A falta que faz o horário de verão

Falar que o verão está sendo muito quente em Porto Alegre é quase uma redundância. Digo “quase” pois de vez em quando acontece deles serem um pouco mais “civilizados”. Como aconteceu ano retrasado, quando não houve longos períodos de calor insuportável e na maioria dos dias tinha um vento por demais agradável nos finais de tarde.

Já no ano passado a coisa foi bem ruim. E agora está sendo ainda pior. Mesmo que eu tenha a impressão de que as madrugadas estão sendo menos quentes – provavelmente o abafamento noturno de 2019 se devesse ao El Niño que, felizmente, acabou no meio do ano. Complicado mesmo está sendo sair para trabalhar: as manhãs estão muito mais sufocantes que o habitual. Para entender o motivo, vamos voltar um pouco no tempo.

Em 14 de janeiro de 2019, o sol nasceu às 6h37min em Porto Alegre. Hoje, exatamente um ano depois, na mesma cidade, ele raiou às 5h37min. Por conta disso, em janeiro de 2019 saíamos para trabalhar com menos calor pois fazia menos tempo que o sol tinha nascido. Já agora ele está no céu há mais tempo: quando o relógio marca 8h, temos o mesmo tempo de luz solar no dia que o registrado às 9h no ano passado. E essa diferença não se deve a mudanças nos períodos de rotação e translação da Terra: isso tudo continua igual, o que mudou foi a hora marcada pelo relógio, que no final das contas é o que rege nossas atividades em uma sociedade urbanizada. Pois um ano atrás tínhamos horário de verão, e agora não o temos por (mais uma) decisão estúpida do cidadão que (des)governa o Brasil.

Pior que a decisão, só os “argumentos” que a sustentam. Tem aquele já bem batido do “relógio biológico”: engraçado que já vi os mesmos reclamões viajarem para a Europa e não reclamarem da diferença de fuso horário… Outro diz respeito às pessoas que “saem cedo, ainda no escuro, para pegar ônibus”: neste caso, é bom lembrar que (pelo menos no caso de Porto Alegre e outras cidades do Rio Grande do Sul) no inverno o sol nasce bem mais tarde que com horário de verão (depois das 7h em junho e julho); e estações do ano não podem ser canceladas por decreto.

O mais razoável tem relação com a economia de energia elétrica proporcionada pelo horário de verão, que vinha caindo ano após ano: se antigamente fazia a diferença as pessoas chegarem em casa bem antes do pôr-do-sol e por isso não precisarem acender as luzes, mais recentemente a disseminação dos aparelhos de ar condicionado (e seu uso madrugadas adentro para proporcionar um sono com maior conforto térmico) fez com que a mexida nos relógios causasse menos impacto no consumo de eletricidade. Apesar disso, ainda faria sentido a implantação da medida.

E faz não só por conta da ainda existente economia de energia. O horário de verão significava mais tempo de luz natural para ser desfrutado, considerando que o relógio rege as nossas vidas. Em Porto Alegre, no verão do ano passado ainda tinha sol às 20h; no atual já é praticamente noite. Isso proporcionava não apenas mais qualidade de vida a todos nós, como também colaborava para movimentar a economia: as pessoas ficavam mais tempo na rua e, consequentemente, consumiam mais, especialmente em bares – já que o tempo quente torna ainda mais desejável uma cerveja gelada. E a noite que começava “mais tarde” também terminava “mais tarde” no dia seguinte, fazendo com que o calor nos castigasse menos pela manhã.

Ou seja, no geral só perdemos com essa decisão estúpida de acabar com o horário de verão. Mas, faz muito sentido se considerarmos o caráter do (des)governo atual, que faz de tudo para acabar com o que resta de felicidade no Brasil.

Feliz Mafalda Nova

Minha virada de ano foi totalmente diferente de todas as outras que já vivi. Havia planos de ir à Orla do Guaíba ver os fogos de artifício, mais por vontade da minha mãe do que pela minha. Só que a chuva da tarde do 31 de dezembro e o cansaço depois de adiantar o almoço de ano novo fizeram ela desistir, mesmo que a previsão de tempo seco à noite tenha se confirmado. Um amigo avisou em um grupo que estaria por lá, mas no fim optei por ficar em casa, no ar condicionado e sem “muvuca”. Valeu muito a pena: além de descobrir com dois anos e meio de atraso que da minha janela da sala é possível enxergar os fogos (tem alguns prédios que atrapalham mas não impedem a visão), também pude abrir (quase) na hora certa o meu calendário da Mafalda.

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Não sou supersticioso, mas reparei que não comprei os calendários da Mafalda dos últimos dois anos. E ambos foram bastante ruins: no campo pessoal, 2019 foi melhor que 2018, mas no âmbito geral o balanço do biênio foi negativo.

Inclusive percebi que meu texto de encerramento de 2018 não teve um “balanço” do que foi o ano – aliás, fiz o mesmo em 2019. Apesar de que aqueles 365 dias poderiam ter sido bem resumidos em apenas um: 28 de outubro, dia em que Jair Bolsonaro foi eleito.

Já 2019 foi uma consequência do que aconteceu em 2018 – em especial, daquele 28 de outubro. Conforme eu “previ” no final de 2018, “deu merda”, e muita. Apesar de que os apoiadores “fiéis” (nunca tal expressão fez tanto sentido) acham que está tudo uma maravilha…

Aliás, muita gente que conheço deseja que Bolsonaro não chegue ao final de 2020 como presidente. Confesso que um impeachment (há várias razões para tal, ao contrário do que havia no processo contra Dilma) não me deixaria triste, mas… Eu acho bom que ele cumpra todo o seu mandato, até 31 de dezembro de 2022, fazendo o Brasil passar muita vergonha perante o resto do mundo. Vamos nos ferrar muito, mas isso pode – e precisa – ser didático: é preciso ter mais responsabilidade na hora de votar. Sem contar que, se ele sai, assume o vice-presidente Hamilton Mourão, que teria muito mais facilidade para fazer aquilo que Bolsonaro não consegue justamente por ser Bolsonaro.

“Ah, mas para o Brasil é melhor que ele saia logo”: discordo, o melhor seria que ele não tivesse sido eleito. Agora que a merda foi feita, nos resta fazer (e logo) a autocrítica. Aliás, a esquerda e principalmente a direita liberal precisam refletir muito.