Em busca de um novo sofá

sofá

Por que buscar, do nada, um novo sofá? Ainda mais que o meu atual ainda está ótimo?

Simples: pois li que será pedida a abertura de um processo de cassação contra o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) por ele ter defendido a instauração de um novo AI-5 (eufemismo para “nova ditadura aos moldes de 1964”) caso o Brasil registre protestos como os que estão acontecendo atualmente no Chile. Líderes de diversos partidos – até do próprio PSL, rachado justamente por conta dos Bolsonaros – manifestaram repúdio.

Quando leio que o “03” poderá ser submetido ao Conselho de Ética da Câmara e ter seu mandato cassado, lembro que seu pai, Jair Bolsonaro, passou vinte e oito anos dizendo barbaridades semelhantes ou piores e… Bom, o fato dele ter ficado lá por tanto tempo já diz tudo. Não apenas nada aconteceu, como também o então deputado acabou virando presidente.

Espero muito estar errado desta vez. Mas, como diz minha própria “voz da experiência”, acho bom adquirir um bom sofá-cama para esperar devidamente sentado e, caso necessário, deitado.

Não foi por falta de aviso

Até o início de 2018, o Partido Social Liberal era politicamente um ilustre desconhecido para a imensa maioria da população brasileira. Minhas lembranças eram poucas: em 2006 lançou Luciano Bivar como candidato à presidência do Brasil (e ele até conseguiu ser presidente, mas não do país e sim do Sport Recife); em 2016, Fábio Ostermann concorreu à prefeitura de Porto Alegre pelo PSL.

Eis que vieram Jair Bolsonaro, sua família e seus apoiadores mais fiéis. Que, como qualquer pessoa com o mínimo de memória sabe, nunca teve nada de liberal nem de preocupação com questões sociais. E então o PSL perdeu vários filiados (dentre eles Fábio Ostermann), vinculados a um movimento de caráter liberal (o Livres) que via na filiação de Bolsonaro uma total deturpação das ideias que defendiam; mas ganhou muita força para as eleições gerais de 2018.

E assim o partido que desde seu nascimento era “nanico” tornou-se “grande”, elegendo a segunda maior bancada da Câmara de Deputados graças à associação com Bolsonaro e suas frases de efeito que eram o que grande parte da população queria (não o que precisava) ouvir. E acabou ganhando também a presidência do Brasil.

“Ah, mas agora que o povo decidiu não vamos ficar torcendo contra, pois se o governo der errado é ruim para o Brasil”. Pois então: é um governo que faz tudo errado. O tal de “torcer contra” na verdade significa querer que sejam feitas as coisas certas. Pois a depender das vontades dos que nos governam, a vergonha para o país está apenas no começo. Saudades de quando vexame era perder de 7 a 1 numa semifinal de Copa do Mundo em casa… (Pois tal partida aconteceu quando o Brasil deixava de integrar o “mapa da fome” da ONU, do qual infelizmente voltou a fazer parte.)

E o capítulo mais recente da tragicomédia é a guerra entre o governo (leia-se “Bolsonaro, família e apoiadores mais fiéis”) e o partido pelo qual ele foi eleito. Uma baixaria na qual os dois lados se xingam das piores coisas – e na qual ambos têm razão. Sério, estou rindo muito, ainda que apenas para não chorar por conta do que virou o Brasil.

O pior é que não foi por falta de aviso. Pois eu avisei. Muitos avisaram. Qualquer pessoa com o mínimo de sensatez avisou. Mas ainda assim, uma galera preferiu usar o fígado no lugar do cérebro apenas para “tirar o PT”.

Agora não adianta vir com esse papo de culpar o PT por “não dar outra opção que não Bolsonaro” (que por pouco ele ganhou no primeiro turno). Pois eu lembro bem (e não esquecerei) de todas as merdas que vocês fizeram ainda antes de outubro de 2018.

Imoral é existir bilionários

Há mais de dez anos tenho por hábito não liberar comentários estúpidos no blog. Penso que gente de pensamento tosco tem todo o direito de se manifestar, mas no seu espaço, não no meu.

Mas tem alguns que, mesmo não sendo publicados (pois o autor quer, antes de tudo, aparecer), merecem uma reflexão. Como um que chegou semanas atrás, sobre um texto de 2009:

Nao sabia que eu era classe merdia e fiquei muito feliz. Entendi que a classe media sao os comunistas que odeiam os bilhonarios.

Sim, é um pensamento muito tosco. Mas não por dizer que “comunistas odeiam bilionários” (corrigindo o português do cara que, definitivamente, é “mérdio”), mas sim pois há uma imensa possibilidade de que o autor do comentário acima seja um trabalhador (igual a mim e à maioria de quem lê estas linhas) que não vê nada de errado na existência de bilionários.

Não vou me estender muito falando sobre a brutal (e agora novamente crescente) desigualdade social em nosso país. Existem inúmeras reportagens falando sobre isso. Sei que não é a minha especialidade (como dizem, “sou de humanas”), mas vou falar de Matemática: não são cálculos complexos, apesar de envolverem números enormes. (E não precisam confiar em mim: usarei calculadora e copiarei o resultado aqui, vocês encontrarão exatamente os mesmos números se fizerem as mesmas contas.)

bilionários

Tradução: “Se você trabalhasse todos os dias, ganhando 5 mil por dia, desde a época a qual Colombo chegou à América, até o momento o qual você está lendo esse tuíte, você ainda não seria um bilionário, e você ainda ganharia menos dinheiro que o Jeff Bezos ganha em uma semana. Ninguém trabalha por um bilhão de dólares.”

Cristóvão Colombo chegou à América em 12 de outubro de 1492, ou seja, há exatos 527 anos. Poderíamos calcular quantos dias se passaram desde então, mas é uma conta complexa e então vamos para uma mais simples: ganhando 5 mil por dia, quanto tempo seria necessário para chegar a um bilhão?

Um ano tem 365 dias, mais seis horas que a cada quadriênio completam um dia (o 29 de fevereiro que aparece nos anos bissextos como será 2020), ou seja, podemos dizer que são 365,25 dias. E assim calculamos a renda média de quem ganha 5 mil por dia:

5.000 x 365,25 = 1.826.250

Nada mal, né? Afinal, a maioria das pessoas trabalhará a vida inteira e não ganhará nem perto de um milhão (de dólares ou reais).

Só que estamos falando de algo maior: um bilhão. Mil vezes um milhão: só isso já basta para ver que é uma quantia absurda. Ganhando 5 mil por dia, não se fica bilionário rapidamente. Vamos, então, ao cálculo de quantos anos seriam necessários, dividindo o bilhão pela renda média anual do bem remunerado trabalhador:

1.000.000.000 ÷ 1.826.250 = 547,570157...

Isso mesmo: mais de 547 anos. O que quer dizer que este trabalhador contratado em 12 de outubro de 1492 por 5 mil (dólares ou reais) diários só alcançaria um bilhão em ganhos em meados de 2040.

“Ah, mas não faltaria muito”, dirá o leitor de direita que acredita na “meritocracia” (que até seria um sistema justo se fossem dadas a todos condições equânimes, algo que é uma ficção em nossa sociedade). Afinal, o que são mais 20 anos e meio para quem já trabalhou 527? Só tem um pequeno problema: o recorde de longevidade comprovado com documentos (e ainda assim há controvérsias) pertence à francesa Jeanne Calment (1875-1997). Se não há provas de que alguém viveu mais do que ela (122 anos e 164 dias), o que dizer de 547 anos e meio?


Agora, já pensou se ganhássemos um dólar ou real a cada segundo? Seria mais rápido para chegar ao tão desejado bilhão, né?

Realmente seria. Inclusive, algo alcançável dentro de nossa expectativa de vida. Mas, ainda assim, não seria tão rápido como esperamos.

Um minuto tem 60 segundos. Uma hora tem 60 minutos, logo:

60 x 60 = 3.600

Uma hora tem 3.600 segundos e um dia tem 24 horas, portanto:

3600 x 24 = 86.400

Um dia tem 86.400 segundos e um ano tem, em média, 365,25 dias, ou seja:

86.400 x 365,25 = 31.557.600

Sabendo quantos segundos tem um ano, calculamos quanto tempo seria preciso para chegar a um bilhão:

1.000.000.000 ÷ 31.557.600 = 31,68808...

Sim, mais de 31 anos. Se começássemos a juntar essa grana hoje no ritmo de um dólar ou real por segundo, só chegaríamos a um bilhão em meados de 2051.


Mesmo depois dos dois exemplos citados acima, o leitor de direita obviamente começaria a citar casos de bilionários que “trabalharam duro” e “construíram” suas fortunas, o que provaria que “basta se esforçar para chegar lá”. O grande problema é que, primeiramente, qualquer bilionário que tenha “começado lá de baixo” (será que foi assim mesmo ou tinha algum amigo importante que “abriu portas”?) é uma exceção e tanto (que, como diz o ditado, serve para confirmar a regra). E, principalmente, que mesmo aqueles que começaram “de baixo” não chegaram ao primeiro bilhão como resultado de seu trabalho: a partir de um determinado momento eles passaram a extrair mais-valia do trabalho alheio, assim como também ganharam dinheiro no mercado financeiro (o que, vamos combinar, não pode ser chamado de “trabalho”).

Mas, mesmo que algum deles realmente só tivesse acumulado seu(s) bilhões única e exclusivamente por seu trabalho, seguiria válido o questionamento: alguém precisa ter tanto dinheiro para viver? Me parece um tanto óbvio que não. E, ao mesmo tempo, uma imensa quantidade de seres humanos ao redor do planeta (que não, não é plano!) não tem sequer o suficiente para se alimentar direito…

Neste ponto é capaz do leitor de direita até dizer que os bilionários (que, aliás, não são muitos) poderiam ajudar a reduzir a desigualdade, doando dinheiro aos mais pobres. Mas a verdade é que, para haver justiça social, não deveriam existir bilionários. Em tempos nos quais tanta gente prega “moral de cuecas” por aí, é preciso apontar o dedo para a verdadeira e maior imoralidade de nosso mundo.

Outubro, de novo

Quando o número que designa em qual mês estamos passa a ter dois dígitos (pois o zero à esquerda não conta), me “cai a ficha”: não falta muito para o ano acabar. Tanto o “meu” como o do calendário. Tanto que costumo dizer que após o dia 15 de outubro em “um piscar de olhos” já estaremos nas festas de final de ano.

Para mim o mês de outubro sempre tem um significado especial, por ser o mês do meu aniversário (comemorado no já citado dia 15). É um momento em que costumo refletir sobre minha vida, algo habitual quando ocorre a passagem de um ciclo a outro: é verdade que também se faz isso em dezembro, mas outubro me proporciona uma análise mais “pessoal” sobre o que aconteceu nos últimos 365 (ou 366) dias.

Só que, depois de 2018, chegar ao décimo mês do ano nunca mais será a mesma coisa, tanto para mim como para incontáveis pessoas, independentemente de quando elas fazem aniversário. Ainda mais em tempos de redes sociais: o Facebook nos recorda que um ano atrás estávamos angustiados com a campanha eleitoral mais suja que já se viu no Brasil.

Uma eleição fraudada, digo com total convicção. Mas não foi uma fraude do tipo “urnas eletrônicas não confiáveis”: os votos por elas computados eram realmente o que o eleitorado decidia – como, aliás, sempre foram. O problema é que muitas pessoas escolheram seu candidato a presidente com base em mentiras deslavadas. Desde o tal “comunismo” do PT (algo tão real quanto unicórnios ao meu lado enquanto escrevo este texto) até absurdos como a tal “mamadeira de piroca”. Falar a verdade, infelizmente, não rende mais votos.

Outubro, no qual se celebra o meu aniversário, foi em 2018 o pior mês da minha vida. Já começou bem ruim e terminou péssimo. Ainda mais com o agravante da tristemente inesquecível noite do dia 30: dois dias após a catástrofe eleitoral fui ao jogo do Grêmio contra o River Plate pela semifinal da Libertadores e, como se não bastasse a derrota gremista no final, ainda fui roubado e caiu um temporal na hora da saída.

Espero que em 2019 não se repita a desgraça do ano passado. Tem jogo do Grêmio logo “de início” (de novo uma semifinal de Libertadores, agora contra o Flamengo), mas desta vez vou tomar mais cuidado com meus bolsos. E felizmente não tem eleição: aquele cara lá ganhou um ano atrás e, conforme minha previsão, está nos fazendo passar muita vergonha mundo afora; é ruim para o Brasil, mas torço para que ao menos seja didático.