E foi o que aconteceu no final da tarde daquele dia.

Por conta da pandemia, no dia seguinte o velório teve restrição de pessoas. E embora não houvesse proibição expressa, também transcorreu sem os calorosos e demorados abraços que normalmente ocorrem em tais momentos.

Em tempos normais, eu teria de me acostumar a uma nova rotina, que não incluiria as visitas regulares à Vó na geriatria – geralmente aos sábados, e não deixa de ser uma triste ironia que eu tenha me despedido dela justamente em um sábado. Mas o que aconteceu foi, simplesmente, que voltei para casa, onde passava a maior parte do tempo desde a metade de março. E com isso não tive essa mudança.

Quando será? Não tenho ideia. Pela previsão do governo do Estado, minha faixa etária tomará a primeira dose da vacina em agosto, mas isso ainda não significará o retorno à normalidade. Talvez “caia a ficha” quando a geriatria permitir visitas novamente (meu tio-avô, irmão dela, continua lá): será significativo não encontrá-la no local que para mim desde 2017 é associado a ela.

Ou quando o Natal chegar – se tudo der certo, com a família inteira vacinada, permitindo a tradicional celebração. Que terá uma pessoa a menos…

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