Futuro do pretérito

Como já virou “tradição”, não escrevo mais mensagem otimista pela virada do ano. Isso não quer dizer que eu ache impossível as coisas melhorarem: apenas deixei de acreditar em “pensamento mágico” do tipo “ano novo, vida nova”. Se nada fizermos para que as mudanças aconteçam, não será uma mera troca de calendário que proporcionará isso.

Algo curioso é que a chegada de 2020 me remete muito é ao passado. Primeiramente, ao ano 2000, que na minha infância (e certamente na de muitas pessoas tanto da minha geração quanto das anteriores) simbolizava justamente o futuro. Muitos desenhos animados e filmes “futurísticos” feitos ao longo do Século XX e que se passavam em 2000 ou em anos não tão posteriores mostravam um mundo dominado pela alta tecnologia, caracterizada principalmente pela capacidade dos automóveis levantarem voo (não que motoristas mais estressadinhos já não venham tentando fazer isso há muito tempo) ou pelo alto desenvolvimento da robótica e da engenharia genética. Tanto é que temos carros voadores no 2015 do filme “De Volta para o Futuro II”, assim como androides no 2019 de “Blade Runner” (no qual os veículos também voam).

Não foi à toa que na madrugada de 30 para 31 de dezembro de 1999, quando meu pai completava 48 anos de idade, conversávamos após comermos um churrasco e quando ele comentou “pois é, estamos entrando no ano 2000”, logo emendei: “e os carros não estão voando”…

Duas décadas atrás, fanáticos religiosos acreditavam que estava chegando o fim do mundo. Mas mesmo sem se ter fé havia motivos para algum temor devido ao chamado “bug do milênio” (ainda que a virada tecnicamente se desse apenas em 1º de janeiro de 2001), que poderia fazer os sistemas computacionais mais antigos “entrarem em parafuso”: por economia de memória, neles o ano era representado apenas por seus dois últimos dígitos e os programas assumiam que os dois primeiros eram “19”; assim, 1999 era “99”, e 2000 deveria ser “00” mas seria entendido como “1900”, o que causaria panes generalizadas. Mas com a aproximação da data as empresas investiram na modernização de seus sistemas e praticamente nada aconteceu.

E aqui no Brasil a chegada do ano 2000 teve, pasmem, narração de Galvão Bueno…


Duas décadas depois, além da sensação de estar ficando velho (na entrada de 2000 eu recém tinha completado 18 anos, e hoje já começo a enxergar os 40 no horizonte), também sinto que temos, todos nós, menos tempo para fazer coisas necessárias de modo a garantir o nosso futuro – ou seja, não convém mais esperar ou deixar para depois.

Os efeitos mais dramáticos das mudanças climáticas já não são mais algo projetado para daqui muito tempo. Dentro de dez anos o aumento do nível médio dos mares terá reflexos não só em áreas costeiras, mas mesmo no interior dos continentes por represar as águas de rios, lagunas e lagos: como mostra este mapa interativo, parte considerável das ilhas e algumas áreas da zona sul de Porto Alegre correrão risco de serem invadidas pelo Guaíba já em 2030.

Isso me leva a novamente olhar para o passado, e assim como falei sobre o ano 2000, agora cito um filme que se não fala exatamente de 2020, é “quase”. Trata-se de “Soylent Green” (1973), cujo título no Brasil foi traduzido para “No Mundo de 2020” apesar da história se passar em 2022. Ainda que o mundo “atual” relatado quase 50 anos atrás seja bem diferente do que vemos hoje, não podemos dizer que não é algo que possa acontecer em um futuro não tão distante.

(Aviso: daqui em diante tem “spoiler”, então quem não assistiu ao filme pode parar de ler agora ou continuar por sua conta e risco – não serão aceitas reclamações posteriores.)

O filme mostra uma Nova Iorque caótica em 2022, com 40 milhões de habitantes e altas taxas de desemprego e pobreza. Por efeito da superpopulação e do aquecimento global, apenas a elite tem acesso a “luxos” como carnes e verduras frescas; a maioria das pessoas se alimenta de duas variedades de tabletes produzidos pela companhia Soylent: um amarelo e outro vermelho. O grande lançamento de 2022 é o tablete verde (o “Solylent Green”), que segundo a publicidade da empresa é feito de plâncton processado e assim faz grande sucesso entre a população.

Quando um dos principais acionistas da Soylent é assassinado, o policial Robert Thorn (interpretado por Charlton Heston) começa a investigar o crime com a ajuda de seu amigo “Sol” Roth (Edward G. Robinson), um ancião que vive com ele e não esconde seu saudosismo do tempo em que a Terra era mais habitável. Tendo acesso a livros da companhia que o acionista tinha em casa, “Sol” descobre uma terrível verdade: os mares estão morrendo e não há mais plâncton comestível, o que quer dizer que a “matéria-prima” do “Soylent Green” não é aquela anunciada pela propaganda.

Na sequência, “Sol” decide dar cabo da própria vida em um local especializado para tal, chamado “Casa”. Thorn vai até lá e assiste à despedida do amigo: os últimos momentos dele têm música e cenas de como era a Terra antes do colapso ecológico. Antes de morrer, “Sol” pede a Thorn que continue sua investigação para provar e revelar ao mundo a verdade. Após a cerimônia, o policial “segue” o cadáver de “Sol”, que é transportado em um caminhão de lixo até uma instalação industrial onde se junta a muitos outros para ser processado e transformado em tabletes verdes: o “Soylent Green” era feito de pessoas mortas.

Abaixo, algumas cenas do filme.

O final do filme não é otimista nem oferece alguma solução, mas já podia ser interpretado na época como um alerta para que as pessoas desde já começassem a agir para que 50 anos depois seu destino não fosse como o que se imaginava. Da mesma forma que se alguns efeitos do aquecimento global já são sentidos, ainda podemos evitar os piores cenários projetados para 2050 e mesmo para 2100, quando a maioria de nós não estará mais aqui mas muitos filhos e netos poderão estar e sofrer as terríveis consequências.

Mas isso não pode mais ser deixado para depois. E principalmente, temos de parar de dar ouvidos a mentecaptos de rede social e prestar mais atenção no que a ciência já vem nos dizendo há um bom tempo.

2 respostas em “Futuro do pretérito

  1. Pingback: Feliz Mafalda Nova | Cão Uivador

  2. Lembrar “Soylent Green” no ano novo não podia dar em boa coisa (risos)…

    E eu preocupado com 2050: a merda ia ser já em 2020 mesmo.

    E é bom ressaltar: “temos de parar de dar ouvidos a mentecaptos de rede social e prestar mais atenção no que a ciência já vem nos dizendo há um bom tempo”.

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