Cria cuervos…

O dia 6 de janeiro de 2021 entra para a História: assistimos a uma tentativa de golpe de Estado não na América Latina, mas no país que patrocinou tantos movimentos com as mesmas intenções ao sul do Rio Grande.

É fato inédito nos Estados Unidos, mas não surpreendente. Tudo indicava que Donald Trump, desesperado pela possibilidade de ser preso por fraude fiscal, faria de tudo para permanecer na Casa Branca. Dois meses após a eleição, não reconheceu a derrota e sequer recebeu Joe Biden para uma transição de governo como fizeram todos os presidentes anteriores. Várias vezes contestou os resultados, mesmo com todas as auditorias confirmando que não houve fraude. A única coisa que faltava era tentar um golpe, e eis que aconteceu: praticamente exigiu que Mike Pence, vice-presidente e que também tem a função de presidir o Senado, impedisse a certificação dos resultados eleitorais pelo Congresso (o que sempre foi mera formalidade) e insuflou uma turba de fanáticos a marchar em direção ao Capitólio para intimidar os congressistas. Pence não topou a aventura golpista mas o parlamento foi invadido, o que não ocorria há mais de 200 anos.

O golpe de Trump fracassou, mas seu mandato presidencial vai até o próximo dia 20 e ele tem em mãos os códigos para acionar um arsenal nuclear capaz de destruir o planeta várias vezes: duas semanas, nesse caso, é tempo suficiente para se fazer uma merda bem grande. Não à toa que já estão sendo considerados tanto um impeachment às pressas como a possibilidade de ser invocada a 25ª emenda à Constituição dos Estados Unidos, que prevê o afastamento do presidente caso o vice e a maioria do gabinete o considerem incapaz de seguir no cargo; se isso ocorrer, Pence assume o poder até a posse de Biden. (Sinceramente, torço muito não só para que isso aconteça como também para que Trump seja retirado da Casa Branca algemado.)

Independente do que acontecer nos próximos dias, o fato é que o problema não acaba em 20 de janeiro. Mesmo derrotado, Donald Trump recebeu 74 milhões de votos, o que significa uma enormidade de gente que se sente representada por um sujeito tão boçal. A polarização nos Estados Unidos, país no qual é muito fácil comprar uma arma de fogo e que já teve quatro presidentes assassinados no exercício do cargo, é tão acirrada que não poucas pessoas temem uma guerra civil.

E ainda tem o “exemplo” para os discípulos de Trump, como Jair Bolsonaro. Alguma dúvida de que ele vai tentar melar a eleição de 2022 caso seja derrotado? Com um agravante: no Brasil as instituições são bem mais frágeis que nos Estados Unidos, como provam os vários golpes que já ocorreram por aqui.

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