Uma metáfora do meu 2020

Em meados de dezembro do ano passado, eu estava na dúvida sobre “adiantar” o meu 13º salário (o “adiantamento” significaria recebê-lo em dia via empréstimo; coisas de servidor público que nos últimos cinco anos raramente teve os vencimentos pagos em dia) ou deixar para receber parcelado ao longo de 2020.

Nos dois anos anteriores eu optara pelo “adiantamento”, e pensava em desta vez fazer diferente, para pelo menos sempre receber alguma coisa no último dia útil de cada mês. O efeito seria apenas “psicológico”, é óbvio.

Eis que recebi um boleto do Grêmio. Me era dada a opção de adiantar o pagamento de todas as mensalidades de 2020, com desconto e antes do reajuste previsto para a virada do ano. Algo tentador, até para eu não surtar por “estar gastando demais” a cada mês: o Grêmio já estaria pago, e com desconto!

Então decidi “adiantar” o “décimo” e usar parte do dinheiro para pagar o boleto do ano inteiro de 2020; o resto foi para a poupança. Não só eu, meu amigo Alexandre fez o mesmo. De janeiro a dezembro nossa presença na Arena já estaria garantida.

Porém, veio a pandemia de covid-19. Por conta dela, o último jogo de futebol com público em toda a América do Sul foi o Gre-Nal 424, primeiro da história válido pela Copa Libertadores, em 12 de março. Uma partida que por si só mereceria ganhar um documentário sobre ela – como de fato ganhou.

Fui um dos mais de 50 mil torcedores na Arena naquela noite. Já sabendo que depois levaria um bom tempo até poder voltar a presenciar uma partida, visto que a Conmebol havia suspendido a Libertadores a partir da semana seguinte. Só não imaginava que chegaria ao ponto de dizer “hoje faz seis meses que não vou à Arena”.

E não tenho a menor ideia de quando será possível ir a um estádio novamente – mas a certeza é de que isso não acontecerá em 2020. Sendo que paguei o ano inteiro…

O que de certa forma simboliza bem o que significa 2020 para mim: apesar de recém ser setembro, já digo com segurança que se trata do mais frustrante e sem dúvida alguma o pior ano da minha vida.

Sim, o fato de ter perdido a minha avó Luciana tem um grande peso nisso. Mas poderia ter sido uma exceção, assim como o falecimento do meu avô Pedro Laio em 1996, que apesar disso foi um ano muito bacana e do qual lembro com bastante carinho quase um quarto de século depois.

O mundo já vinha de mal a pior, mas no campo pessoal eu tinha boas expectativas para 2020. Dentre as principais, estava a de viajar ao exterior nas férias que estavam marcadas para o período entre o final de maio e o início de junho: no fim elas serviram para eu mandar trocar a tela do meu computador para facilitar minha vida em tempos de teletrabalho, e no último dia (5 de junho) a vó se foi.

Não falta tanto tempo assim para ser dezembro novamente. Chegará à minha caixa de correspondência um boleto do Grêmio com o valor do ano inteiro de 2021, com desconto. Tenho três meses para decidir se adianto ou não.

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