Noventena

Desde 19 de março passo a maior parte do tempo em casa. Já são mais de 90 dias. Dizer que “me acostumei” é um exagero: não vejo a hora de poder voltar a abraçar as pessoas sem medo de covid-19.

Ainda mais que em meio a estes três meses perdi minha avó Luciana, falecida no último dia 5 aos 98 anos. Por mais que ela estivesse sofrendo com as limitações impostas pela idade avançada e a saúde debilitada nos últimos tempos, tudo o que eu mais gostaria era de poder abraçar e ser abraçado no velório (com público reduzido pela pandemia) dela e nos dias que se seguiram. Atos de carinho impedidos por causa de um vírus desgraçado e de uma “quarentena” que nem se pode reclamar de “não terminar nunca”, visto que para grande parte das pessoas ela jamais começou – por não terem o privilégio de poder ficar em casa ou por serem idiotas individualistas.

Até quando? Eis a grande dúvida.

Em março, quando tudo isso começou, acreditava que em junho pelo menos já veríamos uma “luz no fim do túnel”. E de fato a enxergo agora, quando o comércio reabre e uma galera faz fila para entrar em shopping: é um trem vindo em nossa direção.

A verdade é que já me conformo com a ideia de passar as festas de final de ano trancado em casa (ainda que eu tenha gostado do último réveillon, sem ter ideia da “beleza” do 2020 que começava). Tudo por culpa de gente maldita que não pensa nas demais pessoas.

Inveja enorme do Uruguai, onde o governo nem precisou impor quarentena: o senso de coletividade da população uruguaia foi suficiente para as pessoas ficarem em casa e lojas fecharem as portas temporariamente; por conta disso, restam poucos casos ativos no país – boa parte justamente na fronteira com o Brasil, que em muitos trechos é “seca”, sem acidentes geográficos a separarem os dois lados. Temos muito a aprender com nosso pequeno grande vizinho.

Brasil x Argentina

Quando comparam Brasil e Argentina em relação ao número de mortes por covid-19, nosso “presidente” diz que a população brasileira é muito maior e, portanto, é “natural” que morra mais gente por aqui. A Folha de São Paulo fez as contas e demonstrou que há mais mortes por milhão de habitantes no Brasil do que na Argentina. (E incluiu no cálculo a Suécia, citada como “exemplo” por não ter adotado quarentena.)

Matemática nem tão complexa

Segunda-feira o Brasil atingiu a triste marca de 30 mil mortes por covid-19 e o fato foi minimizado pelo “presidente”, o que me faz lembrar dos hermanos mais uma vez. Pois 30 mil é o número estimado de mortos e desaparecidos durante o chamado “Processo de Reorganização Nacional”, expressão pela qual se autodenominou a última ditadura militar na Argentina, a mais sanguinária que o país já viveu.

O “Processo” durou sete anos, de 1976 a 1983. Na Argentina, a morte e desaparição de 30 mil pessoas durante este período é classificada pela jurisprudência como sendo um genocídio.

No Brasil, em menos de três meses de pandemia já ultrapassamos 30 mil mortes e o número tende a aumentar muito mais. O “governo” dá mostras de estar “cagando e andando”. Como classificar isso? Creio que a Argentina já deu a pista.

Ah, e em 1999 nosso atual “presidente” defendeu justamente que se matassem 30 mil pessoas. Objetivo alcançado, com sobras.

Como não temer pelo pior?

Em tempos de pandemia de covid-19, impossível não sentir em nenhum momento o temor de contrair a doença e vir a morrer dela – sem ar e sozinho numa UTI. Como diz o ditado, “quem não está com medo não está entendendo nada”.

Obviamente estou tomando todos os cuidados, talvez até exagerando. Passo a maior parte do tempo em casa há 76 dias. Nas raras vezes que saio, não uso elevador, mantenho distância das pessoas e ao chegar de volta, tiro a roupa e vou tomar banho; trato as compras como se estivessem contaminadas e higienizo tudo o que for perecível ou para consumo imediato, o resto fica “de quarentena” por pelo menos quatro dias. Modéstia à parte, se todo mundo fizesse igual a mim, essa pandemia estaria com os dias contados.

Mas não é o que acontece, e sei que é impossível, pois nesse aspecto sou muito privilegiado (e faço uso de tal condição pelo bem da coletividade, ao contrário do bando de idiotas que se aglomera na Orla do Guaíba para “tomar sol” e, pasmem, fazer roda de chimarrão). Em primeiro lugar, não preciso sair para trabalhar – até quando, não sei – enquanto muitas pessoas não têm essa opção, seja por prestarem serviços essenciais – com destaque para profissionais da saúde e auxiliares – ou simplesmente porque seus auxílios emergenciais ficam eternamente “em análise” e assim precisam sair para tentar ganhar na informalidade algum dinheiro para comprar comida. Em segundo, moro sozinho: ficar tanto tempo sem conversas presenciais com pessoas é ruim, mas por outro lado sinto a segurança de que em casa não irei contrair nem transmitir covid-19 a mais ninguém; em compensação, grande parte da população brasileira vive junto com muitas pessoas em espaços pequenos, o que impossibilita qualquer tipo de isolamento caso alguém pegue a moléstia.

E, ainda assim, meus privilégios não querem dizer que estou livre do risco de ficar doente. Pois com um vírus assim, qualquer deslize pode resultar em contaminação. E não levo fé nessa história de “grupo de risco” (ainda mais com uma doença que surgiu há seis meses): muita gente sem doenças pré-existentes pegou covid-19 e perdeu a vida. Não é uma “gripezinha” nem poupa quem tiver “histórico de atleta”, como disse certa pessoa.

Impossível não temer pelo pior em nenhum momento. Não vejo a hora que isso passe, mas do jeito que fazemos as coisas aqui no Brasil ainda vai demorar muito – e para milhares de pessoas jamais passará, infelizmente.